Um velho andava,
Um velho e sua mente,
Trazia cãs e escamas de peixe,
Era um rio;
Cada choque na rocha,
Um tilintar nos ouvidos;
Uma lembrança,
Um recomeço;
As margens despencando,
Assoreando;
E o velho?
Amontoado,
Receptáculo;
O correr sem fim;
A matéria fluida;
Inevitavelmente sem freio;
Um recuo impossível.
Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quinta-feira, 8 de maio de 2008
domingo, 4 de maio de 2008
Dendera
Às vezes sinto saudades, aquelas alegres, de lembranças boas, vivas ainda. Sinto também “sôdades”, de lembranças apertadas, do querer bem que não está mais por perto. Em noites de insônia, tenho a nítida impressão de que ela está em algum canto da casa, com seus olhos enormes, profundos. Ela chegou pequenina lá em casa, rajadinha, barrigudinha, apinhada de pulgas. Toda vez que dávamos a ela mingau de fubá, ela espumava copiosamente com aquela cara de falecimento iminente, numa tristeza profunda. Aparecida, uma vizinha e amiga, vinha a nossa casa e dizia: “ela tá magrinha demais; tem que dar muito mingau para ela”. Que idéia! Curiosamente, Dendera custou revelar seus dotes felinos; morria de medo de pular; não para o alto, mas para baixo; dava-lhe aquela sensação de vertigem, talvez a mesma da mistura desastrosa do leite com o fubá. Mas depois que começou suas aventuras de escaladora, era bagulho de estante caindo no chão; eu e mamãe ralhando; e pior, escondia-se atrás da porta, na surdina para agarrar nossos tornozelos.
Cresceu, as rajas alargaram; ela clareou de vez, tanto que começou suas incursões pelos muros, suas caçadas a pardais, borboletas e até asquerosas baratas. A gente ficava indignada: “Como pode Denda, fazer uma coisa dessas; coitada da borboleta, tão linda...” Quando era barata: “Que nojo Dendera; faz isso não!” A infância foi assim, cheia de peripécias, corridas de arrepiar o pêlo e enrolar a cauda, naquele estilo pra lá de descontraído, cheio de charme. No tempo de moça, foi um tormento. Os cios eram agitados; os olhos vidrados; bastava um trisco no corpo para soltar o gemido. Chegou até a se encontrar com um vira-lata em uma construção perto lá de casa. Retornava com os dedos da patas colados de cimento, com aquele ar de gozo eterno e de ‘ele vai vir atrás de mim’. O sem-vergonha não vinha e Dendera sofria; a gente indignada com aquele amor vagabundo e aquelas reações escandalosas. Mamãe dizia: “Uma gata tão bonita dessas cruzando com vira-lata...” Tudo só ficou mais ou menos resolvido quando adotamos o Lu; esse era garanhão de primeira. Com seis meses já deu um sossego relativo nela. Mas ela tinha uma má vontade danada com ele; o gozo era discreto. Resumindo: a coisa era meio forçada. Deduzimos então que ela tinha gosto mesmo era pelos vira-latas. O primeiro parto foi meio atabalhoado, desajeitado. Dendera levava aquelas bolinhas de pêlo pra nossa cama como que pra fazer festa. Nas próximas crias, não sei se por ciúmes ou madureza, resguardava-os mais, ficava esticadinha na caixinha, e tinha um prazer imenso naquelas boquinhas desdentadas e naquelas unhinhas frenéticas no seu abdômen. Os veterinários diriam: “essa tem mesmo habilidade materna”. Nós dizíamos: “ela é uma ótima mãe”.
