Olharam pra ela, profetizaram: “Noite”. Tinha pele escura feito sombra, cabelos e olhos negros, quase azulados. A menina era miudinha, estreita como o alcance da visão noturna. Traços finos, nariz aquilino, inquisidor da cor da noite. Era daquelas pessoas sem nuances, de uma definição precisa. Tinha temperamento discreto, sorriso alvo sem largura, comedido. Enquanto bem pequena não ligava; o nome era apenas uma representação sonora que lhe remetia, lhe sugeria a brincadeira, o alimento, a voz familiar.
Lá pelos idos dos sete anos de idade, a palavra, o nome, o seu nome começou soar estranho. Noite pensava na imagem da noite, no escuro, nas imagens sôfregas, imprecisas em busca de um pontinho de luz para se revelarem. Poderiam tê-la chamado Lua. Se fosse nova seria um pensamento. Se minguante, um apelo. Se crescente, um alento. Se cheia, contentamento. Nunca conhecera ninguém que se chamasse Noite, mas não via nessa originalidade nada de vantajoso. Ainda se fosse Dia, terminava como Maria e iniciava com a luz do sol. Não ligava também de ser Sol. Mas já tinha aquela sensação do nome, que pega a gente misteriosamente; não se via Lua, Dia, nem Sol. Tinha medo mesmo era de se confundir com a noite, se misturar nela, e nunca mais a encontrarem.
Quem deu o nome foi o pai; mineiro, colocava poesia em tudo. Jovelino achava a noite muito mais interessante que o dia. Achava que mistério da noite era mistério nada, era sim uma hora de escutar o silêncio, de enxergar com agudez, de dançar tango, bolero, de cortejar moças, de sonhar histórias reveladoras. Não pensou fosse constranger Noite com as perguntas e observações descabidas: “Ela se chama noite? Como pode se chamar assim?” Um dia Noite, já adolescente, recebeu um verso que dizia: “Se não chamasse Noite não seria Noite; Noite que me encanta, que me nina, que me afaga. Se não fosse Noite, quem seria?” Não soube quem mandou. Porém, desde esta data Noite soou de outra forma. Não compreendera completamente a escolha do pai Jovelino, mas sentiu uma ligação profunda com a noite, com o pai, com aquela invenção que se tornara real, ela era “Noite”; não havia nenhuma impropriedade nem sofreguidão nisto.
Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
'Cenimétricas'
Desceu as escadas, doze degraus, três metros e meio. Abriu o portão, saiu, fechou; milímetros. Virou à direita, subiu, trinta metros. Deparou-se com uma castanheira gigante, de tronco abraçado por colar de flores. Parou, leu a árvore, as flores, o dizer no bilhete desenhado, a súplica de oração pela árvore. Observou, sorriu no coração, orou por centímetros de tempo. Apressou o passo, virou à direita de novo, subiu de novo, dez metros. Atravessou a primeira rua, andou mais um pouco, quase metro. Atravessou a segunda rua, caiu na praça, fez um quase meio círculo e deu de frente para a banca de revista, escondeu-se da rua por milímetros de segundo. Ouviu o motor do ônibus, correu centímetros. Não era o ônibus, era o caminhão da Nestlé, fez curva, ganhou a reta, confundiu sem intenção. Depois veio o caminhão Alimentos Pachá, passou, sumiu. Sentou-se no banco coberto, bem no meio, espaços largos à direita, à esquerda. Chegou alguém, disse boa tarde, sentou-se ofegante, queixou-se do morro íngreme, agudíssimo, longuíssimo. Concordaram e olharam para a pomba ciscando no meio da rua. Não voava, dava corridinhas, rebolava a cada carro; voltava centimétricamente insistente pelo cisco. Chegou o ônibus; deu o sinal, subiu, pagou, sentou, deixou árvore, caminhão, pomba, cenimétricos para trás.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
Lantana sedutora
Beija-flor adora flor de lantana,
Lantana multicor,
De matizes incontáveis;
Pequeno buquê de lantana,
Lânguido,
Mentolado,
Amarelado,
Alaranjado,
Avermelhado;
Rosado;
E o bico do beija-flor,
Comprido,
Delicado,
Lá dentro da florzinha,
Sugando mel;
Pequenina lantana,
Sedutora lantana;
Beijo do beija-flor,
Na flor de lantana.
Lantana multicor,
De matizes incontáveis;
Pequeno buquê de lantana,
Lânguido,
Mentolado,
Amarelado,
Alaranjado,
Avermelhado;
Rosado;
E o bico do beija-flor,
Comprido,
Delicado,
Lá dentro da florzinha,
Sugando mel;
Pequenina lantana,
Sedutora lantana;
Beijo do beija-flor,
Na flor de lantana.
quarta-feira, 2 de julho de 2008
"Mora ao lado?"
A morte mora ao lado?
Não, ela está de frente,
Escancarada, na casa da frente;
Ficou lá durante uns três dias,
Rondando o ar que ela respirava,
Tirando a força de suas pernas,
O controle de seus músculos,
Estava lá pra dizer que o esquecimento é amigo da morte,
Do esquecimento que faz o tempo ser malvado,
Esse tempo, o outro tempo,
O tempo amante da solidão e da morte,
Do desinteresse pelo outro,
Tão perto, na presença discreta,
Na vida,
Na luz de penumbra refletida na janela;
A vida escassa, se dispersando,
Até que alguém arromba a porta,
Descobre excrementos, secreções,
Sinais da vida que não quer escapulir,
Gritos com seus cheiros fortes, revoltos,
Chega o socorro,
Levam a vida de maca,
Para retomar as luzes acesas,
As rotinas higiênicas,
A vida sugada pela morte.
