sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Casabarco

Ela sonhara que morava numa casabarco, e nesse navegar sem fim em oceano, sem porto qualquer, ela se perdia e se encontrava apenas por instantes. Eram tão insolentes, porém, esses momentos, tão absurdamente graves, que nela ficavam marcas de encontros e desencontros, tão precisos e precisados. E se o mar avançava por terra ou cruzava um rio a beirar o continente, ela de súbito pressentia uma idéia vaga qualquer de solo firme, estranhamente movediço, cheio de angústia. E a sensação de tanta prisão por ficar, aportar, fazia com que ela volvesse o leme pra no mar ficar. E a casabarco já era parte dela, exatamente por não ser casa, apenas barco intruso na imensidão, enquanto seu corpo era corpo que passou, como o barco passou. Sua casa se fingia de barco, ela se fingia de navegante, enquanto toda fluidez por si passava, toda fluidez de si escapava e caía no mar. Então ela era mar, era amar cada vaivém pra se aprumar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quisera

Quisera escrever um texto de fôlego. Quisera construir uma história em que os personagens caíssem feito estrelas cadentes na trama de infinitos nós. Quisera imaginar todos os possíveis fatos, até os inimagináveis, e fazer deles matéria prima de enredo, sem arremedos, sem medos. E colocar em cada fato o personagem mais embrenhado, cúmplice sem restrições, e que por pensamentos e atos se fizesse tão humano, frágil e forte, sempre no entrelugar, na oscilação, na contradição inerente ao viver. Quisera fazer um longo texto que coubesse a prosa e a poesia, todas suas fusões e incongruências, até vir o real, até beirar a irrealidade. Quisera conduzir o leitor nesse caminho sem volta, nessas vidas cheias de voltas, até vir o começo, até chegar o fim. Quisera escrever um texto de fôlego. Que fosse longo o suficiente para cobrir dias e noites de dedicação por puro envolvimento voluntário. Mas que fosse na medida oposta a qualquer monotonia, senão àquela que viesse no momento exato, que monotonia é parte natural de qualquer movimento que se espere mais extenso, prolongado. Quisera ter essa respiração profunda a inspirar todos os poros, a inundar todos os vasos, a exalar perfumes doces e ácidos. Quisera, quisera tanto, que ansiava não fechar qualquer texto, qualquer vida grudada nele, e deixar uma reticência depois de conclusões inconclusas, diálogos intermináveis a germinar na alma do leitor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Temia

Temia que o amor fosse apenas um discurso ou uma afirmação por absoluta teimosia de dizer o que se diz, o que se espera que se diga. O retórico amor, um discurso aparentemente cheio, mas sobretudo persuasivo, bem ao estilo dominador, mas em forma de fragmento, de maneira que palavra não poderia se converter em ação, amor sem amar, puro dizer... Temia que o amor fosse apenas um miasma a rondar os corpos até evaporar sobre poros de pele impermeável, a traduzir toda dureza da alma...Temia ser o encanto um momento qualquer de desatino da percepção, por simples desconhecer e se colocar curioso diante de visão, prestes a migrar em desilusão...E temia mais exatamente por temer tanto esse dizer, relutar no dito o mover da palavra em direção à realidade, posto ser o amor um capricho do dizer, um diálogo a envolver um e outro na tentativa da própria essência do discurso em ação, porque palavra é o confeito da alma, essa mistura que se enche em desatino, embora esteja sempre e sempre só, até vir um alento de ternura, um ouvido atento, um pensamento ainda que distante...Essa palavra amor temida e ousada seria então essa superfície de proteção em torno da dispersão pela própria sobrevivência, um retorno, um ponto de equilíbrio...Por isso temia não dizer, mas ainda que dissesse temia também a indisposição sobre essa palavra amor, esse agir amor...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Indelével

Depois que o conhecera, vivia em abraço. Ninguém a compreendia quando chegavam perto e ela, subitamente, rejeitava outro abraço, quando então dizia: ‘Já estou em abraço’. Tudo começou quando reconheceu os braços dele e fundiu-se de forma irrefreável como num enlace inevitável. Era incompreensível o dizer dela para os olhares em redor: ´Já estou em abraço’. Nada se via grudado nela, senão a cena, o mimetismo do abraço vez por outra. Era indelével, já parte dela o abraço. Fora permissível demais, em exagero, tanto que o abraço pregara de forma irremediável. Os familiares começaram a se preocupar seriamente com aquela moça em abraço; pensaram em coisa de espírito, em uma espécie de síndrome siamesa invisível mesmo tardia, que haveria alguma séria afecção do pulmão ou do coração que tornava o peito dolorido a rejeitar outros braços. Pensaram muitas possibilidades, visitaram especialistas, e nenhum observara nada de anormal, senão o afastamento súbito, amedrontado. Com o passar do tempo os braços dela começaram a volver outro corpo ‘inexistente’, ficavam em arco permanente e os dedos das mãos tensos; de tempos em tempos fazia uns movimentos de dança com a mãos, resguardados os limites de círculo, um abraço, talvez no entorno do corpo dele. Ninguém jamais o vira, embora ela jurasse que o abraçara e que ele jamais a soltara. No tempo em que o abraço tomara aquela conformação tão evidente e fixa de braços em abraço, ela não pôde mais saciar a sede, a fome, pôde sequer satisfazer as necessidades funcionais do corpo, os apelos fisiológicos, sem a ajuda de sua mãe. Viveu assim por algum tempo, como a carregar outro corpo consigo aonde fosse. Morreu assim. Nada foi possível fazer quanto às suas mãos. Por nenhum esforço manifesto elas se colocaram no peito em forma entrecruzada para a habitual vigília dos familiares e amigos após a morte. Entre ela e as mãos estava ele, ele no entrelugar do coração dela, dos braços e das mãos...Forçoso foi aumentar as medidas da caixa grande em que ela descansava e enterrá-los assim, em abraço...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O que o beijo tem

A boca dela tinha um olho, e cada vez que a língua dele se intrometia , vinha visão em via de transitar rápido, como se todo caminho se desnudasse na janela ao lado; a cena corrida das paisagens que ficam pra trás, das paisagens que se renovam e atropelam as outras. O beijo deveria ser o estável esquecimento frente a todos os dilacerantes instantes de incompreensão, os momentos superpostos de ação e inanição. Mas o olho da boca se abria adensado feito rio e vertia saliva em forma de lágrima. A boca chorava em momentos de solidão, como faminta a revelar o vazio gástrico, uma fome da alma. O beijo era também o acalento da visão, uma venda irrefreável que ela buscava insolente, sem pudores, sem limites. Mas o limite não tardava a interromper o beijo de olhos abertos, visionários. Entre vendado e desnudado, na maquínica percepção de disjunção, embora todo o desejo fosse de unir, colar irremediavelmente, o olho da boca se debatia. A separação era nítida e jamais ela se faria decifrar e sequer decifraria aquela languidez ou rigidez muscular do beijar, do ver, do olho que o beijo tem.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Mãos

Estranhas mãos essas que não se aquietam
Mãos em ti forçosamente a reconhecer
Mesmo em lembrança
Cada traço, cada mormaço, cada embaraço
Estranhas mãos essas em quietude
Mãos em lembrança de ti, por ti
À espera de decifrar
Cada passo, cada queda, cada enlevo
Estranhas mãos a desejar
Mãos em fogo e remanso
De alternâncias súbitas a percorrer
A delinear suas faces de prazer e angústia
Mãos que não se podem conter
Ainda que por palavras a verter
Sentidos inapreensíveis, sensíveis
Tanto que dizem e não dizem
Tanto que sentem
Mãos apessoadas em seus dedos
Entrelaçadas e fadigadas de tanto conter
Por querer em ti fazer arte do momento
Fazer memoriais instantâneos de permanecer
Mãos incontidas que tanto contém
Feito mente abarrotada
Em registro de pensamento de estarem em ti
Um negativo prestes a se revelar
Mas por fantasma ser
Apenas mãos em oferenda
Em apreensão pelo toque de conhecer
E encanto de desconhecer
Mãos de entranhas
Quase digestivas mãos
De gestos que não bastam
Incompletas mãos
Doloridas mãos
Teimosas mãos de carne crua
Cruas em sentir outras mãos

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

Cansaço

Ela se sentia tão cansada, tão impotente diante daquilo que se apresentava aos seus olhos, ouvidos e mente. Não era um cansaço plenamente justificável, mas um cansaço de estar sempre em um não lugar, até perante o outro. Sentia-se nesse descolamento, como se o cenário estivesse diante dela e bastasse um pulo para que se colocasse no quadro perfeito, de expectativas satisfeitas, conforme seus sentimentos mais verdadeiros. Mas aquela cena não durava nem sequer o instante do esperar, pois que ela vagava sempre em espera de dúvida, já com as forças sumidas, e o coração que batia célere era puro desatino diante das possibilidades que se multiplicavam, mas nenhuma delas fazia concerto em sua alma, eram apenas dissonâncias poéticas a virar aves sem retorno. Sentia-se incongruente, como um ângulo em geometria solitária, sem par. Sentia-se sem par, sem ar, em meio ao turbilhão de suposições improváveis, sem prova sequer, apenas supostas idéias sobre o inapreensível do outro e de si mesma. Sentia e pensava sobre as vidas no entorno e dentro de si, vidas razoavelmente esperadas, continuadas, sem tantas perguntas que angustiar, só o viver a cada dia, e queria mesmo saber porque sempre fora assim desencontrada por querer e não querer, até que toda diferença de ação restasse como se nada houvesse a que se apegar de fato, somente a dúvida e a total inadequação de viver segundo um nem sei o quê de provável e respeitável. O mundo poderia ruir, cair, mas nada seria mais tenebroso que os escombros de si mesma, escombros vazios de vivência amontoados nela, sem projetos de construção e reconstrução. Desde que se dera por viva, sentia essa inquietude sísmica, e cismava tanto por tudo e por nada, teimava-se nessa confusão, e se cansava, cansava...

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Trocado?

Ele estava sentado ali na calçada em curva, os sapatos trocados, mas bem postos em pés sem meias, o olhar vago e o dorso nem tão emborcado. Ele achou de dar-se por ali, naquele canto sem canto, enquanto transeuntes olhavam-no dispersos, uns poucos atentos. Talvez ele fosse trocado de lugar como as vestes dos pés, talvez estivesse no lugar exato que planejara por força daquilo que não entrevia. Não havia paisagens, embora sob a cabeça o céu fosse razoavelmente azul por nuvens em contraste, rasas nuvens de chuva. Seus olhos também eram rasos, mas por eles não verteria chuva alguma, senão breves piscadelas sem direção, pura vaguidão. E assim ele vagou por lá sem vagar, com o vagar de quem contempla sem contemplar o de fora, mas um contemplar por dentro, de um jeito sanguíneo e melancólico, tudo em vermelho e preto, dia e noite a se fazer distante dos relógios do mundo. E por horas trocou-se por lugar algum que não aquele mesmo, onde não se situou, não voltou, nem sequer esteve.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vingar

Ela se ressentia das amizades que não vingavam; ironicamente tencionava se vingar de todos esses sentimentos desatentos, rasos, indisponíveis. Mas ela também não se redimia de tê-las também negligenciado por avaliações precipitadas ou por indigestões momentâneas e até duradouras. Essa visão sempre voltada para o centro de si mesma, ainda que disperso, por boas vezes, bloqueara essa visão plena do outro, suas possibilidades infinitas, repugnantes, mas também adoráveis. Mas ela sabia também que o outro podia ser um caminho inóspito, e então, o dispêndio de forças em desequilíbrio teria quase sempre o efeito de ofegar e lamentar menos experiências compartilhadas. Alguns diziam que existia uma tal afinidade, uma empatia a que não se podia fugir. Ela não cria piamente nessa idéia, posto que a revelação de si para outro era sempre incompleta, e esses ‘disfarces’ de proteção ou dissimulação talvez fossem o desafio mais fundo de viver o outro. E viver o outro era surpresa a cada instante, se houvesse disponibilidade, gentileza. Mas ela nem sempre se punha disponível, gentil, porque esse ideal subsumia diante do mundo de objetivar em que se embrenhou, diante de tanta individualização. E subjetivar o outro em suas diferenças, em suas sombras, reflexos famintos de compreensão, era todo o sentido, o significado de viver. E se a custo da sobrevivência, a alteridade tivesse que ser desprezada, o mundo seria pouco e a sobrevida ressecada, improdutiva. Teria que se vingar a todo tempo dessa escassez de sentimentação pelo outro, do excesso de sentimentação sobre si mesma. Teria que ser sentir ação misturados, em diálogo permanente, a afastar toda materialidade ou abstração utilitárias. Teria que se convencer do convívio em fragmento, em busca de completude. Teria que se convencer da dor e da alegria de conhecer, desse entrelugar dos sentimentos em ação pendular, em perfeito desequilíbrio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Rever a ilha