Os anos se passaram, muitos cios e crias. Em casa era uma festa de gatinhos fazendo estripulias. O amor da Dendera pela mamãe aumentando, tanto que dormiam até juntas; uma esticada do lado da outra, e eu dizia que era o ‘casal vinte’ da casa. Era um afeto tranqüilo, sem arroubos. Já o meu por ela, era exagerado, forçado, a gente brigava feito algumas irmãs. Agarrava Denda à força pra dar aqueles beijos estalados e ela rosnava para mim na sua maneira gatuna, exibindo os caninos e louca para me enfiar a unha. Mas pensava duas vezes ‘essa menina é doida coitada’ e não fazia nada. Quando a colocava no chão abanava o rabo meio nervosa e eu falava com a mamãe: Ta vendo mãe; ela gosta de mim...sei que ela gosta...Nunca tive certeza. Os últimos dias foram tristes. Denda foi acometida por uma virose muito grave e todas as tentativas de salvá-la foram vãs. Teve desespero no último dia, não queria morrer perto da gente. Mas foi embora e deixou-me pensamentos e sabedorias, embora muitos eu ainda não saiba usar. Sabia viver com uma naturalidade invejável, cultivou por minha mãe um sentimento nobre, sem egoísmos, mas de uma possessão delicada. Denda no início tinha medo do pulo do gato, mas depois foi mestre, nos mostrou que o pulo a gente dá aos poucos, na espreita.
Cresceu, as rajas alargaram; ela clareou de vez, tanto que começou suas incursões pelos muros, suas caçadas a pardais, borboletas e até asquerosas baratas. A gente ficava indignada: “Como pode Denda, fazer uma coisa dessas; coitada da borboleta, tão linda...” Quando era barata: “Que nojo Dendera; faz isso não!” A infância foi assim, cheia de peripécias, corridas de arrepiar o pêlo e enrolar a cauda, naquele estilo pra lá de descontraído, cheio de charme. No tempo de moça, foi um tormento. Os cios eram agitados; os olhos vidrados; bastava um trisco no corpo para soltar o gemido. Chegou até a se encontrar com um vira-lata em uma construção perto lá de casa. Retornava com os dedos da patas colados de cimento, com aquele ar de gozo eterno e de ‘ele vai vir atrás de mim’. O sem-vergonha não vinha e Dendera sofria; a gente indignada com aquele amor vagabundo e aquelas reações escandalosas. Mamãe dizia: “Uma gata tão bonita dessas cruzando com vira-lata...” Tudo só ficou mais ou menos resolvido quando adotamos o Lu; esse era garanhão de primeira. Com seis meses já deu um sossego relativo nela. Mas ela tinha uma má vontade danada com ele; o gozo era discreto. Resumindo: a coisa era meio forçada. Deduzimos então que ela tinha gosto mesmo era pelos vira-latas. O primeiro parto foi meio atabalhoado, desajeitado. Dendera levava aquelas bolinhas de pêlo pra nossa cama como que pra fazer festa. Nas próximas crias, não sei se por ciúmes ou madureza, resguardava-os mais, ficava esticadinha na caixinha, e tinha um prazer imenso naquelas boquinhas desdentadas e naquelas unhinhas frenéticas no seu abdômen. Os veterinários diriam: “essa tem mesmo habilidade materna”. Nós dizíamos: “ela é uma ótima mãe”.
Os anos se passaram, muitos cios e crias. Em casa era uma festa de gatinhos fazendo estripulias. O amor da Dendera pela mamãe aumentando, tanto que dormiam até juntas; uma esticada do lado da outra, e eu dizia que era o ‘casal vinte’ da casa. Era um afeto tranqüilo, sem arroubos. Já o meu por ela, era exagerado, forçado, a gente brigava feito algumas irmãs. Agarrava Denda à força pra dar aqueles beijos estalados e ela rosnava para mim na sua maneira gatuna, exibindo os caninos e louca para me enfiar a unha. Mas pensava duas vezes ‘essa menina é doida coitada’ e não fazia nada. Quando a colocava no chão abanava o rabo meio nervosa e eu falava com a mamãe: Ta vendo mãe; ela gosta de mim...sei que ela gosta...Nunca tive certeza. Os últimos dias foram tristes. Denda foi acometida por uma virose muito grave e todas as tentativas de salvá-la foram vãs. Teve desespero no último dia, não queria morrer perto da gente. Mas foi embora e deixou-me pensamentos e sabedorias, embora muitos eu ainda não saiba usar. Sabia viver com uma naturalidade invejável, cultivou por minha mãe um sentimento nobre, sem egoísmos, mas de uma possessão delicada. Denda no início tinha medo do pulo do gato, mas depois foi mestre, nos mostrou que o pulo a gente dá aos poucos, na espreita.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Caixa prioritário
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
No caixa prioritário,
Não tem Zé menino;
Zé menino nem se lembra,
Virou Zé de outro tempo,
Não da mocidade, meninice,
Mas do futuro esquecido;
Não vai mais à Caixa,
Não chega ao caixa,
Não tem mais soldo;
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
Tem o amigo do Zé menino,
Aposentado, sentado;
E o amigo de pé,
Na falta do assento prioritário;
E a figura do leão da receita,
No pôster da parede ao lado;
Leão sentado, glamuroso;
E Zés de pé,
Na fila prioritária;
Insuficiente;
Na senha nome de milhar,
1024, 1025, 26, 28...