Não, ela está de frente,
Escancarada, na casa da frente;
Ficou lá durante uns três dias,
Rondando o ar que ela respirava,
Tirando a força de suas pernas,
O controle de seus músculos,
Estava lá pra dizer que o esquecimento é amigo da morte,
Do esquecimento que faz o tempo ser malvado,
Esse tempo, o outro tempo,
O tempo amante da solidão e da morte,
Do desinteresse pelo outro,
Tão perto, na presença discreta,
Na vida,
Na luz de penumbra refletida na janela;
A vida escassa, se dispersando,
Até que alguém arromba a porta,
Descobre excrementos, secreções,
Sinais da vida que não quer escapulir,
Gritos com seus cheiros fortes, revoltos,
Chega o socorro,
Levam a vida de maca,
Para retomar as luzes acesas,
As rotinas higiênicas,
A vida sugada pela morte.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
"Goiabinha"
Nunca pensei fosse encontrar em São Paulo o “Goiabinha”. Foram centenas, de casca durinha, no estilo mais caseiro; aquele doce molinho em porções quase diminutas, caprichosamente envolvidas em trigo e muito carinho. Cada um uma cara, não de feitio totalmente regular, mas de uma individualidade pensada, delicada, distante do mundo das fábricas. As mãos moradoras paulistanas que conheci, ainda guardam o jeito mineiro das goiabas, dos quintais, das cozinhas aquecidas e cheirosas. Tudo sem complicação, de um comum incomum; comida de coração, pegada no fogão, lembrança do chão.
domingo, 1 de junho de 2008
"E agora José?"
Ele nasceu em um lugarejo chamado Tabocas, distrito de Rio Grande, pertencente ao município de Floriano, Estado do Piauí. “Morávamos em uma casa coberta de capim”, conta José Alves da Silva. Durante a conversa que tivemos, ele permaneceu de olhos baixos quase todo o tempo, como se um filme estivesse passando em sua mente. A voz firme, só algumas vezes saía embargada. Pequenino, mais ou menos 1,65 de altura, 69 anos, cabelos grisalhos, fronte ampla e uma postura de elegância invejável.
O Alves ou Zeca, como sempre foi chamado, diz não ter nenhuma saudade do lugar onde nasceu. “Minha infância foi de muita pobreza, não existia espaço para brincar, havia muita doença e nenhum atendimento médico”. Para Zeca, o que mais marcou sua fase de menino foram as constantes brigas entre seus pais. Permaneceu na roça até os 10 anos de idade, quando foi estudar na cidade de Floriano. Ficou hospedado na casa de um amigo de seu pai. Esse amigo possuía várias propriedades.
A adolescência quase não existiu. Enquanto concluía o curso primário, trabalhava em mais de 30 fazendas, viajando e fiscalizando o trabalho dos vaqueiros até completar os 14 anos de idade. Nesse tempo, voltou para o campo. Chegando lá, a família recebeu a visita de um primo chamado “Odaque”, filho do “Zuca”. O visitante observou que Zeca era um menino muito inteligente e que era um desperdício ele ficar na roça. Então, resolveu levar o menino para Anápolis, no Estado de Goiás, para terminar os estudos.
Em Anápolis, Zeca conseguiu um emprego na loja de “Tecidos Buri S. A.” e fez o Exame de Admissão para ingressar no curso ginasial. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. “O sonho de todo estudante em Goiás era estudar em Belo Horizonte”, conta Zeca. O pai de um dos hóspedes da pensão onde Zeca morava, tinha uma casa na rua Iguaçu, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. Em 24 de dezembro de 1954, Zeca chega no aeroporto da Pampulha.
Ficou uns 10 dias no bairro Concórdia e depois foi morar no Edifício “Balança mas não cai”, na rua Tupis, 749, onde moravam vários estudantes do Piauí. “Eu me sentia em casa”. Matriculou-se no Colégio Anchieta para cursar o Científico. Dentro de um mês, o estudante piauiense se empregou na Mesbla S.A., “uma das firmas mais importantes do país”. Começou como vendedor na seção de artigos eletrônicos. Três meses mais tarde, com 20 anos de idade, já era chefe do setor de eletrônicos. Coordenava funcionários de 40 a 50 anos de idade, com anos de serviços prestados à empresa.
“Você, todo de terno branco, aqui nessa loja empoeirada! Você merece coisa melhor,” diziam os companheiros de trabalho da Importadora Mesbla. Ele dizia: “Eu dou todo o meu esforço”. O “Senhor Alves” foi convidado para ser chefe de departamento. Para isso teria que abandonar os estudos, já que iria fazer viagens. Ele aceitou e teve um bom aumento no salário. Nessa época, lembrou-se da família que deixara no nordeste. “Meu irmão Pedro que estava muito bem financeiramente, mandou buscar meus pais e meus outros sete irmãos para morar em Anápolis.” Seis meses depois de morar em Goiás, a família de Zeca voltou para o Piauí. Pedro alegava dificuldade de adaptação dos familiares, uma vez que ele só “freqüentava a alta sociedade.”