Há lugares que nunca mais voltaremos ou veremos como tal; sensações também nem sempre serão percebidas como dantes. Os lugares, os mesmos lugares de outrora, diferentes são porque são ida em retorno, pra guardar outras experimentações, ‘sentimentações’ sobre um sedimento qualquer de plenitude e solidão. A ilha fora para ela uma descoberta redescoberta sem tanta pressa e tanto deslumbramento por imensidão de mar, mas uma angústia por registrar cada detalhe, como se fizesse lupa humana, e humana se ‘agrandasse’ na visão sempre incompleta, naquilo que não se apreende, mas vaza em si e também retém, como represa em tempo de seca, em tempo de tempestade. A perfusão de pessoas a chegar e a ir era a mesma da outra vez, mas ela não se via assim nesse turbilhão primeiro, mas em uma meia mansidão de um já visto, nem todo visto. E revisitava aquele pedaço de terra desgarrado do continente com desejo de rever algo que não fora esquecido, mas que encontraria de outra forma, em meio a outras pessoas em espírito vário como o de sempre, e o tempo não seria o mesmo, o ‘dorminhar’, o acordar, o pisar. Repetira alguns lugares, fora a outros, e não saberia dizer da exata sensação do ‘repetir’, do ‘descobrir’. Pensava, por vezes, que a confusão vinha dessa disposição inconstante da alma. Rever a ilha fora degustar e não abarrotar o estômago faminto. Rever a ilha fora entrar em si em descoberta de susto e calma, de apreender a ilha de dentro, solitária e gregária, em desajeito e procura de firmeza. Rever a ilha fora conviver mais de perto, enfatizar o ver e o sentir dos lugares para ouvidos mais atentos quem sabe, fora segurar mãos, segurar-se sem mãos, respirar e ficar sem ar, esquentar e esfriar, perceber esse intermeio, esse entrelugar tão humano.


A praia das pedras


Tem gente que gosta é de mar aberto, e margeando algumas pedras, mas nada pelo caminho. Santo Antônio, a praia em Ilha Grande, é cheia de pedra pelo caminho, e até caminho de pedra a dar em outro mar. Ter uma pedra pelo caminho pode não ser lá muito convidativo, mas várias pedras em mar alto, de rocha maciça e em falhas só pra receber o mar, é lindo de ver. A água entra arrogante nas falhas e bate tão forte que sobe em movimento chafariz. Ao longe se avistam nuvens de fumaça, delicadas rosas instantâneas, rosas fluidas, rosas de água, flores atômicas no meio do mar. Eu queria ganhar uma rosa de água todos os dias à beira mar e só olhar as pedras no caminho do mar, pedras só de admirar. E pensar que foi num desvio do caminho que fomos dar no mar de pedra, com todo custo pelas pedras do caminho fomos dar em mar de pedra, pedra boa onde brota rosa de água, que nasce e desmancha em instantes, no inconstante entrelugar da rocha e do mar.


Entre a ilha e a ilha

‘Que distância acha que existe entre cá e lá?’ Cá era um ponto da Praia de Lopes Mendes em Ilha Grande. Lá era a Ilha de Jorge Greco. Não havia por perto ninguém que detivesse essa informação, apenas nós, eu e Helvécio, sentados no tronco de árvore e essa pergunta em busca de resposta. A questão era optar por um método de calcular o espaço entre a praia e a Ilha. Enquanto eu supunha quilometragens absurdas, ele tergiversava sobre a impossibilidade daqueles números e propunha uma forma de cálculo que considerasse o tamanho das construções visíveis e da falange distal do dedo polegar posicionados na conhecida fórmula matemática da regra de três, que por fim definimos que resolve quase todo problema matemático. Encontramos um número razoável de quilômetros, que fez praticamente cem quilômetros cair para dez, coisa de gente que costuma andar somente sobre terra. O mar nem estava frio e as ondas não eram muito revoltas, mas do lado de fora vigorava o vento e o céu anunciava uma chuva em breve. Optamos por voltar de barco para evitar os tropeços na trilha enlameada e quem sabe a escuridão do dia que já se findava. Tudo no entre; entre a ilha e a ilha, entre o dia e a noite, entre o sol e a chuva, entre eu e ele...


Dois para Dois


Resolvemos no último dia estender nossos ‘estudos’ na ilha e visitar Dois Rios em abraço com o mar. Pegamos a estrada, denominada também T14, e tencionamos até migrar para a T13 rumo ao Pico do Papagaio, mas declinamos da idéia. Seguimos mesmo, eu e Helvécio, pra Dois Rios, naquela estrada já cheia de história divina em oração e macabra dos tempos do presídio. Ilha geralmente é lugar de isolamento, e para elas, as ilhas, muitos foram levados para perderem a chance de serem solução de continuidade; um isolamento físico para apagar as almas que, muitas vezes, só se sabem por conviver, só se ressentem e se embatem por conviver. Enquanto isso, íamos nós nesse convívio de caminhar muito mais que falar, nesse convívio de dar as mãos e impor o ritmo pra chegar, pra descobrir. Foram várias as paradas; no mirante pra ver a Vila do Abraão por trás, nas pontes pra ver água e resvalar por rocha, até pegar a trilhinha mágica de bambus, curta e hospitaleira, e voltar pra estrada. Chegamos enfim na guarita, registramos os nomes e avistamos e vila em círculo, pequena, meio vazia, de casas antigas e árvores altas e frondosas. Seguimos para a reserva do almoço com uma das duas Terezas e aportamos no mar azul anil, ladeado nas pontas por rochas, por trás por mata atlântica, mar pra se ver todo, pra gente se fazer solidão e companhia. Visitamos também um dos braços de rio com água a cintilar ouro da areia do mar, rio a se confundir com mar. Nadamos pouco, mais olhamos com deslumbramento de ver o belo. Almoçamos comida caseira e voltamos em passo rápido pra não perder a hora da barca, a ida de volta para casa.


Entre o barco e o frio


Os passeios de barco são para nós que estamos longe da vida do mar, sempre uma grata surpresa. E claro, tencionamos passear em um lindo dia de sol, e mergulhar, e secar em vento morno. Mas esse que fizemos em direção às ilhas de Angra dos Reis – Botinas e Cataguazes – e Lagoa Azul foi no frio mesmo, regado a chuva e respingo de mar. Fomos eu, Helvécio, as meninas da excursão, Elisa, Mércia, Ceura e Eliana, todas animadíssimas e sempre de bom humor a despeito do tempo adverso, e prontas pra fotografar. Todos equipados e ansiosos por ver peixe debaixo de mar, por ver paisagem reluzente. O sol não deu o ar da graça, e o frio impiedoso em certos momentos, motivo de abraços, aconchego e conversa. O barco foi lugar de buscar mais o outro do que vislumbrar, desbravar o de fora. O horizonte em mar aberto, o fundo do mar e as terras em forma de ilhas deixaram de protagonizar a cena para fazerem parte de um cenário real, do dia que não faz sol, mais um jeito do dia no mar.


O pouso


Pousamos na Pousada Recanto da Pedra, onde tem pedra quase a vagar pelo meio do caminho entre a entrada e o fundo, bem no entrelugar. Lugar silencioso, beirando a estrada do caminho para Dois Rios, bem no fundo da Vila do Abraão. Tínhamos de fato uma pedra no caminho, ‘no caminho tinha uma pedra’, e Eva estava lá para nos lembrar dos momentos de desviar para o café da manhã, e também nos receber logo na entrada, na volta dos passeios pela Ilha, e para nos instruir sobre trilhas e belas paisagens. O lugar do pouso, diferente das trilhas em que nos concentrávamos nos caminhos, foi mesmo o lugar de relembrar o dia que se foi, planejar o que viria; o lugar pra levantar vôo, o lugar para aterrissar em sono bom.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Encontro de sentir

Chamam lembrança essa inscrição de ti nas folhas da minha mente,
Chamam saudade também,
Eu chamo mais,
Alguma coisa sem palavra, inaudita e faminta;
Eu chamo outras palavras e se as somo penso beirar o sentido,
Ainda assim não digo, não encontro;
Algo permanente assim, nem potência, nem realização, um presente em desvão, incompleto e transbordante;
E se com prazer te fito em pensamento;
Com ternura te miro incessante, inebriada, alcóolica;
Uma sensação de estar com, de ponte a ligar dois lugares, e um receio de desabar e em rio me fazer mistura bem distante da nascente, origem, aura esquecida;
No espelho minha visão refletida, parca de mim;
E carente de saber o que vês, em que retrato me julgas ou se distrai de mim, que vozes ecoam dessa imagem de condizer ou desdizer dos cliques inevitáveis no correr do tempo, sou outros tantos, mas há um outro que sou eu mesma no encontro de sentir.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Amor arrebol

Ela pensava que seu amor por ele era feito um arrebol; um lugar de despedida e chegada a todo instante. Alguma coisa que se faz sem perceber; um contentamento de receber e dar, uma dor ao perder, todos os dias esse susto de ter e não ter, a inexata cor fracionada no tempo em nuances claras e escuras, feito um arrebol. Sentia uma intensidade de luz que se aproxima, uma vaguidão de luz que se afasta, como um acalento, uma despedida. Seu amor era sim um arrebol, um entrelugar, a transição do momento, sem nenhuma garantia no tempo; arrebol tão humano, desses que abandonam qualquer um tão logo venha a cegueira eterna; arrebol desumano, desses que desafia as pupilas em ardor. Não haveria melhor descrição senão esse lusco fusco para seu amor, amor arrebol, anúncio do sol e da lua e das estrelas. Um dia, mais de um, ela avistou com ele o arrebol que traz o sol, que traz a lua, e como num cegar santo por tanta beleza, ela virou amor arrebol...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Esferas insustentáveis

Era no redondo e nas reentrâncias do ombro o reconhecimento do amor. Não havia outra parte mais reveladora nele, que lhe fosse mais atraente e contente de tocar, de acariciar, como se ali estivessem guardados todos os motivos de amor e desamor, tudo revelado naquela circunferência de tato, os dedos dela no ombro dele. Era como apalpar a bola mágica, e então todas as imagens não tardavam a se desfiar como claras e débeis. Era naquele sustentar frágil de certa vez, ou por todo o tempo, o ombro - um lugar que guardou sua vida, seus enlevos, suas derrotas, seus músculos e ossos em articulação de imponência e decadência -, que ela se mirava, se misturava. Era no redondo do ombro que ela sentia o pulsar do coração dele, o porquê de, por vezes, bater lento e descrente, alheio, ausente. Era talvez a profunda angústia nesse toque, a inquietude de conhecer tanto desvelamento, que o fazia delícia. E era também um ninar de criança desprotegida, como se o choro pudesse minar súbito daquele ombro e banhar em vertigem todo o corpo amado, e respingar nela, até que os dois fossem só rio, e seus ombros apenas esferas a flutuar sob um sol morno e brilhante, leves ombros por amar, insustentáveis.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Fundo

Amor é sentimento fundo
De tão fundo perde o fundo
Amor não tem fundamento
Ainda que fundamentado
Em argumentos falhos
Argumentos imprecisos
Amor é coisa de se admirar
E angustiar no dia
À espera da noite
Amor é céu noturno em constelação
Às vezes tem cara de lusco fusco
Confuso amor
Só certeza de fazer existir
Existir pelo amor
Em lembrar que volta toda hora
Grudado no sem fundo
Subterrâneo amor

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Casa Mãe"

Ela não sabia se era mesmo a ‘Menina do Rio’, porque tinha nela uma mineirice, um ar de montanha tão agarrado, que seria difícil assumir um papel assim de verão da alma. Pensava sim que os cariocas tinham uma alegria de tempo de sol, até mesmo nos momentos de humor conturbados, abriam-se em palavras rasgadas com som a reverberar, soltavam o grito, aliviavam a alma. Mas ela achava que tinha um privilégio naquela cidade de água, rocha, verde e construção, que a fazia meio de Rio, meio de Mar. Lá já tinha morada com direito a acolhimento de família, a risos em volta das refeições, mas muito mais um prazer ao retorno a um mundo lúdico e incansável, como se a juventude pudesse durar o tempo da eternidade. Lá se sentia mesmo menina, e soltava gargalhadas, e perdia o juízo pelo mar e pelo sol, e era um pouco filha da Gláucia e do Gilmar, irmã da Gabi, da Vick e do Danilo. Os visitantes dessa vez se multiplicaram; meninas de Minas, menino Paulista. A mim e Vivi se somaram a energia e o riso solto da Sílvia, o comedimento sensato da Vilmara e a meninice do Zé. Eram cinco a mais na casa, sem contar os de lá, primos e amigos, as crianças do Rio, todos acampados em colchões distribuídos por toda Casa Mãe. O programado era visitar os pontos turísticos mais conhecidos, o Cristo, o Pão de Açúcar, mas tudo se desviou e o cotidiano da cidade ficou mais próximo no Centro do Rio mesmo, com a cadência do Samba da Rua do Ouvidor, cheia de casario antigo, pontes de luz e charmosos barzinhos e livrarias, e a travessia de barca Rio-Niterói com vista linda da Baía de Guanabara, do aeroporto Santos Dumont, da Ilha Fiscal e da dança das gaivotas.