Na confusão do nome dito em alta voz,
Do Zé e do Antônio;
No corpo amarrado,
De engrenagens já gastas,
De líquidos escassos;
Mas de pé os Zés, as Marias de sorrisos cacoetes,
Se preciso for,
Até virar Zé menino de outro tempo;
Esquecido,
Não vai mais à Caixa,
Deu adeus à fila prioritária.
Na fila do caixa,
No caixa prioritário,
Não tem Zé menino;
Zé menino nem se lembra,
Virou Zé de outro tempo,
Não da mocidade, meninice,
Mas do futuro esquecido;
Não vai mais à Caixa,
Não chega ao caixa,
Não tem mais soldo;
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
Tem o amigo do Zé menino,
Aposentado, sentado;
E o amigo de pé,
Na falta do assento prioritário;
E a figura do leão da receita,
No pôster da parede ao lado;
Leão sentado, glamuroso;
E Zés de pé,
Na fila prioritária;
Insuficiente;
Na senha nome de milhar,
1024, 1025, 26, 28...
Na confusão do nome dito em alta voz,
Do Zé e do Antônio;
No corpo amarrado,
De engrenagens já gastas,
De líquidos escassos;
Mas de pé os Zés, as Marias de sorrisos cacoetes,
Se preciso for,
Até virar Zé menino de outro tempo;
Esquecido,
Não vai mais à Caixa,
Deu adeus à fila prioritária.
terça-feira, 29 de abril de 2008
Pa(lavras) ciscos
Riscos, ciscos nos olhos;
Fatos, carimbos na mente;
Mentem, desmentem;
Dizem somente;
Escapam semente;
Engalfinham-se na gente, entre a gente;
De mãos dadas;
Separadas;
Sem senso;
No senso;
Impartilháveis às vezes;
Edificam colossais;
Lavras, pavoneiam;
Quebráveis, quebra-cabeça;
Abismais;
Sem mais, freio;
Na ponta, no meio;
Entremeio;
Até mais!
Fatos, carimbos na mente;
Mentem, desmentem;
Dizem somente;
Escapam semente;
Engalfinham-se na gente, entre a gente;
De mãos dadas;
Separadas;
Sem senso;
No senso;
Impartilháveis às vezes;
Edificam colossais;
Lavras, pavoneiam;
Quebráveis, quebra-cabeça;
Abismais;
Sem mais, freio;
Na ponta, no meio;
Entremeio;
Até mais!
sábado, 19 de abril de 2008
"Enrigelados"
Na ponta da lâmina,
O músculo, o sangue,
Os vasos rompidos na carne,
Os vasos crescidos,
No volumoso bíceps, no tríceps;
O corte preciso,
De olhos congelados,
Na câmara que refrigera,
“Enrigela” a alma;
O boi no cercado,
Depois da linha, fila,
Fim de linha,
Tombado pela carne,
Na marreta, no choque,
No susto sem susto,
Na cena banal,
No ambiente frigorífico,
Terrífico;
A vida morte magarefe,
A morte vida do boi,
Sangue e carne,
Na mesa,
No morno bucho;
E magarefe lá,
No frio corpo,
No rosto rijo,
No olho fixo, na carne.
O músculo, o sangue,
Os vasos rompidos na carne,
Os vasos crescidos,
No volumoso bíceps, no tríceps;
O corte preciso,
De olhos congelados,
Na câmara que refrigera,
“Enrigela” a alma;
O boi no cercado,
Depois da linha, fila,
Fim de linha,
Tombado pela carne,
Na marreta, no choque,
No susto sem susto,
Na cena banal,
No ambiente frigorífico,
Terrífico;
A vida morte magarefe,
A morte vida do boi,
Sangue e carne,
Na mesa,
No morno bucho;
E magarefe lá,
No frio corpo,
No rosto rijo,
No olho fixo, na carne.