“Eu estava morando no Hotel Majestique, rua Espírito Santo com Caetés, quando resolvi trazer minha família para Minas. Aluguei um barracão em Santa Tereza e trouxe meus pais e meus irmãos, todos com menos de 15 anos. Continuei trabalhando na Mesbla e meu pai começou a trabalhar, primeiramente, como feirante." Depois, Zeca alugou um ponto na Rua Amianto com Pouso Alegre, em Santa Tereza, onde montou um bar para o pai. Assim os dois puderam cuidar da família.
Enquanto isso, o irmão de Zeca “quebrou” em Anápolis devido à bebida. Quando chegou a Belo Horizonte, Zeca propôs que ele retornasse e trouxesse um capital para que os dois se estabelecessem no ramo do comércio de cereais na capital Mineira. Passados dois anos, o irmão retornou e eles fundaram a Cerealista Irmãos Alves, na rua dos Guaicurus. A empresa se tornou uma das mais importantes firmas de atacado de cereais do Estado.
"Ganhamos um bom dinheiro, fechamos a cerealista e aplicamos todo o capital em ações. O mercado de ações sucumbiu durante o governo Sarney e nós perdemos todo o recurso financeiro que tínhamos. Pedro precisou voltar ao trabalho e eu hoje sou aposentado e não dependo de ninguém,” conta Zeca. E agora José? Agora José, solteiro, pai de todos seus irmãos, diz que é uma pessoa feliz e de muita coragem. Essa pergunta foi feita a ele em todos os momentos de sua vida e ele não se calou.
O Alves ou Zeca, como sempre foi chamado, diz não ter nenhuma saudade do lugar onde nasceu. “Minha infância foi de muita pobreza, não existia espaço para brincar, havia muita doença e nenhum atendimento médico”. Para Zeca, o que mais marcou sua fase de menino foram as constantes brigas entre seus pais. Permaneceu na roça até os 10 anos de idade, quando foi estudar na cidade de Floriano. Ficou hospedado na casa de um amigo de seu pai. Esse amigo possuía várias propriedades.
A adolescência quase não existiu. Enquanto concluía o curso primário, trabalhava em mais de 30 fazendas, viajando e fiscalizando o trabalho dos vaqueiros até completar os 14 anos de idade. Nesse tempo, voltou para o campo. Chegando lá, a família recebeu a visita de um primo chamado “Odaque”, filho do “Zuca”. O visitante observou que Zeca era um menino muito inteligente e que era um desperdício ele ficar na roça. Então, resolveu levar o menino para Anápolis, no Estado de Goiás, para terminar os estudos.
Em Anápolis, Zeca conseguiu um emprego na loja de “Tecidos Buri S. A.” e fez o Exame de Admissão para ingressar no curso ginasial. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. “O sonho de todo estudante em Goiás era estudar em Belo Horizonte”, conta Zeca. O pai de um dos hóspedes da pensão onde Zeca morava, tinha uma casa na rua Iguaçu, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. Em 24 de dezembro de 1954, Zeca chega no aeroporto da Pampulha.
Ficou uns 10 dias no bairro Concórdia e depois foi morar no Edifício “Balança mas não cai”, na rua Tupis, 749, onde moravam vários estudantes do Piauí. “Eu me sentia em casa”. Matriculou-se no Colégio Anchieta para cursar o Científico. Dentro de um mês, o estudante piauiense se empregou na Mesbla S.A., “uma das firmas mais importantes do país”. Começou como vendedor na seção de artigos eletrônicos. Três meses mais tarde, com 20 anos de idade, já era chefe do setor de eletrônicos. Coordenava funcionários de 40 a 50 anos de idade, com anos de serviços prestados à empresa.
“Você, todo de terno branco, aqui nessa loja empoeirada! Você merece coisa melhor,” diziam os companheiros de trabalho da Importadora Mesbla. Ele dizia: “Eu dou todo o meu esforço”. O “Senhor Alves” foi convidado para ser chefe de departamento. Para isso teria que abandonar os estudos, já que iria fazer viagens. Ele aceitou e teve um bom aumento no salário. Nessa época, lembrou-se da família que deixara no nordeste. “Meu irmão Pedro que estava muito bem financeiramente, mandou buscar meus pais e meus outros sete irmãos para morar em Anápolis.” Seis meses depois de morar em Goiás, a família de Zeca voltou para o Piauí. Pedro alegava dificuldade de adaptação dos familiares, uma vez que ele só “freqüentava a alta sociedade.”
“Eu estava morando no Hotel Majestique, rua Espírito Santo com Caetés, quando resolvi trazer minha família para Minas. Aluguei um barracão em Santa Tereza e trouxe meus pais e meus irmãos, todos com menos de 15 anos. Continuei trabalhando na Mesbla e meu pai começou a trabalhar, primeiramente, como feirante." Depois, Zeca alugou um ponto na Rua Amianto com Pouso Alegre, em Santa Tereza, onde montou um bar para o pai. Assim os dois puderam cuidar da família.