A Santa Terez(s)a de lá

A de lá é parecida com a daqui
Tem morro de subir e de descer
Tem gente a procurar
Tem gente a encontrar
E tanta casinha de encantar
E ruína de admirar;
E a música bonita também mora lá
E nas infinitas portinhas de vender
O saborear dos quitutes e o bebericar, o papear;
O bonde daqui já se foi
Mas o de lá continua a passar
Com gente a amontoar, a dependurar
Até por sobre arcos a equilibrar
Com rés e trancos do caminho
E gente namoradeira a sorrir
Ranzinza a reclamar
Curiosa a olhar,
E no susto do alto
Até chegar no baixo
Nos chãos depois de voar
A lembrança de querer voltar
Pra ver o Rio
Vale encantado
Do morro de Teres(Z)a Santa
A vigiar...


‘Em Chamas’

Bem lá na comunidade do Rio dos Pedras, no Rio, tem um castelo enorme a que chamam Castelão. Só que o Rei de lá não tem coroa nem cetro, parece mais um dragão a cuspir fogo pelo salão. O Funk é o grande Rei a ditar o ritmo frenético do baile, e todo mundo vira rei a se exibir, nos movimentos de requebrar, até o castelo ficar em chamas. Não há dança nobre e nem vive de nobreza o castelo, mas de uma mistura de gente de todo jeito que se imaginar. Chegam pessoas de todos os lugares só pra dançar no baile de passo sensual e criativo, ou mesmo para ver o ritual dançante do outro, mas sem reverências obrigatórias, somente o direito de se soltar e incendiar o castelo.


‘Em ondas’

Afogamento não tem graça nenhuma, mas o do Zé, primo da Vivi, vai ficar pra história. Zé pensou que onda tinha natureza controlável, contornável, e se ‘misturou’ na onda. O Zé é um paulista que foi visitar o Rio e ficou só no meio de carioca e de mineiro, melhor dizendo; mineiras. Logo no final do feriado, o Zé deu de se empolgar e mergulhar no mar de tormenta, lá na Barra. Foi ele, nesse dia fatídico, atrás do Hugo e do Danilo, primos cariocas experientes no balanço das ondas. O mar não estava pra peixe e muito menos pra gente. Dia meio frio de ventania, de mar fundo na beira, quando de repente se avista o Zé num tumulto de braços num buraco de mar, sem conseguir dar um passo nem para frente, nem para trás. Danilo e Hugo um tanto solidários, mas também receosos, nada conseguiram fazer, até que chegaram dois salva-vidas e resgataram o Zé, que saiu meio tonto, de perna bamba, uma delas manca. As meninas mineiras ficaram só a ver a cena; desconfiadas com tudo não iam abusar logo do mar. Gabi, a cicerone, não perdeu a chance de tirar mais uma foto. Todas assistiram ao salvamento no entrelugar do riso e do meio susto, porque nunca acharam mesmo que o Zé fosse se afogar. E Vivi dizia: ‘Meu Deus, já pensaram se acontece alguma coisa com o Zé? Todos iam cair em cima de mim...’, como se o Zé ainda fosse criança. Bem, não foi preciso fazer respiração boca a boca e o Zé não teve que suportar mais essa gozação de todos. São e salvo, sem perder a pose de paulista se dando bem no Rio, o Zé terminou mesmo sendo o protagonista da mais engraçada e memorável história do dia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ruído encantado

Não importava para ela a proximidade máxima naqueles instantes. Valia mais aquela audição de idéias em perfusão, aquelas palavras argumento que vinham em torno da mesa redonda, em meio à pequena sala. Ecoava aquela voz grave no ambiente, e pelos seus ouvidos ávidos entravam dizeres de consentir, dizeres de duvidar, dizeres vários. Vinha por vezes um soluço silencioso no peito, de não compreender exato, tal qual ele dizia, por não haver a comunicação perfeita, um saber a anteceder, e pela falha na interlocução, um som inaudível qualquer, perturbador, dificultava o entendimento, e ele dizia sem pudores, seguro em fortes evidências acadêmicas, sobre essa impossibilidade do diálogo perfeitamente claro, raro, apenas um ideal. Nesses momentos surgia certa angústia e a vontade dela era chegar perto e tocar a boca dele em beijo infinito, fazer laço apertado no corpo dele com o dela, mas sabia que não podia fugir dos ditos a ressoar na mente; então retornava pacientemente à audição, àqueles tons crescentes e decrescentes de voz, àqueles movimentos ascendentes e descendentes dos braços dele a conduzir a palavra em gesto, enquanto os olhos buscavam compreender também a recepção; os olhos dela de acolhimento e de incompreensão. Assim, ele sempre duvidava da compreensão dela, pensava ser tediosa sua fala, extensa, empolgada, como se o mundo dos seus próprios pensamentos girasse em torno dele, como um satélite manco, deficiente em irradiar, senão a ele mesmo, a avançar sobre si de forma inevitável. Mas a angústia de entender era também convergente, dela pra ela. As palavras chegavam solitárias, ansiosas pelo interpretar. Nesse momento eram palavras órfãs à espera de adoção, da emoção e da inquietude de receber, de reconhecer e de estranhar. E o conviver, viver, era reconhecimento e estranhamento por meio da palavra, do movimento calado, gritado. E esse ruído impertinente devia ter mesmo algo de maléfico, mas também de virtuoso, porque permitia enviesar os caminhos e encontrar outras possibilidades; subjetividades, alteridades necessárias. Ele sempre fora para ela essa confusão encantadora, esclarecedora e ruidosa, toque e palavra a se encontrar entre razão e natureza, fronteira.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ricardo Fabião

Recebi com muita alegria de Ricardo Fabião esse lindo texto!

A FRONTEIRA


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as palavras do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve e também tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres – que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até assim. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá estava seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era o segredo, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, com reticências para que ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto, desconhecedor das horas. E foi nessa margem menos visitada que cresceu. Assim, o adulto e o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário da falta, algo que vedasse o incômodo de enxergar além. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira. Um dia encontraram apenas a escada. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.




Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Dona Tereza

Com seus olhos azuis pequeninos ela adentrava todos os dias a sala de fisioterapia. Irradiava risos por todos os cantos daquele lugar, feito um anjo levado, cheia de histórias macabras, eróticas e até singelas. Ninguém diria que já alcançara, aliás, já passara dos oitenta anos, tão vívida era sua presença, de jovialidade incandescente... Certa vez contou de seu tio de Muriaé, criador de porcos. Este morrera de pescoço decepado num acidente de Kombi, e os porquinhos todos rolaram pela estrada...’uma tristeza’, dizia ela. ‘Tiverem que costurar a cabeça pro velório...’ Outra vez contava das paqueras e do casamento que já ia nos seus cinqüenta e oito anos. Brincava com seu jeito zombeteiro, ‘Mulher tem garantia, homem não’...Tanto que de vez em quando alardeava um flerte na esquina com um moço bem moreno e cativante, depois concluía...’sou casada’...com aquele pesar de moça namoradeira. Dificilmente haveria em tão dura idade, quando as articulações se colam e os músculos se ressentem, alguém como Dona Tereza, a fazer gente rir todas as manhãs, tamanha a espontaneidade, o vigor. A despeito de seus tendões do ombro rompidos, doloridos, ela era a única ‘paciente’ a não reclamar do gelo tópico no inverno, talvez porque o gelo se tornasse líquido morno rapidamente em contato com a pele dela. Ela era adaptável, dobrável; a rigidez não se fixara em sua alma. Lembro-me do seu toque carinhoso em minhas mãos e no meu rosto; as jovens mãos de Tereza ávidas por carinho, cheias de vida.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Beatbrasilis 5



Queridos amigos que me lêem, que me vêem assim pela escrita; acaba de sair a 5ª edição da revista eletrônica Beatbrasilis´, textos bacanas e três pequeninos meus! Será um prazer uma visita de vocês no,

http://www.beatbrasil.blogspot.com/

Abraço grande a todos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Elas em Pirambu

Quisera um dia poder voltar ‘praquele’ lugar no meio de mar, no meio de rio
Quisera poder balançar na onda e repousar na calmaria daquele entre
Em meio a barcos pesqueiros, barcos de gente peixe a enredar, terra de gente cabocla contemplativa
Quisera voltar a ver as casinhas em fileira cor de fumaça de gota suspensa, quase miragem
Da baixa areia beira mar avistar aquele romper de mancha d’água em guerra pra ir pro rio, pra ir pro mar
E o rio a se misturar com mar sem o sal se desmanchar, riomar de gosto forte,
Marjaparatuba, Japaratubamar
Ela e mãe em Riomar entrelugar a festejar
A nadar, A caminhar, A admirar...
Elamãe, Mãela em Riomar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Qual era a música?

Ela deveria estar em outro lugar, mas não sabia qual. Não havia desejo preciso no pensamento dela, mas a sensação clara do lugar errado. Sempre se sentira assim em lugares errados, porque não os escolhera, não os desejara de fato, fora a eles apresentada, ficara; e uma vez assim neste estado de ficar sentia grande dificuldade das despedidas e de que os outros lugares também não fossem os lugares certos, ao menos por algum tempo. Então ficava e se admoestava por pensamentos de ir, enquanto seu corpo não movia e a sensação de lutar era antes uma falta de revelação incontida que um manifestar evidente e necessário sob os olhares de incompreensão. Ah...ela lutava por ir enquanto ficava; era sempre assim; esse ir por dentro que não ia por fora, e o tempo em vertigem sobre o abismo do mundo e da alma. Ela sabia que ele, o tempo, era o motivo exato de tanto pensar em ir, posto que se não fosse poderia não haver mais tempo. E ficava esse ressoar de fala em caverna dentro da cabeça; vá, vá, vá...Uma caverna apinhada de morcegos pendentes, cegos de visão e visionários do som. Ela sabia que havia uma música qualquer que devia ser a música dela, mas os ratinhos voadores não faziam concerto; somente alternavam a expectativa de uma seqüência de sons. Ela tentava em vão escutar o seu som, porque as notas não tocavam harmônicas e sequer faziam dissonância rara a repetir de tempos em tempos. Ela só precisava de um sinal sonante ou dissonante, qualquer sinal de ir pra outro lugar sem medo de não estar novamente, como sempre não esteve.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Maior Flor do Mundo | José Saramago

Como as 'pequenas coisas' podem se agrandar,
Como as ‘grandes coisas’ podem se apequenar...
Pena, por vezes, termos visão tão nublada...
Pena sermos engano de pensamentos e ações...
Pena sofrer os olhos dessa imaginação invertida, que pouco cria, e quase sempre copia...
Pena escapar o sentimento da imaginação...