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Sobejo
Grãos de arroz, feijão,
No prato, no lixo
Restos de emoção,
Na alma,
No coração corroído,
Sobras inevitáveis,
E tão evitáveis,
Comíveis,
Amáveis,
Amarguráveis,
Esquecíveis,
Inesquecíveis.
No prato, no lixo
Restos de emoção,
Na alma,
No coração corroído,
Sobras inevitáveis,
E tão evitáveis,
Comíveis,
Amáveis,
Amarguráveis,
Esquecíveis,
Inesquecíveis.
segunda-feira, 7 de abril de 2008
Métrica metroviária
Não é uma janela qualquer,
É uma multiplicada,
Aberta para um pedaço de mundo generoso ‘escaposo’,
É abertura andante por sobre os trilhos,
De imagens multiplicadas,
Andantes ao passar dos olhos;
Ficando diminutas,
Se agigantando,
Feito a vida,
Pequeninas, grandes, pequeninas,
Sumindo, aparecendo, sumindo....
É uma multiplicada,
Aberta para um pedaço de mundo generoso ‘escaposo’,
É abertura andante por sobre os trilhos,
De imagens multiplicadas,
Andantes ao passar dos olhos;
Ficando diminutas,
Se agigantando,
Feito a vida,
Pequeninas, grandes, pequeninas,
Sumindo, aparecendo, sumindo....
domingo, 6 de abril de 2008
Ver o som
Quero ver seu som;
Quero ver seu silêncio;
Degustá-los com papilas indiscretas;
Tocá-los com pontas de dedos;
Dendritos da alma.
De olhos fechados,
Construir imagens;
Receber cúmplice,
Sem constrangimentos, os sinais inesperados.
Ser morcego;
Seu eco, meu guia;
Cega,
Visionária do som,
Do seu som...
Quero ver seu silêncio;
Degustá-los com papilas indiscretas;
Tocá-los com pontas de dedos;
Dendritos da alma.
De olhos fechados,
Construir imagens;
Receber cúmplice,
Sem constrangimentos, os sinais inesperados.
Ser morcego;
Seu eco, meu guia;
Cega,
Visionária do som,
Do seu som...
quarta-feira, 2 de abril de 2008
À francesa
- Ei? Você podia me ajudar? Nenhuma resposta.
- É sobre as pastas...chegaram? - Je ne parle pa portugais...seguido de absolutamente nenhuma expressão ou gesto; os olhos fixados no laptop escondido atrás do balcão...Eu latina embasbacada, humilhada...Depois pensei: poderia ter dito Oui Madame, pardon...Pelo menos isso eu saberia dizer, mas não...virei-me ofendida; cabisbaixa fui embora. Poderia ter feito um barraco; ela não entenderia nada, mas quem sabe esboçaria algum movimento de face. A Francesa estava ali na minha casa e do outro lado do continente Europeu, e eu era obrigada a saber quem ela era, falar sua língua, ou no mínimo, não importuná-la naquele momento só dela, da Francesa. A grande divisória que nos separava aumentou ainda mais. O lado de lá do balcão sediava momentos antes, poucos momentos, a entrega de material para o III Simpósio Internacional de Lingüística. A tal pasta com os folhetos tinha acabado e fui reivindicá-los momentos depois. Talvez esse tenha sido meu erro; tudo mudou de lugar. Antes era ocupado por estudantes brasileiras, falantes fluentes do português...mas a Francesa ocupou o espaço momentos depois e eu tinha que saber que seu momento era único, ela era única, por isso, a resposta foi mínima, sem olhar ou movimento...Eu na posição dela, certamente, teria feito caras e bocas, esboçado gestos de sim e não, o que fosse necessário, sem contar a comiseração por não saber sua língua...O tema do encontro era Análise do Dircurso: emoções, ethos e argumentação. O ethos da Francesa falou mais alto e eu saí à francesa.