Enquanto isso, o irmão de Zeca “quebrou” em Anápolis devido à bebida. Quando chegou a Belo Horizonte, Zeca propôs que ele retornasse e trouxesse um capital para que os dois se estabelecessem no ramo do comércio de cereais na capital Mineira. Passados dois anos, o irmão retornou e eles fundaram a Cerealista Irmãos Alves, na rua dos Guaicurus. A empresa se tornou uma das mais importantes firmas de atacado de cereais do Estado.
"Ganhamos um bom dinheiro, fechamos a cerealista e aplicamos todo o capital em ações. O mercado de ações sucumbiu durante o governo Sarney e nós perdemos todo o recurso financeiro que tínhamos. Pedro precisou voltar ao trabalho e eu hoje sou aposentado e não dependo de ninguém,” conta Zeca. E agora José? Agora José, solteiro, pai de todos seus irmãos, diz que é uma pessoa feliz e de muita coragem. Essa pergunta foi feita a ele em todos os momentos de sua vida e ele não se calou.
Do Galba
Estava lá. Grandalhona, espalhada, enviesada na calçada do quarteirão do quartel. Roupa colada nos membros inferiores, cobrindo-os só até os joelhos. Blusa curta com folga, menos no abdômen protuberante. Antebraço ralado com sangue já coalhado de listras em alto relevo, irregulares. Passaram uma, duas, três pessoas; uns de olhos estatelados e pescoços girados voltados para baixo; outros, só viravam os olhos. Parar mesmo...só a quarta de cabelo pretinho, curtinho, com um cãozinho Dachshund na coleira, também pretinho; cara de uma, focinho de outro. Perguntou: - Posso ajudar? Os olhos entreabertos, prestes a fechar de vez, em vão buscavam a imagem da “moça Dach”, até que balbuciou um gemido. Depois veio a quinta pessoa; cabelos longos, apressada; parou assim mesmo. Não havia como rejeitar uma imagem tão indiscreta. Acertaram então as duas: chamar um policial, afinal de contas, era território deles.
Lá se foi então Mônica, a dona do lingüicinha, em direção à guarita do quartel. Chegando lá deparou-se com um policial fardado, de quepe, sentado com olhar no vazio. – Por favor senhor...tem uma mulher caída no chão, logo ali...pode ajudar? – Agora não posso. Enquanto isso, Marta tentava obter alguma informação, mas sem sucesso. Até que percebeu que na mão da “criatura” havia um papel enrolado, e sobre ele o nome DORA, em caneta pincel azul. De repente a mão da moça começou a desenrolar o papel e o conteúdo veio à tona: seis comprimidos, de tamanhos e cores variadas. Foi quando chegou Mônica e disse que o policial não viria. Marta visivelmente perturbada esteve a ponto de arrumar uma confusão com a polícia, e manifestou sua indignação: - Pra que serve ter um quartel aqui? Decidiu, então, que ia lá falar com o policial de novo. Chegou nesse momento mais um grupo de três mulheres; todas manifestaram o interesse em ajudar. Uma delas se prontificou e foi na frente de Marta...Desta vez o milita não teve salvação. Veio com aquela cara de Meu deus eu mereço, mas veio.
Curiosamente, a chegada do guarda deixou a moça bem mais interativa. – Onde você mora? perguntou Orestes. - Na lagoinha... – Você quer ir pra onde? – Para o Pronto Socorro, João XXIII; e apenas três dentes espaçados na boca. Marta interveio: - Tem uns remédios com ela. – Você quer ir para o Raul Soares? destilou “brilhantemente” Orestes. – Não...para o Galba...- Quer ajuda para assentar? – Sim. Orestes não só ajudou a moça a aprumar o corpo em posição de assento, como levantou-a com certa dificuldade...- Uma viatura leva você...Seguiram os dois; Orestes um pouco mais atrás verificou com olhar fixo o volume e a consistência das ancas da moça. Marta pensou: - Será que fizemos a coisa certa? Imaginou na seqüência cenas nem tão amenas, mas que aquela que vira não se repetiria tão facilmente. Enganou-se. Ao passar alguns dias depois pelo mesmo lugar, estava lá a Moça do Galba num diálogo, nem tão amigável, com um guarda. Ele dizia: esse negócio de levá-la até o Galba já está virando brincadeira...
Lá se foi então Mônica, a dona do lingüicinha, em direção à guarita do quartel. Chegando lá deparou-se com um policial fardado, de quepe, sentado com olhar no vazio. – Por favor senhor...tem uma mulher caída no chão, logo ali...pode ajudar? – Agora não posso. Enquanto isso, Marta tentava obter alguma informação, mas sem sucesso. Até que percebeu que na mão da “criatura” havia um papel enrolado, e sobre ele o nome DORA, em caneta pincel azul. De repente a mão da moça começou a desenrolar o papel e o conteúdo veio à tona: seis comprimidos, de tamanhos e cores variadas. Foi quando chegou Mônica e disse que o policial não viria. Marta visivelmente perturbada esteve a ponto de arrumar uma confusão com a polícia, e manifestou sua indignação: - Pra que serve ter um quartel aqui? Decidiu, então, que ia lá falar com o policial de novo. Chegou nesse momento mais um grupo de três mulheres; todas manifestaram o interesse em ajudar. Uma delas se prontificou e foi na frente de Marta...Desta vez o milita não teve salvação. Veio com aquela cara de Meu deus eu mereço, mas veio.