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não se sabe

Aquela sala de fisioterapia era o exato lugar do passar do tempo, primeiro nos seus próprios tendões e músculos a fadigar, depois naquelas imagens já antigas a resmungar dores nas pernas, dedos em cãimbra, colunas em ardor, pelves em desalinho. Seu problema parecia simples; disseram-lhe ser coisa de tecido mole, um tendão aborrecido a queimar o calcanhar, a relembrar uma dor de infância, que tinha dentro do osso, assim lembrava. Antes, disseram-lhe que era dor da perda, da separação, da falta quem sabe. Agora, atribuíram às dores a sua anatomia cava dos pés. Talvez seja esse fosso nos pés que guardava tudo, pensava. Mas na perspectiva médica era um mecanismo normal de compensações a ser suficientemente remediado com antiinflamatórios e fisioterapia. Dito e feito. Lá se foi ela todas as manhãs em busca da ‘cura’, mas temerosa de que estivesse a esconder um presságio da alma, do coração. Contudo o tempo que passava com a doutora (assim diziam as mais velhas) era agradável, posto que vinha cheia de acalento em panos quentes, massagens vigorosas e delicadas e aquelas conversas de gente velha nada velha, só nos ossos e nas carnes já gastas. Percebera que a antiguidade se renovava, e algumas, até irmãs e carolas, diziam da igreja, dos padres, mas diziam também das patroas italianas a fazer um filho enquanto outro nem havia começado a andar. Diziam da lavoura, da política inacreditável. Diziam de tudo e menos da dor. Perguntavam-lhe, tão moça e já aqui? Concluíam que dor era coisa de ‘jovem’ também; consolavam-se? A sala era acolhedora, a doutora talvez na metade do tempo, no entrelugar da ‘moça’ e das ‘velhas’, contava histórias, ouvia histórias, lembrava o passado, antevia o futuro? O calcanhar ia aos poucos revelando novas sensações, não se sabe se de cura permanente, ou de dor que vem e passa, um aviso da alma.

Espero...

‘Você espera alguma coisa de mim...’ ‘Como?’ ‘Você espera alguma coisa de mim...’ ‘Não, espero tudo...não espero alguma coisa; espero o tudo que cabe muito, que cabe qualquer coisa, até o nada, mas todos juntos na cadência indecifrável e necessária do humor e da circunstância que não anula em nada o bem querer. Espero suas certezas, suas incertezas, suas contradições...Espero um sorvete no banco da praça, chegadas ao luar e no sol a pino marcadas e não marcadas, presença de pensar, qualquer plano que não seja eterno e longíncuo, mas terno, simples e próximo, plano de ficar, plano de ir a qualquer lugar. Espero absolutamente tudo e tenho tudo pra dar-te também, mesmo meu vazio, minha dúvida...mesmo meu sentimento confuso por aprender...Espero tudo porque não compreendo nada que não seja tudo, que tudo é presença de qualquer forma cabível e incabível, tudo é conciliar, tudo é compartilhar, tudo é testemunhar...Não, não espero alguma coisa...que não há marcação específica no tudo que contém tudo...porque tudo é inesperar cada dia...porque tudo é ousar completude em face das partes...porque tudo é amar...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Lamento

Lamento não ter a leveza dos loucos...Lamento não ter a dureza dos arrazoados...Lamento por me perder entre espaços de motivos alheios, que terminam meus, que no fundo são meus, e que me lembram do esquecimento tão necessário ao bem viver, que retorna como lembrar perturbador...Poderia simplesmente apagar os motivos da razão diante da emoção, da emoção que faz tudo tão terno e raro, tão belo... Lamento querer amar tanto e me confundir entre a entrega e o disfarce; que disfarce é coisa custosa pra mim, porque não aprendi camuflar sentimentos, confusões em mim...Lamento que me vejam assim tão frágil em perfusão de frases contraditórias por razões e desrazões tão muitas...Lamento que não compreendam lamento meu de momento que dura eterno no sentir...Lamento ter encantos quebráveis, que encanto é arte de desencanto submerso que vem à tona pra respirar e vazar pelos olhos de lágrimas, e pela boca a escapar coração...Lamento...Lamento ser oscilação tão clara, tão fatal...Lamento...Lamento....

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Camaleão

Parecia-lhe que o amor vinha tarde; e por assim ser, tardio, vinha com força descomunal, num ímpeto de solidão mesmo em presença, num querer abarcar todo instante com sentimento repleto, num transbordamento de cachoeira a escorrer por rocha cheia de falhas, a respingar o mundo. Parecia-lhe que o amor vinha cedo; e por assim ser, impúbere, vinha com incertezas certas a desequilibrar corpo e mente como redemoinho de rio a deixar ponta de pés e cabeça inviesados, puro lamento e afogamento, puro encanto e salvação até ver o céu de novo. Parecia-lhe que o amor vinha no tempo; e por assim ser, certeiro, vinha na madureza duvidosa, no tempo da fronteira, tempo de visões amplas, de visões especulares, lupanares, microscópicas. Parecia-lhe que o amor fugia; e por assim ser, fugidio, desvinha em turbilhões de fantasmas, de imaginários tortuosos, oceanos em tormenta, obscenos. Parecia-lhe que o amor vinha e desvinha, um camaleão em terra ferruginosa, ressequida e sedenta, em terra de vegetais de curvas repetidas e fatais, curvas de cores ocres, troncos de pele; e camaleão lá grudado, pele na pele a memorizar cada nuance, a sobreviver...amor camaleão...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Poetar

Queria uma poesia larga de mim
Mas a caber-te
A entrar-te num justo movimento
Num agir compreensível
Queria a tua poesia também em mim
A estreitar-se pelos meus caminhos
Mesmo num susto de descoberta
E até em estreitamento
Queria todo desvelamento de mim em você
De você em mim
Poesia astuta e sensível
Poesia verbo eu e você
Poetar-te
Poetarmo-nos

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aprendiz de voar

Hoje amanheci com mamãe a socorrer uma rolinha aprendiz. Chegou com a toda redondinha de penas, aparentemente calma, mas querendo voar. Mamãe pensou; ‘caiu do ninho’...'corre perigo com tanto gatuno por aqui’...Mamãe abriu a porta numa fala mansa , cheia de carinhos com a bolinha de pena, em mãos acolhedoras, mãos de mãe, preocupada com os gritos da rolinha mãe. A passarinha tinha biquinho saliente e cor de penumbra...e só queria voar...Abriu as asas e deu um rasante e foi parar no chão, bem debaixo da minha cama. Mamãe a resgatou e a colocou sobre o muro, na dúvida de que sobreviveria...Até que chegou a mãe rolinha, e num lance de vôo pro alto motivou a decolagem de bolinha filha..Bolinha acertou o passo, acertou o vôo, e mamãe ficou orgulhosa lá embaixo ao vê-las, mãe e filha no mesmo lance de laje a contemplar quem sabe outro lance mais alto, até o rasante virar vôo alto de vez...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Desaviso

Lembrava-se...Sim, lembrava-se claramente daquele namorico adolescente que tivera; tão intenso que parecia nuvem baixa, aterradora, a chover forte e fraco, sem parar. Ele postou-se no portão de sua casa, bem do outro lado da rua, com uma pequena sacola dependurada nas mãos, vindo de uma cidade distante, logo ao amanhecer. Ela amanheceu assim amanhecida por ele num susto de visita desavisada. Ele vinha ver o amor de poucos beijos meio incongruentes, segundo a acusara, de quem beija das primeiras vezes; beijos de descoberta...Mas ele disse que viria assim mesmo, a despeito daqueles beijos atrapalhados, porque vira ela como uma membrana de libélula, não perfeita, mas absolutamente transparente, incoerente. Ela abriu-lhe o portão com dores na barriga de tanto susto, mas não deixou que ele entrasse. Disse que já ia; somente guardou a sacola em casa, e levou-o logo cedo para a escola. Não teve coragem de apresentá-lo como namorado de palavra dita, só de presença não dita. Alguns viram neles semelhança curiosa; acusaram-nos de serem irmãos pelo traçado do nariz e da boca, até pelas pernas, pelo jeito acusativo de ser; jeito de gente comum e incomum no sentir, perdidos no encontro que não fora marcado. Passado o tempo de aula se foram e deixaram-se ficar numa das primeiras paradas do ônibus para assistir um filme, do qual não se lembrariam de cena alguma, senão da sua própria cena dirigida para o acerto do beijo e surgir de novas carícias. Teria que levá-lo para casa finalmente e aceitá-lo com qualquer olhar, ainda que esse olhar pudesse fugir dela mesma, escapar do seu vôo, do seu pouso de libélula. Ele entrou sem susto na casinha simples, conheceu a mãe dela, pediu para tomar um banho e seu foi...Ela ainda se lembra do cheiro forte do perfume a exalar pela casa após o banho, e até hoje a fragância submete a sua lembrança em qualquer lugar que surja. Tiveram outros encontros apesar da distância, mas aquele dia desaviso adolescente não se repetiu...o delicioso desaviso, impulso a amedrontar, encantador...

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Não arre(mate)

Não queria mais que a olhassem. Queria que a sentissem. Que a sentissem de todas as formas, com admiração e desdém. Negava a imagem, porque nela nem sempre se revelavam os sinais do sentir; e mesmo do não sentir, de quem morava profundo num vazio tantas vezes, até sem buscar o sentido, porque no meio do caminho não vinha ânsia alguma de continuar, quando o pulsar do coração enfraquecia, esvaecia... De quem morava profundo em significados por vezes, em sentimentos recônditos e explosivos, de um querer compartir, estar perto, amar... Essa imagem não condizia, senão pelas palavras pensadas, que proferira, que calara. Esse retrato não combinava, era parco, fragmentado... e ela parca e fragmentada era irretratáveis momentos de angústia e euforia, de permanência e inconstância...Negava, negava esse quadro arrematado por tantos olhares estranhos...e que a julgavam num traçado de expectativas vãs, num meio sorriso, ou num sorriso todo, contentamento; ou num franzimento entre os olhos, desespero...Não queria mais que a olhassem só imagem, que sem palavra dita, redita e calada era ninguém, porque não fora pintada com rigores de cores exatas, com profundidades e traçados em arte de ver e analisar, mas no sentimento de rigores, rigores tão fundos que afundavam nas molduras e iam morar dentro das paredes cheias de falhas, ou amalgamadas com cimento forte, ou esfarinhadas, paredes frágeis, paredes sanitárias...Essa imagem a combatia, a esfacelava, doía como ferida os olhares, pois que ela era apenas espectro em lugares vastos e restritos...era apenas possibilidades impossíveis, uma fotografia viva escrita no tempo, pelo tempo, até desaparecer, tal como desaparecia a todo momento de vidas, de lugares, de si mesma...Negava o olhar avaliador, de arre(mate)...

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Crochê

Aprendera crochê com a mãe. Algumas peças terminavam por duas mãos, ainda que fosse um pequeno acabamento a garantir a solidez da peça. Outras vezes era no decorrer o compartir, no crescer da peça, quase uma competição justa ponto a ponto, carreira a carreira, no ir e vir da agulha, meio. Sempre achara fabuloso um único ponto, uma única laçada formar tantas formas e figuras, e cobrir, e vestir, e enfeitar e aquecer. Admirava o crochê, processo e resultado, embora, muitas vezes, percebesse certos olhares a ignorá-lo, por desconhecer sua alma. Cada ponto e intervalo precisava ser medido com precisão imprecisa de dedos, um humano, pessoal, raridade no mundo fabril. Entrevia no crochê o amor da mãe, que nada há mais amável que ensinar e fazer junto. Entrevia no crochê a dedicação do tempo, o esforço da mãos para agradar, envolver pessoas e olhares, mimar. Tinha primas, tias ‘crochezeiras’; mas uma tia, em especial, já além do tempo da mocidade, permanecia moça na animação e no preparo dos vestidos rodados de crochê, das blusas aplicadas em flor, dos boleros, exatamente pra dançar juntinho boleros e outras danças no baile semanal. O crochê era atávico, parecia, por vezes. Era um gostar que passava por gerações, e quando escapava em alguém da família, era um nó ou um fosso, como um erro do crochê, um mimo que não se desenvolveu, um fazer que se perdeu. Certa vez com os escritos ‘desassossegados’, do poeta Fernando Pessoa, percebeu ainda mais a sutileza do crochê, sua semelhança com a cadência de viver. Amou-o mais, compreendeu-o mais...Não poderia deixar o fio do crochê se cortar, embaraçar, desacarinhar o mundo...