- É sobre as pastas...chegaram? - Je ne parle pa portugais...seguido de absolutamente nenhuma expressão ou gesto; os olhos fixados no laptop escondido atrás do balcão...Eu latina embasbacada, humilhada...Depois pensei: poderia ter dito Oui Madame, pardon...Pelo menos isso eu saberia dizer, mas não...virei-me ofendida; cabisbaixa fui embora. Poderia ter feito um barraco; ela não entenderia nada, mas quem sabe esboçaria algum movimento de face. A Francesa estava ali na minha casa e do outro lado do continente Europeu, e eu era obrigada a saber quem ela era, falar sua língua, ou no mínimo, não importuná-la naquele momento só dela, da Francesa. A grande divisória que nos separava aumentou ainda mais. O lado de lá do balcão sediava momentos antes, poucos momentos, a entrega de material para o III Simpósio Internacional de Lingüística. A tal pasta com os folhetos tinha acabado e fui reivindicá-los momentos depois. Talvez esse tenha sido meu erro; tudo mudou de lugar. Antes era ocupado por estudantes brasileiras, falantes fluentes do português...mas a Francesa ocupou o espaço momentos depois e eu tinha que saber que seu momento era único, ela era única, por isso, a resposta foi mínima, sem olhar ou movimento...Eu na posição dela, certamente, teria feito caras e bocas, esboçado gestos de sim e não, o que fosse necessário, sem contar a comiseração por não saber sua língua...O tema do encontro era Análise do Dircurso: emoções, ethos e argumentação. O ethos da Francesa falou mais alto e eu saí à francesa.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Viúva Ambrósia
Sol com chuva; casamento de viúva...Sol com chuva; casamento de viúva...Esse rifão mais parecido com uma cantinela, ciranda de gente grande, acompanhou toda a infância e adolescência de Carmem. Nunca houvera em toda a história dos tempos modernos uma família de tantas tias viúvas, como a de Carmem. Mas eram viúvas recidivas; enviuvavam, casavam, enviuvavam, casavam...Em uma delas, Ambrósia do Carmo, a viuvez parecia cármica. Já estava na quarta, mas não desistia nunca e confiava piamente no rifão gasto, mas certeiro do sol com chuva. A viúva era mesmo um manjar dos deuses aos olhos dos moçoilos de todas as idades e jeitos. Andava gingado, sempre de saias no joelho bem justas ou vestidinhos floridos, que sorriam junto com seu rebolar. O primeiro marido foi ajuntamento de conveniência, coisa de ‘desejos’ da família. Contraiu doença grave, irremediável, morreu. Ambrósia nem sentiu tanto. O segundo marido conhecera em um dia de finais de março, quando o sol teima em não se despedir e a chuva se intromete copiosa, exagerada. Nesses tempos de antagonismo harmonioso é que Ambrósia conheceu Adalberto. Tudo por culpa de uma carona de guarda-chuva e um roçar de braços adoráveis, a que eles se refeririam mais tarde como “sem malícias”. Adalberto como não poderia deixar de ser, morreu de solicitude junto com um ceguinho, a quem atrapalhadamente tentava dar os braços para atravessar a rua. Um carro virou à toda e não houve salvação. O terceiro, contrariando o rifão, veio em um dia de verão sem chuva mesmo, na sorveteria do Seu Amaro, numa paquera desenfreada, com lambidas insinuantes e uma aproximação cremosa, açucarada. As altas taxas de açúcar no sangue, potencializadas pelos sucessivos encontros para tomar sorvete, acabaram por levar Roque para o lado de lá. Os casamentos de Ambrósia, não se sabe o porquê, duravam pouco; assemelhavam-se a tramas novelescas de início e final marcado. O quarto esposo então; esse deu ao rifão todas as odes. Chamava-se Último o último. Casaram-se em um dia coroado de pingos de ouro de um dia 28 de março. Mas Ambrósia tinha medo mesmo era do nome Último, porque pelas estatísticas dos seus casamentos, a chance de encontrar um amor em dia de sol com chuva era mesmo grande, e nesses dias ela se esforçava mais nos caprichos da conquista. A sobrinha Carmem, já muito adiante da idade esperada de se casar, passava horas conversando com Tia Ambrósia. Quem sabe não pegava sua forma de ser e se livrava de inaugurar uma nova era na família, a das solteironas. E quem sabe o rifão Sol com Chuva não podia também ajudar no seu caso.
terça-feira, 25 de março de 2008
Brumas e Bruxas
Lembranças, às vezes, nenhumas;
Às vezes, algumas;
Ânsias;
Intrusas;
Sem tempo;
A qualquer tempo;
Lembrumas;
Do que se foi, saudades;
E não foi;
Enganos na mente;
Falhas;
Rasuras;
Rasas;
Profundas;
Por vezes, realidades;
Ficcionalidades;
Lembruxas.