Curiosamente, a chegada do guarda deixou a moça bem mais interativa. – Onde você mora? perguntou Orestes. - Na lagoinha... – Você quer ir pra onde? – Para o Pronto Socorro, João XXIII; e apenas três dentes espaçados na boca. Marta interveio: - Tem uns remédios com ela. – Você quer ir para o Raul Soares? destilou “brilhantemente” Orestes. – Não...para o Galba...- Quer ajuda para assentar? – Sim. Orestes não só ajudou a moça a aprumar o corpo em posição de assento, como levantou-a com certa dificuldade...- Uma viatura leva você...Seguiram os dois; Orestes um pouco mais atrás verificou com olhar fixo o volume e a consistência das ancas da moça. Marta pensou: - Será que fizemos a coisa certa? Imaginou na seqüência cenas nem tão amenas, mas que aquela que vira não se repetiria tão facilmente. Enganou-se. Ao passar alguns dias depois pelo mesmo lugar, estava lá a Moça do Galba num diálogo, nem tão amigável, com um guarda. Ele dizia: esse negócio de levá-la até o Galba já está virando brincadeira...
sexta-feira, 30 de maio de 2008
'Chats'
Les Chats, Os Gatos;
Os Gatos, Les Chats;
‘Doçuras e poderes’,
Baudelairianos,
Outros anos;
Esses anos,
Reinventamos;
Os Chats,
Conversamos,
Les Chats, Os Gatos,
Les Gatos, Os Chats,
Seduzidos,
Amamos,
Intrigamos,
Chatos, chats, cats,
Gatos de unhas e dentes,
Pêlos escondidos;
Impenetráveis Les chats,
Baudelairianos ‘olhos místicos’;
Passos na escuridão.
“Les Chats” (Os Gatos) de Charles Baudelaire:
http://fleursdumal.org/poem/155
Os Gatos, Les Chats;
‘Doçuras e poderes’,
Baudelairianos,
Outros anos;
Esses anos,
Reinventamos;
Os Chats,
Conversamos,
Les Chats, Os Gatos,
Les Gatos, Os Chats,
Seduzidos,
Amamos,
Intrigamos,
Chatos, chats, cats,
Gatos de unhas e dentes,
Pêlos escondidos;
Impenetráveis Les chats,
Baudelairianos ‘olhos místicos’;
Passos na escuridão.
“Les Chats” (Os Gatos) de Charles Baudelaire:
http://fleursdumal.org/poem/155
quarta-feira, 28 de maio de 2008
'Obscenidade'
Obsceno não é o menino com dedo em riste,
De sorriso maroto sarcástico,
E destino esquecido;
Obscena é a presença,
Até na ausência;
É a cena continuada,
Mesmo na mente,
Que de tão inconveniente,
Faz-se necessária,
Parasitária.
De sorriso maroto sarcástico,
E destino esquecido;
Obscena é a presença,
Até na ausência;
É a cena continuada,
Mesmo na mente,
Que de tão inconveniente,
Faz-se necessária,
Parasitária.
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Chamava-se
Nasceu com facilidade. Todos ficaram abobados com um parto tão natural e eficiente. Gonçala sentiu aquelas pontadas anunciadoras, deitou-se na cama e a criança apressada já se insinuou por entre suas pernas; escorregou imersa naquela baba sanguinolenta com uma rapidez assustadora. Mas no rosto da recém-nascida não havia nenhum sinal de pressa, e sim um tom azulado, desmaiado, plácido ao extremo. Todos que acompanharam o nascimento esperavam um bebê quase desesperado, que iria urrar sem parar com ou sem tapinha. Tia Gardênia, a aprendiz de parteira, não teve uma experiência das mais instrutivas, tamanha a fluidez do acontecimento, mas cuidou de olhar bem para aquela carinha lívida e sugerir um nome. Achava no tom de pele e nos traços preguiçosos um quê de lirismo insistente. Então, lembrou-se dos lírios, presentes do namorado Rosalvo. Mas como não podia ser Lírio, convenceu Gonçala de que Líria era um nome adorável, pois remetia aos lírios do campo, tinha ares femininos e delicados. A criança cresceu envolta em atenção e proteção. Na adolescência idealizou rapazes, sonhou príncipes e amor eterno. Posto que nenhum dos ideais tornaram-se realidade, a moça Líria pôs-se resoluta em conhecer o lado mais prático, instintivo dos encontros. Foi quando conheceu Jaime, moço obtuso, de cabelos compridos, ligeiramente ondulados e assanhados, mandíbulas fortes, quadradas, quase eqüinas. A despeito de caracteres tão masculinos, os músculos eram discretos, sem grandes proeminências; um corpo imberbe, um rosto duro, pré-histórico. Marcaram um encontro em uma cidade de nome rimado com poema, mas que fora o ar interiorano, não tinha nada de poética. O quarto ficava em um hotelzinho simples e da janela dava para ver os limites do vale onde estavam; vale sem frescor, sem lírios. Os olhos de Jaime percorriam Líria com curiosidade, sem nenhum afeto. Dizia que nunca havia gostado de ninguém e que, certamente, não seria desta vez. Sem lirismo, mas sem agressividade, Jaime retirou lentamente as roupas de Líria e olhou -a ávido, de nervos a artérias tensas, prestes a explodir. Enquanto isso, Líria contemplava Jaime e se concentrava para o início e o desfecho da cena. Procurava nele o frescor dos campos, o olhar consentido. Passaram dois dias completos se rodeando, nus, de almas incompreendidas, numa constante interrogação. Líria voltou para casa; não viu Jaime mais. Com o passar dos anos seu rosto corou, perdeu a lividez. Desde aquele encontro ela temeu reconhecer desafetos, arriscar-se em momentos forjados; assumiu de vez a evocação de tia Gardênia, inscrita no seu nome.
