quarta-feira, 16 de julho de 2008

Com ão, sem ão?

Inspiração é adoção,
Erupção;
Ficar sem inspiração,
É abandono,
Hibernação,
Reticências,
Interrogação,
Sei não...
Continua um tanto ão.

sábado, 12 de julho de 2008

Avesso nexo

Pequeno sem nexo,
No plexo,
Circunflexo,
Sem flexo,
Agudo,
É o verso;
Lágrima cai por fora,
Por dentro;
Lágrima escondida,
É rio no avesso do corpo,
Vermelho,
Rio de fogo;
A lágrima clama o verso,
Trama o verso,
No plexo,
Circunflexo,
Aguda,
Sem flexo;
Arde Chama,
Reclama,
Proclama;
Lágrima,
Desalento,
Contentamento,
Momento,
Fomento,
Avesso do nexo sem nexo.

'Estrela'

“Esse aí tem estrela”, dizem de quem tem de sorte. Cavalo ‘Estrela’ nasceu com estrela branca na fronte, bem destacada do pêlo castanho escuro, nem tão curto, nem tão comprido. Crina longa brilhante pra fazer trança, cauda cabeluda pra afastar pequenos seres voadores. Ganhou vida num campo amplo, em tarde fresca com pôr do sol. Pintor de natureza encheria os olhos e as mãos do clima bucólico, poético. As perninhas magrinhas, desequilibradas; levantou e caiu sucessivas vezes até o terceiro dia. Sugou leite, comeu erva. As pernas engrossaram, ganhou ferraduras. Veio a carroça, foi-se a estrela. Nas primeiras vezes relinchou, levou chicote. Depois calou, empacou, chorou e ninguém viu. Nem ele viu ninguém; colocaram vendas nos olhos, rédeas curtas, sobrepeso de coisa e de gente. As articulações incharam, calejaram. Um dia subiu gente sem conta, duas, três, quatro e pilhas de coisas na carroça. ‘É burro de carga, nasceu pra isso”, diziam. Até espora que “pinicava” o dono usava. Na subida o peso dobrava, o assombro paralisava; Estrela empacava, apanhava. Viveu assim vinte anos, com a estrela escondida; bicho de carga do homem de carga sem amor, bruto pela carga, de faces murchas, insones, sem brilho. Na velhice foram os dois: cavalos velhos sem dentes, com o sentimento da carga nos músculos, nos ossos, no coração; sem estrelas.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

'Noite'

Olharam pra ela, profetizaram: “Noite”. Tinha pele escura feito sombra, cabelos e olhos negros, quase azulados. A menina era miudinha, estreita como o alcance da visão noturna. Traços finos, nariz aquilino, inquisidor da cor da noite. Era daquelas pessoas sem nuances, de uma definição precisa. Tinha temperamento discreto, sorriso alvo sem largura, comedido. Enquanto bem pequena não ligava; o nome era apenas uma representação sonora que lhe remetia, lhe sugeria a brincadeira, o alimento, a voz familiar.

Lá pelos idos dos sete anos de idade, a palavra, o nome, o seu nome começou soar estranho. Noite pensava na imagem da noite, no escuro, nas imagens sôfregas, imprecisas em busca de um pontinho de luz para se revelarem. Poderiam tê-la chamado Lua. Se fosse nova seria um pensamento. Se minguante, um apelo. Se crescente, um alento. Se cheia, contentamento. Nunca conhecera ninguém que se chamasse Noite, mas não via nessa originalidade nada de vantajoso. Ainda se fosse Dia, terminava como Maria e iniciava com a luz do sol. Não ligava também de ser Sol. Mas já tinha aquela sensação do nome, que pega a gente misteriosamente; não se via Lua, Dia, nem Sol. Tinha medo mesmo era de se confundir com a noite, se misturar nela, e nunca mais a encontrarem.

Quem deu o nome foi o pai; mineiro, colocava poesia em tudo. Jovelino achava a noite muito mais interessante que o dia. Achava que mistério da noite era mistério nada, era sim uma hora de escutar o silêncio, de enxergar com agudez, de dançar tango, bolero, de cortejar moças, de sonhar histórias reveladoras. Não pensou fosse constranger Noite com as perguntas e observações descabidas: “Ela se chama noite? Como pode se chamar assim?” Um dia Noite, já adolescente, recebeu um verso que dizia: “Se não chamasse Noite não seria Noite; Noite que me encanta, que me nina, que me afaga. Se não fosse Noite, quem seria?” Não soube quem mandou. Porém, desde esta data Noite soou de outra forma. Não compreendera completamente a escolha do pai Jovelino, mas sentiu uma ligação profunda com a noite, com o pai, com aquela invenção que se tornara real, ela era “Noite”; não havia nenhuma impropriedade nem sofreguidão nisto.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