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Você

Você me maravilha, porque enquanto cega-me os olhos, abre-me outros em todas as partes do corpo e da alma. Abre-me olhos na fronte, na nuca, no peito, nos braços, nas pernas. Abre-me olhos na minha face invisível, impalpável. Desvela em mim os traços mal e bem traçados da minha linguagem, de mim mesma com testa franzida e sorriso solto, e quietude e inquietude latente. Abre-me janelas por todos os lados de mim, até no avesso, e faz vazar todas a etiquetas descartáveis, de números precisos, de instruções objetivas. Abre-me olhos de águia, faz-me visionário na escuridão. Faz-me ver estrelas e coordenadas e me descoordena diante da razão. Faz-me pensar sobre o que eu não pensei e o que pensei de outro modo e do mesmo modo que pensei e multiplica meus pensamentos sobre todo o desimportante que importo, puro malogro. Faz-me virar um mapa de terras desconhecidas, de conquistas sem data, de geografia serena e enlouquecida. Faz-me correr e parar e ofegar num jeito submisso insubmisso para outras ordens que ignora, ou pressente, ou simplesmente despreza, enquanto faz-me experimentar, experenciar amar, mesmo que ainda paire dúvida sobre o que é o amor, mas certo do amor. Faz-me angústia e melancolia por incerteza obrigatória, necessária. Faz-me agir em mim, retombar de ditos e não ditos de todo o tempo perdido e encontrado. Faz eco em mim, ressoa em mim, abraça em mim o abraço. A você se seguem todas as reticências dos impossíveis possíveis em mim. Seguem-se pontos, vírgulas, exclamações, interrogações do sentir. Maravilha-me você em mim...

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pensava nele

Nessa quase hipotética metade restante da vida, ela queria o Tempo fluido, nada mais. Queria o Tempo repleto, transbordante ainda que em copo vazio, porque sabia que todo continente carregava a sombra do vazio, mesmo aparentemente cheio. E percebia mais, percebia que o vazio era só um ponto cego, inevitável de toda ordem, porque o que se supunha cheio eram certezas de um tempo fragmento, antes do pensar e do pensar viver. E a morte? Incomodava às vezes, mas somente pelo pesar do Tempo corroído, pois preferia o Tempo ‘adorido’ e mesmo dolorido, intenso Tempo. Queria o Tempo lembrado, mesmo que depois não pudesse mais lembrar, por não estar mais; que Tempo que lembrar é Tempo vívido, Tempo em lua cheia, clarão, guardado até na escuridão. Pensava também no Tempo sonho, Tempo da imaginação que não se gasta, Tempo em potência de multiplicar, em que se poderia viver tudo sonhado sem sono, e até os desavisados momentos que nunca na mente consciente insurgiram, pura magia e surpresa. Pensava na altivez e na submissão do Tempo, no cambiante Tempo culpado por tantos, apenas uma informe substância psicológica, previsível e fatal, passional, inocente. Pensava nele, sempre pensava nele, e temia que ao se concentrar tanto nele, ele se descontrolasse mais ainda, enquanto ela se alienava dele por pensamentos. Mas pensava nele; ele era sua paixão irrequieta, imprevisível. E ele vinha sempre ávido por consumi-la, e ela o deixava vir, por vezes, ou o continha, mas nunca sabia exato como recebê-lo. Então, o tempo ficava descontente, veloz nos momentos felizes, lento nos tediosos; teimoso tempo. Se ele ia rápido, ela sofria; se ia lento, sofria também. Todo o movimento do Tempo era tempo de pensar no Tempo. Então ela pensava nele, sempre pensava nele...

Vai e Morre

Tempo lento
Indício de passar veloz
‘Inaproveitado’ tempo
Fluido a escorregar
Desperdício vício
Inércia de não esperar
Por vontade duvidosa
Em direção ausente
Difusa descontente
Tempo vai
Tempo morre...

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Enquanto 'dorme'

À meia luz, insone, ela se posta de olhos abertos, atentos à face ao lado; Nos cantos da boca dele o meio sorriso beijado de lábios rasgados, uma imensidão que ela beija agora sem tocar; O sentimento do respiro suave das narinas, do olfato obtuso em querença de compreensão, o cheiro compartido feito lastro; Os olhos dele estão fechados em sono irrecusável, indecifrável, enquanto os dela, vigilantes, teimam em congelar a cena, a encantadora cena alheia ao contemplar dela, frágil no ressonar delicado, desprotegido; forte na alienação do mundo onírico; Inerte num movimento encantador de imagem plácida, perfeita escultura de tons rasos e profundos, traços delineados; Imagem amada em exagero do peito dela das horas de pensar e ‘impensar’ por só sentir; Aquela imagem ali, ao lado, sob vigília de um olhar à procura de densidade, de precisão, de atenção; No oculto da penumbra, liberdade; no acalento imprevisível do sonho dele, prisão? Que sonho sonha ele? Ah, ela teme não ser o sonho daquele instante; Ela nega aquele sonho por não participá-lo; Admira aquele sonho que não vê; Sonha junto aqueles sinais do rosto, aqueles pulsares involuntários do corpo dele; Que vaguidão se permite ele naquele momento que escapa dos dedos de nervos, aguçados desejos dela? Naquela festa do inconsciente libertário, caótico, maravilhoso e até horrendo para a qual não foi convidada? Enquanto ele ‘dorme’, ela adormece o real e sonha o sonho dela; Enquanto ele ‘dorme’, ela desperta o seu sonho de olhos arregalados; E desenha aquele rosto com rigores de afeto; Revela e amplia na mente a fotografia dele enquanto ‘dorme’...

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O amor

O amor do outro é o amor da gente. O amor outro em nós espelhado. O amor é olhar tão indiscreto em nós que vem e lê as sutilezas dos nossos sentidos indiscretos, desnudados, escancarados mesmo em face de recato. O amor é um estranho perfeitamente reconhecível, que nos faz experimentar cada gesto como novidade rara e fazer de conta que nunca viu, nunca sentiu, e não sentiu mesmo, porque o amor é descoberta tão funda que parece rasa, até se fazer entender amor. Ah...se fazer entender amor é peito em disparada só por pensamento de cumplicidade no gozo do outro, na angústia do outro. O amor de tão dito perdeu qualquer dito de precisão por ser precisão tão premente. Amor é falta desajustada sem coisa qualquer que lhe compense, que lhe valha, porque o excesso torna-se diminuto, um exceder surreal, que escorre e fica fluido, e ferve, e sublima, e vira só aroma, enquanto nós farejamos loucos de medo, medo de perder. Amor é medo, é solidão, é larguidão...De tão largo, o amor faz distração em nós, atenção descomedida, poesia.

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Febre

Nunca tivera tendências ou características febris, embora sempre medisse temperatura alta, enquanto outros eram amenos. Pensava que era coisa de coração e mente agitados a fazer o sangue correr veloz e a esquentar o corpo. O prenúncio de qualquer enfermidade nela, virótica ou bacteriana, jamais se combinava com estados febris; reagia com outros sintomas clássicos, mas não tinha febre, até que um dia chegou; veio-lhe com intervalos de calafrios, seguidos de mais quentura. Disseram-lhe que finalmente a febre se manifestara, que talvez fosse malária, pois ela tinha, há pouco, visitado um estado do norte. Fez os exames e nada foi diagnosticado. O aquecimento vinha como uma carícia em cada parte do corpo, ou mesmo um beliscão de assustar; torturas diminutas e repetidas. Vez por outra as sensações agigantavam-se, e pareciam percorrer um caminho feito corrente elétrica em fio de carne. Queimada a carne exalava odores que a incomodavam, embora ninguém ousasse dizer que percebia, mas sempre a alertavam do rosto vermelho e das mãos abrasadas. Ela tinha uma urgência qualquer que a inquietava, desviava pensamento, desconectava tudo. Seu equilíbrio parecia cada vez mais frágil, cada vez que essa corrente quente percorria suas reentrâncias e falhas da alma. Tudo o mais se perdia naqueles momentos febris, posto que tudo era ensejo de sonho, solidão e amplidão, sensações opostas multiplicadas. Passou tempos assim, na alternância do frio e do quente, intermitente, nessa febre maleita. Um dia sua mãe estranhou o passar da hora de todo dia, da hora de levantar. Girou a maçaneta e quase desmaiou diante da figura da filha abrasada sobre a cama, a exalar um cheiro ácido e adocicado. Pensou o pior. Mas ela levantou-se sorridente a contar do sonho que tivera, da dança em volta da fogueira, das maçãs em brasa soltando mel, do calor no peito e na alma, dos abraços que deliciara em torno do fogo e do degustar das frutas vermelhas; os sentidos todos inundados; olhos flamejantes de luz, boca de saliva fluida como rio doce, nariz de abas levantadas a sentir toda sutileza do cheiro, mãos em mãos, em peles de conforto, ouvidos em som de risos, em silêncio de risos. Depois desse dia ela não teve mais febre, era só calmaria; e de vez em quando exalava um perfume adocicado...

terça-feira, 1 de junho de 2010

‘O rumor do medo’

E o medo não vem do rumor, do ‘rumor da língua’? Pegajoso e contorcionista como um anelídeo em fuga; substância travosa nas papilas em pavor; o medo está na língua que profere e cala. Escarlate e violeta, todo subida e descida em esforço e disparada, o medo é o ressoar surdo das palavras, é o grito agudo inaudível. É sentimento líquido e veloz, o sentir escorrer em abismo de cachoeira; respinga cortante o medo; pingo de luz arco-íris ofuscado em escuridão. É tudo que dizem e disseram e desdisseram e retrataram e reviram e solidificaram como pedra diamante; indissolúvel o medo real. ‘Medinho’ não...Medinho é só um jeito de pedir carinho. Medo real é palavra guardada, severa na mente, refletida no corpo, pulsante no coração...Medo real carece muito mais que carinho medido, precisa afago descomedido, porque o rumor da palavra fica lá feito vento cortante, atávico...vento rumor de ditos que viajam sem sair do lugar, familiares, indeléveis na alma a escapar em humores ácidos e melancólicos...em rostos plácidos de terror...uma pintura irreconhecível...um rumor para o ouvir de orelhas de lobo, suspensas, sensíveis...


E seguindo a sugestão do amigo Paulo do Marcas d'água...

O poema pouco original do medo
De ALEXANDRE O'NEILL

O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis

Vai ter olhos onde ninguém os veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no tecto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos.

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
óptimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projectos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos

Sim
a ratos.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Revista Beat Brasilis


Queridos 'leitores' do entrelugar, leitores que me escrevem, escritores que me leiem,

Acaba de sair a edição anual da revista Beat Brasilis. Foram publicados três textos meus e outros tantos de ler, sentir e refletir. Podem baixar a revista por meio do blog da Beat:

http://www.beatbrasil.blogspot.com/

E aproveitem para dar um passeio no blog da Beat!

Vale conferir!

Abraço grande

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Estranheza

Ela sempre os achara estranhos; a conversa em alto tom, os trajes informes, desalinhados, os cabelos meio alvoroçados e brilhantes, como recém-lustrados. Eram dois, por vezes três, mas em constância eram dois; ele e ela. Ele, filho maduro sem madureza a matraquear; ela, mãe de faces já marcadas e cãs. Traziam consigo sempre aquelas sacolinhas brancas de supermercado com uma, duas ou três latas vazias, catadas no ir e vir. Desciam e subiam ruas num diálogo exaltado sobre coisas só deles e quem dirá dos outros, outros esses que jamais saberiam do dizer deles, pois que andavam assim apartados em sua dita loucura.

Outro dia desses, ela observara os dois a caminhar na sua rotina e olhou para si, viu-se nesse mesmo caminhar de loucura, talvez mais loucura, mesmo sem o figurino tão desacertado e em meio ao silêncio aparente, mas num falar consigo mesma irremediável e incontrolável. Por vezes, ela denunciava da varanda a passagem dos dois, ou os avistava a distância pelas ruas mesmo e comentava; sempre os dois na mesma coreografia diária, no mesmo cenário. Dizia deles, falava sobre eles, até os achava engraçado algumas vezes. Estranhava e pensava o porquê da cena tão repetida e aparentemente ensandecida; esquecia-se da sua imagem habitual de todos os dias, de sua loucura insana, de sua sanidade louca, esse limite tênue.

Os dois transeuntes de todo dia revelavam a loucura em um futuro qualquer, imediato ou mediato, revelavam-na a todos, conhecidos e desconhecidos, em algum momento; possibilidades. Ela ficava assim parada nesse olhar, com mente em pensamento sobre as loucuras que o tempo faz, nas contingências, nas incongruências, nas ‘desrazões’, nas fatalidades; a loucura a chamar a vida em falso esplendor e esperança; a loucura ali, sempre a rodear. Pensava também nas sanidades a esconder as loucuras.