terça-feira, 20 de maio de 2008
Anonimato
O anonimato não está no mato
Está no ato
No passeio-cimento
Dito civilizado
Na fala e no gesto
No relance
No susto passante
No ouvido errante
“- Cara... outro dia desses um chegado meu foi lá em casa.
Fiquei bobo! Já tem dois filhos e só tem vinte anos. E sabe
o que é pior? A mulher dele é feia feito o diabo.”
Está no ato
No passeio-cimento
Dito civilizado
Na fala e no gesto
No relance
No susto passante
No ouvido errante
“- Cara... outro dia desses um chegado meu foi lá em casa.
Fiquei bobo! Já tem dois filhos e só tem vinte anos. E sabe
o que é pior? A mulher dele é feia feito o diabo.”
quarta-feira, 14 de maio de 2008
"Brucutu"
Brucutu. Vocábulo cheio de “us”, fortes “us”, naturalmente agudos. A palavra veio numa sugestão de vídeo, num e-mail encaminhado por um amigo. O termo contempla várias acepções, desde o midiático global "Brucutu Garanhão" de uma novela das sete, até o carro Blindado da Ditadura Militar, o "Brucutu Camburão". E para maior surpresa, é nome também de música do cantor Roberto Carlos, uma referência ao “Brucutu das Cavernas”: “Olha o Brucutu, Bru-cu-tu! Nas histórias em quadrinhos, Das revistas, dos jornais...- Olha o Brucutu, Bru-cu-tu!” Poderíamos aventar um “Brutus Brucutu”, adversário do espinafrado herói Popeye dos animados televisivos. Contudo, o mote do vídeo não era nenhum desses “Brucutus”, mas a validade da fé de alguns frente à vaidade de outros. A grande personagem é mesmo a “Mina de Brucutu”, proeminente preposto minerador, que decidiu inundar de rejeitos o Vale da Serra do Tamanduá, localizado no município de São Gonçalo do Rio Abaixo, em Minas Gerais. Tamanha é a capacidade de espoliação da mina, tamanha sua produção de restos insustentáveis, tamanha sua grandiosidade frente à população espoliada na paisagem, no ar, na história inscrita na rocha e marcada no solo, na lembrança e nos ritos que ali têm lugar; não poderia deixar de ser a personagem, tal qual, um dia, Émile Zola retratou tão bem em "Germinal". O célebre livro "As Veias Abertas da América Latina", do historiador Eduardo Galeano, continua inacabado, tão poderosas são as minas, a esfacelar nossas terras, nossos eus.
O vídeo:
http://br.youtube.com/watch?v=tU0HH7fW2zk
O vídeo:
http://br.youtube.com/watch?v=tU0HH7fW2zk
quinta-feira, 8 de maio de 2008
Um lugar no antes
Velozmente,
Bate o coração;
Involuntário,
Mio,
Cárdio,
Bomba,
Explosão!
Vertigem!
Oração!
Deus! Nossa senhora!
Todos os santos!
Louvação!
Acabam de nascer,
Asas na solidão!
Estão em queda,
As cores da razão!
Lusco-fusco,
Imprecisão!
Nem lua,
Nem sol;
Riso,
Dor,
Clamor!
Clarabóia,
Extintor,
Onde estarão?
No alto,
No profundo,
Na folha sob a brisa?
Redemoinho,
Inspiração,
Oxigênio!
Bate à porta lucidez!
Não tem chave!
Ficou tudo escondido,
No fundo do mar,
No susto do naúfrago,
No teto azul,
De pássaros,
De vôos!
Bate o coração;
Involuntário,
Mio,
Cárdio,
Bomba,
Explosão!
Vertigem!
Oração!
Deus! Nossa senhora!
Todos os santos!
Louvação!
Acabam de nascer,
Asas na solidão!
Estão em queda,
As cores da razão!
Lusco-fusco,
Imprecisão!
Nem lua,
Nem sol;
Riso,
Dor,
Clamor!
Clarabóia,
Extintor,
Onde estarão?
No alto,
No profundo,
Na folha sob a brisa?
Redemoinho,
Inspiração,
Oxigênio!
Bate à porta lucidez!
Não tem chave!
Ficou tudo escondido,
No fundo do mar,
No susto do naúfrago,
No teto azul,
De pássaros,
De vôos!
Rio
Um velho andava,
Um velho e sua mente,
Trazia cãs e escamas de peixe,
Era um rio;
Cada choque na rocha,
Um tilintar nos ouvidos;
Uma lembrança,
Um recomeço;
As margens despencando,
Assoreando;
E o velho?