'Cenimétricas'

Desceu as escadas, doze degraus, três metros e meio. Abriu o portão, saiu, fechou; milímetros. Virou à direita, subiu, trinta metros. Deparou-se com uma castanheira gigante, de tronco abraçado por colar de flores. Parou, leu a árvore, as flores, o dizer no bilhete desenhado, a súplica de oração pela árvore. Observou, sorriu no coração, orou por centímetros de tempo. Apressou o passo, virou à direita de novo, subiu de novo, dez metros. Atravessou a primeira rua, andou mais um pouco, quase metro. Atravessou a segunda rua, caiu na praça, fez um quase meio círculo e deu de frente para a banca de revista, escondeu-se da rua por milímetros de segundo. Ouviu o motor do ônibus, correu centímetros. Não era o ônibus, era o caminhão da Nestlé, fez curva, ganhou a reta, confundiu sem intenção. Depois veio o caminhão Alimentos Pachá, passou, sumiu. Sentou-se no banco coberto, bem no meio, espaços largos à direita, à esquerda. Chegou alguém, disse boa tarde, sentou-se ofegante, queixou-se do morro íngreme, agudíssimo, longuíssimo. Concordaram e olharam para a pomba ciscando no meio da rua. Não voava, dava corridinhas, rebolava a cada carro; voltava centimétricamente insistente pelo cisco. Chegou o ônibus; deu o sinal, subiu, pagou, sentou, deixou árvore, caminhão, pomba, cenimétricos para trás.

quinta-feira, 3 de julho de 2008

Lantana sedutora

Beija-flor adora flor de lantana,
Lantana multicor,
De matizes incontáveis;
Pequeno buquê de lantana,
Lânguido,
Mentolado,
Amarelado,
Alaranjado,
Avermelhado;
Rosado;
E o bico do beija-flor,
Comprido,
Delicado,
Lá dentro da florzinha,
Sugando mel;
Pequenina lantana,
Sedutora lantana;
Beijo do beija-flor,
Na flor de lantana.

quarta-feira, 2 de julho de 2008

"Mora ao lado?"

A morte mora ao lado?
Não, ela está de frente,
Escancarada, na casa da frente;
Ficou lá durante uns três dias,
Rondando o ar que ela respirava,
Tirando a força de suas pernas,
O controle de seus músculos,
Estava lá pra dizer que o esquecimento é amigo da morte,
Do esquecimento que faz o tempo ser malvado,
Esse tempo, o outro tempo,
O tempo amante da solidão e da morte,
Do desinteresse pelo outro,
Tão perto, na presença discreta,
Na vida,
Na luz de penumbra refletida na janela;
A vida escassa, se dispersando,
Até que alguém arromba a porta,
Descobre excrementos, secreções,
Sinais da vida que não quer escapulir,
Gritos com seus cheiros fortes, revoltos,
Chega o socorro,
Levam a vida de maca,
Para retomar as luzes acesas,
As rotinas higiênicas,
A vida sugada pela morte.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

"Goiabinha"

Nunca pensei fosse encontrar em São Paulo o “Goiabinha”. Foram centenas, de casca durinha, no estilo mais caseiro; aquele doce molinho em porções quase diminutas, caprichosamente envolvidas em trigo e muito carinho. Cada um uma cara, não de feitio totalmente regular, mas de uma individualidade pensada, delicada, distante do mundo das fábricas. As mãos moradoras paulistanas que conheci, ainda guardam o jeito mineiro das goiabas, dos quintais, das cozinhas aquecidas e cheirosas. Tudo sem complicação, de um comum incomum; comida de coração, pegada no fogão, lembrança do chão.

domingo, 1 de junho de 2008

"E agora José?"

Ele nasceu em um lugarejo chamado Tabocas, distrito de Rio Grande, pertencente ao município de Floriano, Estado do Piauí. “Morávamos em uma casa coberta de capim”, conta José Alves da Silva. Durante a conversa que tivemos, ele permaneceu de olhos baixos quase todo o tempo, como se um filme estivesse passando em sua mente. A voz firme, só algumas vezes saía embargada. Pequenino, mais ou menos 1,65 de altura, 69 anos, cabelos grisalhos, fronte ampla e uma postura de elegância invejável.

O Alves ou Zeca, como sempre foi chamado, diz não ter nenhuma saudade do lugar onde nasceu. “Minha infância foi de muita pobreza, não existia espaço para brincar, havia muita doença e nenhum atendimento médico”. Para Zeca, o que mais marcou sua fase de menino foram as constantes brigas entre seus pais. Permaneceu na roça até os 10 anos de idade, quando foi estudar na cidade de Floriano. Ficou hospedado na casa de um amigo de seu pai. Esse amigo possuía várias propriedades.