Às vezes, algumas;
Ânsias;
Intrusas;
Sem tempo;
A qualquer tempo;
Lembrumas;
Do que se foi, saudades;
E não foi;
Enganos na mente;
Falhas;
Rasuras;
Rasas;
Profundas;
Por vezes, realidades;
Ficcionalidades;
Lembruxas.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Sonora Amargura
Tudo começou de madrugada, logo depois da ingestão forçada de uma imensa cápsula de tetraciclina. Lara nunca entendera o motivo de cápsulas tão gigantescas para cobrir uma quantidade ínfima de pó; só mesmo para agarrar na garganta, no esôfago e dar aquela sensação ilusória de que tamanho remédio, tamanha cura. O sono vinha, ela dormia. O sono ia, ela sentia aquela tetra volumosa, inconveniente, que não deslizava nem a poder de reza.
Finalmente aproximava-se as seis da manhã. Foi ao quarto da mãe se queixar da noite terrível, do estômago, enrolada no lençol e com travesseiro na mão. A mãe a olhou com a aquela cara de quem já conhecia a cena. ‘Lá vem essa menina...meu Deus o que será...ou vem por insônia ou dor...é sempre assim.’ - “Que que é Lara?” – “Passei uma noite de cão, tô passando muito mal, é o estômago; desse jeito como vou passar o dia, resolver tudo que preciso hoje? A cada ‘drama’ exposto um movimento doloroso na boca do estômago. – “Espera aí...vou preparar um chá de boldo.” Mãe é uma maravilha, e de filha dramática então, muito mais.
Veio então o famoso chá morninho, carregado pelas mãos solicitas de Rute. Adentrou o quarto e encontrou Lara sentada na beirada da cama com a costumeira cara de desespero; não pôde conter as gargalhadas. Enquanto isso, Lara esbravejava contra o sorriso fácil da mãe em face de tamanha tragédia. Pegou o copo e começou a engolir aos poucos. Não era nada fácil, os goles queimavam a cada escorregadela goela abaixo. Aquela amargura escorrendo e Lara cada vez mais amargurada. E Rute tranqüila, sempre crédula dos poderes mágicos do boldo; eles nunca falharam; não seria desta vez. E não foi mesmo. O estômago de Lara permaneceu meio dolorido por algumas boas horas, mas não tão indomável que a impedisse de realizar as tarefas do dia.
Boldo! Agora Lara percebia a sonoridade nem tanto amargurada do exclamar do Boldo. Boldamos nós, boldam vocês e segundo uma amiga de família de Lara, de muitos anos: “minha mãe sempre disse, se está se sentindo mal, toma Boldo, porque ele serve pra curar sete tipos de mal.” Coincidência ou não Naildes fez uma visita à casa de Lara exatamente na tarde depois da manhã terrível, em que seu estômago se contorcia, ardia, fazia nós.
O chá de Boldo foi parar até em página da Bíblia de Rute, justamente, em cima de uma oração que fazia referência a umas dores que ela sentia e não conseguia explicar. O restinho do líquido ficara sobre a mureta da janela do quarto e desabou sobre o livro sagrado no salmo 102, que dizia entre outras lamentações: “Pois meus dias desaparecem como fumaça; meus ossos queimam como ardor de brasa” e “Por causa do meu suspiro dolorido, meu osso adere em minha carne.” Rute deu por definitivo o milagre boldal e finalmente pôde levar o texto descritivo detalhado para a próxima consulta médica ortopédica.