Amontoado,
Receptáculo;
O correr sem fim;
A matéria fluida;
Inevitavelmente sem freio;
Um recuo impossível.
Um velho e sua mente,
Trazia cãs e escamas de peixe,
Era um rio;
Cada choque na rocha,
Um tilintar nos ouvidos;
Uma lembrança,
Um recomeço;
As margens despencando,
Assoreando;
E o velho?
Amontoado,
Receptáculo;
O correr sem fim;
A matéria fluida;
Inevitavelmente sem freio;
Um recuo impossível.
domingo, 4 de maio de 2008
Dendera
Às vezes sinto saudades, aquelas alegres, de lembranças boas, vivas ainda. Sinto também “sôdades”, de lembranças apertadas, do querer bem que não está mais por perto. Em noites de insônia, tenho a nítida impressão de que ela está em algum canto da casa, com seus olhos enormes, profundos. Ela chegou pequenina lá em casa, rajadinha, barrigudinha, apinhada de pulgas. Toda vez que dávamos a ela mingau de fubá, ela espumava copiosamente com aquela cara de falecimento iminente, numa tristeza profunda. Aparecida, uma vizinha e amiga, vinha a nossa casa e dizia: “ela tá magrinha demais; tem que dar muito mingau para ela”. Que idéia! Curiosamente, Dendera custou revelar seus dotes felinos; morria de medo de pular; não para o alto, mas para baixo; dava-lhe aquela sensação de vertigem, talvez a mesma da mistura desastrosa do leite com o fubá. Mas depois que começou suas aventuras de escaladora, era bagulho de estante caindo no chão; eu e mamãe ralhando; e pior, escondia-se atrás da porta, na surdina para agarrar nossos tornozelos.
Cresceu, as rajas alargaram; ela clareou de vez, tanto que começou suas incursões pelos muros, suas caçadas a pardais, borboletas e até asquerosas baratas. A gente ficava indignada: “Como pode Denda, fazer uma coisa dessas; coitada da borboleta, tão linda...” Quando era barata: “Que nojo Dendera; faz isso não!” A infância foi assim, cheia de peripécias, corridas de arrepiar o pêlo e enrolar a cauda, naquele estilo pra lá de descontraído, cheio de charme. No tempo de moça, foi um tormento. Os cios eram agitados; os olhos vidrados; bastava um trisco no corpo para soltar o gemido. Chegou até a se encontrar com um vira-lata em uma construção perto lá de casa. Retornava com os dedos da patas colados de cimento, com aquele ar de gozo eterno e de ‘ele vai vir atrás de mim’. O sem-vergonha não vinha e Dendera sofria; a gente indignada com aquele amor vagabundo e aquelas reações escandalosas. Mamãe dizia: “Uma gata tão bonita dessas cruzando com vira-lata...” Tudo só ficou mais ou menos resolvido quando adotamos o Lu; esse era garanhão de primeira. Com seis meses já deu um sossego relativo nela. Mas ela tinha uma má vontade danada com ele; o gozo era discreto. Resumindo: a coisa era meio forçada. Deduzimos então que ela tinha gosto mesmo era pelos vira-latas. O primeiro parto foi meio atabalhoado, desajeitado. Dendera levava aquelas bolinhas de pêlo pra nossa cama como que pra fazer festa. Nas próximas crias, não sei se por ciúmes ou madureza, resguardava-os mais, ficava esticadinha na caixinha, e tinha um prazer imenso naquelas boquinhas desdentadas e naquelas unhinhas frenéticas no seu abdômen. Os veterinários diriam: “essa tem mesmo habilidade materna”. Nós dizíamos: “ela é uma ótima mãe”.
Os anos se passaram, muitos cios e crias. Em casa era uma festa de gatinhos fazendo estripulias. O amor da Dendera pela mamãe aumentando, tanto que dormiam até juntas; uma esticada do lado da outra, e eu dizia que era o ‘casal vinte’ da casa. Era um afeto tranqüilo, sem arroubos. Já o meu por ela, era exagerado, forçado, a gente brigava feito algumas irmãs. Agarrava Denda à força pra dar aqueles beijos estalados e ela rosnava para mim na sua maneira gatuna, exibindo os caninos e louca para me enfiar a unha. Mas pensava duas vezes ‘essa menina é doida coitada’ e não fazia nada. Quando a colocava no chão abanava o rabo meio nervosa e eu falava com a mamãe: Ta vendo mãe; ela gosta de mim...sei que ela gosta...Nunca tive certeza. Os últimos dias foram tristes. Denda foi acometida por uma virose muito grave e todas as tentativas de salvá-la foram vãs. Teve desespero no último dia, não queria morrer perto da gente. Mas foi embora e deixou-me pensamentos e sabedorias, embora muitos eu ainda não saiba usar. Sabia viver com uma naturalidade invejável, cultivou por minha mãe um sentimento nobre, sem egoísmos, mas de uma possessão delicada. Denda no início tinha medo do pulo do gato, mas depois foi mestre, nos mostrou que o pulo a gente dá aos poucos, na espreita.