A adolescência quase não existiu. Enquanto concluía o curso primário, trabalhava em mais de 30 fazendas, viajando e fiscalizando o trabalho dos vaqueiros até completar os 14 anos de idade. Nesse tempo, voltou para o campo. Chegando lá, a família recebeu a visita de um primo chamado “Odaque”, filho do “Zuca”. O visitante observou que Zeca era um menino muito inteligente e que era um desperdício ele ficar na roça. Então, resolveu levar o menino para Anápolis, no Estado de Goiás, para terminar os estudos.

Em Anápolis, Zeca conseguiu um emprego na loja de “Tecidos Buri S. A.” e fez o Exame de Admissão para ingressar no curso ginasial. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. “O sonho de todo estudante em Goiás era estudar em Belo Horizonte”, conta Zeca. O pai de um dos hóspedes da pensão onde Zeca morava, tinha uma casa na rua Iguaçu, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. Em 24 de dezembro de 1954, Zeca chega no aeroporto da Pampulha.

Ficou uns 10 dias no bairro Concórdia e depois foi morar no Edifício “Balança mas não cai”, na rua Tupis, 749, onde moravam vários estudantes do Piauí. “Eu me sentia em casa”. Matriculou-se no Colégio Anchieta para cursar o Científico. Dentro de um mês, o estudante piauiense se empregou na Mesbla S.A., “uma das firmas mais importantes do país”. Começou como vendedor na seção de artigos eletrônicos. Três meses mais tarde, com 20 anos de idade, já era chefe do setor de eletrônicos. Coordenava funcionários de 40 a 50 anos de idade, com anos de serviços prestados à empresa.

“Você, todo de terno branco, aqui nessa loja empoeirada! Você merece coisa melhor,” diziam os companheiros de trabalho da Importadora Mesbla. Ele dizia: “Eu dou todo o meu esforço”. O “Senhor Alves” foi convidado para ser chefe de departamento. Para isso teria que abandonar os estudos, já que iria fazer viagens. Ele aceitou e teve um bom aumento no salário. Nessa época, lembrou-se da família que deixara no nordeste. “Meu irmão Pedro que estava muito bem financeiramente, mandou buscar meus pais e meus outros sete irmãos para morar em Anápolis.” Seis meses depois de morar em Goiás, a família de Zeca voltou para o Piauí. Pedro alegava dificuldade de adaptação dos familiares, uma vez que ele só “freqüentava a alta sociedade.”

“Eu estava morando no Hotel Majestique, rua Espírito Santo com Caetés, quando resolvi trazer minha família para Minas. Aluguei um barracão em Santa Tereza e trouxe meus pais e meus irmãos, todos com menos de 15 anos. Continuei trabalhando na Mesbla e meu pai começou a trabalhar, primeiramente, como feirante." Depois, Zeca alugou um ponto na Rua Amianto com Pouso Alegre, em Santa Tereza, onde montou um bar para o pai. Assim os dois puderam cuidar da família.

Enquanto isso, o irmão de Zeca “quebrou” em Anápolis devido à bebida. Quando chegou a Belo Horizonte, Zeca propôs que ele retornasse e trouxesse um capital para que os dois se estabelecessem no ramo do comércio de cereais na capital Mineira. Passados dois anos, o irmão retornou e eles fundaram a Cerealista Irmãos Alves, na rua dos Guaicurus. A empresa se tornou uma das mais importantes firmas de atacado de cereais do Estado.

"Ganhamos um bom dinheiro, fechamos a cerealista e aplicamos todo o capital em ações. O mercado de ações sucumbiu durante o governo Sarney e nós perdemos todo o recurso financeiro que tínhamos. Pedro precisou voltar ao trabalho e eu hoje sou aposentado e não dependo de ninguém,” conta Zeca. E agora José? Agora José, solteiro, pai de todos seus irmãos, diz que é uma pessoa feliz e de muita coragem. Essa pergunta foi feita a ele em todos os momentos de sua vida e ele não se calou.