Finalmente aproximava-se as seis da manhã. Foi ao quarto da mãe se queixar da noite terrível, do estômago, enrolada no lençol e com travesseiro na mão. A mãe a olhou com a aquela cara de quem já conhecia a cena. ‘Lá vem essa menina...meu Deus o que será...ou vem por insônia ou dor...é sempre assim.’ - “Que que é Lara?” – “Passei uma noite de cão, tô passando muito mal, é o estômago; desse jeito como vou passar o dia, resolver tudo que preciso hoje? A cada ‘drama’ exposto um movimento doloroso na boca do estômago. – “Espera aí...vou preparar um chá de boldo.” Mãe é uma maravilha, e de filha dramática então, muito mais.
Veio então o famoso chá morninho, carregado pelas mãos solicitas de Rute. Adentrou o quarto e encontrou Lara sentada na beirada da cama com a costumeira cara de desespero; não pôde conter as gargalhadas. Enquanto isso, Lara esbravejava contra o sorriso fácil da mãe em face de tamanha tragédia. Pegou o copo e começou a engolir aos poucos. Não era nada fácil, os goles queimavam a cada escorregadela goela abaixo. Aquela amargura escorrendo e Lara cada vez mais amargurada. E Rute tranqüila, sempre crédula dos poderes mágicos do boldo; eles nunca falharam; não seria desta vez. E não foi mesmo. O estômago de Lara permaneceu meio dolorido por algumas boas horas, mas não tão indomável que a impedisse de realizar as tarefas do dia.
Boldo! Agora Lara percebia a sonoridade nem tanto amargurada do exclamar do Boldo. Boldamos nós, boldam vocês e segundo uma amiga de família de Lara, de muitos anos: “minha mãe sempre disse, se está se sentindo mal, toma Boldo, porque ele serve pra curar sete tipos de mal.” Coincidência ou não Naildes fez uma visita à casa de Lara exatamente na tarde depois da manhã terrível, em que seu estômago se contorcia, ardia, fazia nós.
O chá de Boldo foi parar até em página da Bíblia de Rute, justamente, em cima de uma oração que fazia referência a umas dores que ela sentia e não conseguia explicar. O restinho do líquido ficara sobre a mureta da janela do quarto e desabou sobre o livro sagrado no salmo 102, que dizia entre outras lamentações: “Pois meus dias desaparecem como fumaça; meus ossos queimam como ardor de brasa” e “Por causa do meu suspiro dolorido, meu osso adere em minha carne.” Rute deu por definitivo o milagre boldal e finalmente pôde levar o texto descritivo detalhado para a próxima consulta médica ortopédica.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Quixote Pança; Sancho de La Mancha
Há algum tempo tento decifrar os segredos do cavaleiro andante e do escudeiro de Cervantes. Um cavaleiro triste, esquálido, sempre a sofrer arranhões e feridas de performances em batalhas imaginárias, e além de tudo eternamente apaixonado por Dulcinéia Del Toboso. Um escudeiro pançudo, ‘experimentando’ ser governador da Ilha Baratária. Os dois tão juntos; misturados na loucura ou na ilusão? Andam tão próximas essas duas; praticamente irmãs gêmeas. Dizem por aí que o que as separa é apenas o tempo. A loucura seria um estado permanente. A ilusão, inevitavelmente, refém da lucidez. Ou ainda, que a loucura seria uma sucessão de ilusões. Como andam juntas as duas, femininas e confidentes, a separação é mesmo improvável. Por loucura ou ilusão, La Mancha e Pança eram extremados, e o excesso é mesmo coisa da imaginação, posto que o equilíbrio se dá muito mais com a razão. Quando têm dores de amores, dizem as pessoas: “estava louco, foi pura ilusão.” E quando sonham com o sucesso, a felicidade plena, dizem: “isso não existe, a felicidade é pura ilusão.” Outro dia desses vi um andarilho fazendo um solilóquio, ou seria um diálogo imaginário? Ele se deliciava em gargalhadas e gestos exagerados, no seu mundo paralelo. E tem tanta gente aí que se delicia em pensamentos tresloucados, e as vemos tão comedidas, controladas. Vivemos assim, cercados por essas femininas deusas; Loucura, Ilusão e Razão. Todas as três desarazoadas, sustentáculos da existência, as responsáveis pela mistura da pândega e do comedimento, da alegria e da tristeza, das panças e manchas, dos Quixotes e Sanchos.