Tempos depois soube notícias de memórias daquela família. Ele, que sempre acompanhara a mãe, nascera em desarmonia de mente; o terceiro e o quarto também. Ela, diziam; era bela, bem conformada e alinhada; os cabelos escorridos loiros e os olhos verdes de sedução causavam estranhamento bom, admiração. Após o casamento com moço também em alinho, nasceu ele, o terceiro e um quarto. O quarto, que foi o primeiro nascido, já se foi; contaram que se fora desnorteado, ‘overdoseado’ de substâncias várias. O terceiro, na verdade, o segundo, o do meio, aparecia pouco e sempre alvoroçado, endoidecido. O marido pôs-se a reviver a mocidade, sempre de vestes e corpo ‘honrados’, enamorado; não fazia mais parte daquele clã. Agora, pelos caminhos ao alcance do olhar dela, o corriqueiro era aparecerem os dois; ele, o caçula, atavicamente loiro de olhos verdes arregalados; ela , já de verdes baços a se fechar.

terça-feira, 25 de maio de 2010

Sons e vãos do sem fim

‘E o sem fim pode ter cerca?’ Quincas se perguntou numa dessas suas andanças diárias pra roça do Seu Pedro Ramiro, onde labutava com rebanho sem conta, em vastidão e solidão de campos. ‘Claro que pode’, pensou consigo mesmo; ‘tem cerca que nunca acaba e vai mesmo é parar no sem fim; é só linha de céu que não se acaba e a cerca a correr por baixo; só mesmo quando a noite despenca sem estrelas é que não se avista mais o sem fim e nem a cerca...’ Depois pôs-se a matutar da divisão, dos dois lados que dão sentido pra cerca, e angustiou-se dos limites, até que pensou mais e repensou; ‘cerca é só um limite falso de arame fino ou grosso, liso ou farpado; é muro desfiado, cheio de vão, onde uma terra dança com a outra; arranham-se ou se gabam de pular de um lado pro outro sem se machucar, e assim os dois lados ficam ali vazados a escorrer paisagens, enquanto os donos ficam crentes dos limites. ‘Muro é bem pior’, pensava Quincas, ‘porque não deixa ver’. Certa vez Quincas foi visitar terra de casas muradas numa cidade sem campos. Havia só pequenas porções de campo com verdinhos escassos, a que chamavam canteiros, e ele se punha a lembrar era da cantoria dos campos abertos, dos mugidos, do vento e da chuva ressoando alto sem limites, mesmo com cercas pra todo lado. Ele achava sim que cerca era um tipo de muro, mas muro sem cola, só de enlace pra desfazer e cheio de janela sem fim. Nunca quis voltar na cidade dos muros e dos canteiros, que preferia mesmo era cerca e cantoria de campos, os sons e vãos do sem fim.

Mais tanto

Certa vez disseram a ela: 'eu te amo'. Ela duvidou desse amor e nunca soube se era mesmo amor ou vontade de amor, posto que o amor acabou. Continuou para sempre na dúvida dessa expressão tão corriqueira entre os enamorados. ‘Eu te amo’ virou expressão de incerteza. Preferia gosto tanto, quero-te bem demais, se possível acompanhados de reticências multiplicadas; enfim, qualquer palavra que julgasse mais amena seguida de outra enfática. Não sabia por que exato tinha tanto pudor desse corriqueiro dizer do amor, mas achava as outras formas mais sinceras, como se entre as palavras, uma a carregar a outra, houvesse um tempo de pensar, de refletir o sentir. Entre amigos sinceros achava a expressão definitiva ‘eu te’ mais ‘amo’ plenamente justificável, pois que via nela, nessa sintaxe de aproximação eu te, algo muito perto da amizade; desse diálogo, amor entre amigos, acalento. Mas do amor enamorado, sujeito ao apego exagerado do corpo, sorriam-lhe as reuniões de pedaços como a descrever com fôlego um sentimento sem descrição, misto de corpo e mente, fadado a desequilíbrios constates, como se o corpo buscasse a mente e a mente o corpo, e esses dois se digladiassem até o fatal. Não adiantava; tinha birra do ‘eu te amo’ e acusava-o de fingido porque viu tanto amor declarado assim se desfazer como um desencanto, sem dizer algum entre ‘eu e te’. Bom mesmo, ela pensava, era enamorar amigo; ‘eu te’ então soaria laço por amor de dizer amor e sentir amor, não apenas o lapso habitual dos enamorados prestes a se soltarem diante do definitivo ‘eu te amo’. Para ela, o ‘eu te amo’ penalizava qualquer ato falho, qualquer deslize ou inconstância; virava expressão falseada, impulsiva, não sentida, quase banal. Mas no fundo ela queria ter coragem de dizer ‘eu te amo', mas ‘eu te amo’ sentido como tanto.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

A fusão dos olhos azuis

Hoje, em um intervalo dos cotidianos, beirei a janela, contemplei o céu e veio-me na mente a cena de uma sala de aula há tempos ida, mas que a lembrança fez-me retornar; ela lembrança que faz a gente ficar em todo lugar e pessoa que já visitou. Visitei alguém que não me lembro bem do nome, mas dos olhos azuis a contemplar o céu azul numa fusão irrefreável nesses intervalos de contemplar. Não saberia dizer o que via, se o nada era o que via, ou o cheio do nada infinito. Sei que era professor de física e que lidava com ela não de forma apaixonada, assim me parecia, mas afirmava da facilidade de resolver as questões propostas como quem não intentava alcançar a poesia da física em nós, mas facilitar o desprezível daqueles momentos, os quais não saberia dizer da importância exata. Assim, o físico de olhos azuis perdia-se no azul do céu, enquanto nós nos debruçávamos sobre o uso simplificado de suas fórmulas, e nem sabíamos que era o passo pro acerto do mundo desacertado em nós. Decorei aquelas leis em formatos de resolver; passei nas provas sem saber do poético equilíbrio e desequilíbrio dos movimentos do corpo e das máquinas, das velocidades e dos tempos embutidos e desembutidos, das inércias. Ficou-me, por agora, por depois, por antes, somente os olhos azuis em fusão com o céu; o professor que retornava atordoado do contemplar, a ditar a próxima formulação incompreendida...

domingo, 23 de maio de 2010

Blog de Ouro





Ricardo Fabião do blog Curvas da palavra acaba de encher-me de contentamento com o selo Blog de Ouro. Com tempo indicarei mais 10 blogues. Para o recebimento do prêmio devo responder a três perguntas...aí vão elas;


1 - Por que acho que mereci o prêmio?
O motivo da escrita é sempre o leitor; o outro, o outro em nós, nós mesmos, na tentativa de compreensão, de comunicação. Assim, vejo a gentileza do selo como um reconhecimento da escrita na mente e no coração, uma espécie de empatia do sentir razão.

2- Na minha opinião, qual post do blog é o que mais merece receber este selo?
Tenho certos mimos com meus escritos, mas, por vezes, vejo-os falhos e imprecisos. Nem por isso deixo de gostá-los. Tem um pequenino que se chama De través que gosto muito, porque diz exatamente dessa confusão em nós, desses muitos que nos habitam e que nos fazem angústia e alegria.

3 - Do blog que me indicou, o que mais me agrada? Ele mereceu este prêmio?
Ricardo apareceu, visitou-me sempre com flores nas mãos. Nunca o vi pessolmente, mas senti que o vi porque me acolheu com palavras do sentir. Ricardo sabe tirar poesia de poesia, trata a palavra com carinho...tira desse nosso passar, por aqui, percepções, que as temos cada vez mais escassas.

Keila

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Himalaia

Ele vinha todas as noites, impreterivelmente uma hora após o anoitecer, quando o breu já era cortina de disfarce. Ela o aguardava nos muros, silenciosa, ou mesmo em outra parte que lhe conviesse, mas sempre de orelhas erguidas, predispostas a ouvir o seu som. Ele chegava com grito alto, desesperado de saudades, de olhos verdes em regalo, naquele corpo felino, todo a esticar como se o corpo corresse mais que a mente, como se corpo e mente disputassem uma corrida inevitável pela chegada nos cumes, Himalaia. Ela se chamava Himalaia; seus picos nevavam tanto, queimavam. Ele nunca teve nome, porque ele era só chamar Himalaia...Corriam pelos muros, pelos telhados, fundiam-se num estrondo rouco e agudo, soltavam-se exaustos e raivosos, ela de garras, ele de susto; admiravam-se por horas, enquanto o sereno esfriava seus corpos, e loucos se procuravam...Um dia ele veio na hora marcada de sua Loucura Himalaia, sedento por seus cumes ainda inexplorados, sempre secretos. Ele a convidou a ir sem lugar de chegada. Ela o seguiu. Nunca mais se ouviu falar deles e do grito Himalaia.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

In(comunicante)

O japonês chegara com sua família há tempos no Brasil. Falavam do seu jeito rude, da sua dificuldade em falar o português, da sua resistência do dizer e do sentir na língua estrangeira, como se quisesse esconder os motivos da animosidade com os outros, posto que ninguém saberia do que se tratavam os seus rompantes . Assim, ele ficou, praticamente, um oriental sem lugar, mas de casa posta em terras brasileiras. O dinheiro para o sustento da família era mínimo. As brigas com a esposa japonesa reverberavam por toda a rua e no coração dos filhos, que nasceram brasileiros. Em casa só se falava japonês. A mulher se foi, e a herança de discussões, agora com os filhos, continuava a render comentários imprecisos, uma vez que todos continuavam ausentes dos motivos. Um dia nem tão belo, nem tão feio, o viúvo japonês deu de olhar para uma loira da vizinhança; olhava pra ela de olhos miudinhos num apertar que a ela parecia muito sedutor. Estabeleceu relação amorosa com ela, somente para as coisas do corpo e do bolso, já que não se falavam por incompreensão da língua. Comprou-lhe mimos, pagou-lhe cirurgia para aumentar os seios e outras partes, divertiu-se com a possibilidade de deixá-la cada vez mais desejável a ele e a ela também, a qual não se furtava de manifestar sua ânsia de consumo. Ninguém sabe como se davam as negociações e sequer se havia algum mediador, enfim, como era o diálogo entre eles. Pouco tempo se passou e o japonês sofreu um acidente vascular cerebral. Hoje os filhos o colocam pra tomar sol e ar na porta de casa, e por definitivo ele não entende nada em português e esqueceu-se também do japonês. Sua língua agora 'descansa' e deixa vazar a saliva escorrida, que antes eram perdigotos rígidos, cifrados em japonês, ao alcance dos rostos e olhos retesados de espanto. A amante contraiu outro amante, homem mais jovem de poucas posses, mas continua a passar pela rua com os seios cada vez mais fartos e rebolado firme, enquanto o japonês escuta atordoado línguas em desacerto, ininteligíveis...

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Angústia

Ela não tinha canto algum para se recostar, senão nela mesma; um canto desarmônico, de melodia ensurdecedora e muda. E tudo aquilo que gritava era fundo, surdo, enquanto seu corpo revelava de si para si uma inquietação desconcertante; e ela se postava perante a angústia, crente, penitente, e ninguém ousaria imaginar os turbilhões que percorriam sua carne e ossos. Nada mais poderia dizer de si, senão da dúvida e da certeza que vinham tempestuosas, em corredeiras e redemoinhos, em ventos por corredores estreitos, ecoando nas madrugadas frias. O dentro e o fora eram tangentes; beijos de enlace, reconhecimento; beijos em escapada, desejo e ansiedade. Não saberia dizer de que matéria vinha esse humor angustiado, se do querer amar a si, o outro, ou a si própria revelada no outro, o outro que a fazia existir, uma percepção, uma reflexão de ângulo perturbador e encantador. Tinha para si que esse angustiar era o querer descobrir, e que o sentir dessa descoberta como negação , a deixaria irrefletida no viver, sem marcas de outros, daquele outro, o qual ansiava reconhecer; sem o qual viveria, mas diminuta, próxima do sentimento de finitude. Era urgente essa calmaria, esse outro a acalentar, a interpelar sem receios e julgamentos no ouvir, esse outro reflexo dela mesma nas sensações e lapsos de conclusões de cada parte de seu corpo e de sua mente. Inferia que essa angústia era desejo de amar e de ser amada...