Cresceu, as rajas alargaram; ela clareou de vez, tanto que começou suas incursões pelos muros, suas caçadas a pardais, borboletas e até asquerosas baratas. A gente ficava indignada: “Como pode Denda, fazer uma coisa dessas; coitada da borboleta, tão linda...” Quando era barata: “Que nojo Dendera; faz isso não!” A infância foi assim, cheia de peripécias, corridas de arrepiar o pêlo e enrolar a cauda, naquele estilo pra lá de descontraído, cheio de charme. No tempo de moça, foi um tormento. Os cios eram agitados; os olhos vidrados; bastava um trisco no corpo para soltar o gemido. Chegou até a se encontrar com um vira-lata em uma construção perto lá de casa. Retornava com os dedos da patas colados de cimento, com aquele ar de gozo eterno e de ‘ele vai vir atrás de mim’. O sem-vergonha não vinha e Dendera sofria; a gente indignada com aquele amor vagabundo e aquelas reações escandalosas. Mamãe dizia: “Uma gata tão bonita dessas cruzando com vira-lata...” Tudo só ficou mais ou menos resolvido quando adotamos o Lu; esse era garanhão de primeira. Com seis meses já deu um sossego relativo nela. Mas ela tinha uma má vontade danada com ele; o gozo era discreto. Resumindo: a coisa era meio forçada. Deduzimos então que ela tinha gosto mesmo era pelos vira-latas. O primeiro parto foi meio atabalhoado, desajeitado. Dendera levava aquelas bolinhas de pêlo pra nossa cama como que pra fazer festa. Nas próximas crias, não sei se por ciúmes ou madureza, resguardava-os mais, ficava esticadinha na caixinha, e tinha um prazer imenso naquelas boquinhas desdentadas e naquelas unhinhas frenéticas no seu abdômen. Os veterinários diriam: “essa tem mesmo habilidade materna”. Nós dizíamos: “ela é uma ótima mãe”.
Os anos se passaram, muitos cios e crias. Em casa era uma festa de gatinhos fazendo estripulias. O amor da Dendera pela mamãe aumentando, tanto que dormiam até juntas; uma esticada do lado da outra, e eu dizia que era o ‘casal vinte’ da casa. Era um afeto tranqüilo, sem arroubos. Já o meu por ela, era exagerado, forçado, a gente brigava feito algumas irmãs. Agarrava Denda à força pra dar aqueles beijos estalados e ela rosnava para mim na sua maneira gatuna, exibindo os caninos e louca para me enfiar a unha. Mas pensava duas vezes ‘essa menina é doida coitada’ e não fazia nada. Quando a colocava no chão abanava o rabo meio nervosa e eu falava com a mamãe: Ta vendo mãe; ela gosta de mim...sei que ela gosta...Nunca tive certeza. Os últimos dias foram tristes. Denda foi acometida por uma virose muito grave e todas as tentativas de salvá-la foram vãs. Teve desespero no último dia, não queria morrer perto da gente. Mas foi embora e deixou-me pensamentos e sabedorias, embora muitos eu ainda não saiba usar. Sabia viver com uma naturalidade invejável, cultivou por minha mãe um sentimento nobre, sem egoísmos, mas de uma possessão delicada. Denda no início tinha medo do pulo do gato, mas depois foi mestre, nos mostrou que o pulo a gente dá aos poucos, na espreita.
sexta-feira, 2 de maio de 2008
Caixa prioritário
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
No caixa prioritário,
Não tem Zé menino;
Zé menino nem se lembra,
Virou Zé de outro tempo,
Não da mocidade, meninice,
Mas do futuro esquecido;
Não vai mais à Caixa,
Não chega ao caixa,
Não tem mais soldo;
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
Tem o amigo do Zé menino,
Aposentado, sentado;
E o amigo de pé,
Na falta do assento prioritário;
E a figura do leão da receita,
No pôster da parede ao lado;
Leão sentado, glamuroso;
E Zés de pé,
Na fila prioritária;
Insuficiente;
Na senha nome de milhar,
1024, 1025, 26, 28...
Na confusão do nome dito em alta voz,
Do Zé e do Antônio;
No corpo amarrado,
De engrenagens já gastas,
De líquidos escassos;
Mas de pé os Zés, as Marias de sorrisos cacoetes,
Se preciso for,
Até virar Zé menino de outro tempo;
Esquecido,
Não vai mais à Caixa,
Deu adeus à fila prioritária.
Na fila do caixa,
No caixa prioritário,
Não tem Zé menino;
Zé menino nem se lembra,
Virou Zé de outro tempo,
Não da mocidade, meninice,
Mas do futuro esquecido;
Não vai mais à Caixa,
Não chega ao caixa,
Não tem mais soldo;
Na fila da Caixa,
Na fila do caixa,
Tem o amigo do Zé menino,
Aposentado, sentado;
E o amigo de pé,
Na falta do assento prioritário;
E a figura do leão da receita,
No pôster da parede ao lado;
Leão sentado, glamuroso;
E Zés de pé,
Na fila prioritária;
Insuficiente;
Na senha nome de milhar,
1024, 1025, 26, 28...
Na confusão do nome dito em alta voz,
Do Zé e do Antônio;
No corpo amarrado,
De engrenagens já gastas,
De líquidos escassos;
Mas de pé os Zés, as Marias de sorrisos cacoetes,
Se preciso for,
Até virar Zé menino de outro tempo;
Esquecido,
Não vai mais à Caixa,
Deu adeus à fila prioritária.
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