terça-feira, 11 de março de 2008
A luz de Vagner
Tem gente que faz a gente sorrir por dentro; que deixa a gente boquiaberto mesmo de boca fechada e que faz a gente pensar, pensar...e se encantar. Roberta nunca achara a profissão de motoboy das mais gratas. Pelo contrário, sempre pensara que “rimava” com caos, espaços estreitos, tempos corridos, contados, entrega isso, busca aquilo, quase sempre, sem sequer um olhar. Mas Vagner mudou tudo. Tornou-se em poucas semanas o preferencial no escritório onde ela trabalhava. Tinha uma delicadeza, um sorriso no rosto, que não vira em sua vida muitas vezes. Não era uma norma de comportamento. O sorrir era leve, fácil, sem nenhum esforço. A fala era baixa, pausada, sem os respiros da correria. Se demorava a chegar, desculpava-se. Vagner exalava gentileza, tanto que um dia ligou do correio e perguntou: o dinheiro que me deu não é suficiente para despachar a encomenda, quer que eu pague e depois acertamos? Luísa, que também trabalhava no escritório e atendera o telefone, ficou visivelmente afetada: Não Seu Vagner...pode não...o valor é alto...não tenho essa quantia no meu caixa. As meninas olharam umas para as outras, desta vez, boquiabertas de verdade. E esse foi só um dos episódios atenciosos de Vagner. Toda vez que o Vagner vinha, todos se sentiam tranqüilos pelo serviço bem feito, mas Roberta pensava: será que quem recebe as encomendas tem idéia de quem faz a entrega? Outro dia desses Roberta solicitou (era impossível mandar) a Vagner que levasse uma luminária. Ele demorou a chegar, pediu mil desculpas e se foi com o sorriso de sempre...Roberta sabia que o baú da moto de Vagner era uma espécie de compartimento do coração. Que o que Vagner levava jamais seria uma entrega qualquer. Que aquela luminária adquirira a partir daquele momento outra luz, a luz do gentil Vagner.
quarta-feira, 5 de março de 2008
O dia do Pacabá
Sacola cheia é uma agonia. Tem dia que chega tudo novinho, fresquinho. Tem dia que estraga; e dia de domingo estraga mais ainda. Os preços caem; tem gente que sabe.Tem gente que não sabe e presencia todo o ritual. Tem gente que participa, tem gente que olha. Foi assim com Dona Carmem e Lucinha, sua filha. Domingo é dia do “Pacabá”; não tem placa avisando, mas todo mundo vai lá encher a sacola. O dia ficou célebre depois que Toninho, funcionário mais comunicativo da rede ABC, virou porta-voz da promoção imperdível. Funciona assim: as bancas vão esvaziando com o preço do sacolão, mas têm frutas e legumes que por estarem fora de safra são cotados lá em cima e a banca fica cheia. Domingo já viu, até empregado de sacolão descansa um pouco, sai mais cedo. Resultado: tudo perece e o povo padece. Assim, Toninho ficava de olho no movimento das bancas até que escolhia estrategicamente o momento e gritava com aquele ar meio risonho, sarcástico, incitando a “boiada”: Vamo lá pessoal, uva itália por apenas um real o cacho, vamo lá gente, é Pacabá....O Pacabá entrava vertiginosamente nos ouvidos e todos se amontoavam. Era uva, pêra e cenoura baroa pra todo lado. As donas mais cheiinhas liderando, as mais magrinhas e tímidas, forjando uma educação pra lá de relativa, mas atordoadas por perderem a competição. E Carmem? Atrasada, decepcionada com a banca vazia, enquanto Lucinha balançava a cabeça horrorizada com a cena e dizia: já falei mãe, hoje não é dia de vir ao sacolão. Foi sempre assim; quando iam as duas, justamente, no Domingo, não aproveitavam o Pacabá, mas o resto dos ‘sacoleiros’ saíam orgulhosos da economia, de sacola cheia e cheios de esperança para o próximo Pacabá.
terça-feira, 4 de março de 2008
No bolo
Passamos olhamos não vemos
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Estátuas móveis móveis estátuas
Olhares harmônicos dissonantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
A objetiva mira registra
O existir frágil sem ágio
De sorriso largo apertado
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Estátuas móveis móveis estátuas
Olhares harmônicos dissonantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
A objetiva mira registra
O existir frágil sem ágio
De sorriso largo apertado
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
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