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Outrora

Desde outrora, aqueles olhos continuavam anuviados, sem pupilas definidas, quase um nevoeiro. Desde outrora nunca o vira inteiro, mas só os olhos de tempestade à vista, e navegava neles em tormenta. Desde outrora não o vira e o vira sempre nos momentos mais inesperados, como no dia do corte de cabelo. Estava lá sentada em frente ao espelho, enquanto o cabeleireiro repuxava seus fios, com mãos bruscas, mas em pose de moça afetada, meio homem, meio mulher, delicado no acolher, severo no gesto; até que ele entrou e se sentou ao lado de alguém que folheava uma revista e não ousava olhar; ao lado de outro alguém que só esperava e o olhava sem receio algum, porque nada nele se poderia dizer, por desconhecer. Mas ela sentada ali meio distante nos arremates das madeixas, de lado, sem poder se virar, identificara-o pela alcunha anunciada e pelo soslaio dos olhos. Respirou fundo enquanto a hora de levantar da cadeira se aproximava. Levantou, pegou o cartão, discutiu sobre o acerto das sobrancelhas da próxima vez, olhou para o banco e só viu os anuviados; balbuciou um oi seguido de um nome bem soletrado; o nome, não a alcunha, que não tinha intimidade para isso, embora ele fosse tão íntimo em sua história. Rompeu porta afora e escada abaixo com coração meio disparado, inconcluso do sentimento. Depois descobriu que era susto do passado, dos olhos anuviados de outrora.

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Partes

Disseram-lhe; não há amor sem dor
Que dor...
Incompreendeu-se da dor de amor, tola...
Porque o via repleto,
Continente que extravasa;
Esquecia-se do incompleto amor, todo amor...
Do todo amor, amor de partes,
Que só as temos; as partes,
Até as partes de nós...

Beirada

O sexo era um prenúncio; Era a pretensão de uma completude vaga, Pelo gozo de desfalecer e esquecer o instante, e viver o instante; Era talvez um presságio de não existir, para reconhecer a existência parca, sumida, que finita se refazia em novo prazer de reviver; O sexo era vida e morte, um espelhado no outro; a face brilhante ainda que fosca diante da escura máscara; e ao fundo um riacho, límpido de peixes a ir, em cardumes coloridos, na fuga da isca, na procura da isca; O sexo era vertigem rasa e funda nas peles sobrepostas em delírio convulso, profundo e epidérmico; Era mesentérico o sexo, no ventre repleto, anelar, solar e lunar; Era submarino, andarilho, era o suspense da próxima cena não vista, sentida torta no olhar do outro, de olhos fechados em sonho de êxtase e abertos nublados, visionários, solitários e ansiosos de compartir o sentir indizível, indivisível; O sexo era o outro lembrado e esquecido, a disputa entre reconhecer a presença e a não presença, o lugar distante e próximo, alçapão; O sexo era razão e natureza, sentir razão, pensar natureza, sobrepostos, em estado de fronteira, beirada.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Prêmio Dardos





Recebi do autor do blogue "Curvas da Palavra", o prêmio Dardos.

Este selo foi uma criação do Junior Vilanova do blogue Contactos Imediatos e da Olga do blogue Pensamentos, Ideias e Sonhos, e segundo eles - trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega, ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Agradeço a indicação de Ricardo Fabião, que me acolhe sempre com palavras de mente e coração cheias de sentimentos.

Há, no entanto, algumas regras a serem seguidas após o recebimento deste selo:
1 - exibir a imagem do selo em seu blogue;
2 - postar um link para o blogue que o escolheu;
3 - escolher outros quinze blogues a quem entregar o prêmio;
4 - avisar aos escolhidos.

Os escolhidos:

1 - "Damaria"
2 - "Sabe de uma coisa"
3 - "Specullum"
4 - "Marcas d’água"
5 - "Borboletas de Fevereiro"
6 - "Num Café Pequeno"
7 - "Suprasensorial"
8 - "Eu e mim mesma"
9 - "Rudaricci"
10 - "Sara-evil"
11 - "Da Cor da Felicidade"
12 - "Michelfm"
13 - "Freiregari"
14 - "Curto Circuito Literário"
15 - "Poros"

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Outro ele

Até hoje sinto falta do Zé Leôncio. Ele era bravo feito onça, mas vez por outra vinha de manso, cheio de delicadezas, todo mudado do jeito comum de todo dia. Tem gente que é assim mesmo, de humor confuso; alguns até se fingem de resolvidos na maneira de ser e aí vem um sentimento qualquer que vira tudo e a pessoa fica assim incompreendida no susto refletido nos olhos dos outros. Mas entre mim e Zé Leôncio não; ele mudava e sabia que eu sabia disso, que eu gostava era dessas horas de ternura desavisada, rara gentileza que deixa a gente de coração e respirar em disparo, um susto, até vir aquele encanto de contemplar lago em dia ameno, de sol quase tímido, mas brilhante, de sensação de aconchego. Ele chegava assim num toque de face, de mão, quase um arranhar felino sem querer machucar, e não raras vezes ronronava no seu dormir em meu peito. Depois acordava assustado como bicho em armadilha, frágil de dormir assim e deixar sua vigília de lado, esquecida. Zé Leôncio dizia que eu fazia reviravolta nele, e que ele assim era mais ele, mas deixava de ser onça brava não, que só por mim virava bichinho pequeno, presa de mim, descobridor do outro ele, muito mais ele.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Parto

O parto maior que ela sonhara era o da palavra em potência, germinada em paredes uterinas rubras e almofadadas de epitélio de ondas, em aconchego cíclico de progesterona que cala e grita em escamas, num fluxo irremediável. Era essa palavra do tempo circular, difusa de humores, de sabores da alma que exala em estrógenos convulsos e morre todo tempo em partos sucessivos que ela sonhara viver; a palavra vida que aborta e nasce, que cresce e se retrai em silêncio profundo, palavra de útero partido em instantes de expectativa e frustação, útero palavra viva, que nasce potência, quente cor de sangue, cortante, tranqüilizante, inquietante...

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Puxadinhos

Embora muitos exaltassem os olhos grandes e amendoados por sua beleza, ela cria quase piamente que aqueles puxadinhos como janelas entreabertas fossem muito mais visionários; porque ficavam o tempo todo na dúvida do movimento, no atávico entrelugar do fechar e do abrir, e sempre passavam a impressão de sonolência, como entressonho, um caminho entre o real e o inconsciente. Sabia que era delírio seu, mas se permitia encantar com essa possibilidade anatômica ligada às coisas da alma. E quando esses traços vinham distantes do oriente mistificado, historicizado, surpreendia-se mais, porque pensava em uma aldeia pequenina de olhinhos puxados, janelas duvidosas de acanhamento e mistério para alguém empurrar vagarosamente e morar lá dentro um tempo, dentro do sono cheio de sonho de sol, de lua, estrelas e mato infinitos...

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Abraço

Ela jurava que a culpa do amor era o abraço. E aquele enorme e pequenino cruzar de braços, tão apertado, era quase uma redenção por qualquer deslize, por qualquer afeto que faltara. Porque tudo se ampliava e se reduzia na união silenciosa e barulhenta dos corpos a ofegar, no estalar pequenino dos ossos, no contrair absurdo e incontido daqueles músculos em mistura, como se só assim o coração pudesse ficar mais perto e bater em compasso de harmonia, em compasso só descompasso de emoção que transborda e não se diz. Tudo valeria pelo abraço e a falta daqueles braços e o desperdiçar daquele enlace pelo ensimesmar, em certa vez, era tristeza sem medida. Porque a medida maior do amor era o abraço, um laço de dança, êxtase; e angústia pelo desatar dos braços, dos delicados braços, fortes no abraço.

Escapava

Ela escapava de si mesma e procurava ao redor um sinal mínimo de sua existência nas pessoas, nos objetos. Ela escapava de si e por dentro vagava um vazio, cheio de tão vazio, enquanto os olhares buscavam nela uma completude ainda que vaga. Ela escapava e voltava diante de si mesma e se aterrorizava por escapar e voltar para o mesmo ponto ausente, silente e insurdecedor dela mesma. Ela não queria escapar, queria antes voltar e permanecer, mas escapava e se sentia cava rasa e cava funda sem fundo, de outro mundo e desse mesmo mundo de atitudes parcas, responsabilidades inexistentes de si para si, de si para o outro, esse mesmo outro ela mesma espelhada na sua originalidade pouca. Ela escapava louca e rouca cantava e sóbria calava e inventava mesuras, desculpas sem culpa, e plantava um jardim sem flores. Ela escapava num instante e permanecia eternamente na escuridão das idas indeléveis de sua alma. Ela escapava dos vindouros, antes por carecer do ir que por recusar o vir, mas recusava esse vir para ela mesma, como se fosse sombra de insanidade; o vir. Você virá? Perguntavam-lhe. E ela escapava ainda que viesse...

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Vulcânica

Alguns lugares eram permanentes na mente dela. Voltavam sempre, mesmo em sonhos, nos momentos menos esperados. E um desses lugares era corpo de geografia aparentemente plana, mas que no detalhe, parecia a ela, um mar de montanhas, pequeninas projeções na qual moravam os folículos pilosos, uma superfície que jamais esquecera. E o contato com aquele lugar onírico era o prenúncio de pêlos em mutação, miragens de porções pequeninas de lava, vulcões em erupção no corpo, surreais. Talvez fosse o que não foi que a fazia sonhar assim de um modo tão geográfico, porque ela buscava naquele lugar, naquele corpo, alguma evidência viva que pudesse se solidificar, esquentar e petrificar, num movimento de explosão e morte. Era sempre assim no sonho, esse alternar em um relevo inconstante. E havia rios, uma hidrografia de ramificações tortuosas, uma mistura de fogo líquido e suor, fertilidade. O sonho era de trilha, trilha sem rumo, como se o próprio andar fosse um lugar de fusão, do percorrer a sensação em busca do grande vulcão, do magma alma, coração.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Plano Preventivo Santa Magnólia anuncia

Façam o Plano Preventivo Santa Magnólia; serviços funerários para prevenir o ‘imprevenível’. Temos traslado imediato em Van espaçosa, caixões personalizados, coroas de flores, maquiagem suavizadora para faces acometidas por acidentes ou mesmo aquele significativo ou discreto empalidecer do pós vida, além de uma completa rede conveniada com todos os cemitérios da cidade, uma forma de facilitar sua passagem. É bem verdade que não sabemos exato para onde irá passar esse transeunte sem movimento aparente, mas de qualquer maneira, é justo que a família adquira um plano preventivo completo como garantia. Também podemos indicar as melhores opções de ‘morada’, desde túmulos mais simples até mausoléus com acabamento em mármore ou granito. Artistas renomados em arte sacra ou mesmo os mais contemporâneos também fazem parte de nossa rede conveniada, porque é sempre bom proporcionar beleza para quem está nesse estado obrigatório e imprevisível; pela família que visita, pelo espírito que pode querer habitar com mais conforto nas horas em que não vaga por aí, pela alma que aguarda ascensão ou sofre pelo descenso, ou simplesmente para resguardar todos dos ‘cheiros’ da indigência. A lápide também está inclusa, com escritos personalizados com letras a sua escolha. Caso tenha dificuldades em formular a inscrição temos excelentes escritores de lápide para reavivar sua memória, sua história, seu nascimento e sua morte, ou mesmo fazer de você um personagem mais cativante nesse pós. Lembre-se; a melhor opção para prevenir o ‘imprevenível’ é mesmo o Plano Preventivo Santa Magnólia!

segunda-feira, 22 de março de 2010

In(exato)

Ah se fosse possível fazer um tratado sobre a sensação, um tratado verdadeiramente coerente com o sentir, essa entidade tão abstrata que só cabe mesmo no sentir, para a qual só cabe dizer: sinto...E nenhuma palavra substitui e o verbo fica implorando complementos e todos são ‘incomplementos’. E a gente tenta buscar na batida do coração e no ar que entra e sai dos pulmões como se o intraduzível pudesse morar ali naqueles involuntários tão naturais de nós mesmos, que não dizem, só sentem...E a precisão escapa na mistura dos sentidos e só valeria explicar fazendo o outro sentir e ainda assim o sentir fugiria por ser tão pessoal e ao mesmo tempo tão impessoal na sua forma indescritível...E vem uma angústia do querer experimentar para precisar o sentir e ele vem com outra veste e continua inapreensível, impalpável...E é inabalável o sentir, com gosto, cheiro e imagem, e se torna necessário, por ser tentador, experenciá-lo, descobri-lo, deixá-lo nu, enquanto ele se esconde envergonhado e feito um camaleão se confunde em qualquer superfície e fica grudado em um mimetismo qualquer que jamais será qualquer, mas de tons absolutamente novos e surpreendentes...E a gente só lembra que sentiu...frágeis só lembramos do que não lembramos exato...o que sentimos...o inexato sentir...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Jeito felino

Acordou com garras
Dormiu num ronronar
E nesse jeito felino
Enroscou-se em suas pernas
Num alcance tonto
E olhos de raios brilho
Íris de toda cor

E com seus pares caninos
Deu um longo bocejo
De riso, de gozo
E denteou seu tornozelo
E lambeu avidamente a pele de sangue
O corpo inteiro
Numa perfusão de beijo felino

Dorminhou num espreguiçar
E sem preguiça alguma
Abriu os olhos
Numa dança longa
Mostrou suas unhas de ponta
Lanças
Arranhou lentamente seus pulsos
E afundou em seu pescoço
Numa cicatriz de linha sanguínea, felina

Deu um longo miado
Rouco, rosnado
Depois estridente
Num chamado alucinado
Desnorteou e pulou
E se foi num jeito felino

Sim meio não; não meio sim

Às vezes não temos a resposta, mas simplesmente o sentimento da resposta que ora beira o sim, ora o não. É que respostas só vêm com experimentação, pelo menos as pretensamente verdadeiras. Se o não resvala com um complemento qualquer de justificativa que soa incompleto é porque o sim não se fez sentido, não o sim plenamente justificável pelo sabor da experiência. E esse próprio não possui gradações, intensidades, por vezes, irreconhecíveis pelo outro. E esse outro nos coloca diante da dúvida de nós mesmos; então nos afetamos pelo sim ou pelo não quase absolutos na vã tentativa de esconder essa mesma dúvida, esse sim meio não, esse não meio sim. Porque é o argumento que tem força, mas esse só se faz no fruir daquela mesma pergunta, que ainda assim jamais será exatamente a mesma porque de tempos diferentes, de outros outros... “ Concede-me o prazer dessa dança?” já traz em si o julgamento da dança e o feitiço para a resposta esperada, enquanto “Concede-me essa dança?” tem a palavra julgar meio ausente e suscita a dúvida e pode até trazer curiosidade, mas também o receio. E o porque não? Ah...esse é terrível às vezes, porque a gente só descobre com a reflexão que vem depois, e a resposta deveria ser imediata. E seremos julgados por isso, por frustar expectativas, por não gozar de todas as respostas que hoje se fazem tão prementes, nesse mundo de instantâneos. O sim e o não são construtos, são escolhas da experimentação, são cambiantes, porque basta uma palavra, um tom, um complemento para que se revertam, e não há irremediáveis sins, irremediáveis nãos, mas pequenos detalhes que moldam nossas respostas diante do outros, percepções e ‘impercepções’, conhecidos e desconhecidos momentos de experiência e não experiência que só o tempo é capaz de revelar...

domingo, 14 de março de 2010

Um flash black

Agora a chuva desce copiosamente, depois do calor sufocante e dos corpos frenéticos da madrugada no salão do Flash Dance, em Venda Nova, quase na fronteira com Neves. Corpos em rodopio, em balanço e arrasto de pés puxando os quadris em vertigem branda, em vertigem alucinada pelo swing da música negra, em braços de vôo. Negros corpos esbanjando fantasias, chapéus, casacos, coletes, sapatos bicolores; vaidade e movimento. Nada melhor do que visitar um lugar assim; fora da rota da rotina, das ‘agendas culturais’ da cidade Belo Horizontina, um baile que deixou saudade, que chamam de Saudade, um flash de dança de um tempo que marcou corpo e pensamento, agora lido e relido pelos corpos do presente, de identidades à procura, confusas, mas que carregam um delírio qualquer de nostalgia e pensar sobre o que foi e o que será. E ainda há os corpos ávidos de pura sensação, quase invólucros a esconder um avesso de não pensar em torno de uma ruptura que se desfaz e se refaz, num respirar ofegante. A busca pela experiência pura da sensação que nada mais faz que refletir a compreensão do seu próprio significado, porque sentir é conhecer essa parcela, muitas vezes, renegada desse natural que reivindica o mover, um reflexo de vida que pulsa em ritmos descolados da ordem, que revelam desordem, enquanto os corpos travados em suas potencialidades agonizam. E ali era o espaço do ‘frenesi’, do já visto nunca visto, do palco revelado em cada canto e 'canto' fervente, em cada mistura de pele negra e pele branca, na genialidade da mistura dos cheiros do movimento e do som, um flash cinematográfico, hemorrágico, sem verborragia aparente, mas de palavra latente, a palavra do corpo arte; um flash black.

terça-feira, 9 de março de 2010

Assentos

Aquelas duas cadeiras postas
E a luz serpenteando no meio
Aquele vazio nos assentos
Gravemente acentuado
Pela luz no entremeio
Aquelas duas cadeiras postas ali
Para o sentar de descanso e ‘canso’
E a luz escapando pelo meio
E os corpos ausentes
Enquanto os assentos silentes
De nem mentes
De nem montes
Cavernosos ou rochosos
Se enchem
Aquelas duas cadeiras postas
Sem mortos ou vivos
Talvez natimortos
Os que não vieram
E a luz se deu
Nos partos esfumaçados
Da imaginação
Enquanto as cadeiras postas ali
Quase ventres estéreis
E a luz atiçante, ululante
No apago da noite
No lago do dia
E as almas sobre os assentos
Em ‘Ls’ obscenos
Escondidos gozos
Ofuscados de luz divina
Aquelas duas cadeiras postas ali
E aqui, e acolá
Por um clássico sabor de solidão
A decorativa solidão
Até vir os complementos de solidez
Os complementos de sordidez
As visitas indiscretas
No templo do vazio
Sem anedotas ou sátiras
Ou risos de sorrir da boca faminta
Aquelas duas cadeiras postas ali
Sem os liames sonoros
Do assentar e conversar
E gozar no outro
De ouvido nu
O gozo maior da palavra
Bem ali
Nos dois assentos postos ali...

Segredo confesso

Ela sabia do segredo, do dela tão segredado, guardado para si, desgarrado de si, gritado nos olhos de desvio, nos lábios de dúvida, no franzir da face, na testa cheia de entrelinhas...Ela sabia que esses espaços dúbios dentro de si estavam lá exatamente pra serem segredados, porque o que segreda grita tão alto que faz subsumir todo silêncio sufocado. Ela sabia que o segredo é sempre parco, mas vaza como leite derramado e escorre na boca afogada em saliva, em ossos e carnes trêmulos...Ela sabia que ele saberia do segredo maior que não tem nome, nem chave mestra, nem qualquer outra que sirva pra abrir, porque segredo nenhum fica escondido, porque nasce do compartir entre momentos, entrelinhas, entremeios...Ela sabia que segredo tem um nome qualquer do sentir esconder que nunca se esconde dos olhos do gato ou mesmo do retrato, dos congelados escancarados ou mesmo disfarçados...Ela sabia do segredo e sabia que segredar é romper o indizível na performance do devaneio, do instante roubado e divinizado dos entremeios, entre ela e ele num barco qualquer em mar alto ou no silêncio do fundo do mar, mesmo no ar de repercussões sonoras e cheiros misturados, o disfarce da essência entre outras, entre respiros pelo ar e para o ar...Ela sabia e não tinha a pretensão de segredar, mas segredava e segregava o outro, no fingir confesso de dizer mesmo sem dizer...no segredo confesso...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Inclemente

Assuta-me esse calor inclemente
Tão verdadeiro
Incendiário
Assusta-me essa modorra incoerente
Esse mover que não urge
Pelo calor retinente
Assusta-me esse sono quente
Esses braços pendentes
Essas pernas ausentes
E o calor que não se sente
Que se mistura sem mente
E ferve na gente
E ferve no mundo
Cozido mundo mudo
Mudo que grita
Aflito
E pede clemência

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Tempo perdido IV: eu nós

Não queria fazer uma narrativa do personagem narrador...queria ser o onipresente, que vê tudo e apreende cada instante como um círculo de infinitos pontos a girar, cada ponto um conto, de mim e de você...Esse pedaço do tempo perdido, talvez seja o mais perdido de todos, porque é porção de aventura do pensamento, de sensações de pensar em não pensar um tanto particulares, mas por momentos, compartilhadas...Esse pedaço é aquele pedaço ainda cru, cheio de trigo e açucar, a raspinha da forma, a sedenta raspinha ávida por línguas de papilas curiosas, o segredo maior do ritual do bolo. Não quero te imortalizar em uma escrita torta nem reta, porque você me encontrou nesse meu não lugar, e não se incomodou com esse nomadismo inconstante meu; parece-me que não. E você deixou que eu morasse um pouco em ti, ainda sabendo que não se mora em ninguém, nem na gente mesmo. Esse é o encontro mais divertido e sério que pode haver, porque é de uma disputa pra não ganhar, mas pra conhecer e reconhecer e desconhecer, sem olhos de comiseração ou de admiração extrema; imagino, pois que não tenho a visão, mas uma visão, clara somente por momentos. E ver o nascer do sol em relativo silêncio, e brincar de jogar e não vencer, pelo gosto discreto do empate, da vitória da companhia, e das mãos de apoio nas trilhas e do roçar de braço quase pequenino, grande na graça, e do dançar no salão e em escuros da alma e do corpo, perto de escadas e muros, insustentáveis na mente da gente, e a serra sob o olhar nosso de pedra que se desfaz em água quente e gélida, e em corações quase cerebrais, querendo compreender a emoção, o sentido irrecuperável do sentir, que passa e permanece na gente...

Tempo perdido III: a fonte mágica

Nada melhor do que um lugar onde jorra água, onde se pode beber de graça, onde se acredita em pureza, nem que seja de intenções...Nada melhor também que encontrar alguém pelo caminho, pelo desavisado caminho, quando o objetivo principal se perde, e outro qualquer ganha formas de magia, inesperada brincadeira em noite quente de lua...Eu, Silvinha e Tiaguinho perdidos em três ruas de dimensões diminutas em busca de uma mercearia...Eu, Silvinha e Tiaguinho profanando os sinos da igreja como quem faz arte, transgride sem o desejo de ninguém ver, senão por buscar o contentamento de brincar no lugar onde ninguém está, como um segredo, no esconderijo escancarado pro riso e para o dobre reprimido do sino, tocado em noite sem missa...E depois ir beber na fonte, no chafariz cheio de água em noite escura; e não ver a fonte, para que ela se fizesse na nossa imaginação, teimosa e democrática, revestida de magia...Foi assim o encontro memorável que tivemos, eu, a querida Silvinha e o menino duende das poções mágicas, e a fonte escura, que a imaginação clareia...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tempo pedido II: Eri

Pra gente se salvar e mergulhar no tempo perdido é preciso alguém que nos faça recordar do texto que há em tudo, das histórias e dos pareceres que há em nós mesmos. É preciso divagar sobre o importante e o aparentemente banal, e sorrir repetidas vezes das mesmas coisas, pois nada há de novo, embora o novo esbarre na gente discreto, sorrateiro. Erivelton já chegou fazendo festa e adiando o destino perdido, porque se perdia no tempo e nas sensações, encontrava o tempo. Foi ‘auxiliar’ de guia de viagem, instrutor ambiental, recreador e consultor para assuntos diversos. Uma das mais engraçadas consultorias versou sobre o modo feminino da conquista, interpelação curiosa da Sílvia; ‘Afinal de contas, como abordar um homem no qual estamos interessados?” E aí Eri foi construindo o tal ‘guia prático’; “pergunte pra ele: você está disponível?!" Isso com a voz arrastada, malandra e risonha...E em seguida; "diga a ele: eu estou completamente liberada para você.” E a finalização em todos os fins de frase; “Pá”, como se quisesse marcar o ponto, sinalizar a simplicidade...E simples foram suas incursões de conquista um tanto atrapalhadas nos bares milho verdenses, porque absolutamente espontâneas. É que Eri não é tão atento aos riscos, mas sabe fazer a conquista dos sorrisos, sem pudores. As pessoas se colocavam totalmente disponíveis e liberadas para o riso, sem que perguntas fossem feitas e negadas, porque um verdadeiro manual de conquista talvez seja mesmo o desprendimento do Eri, um se soltar das posturas fixas.