Do Galba

Estava lá. Grandalhona, espalhada, enviesada na calçada do quarteirão do quartel. Roupa colada nos membros inferiores, cobrindo-os só até os joelhos. Blusa curta com folga, menos no abdômen protuberante. Antebraço ralado com sangue já coalhado de listras em alto relevo, irregulares. Passaram uma, duas, três pessoas; uns de olhos estatelados e pescoços girados voltados para baixo; outros, só viravam os olhos. Parar mesmo...só a quarta de cabelo pretinho, curtinho, com um cãozinho Dachshund na coleira, também pretinho; cara de uma, focinho de outro. Perguntou: - Posso ajudar? Os olhos entreabertos, prestes a fechar de vez, em vão buscavam a imagem da “moça Dach”, até que balbuciou um gemido. Depois veio a quinta pessoa; cabelos longos, apressada; parou assim mesmo. Não havia como rejeitar uma imagem tão indiscreta. Acertaram então as duas: chamar um policial, afinal de contas, era território deles.

Lá se foi então Mônica, a dona do lingüicinha, em direção à guarita do quartel. Chegando lá deparou-se com um policial fardado, de quepe, sentado com olhar no vazio. – Por favor senhor...tem uma mulher caída no chão, logo ali...pode ajudar? – Agora não posso. Enquanto isso, Marta tentava obter alguma informação, mas sem sucesso. Até que percebeu que na mão da “criatura” havia um papel enrolado, e sobre ele o nome DORA, em caneta pincel azul. De repente a mão da moça começou a desenrolar o papel e o conteúdo veio à tona: seis comprimidos, de tamanhos e cores variadas. Foi quando chegou Mônica e disse que o policial não viria. Marta visivelmente perturbada esteve a ponto de arrumar uma confusão com a polícia, e manifestou sua indignação: - Pra que serve ter um quartel aqui? Decidiu, então, que ia lá falar com o policial de novo. Chegou nesse momento mais um grupo de três mulheres; todas manifestaram o interesse em ajudar. Uma delas se prontificou e foi na frente de Marta...Desta vez o milita não teve salvação. Veio com aquela cara de Meu deus eu mereço, mas veio.

Curiosamente, a chegada do guarda deixou a moça bem mais interativa. – Onde você mora? perguntou Orestes. - Na lagoinha... – Você quer ir pra onde? – Para o Pronto Socorro, João XXIII; e apenas três dentes espaçados na boca. Marta interveio: - Tem uns remédios com ela. – Você quer ir para o Raul Soares? destilou “brilhantemente” Orestes. – Não...para o Galba...- Quer ajuda para assentar? – Sim. Orestes não só ajudou a moça a aprumar o corpo em posição de assento, como levantou-a com certa dificuldade...- Uma viatura leva você...Seguiram os dois; Orestes um pouco mais atrás verificou com olhar fixo o volume e a consistência das ancas da moça. Marta pensou: - Será que fizemos a coisa certa? Imaginou na seqüência cenas nem tão amenas, mas que aquela que vira não se repetiria tão facilmente. Enganou-se. Ao passar alguns dias depois pelo mesmo lugar, estava lá a Moça do Galba num diálogo, nem tão amigável, com um guarda. Ele dizia: esse negócio de levá-la até o Galba já está virando brincadeira...

sexta-feira, 30 de maio de 2008

'Chats'

Les Chats, Os Gatos;
Os Gatos, Les Chats;
‘Doçuras e poderes’,
Baudelairianos,
Outros anos;
Esses anos,
Reinventamos;
Os Chats,
Conversamos,
Les Chats, Os Gatos,
Les Gatos, Os Chats,
Seduzidos,
Amamos,
Intrigamos,
Chatos, chats, cats,
Gatos de unhas e dentes,
Pêlos escondidos;
Impenetráveis Les chats,
Baudelairianos ‘olhos místicos’;
Passos na escuridão.

“Les Chats” (Os Gatos) de Charles Baudelaire:

http://fleursdumal.org/poem/155

quarta-feira, 28 de maio de 2008

'Obscenidade'

Obsceno não é o menino com dedo em riste,
De sorriso maroto sarcástico,
E destino esquecido;
Obscena é a presença,
Até na ausência;
É a cena continuada,
Mesmo na mente,
Que de tão inconveniente,
Faz-se necessária,
Parasitária.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Chamava-se

Nasceu com facilidade. Todos ficaram abobados com um parto tão natural e eficiente. Gonçala sentiu aquelas pontadas anunciadoras, deitou-se na cama e a criança apressada já se insinuou por entre suas pernas; escorregou imersa naquela baba sanguinolenta com uma rapidez assustadora. Mas no rosto da recém-nascida não havia nenhum sinal de pressa, e sim um tom azulado, desmaiado, plácido ao extremo. Todos que acompanharam o nascimento esperavam um bebê quase desesperado, que iria urrar sem parar com ou sem tapinha. Tia Gardênia, a aprendiz de parteira, não teve uma experiência das mais instrutivas, tamanha a fluidez do acontecimento, mas cuidou de olhar bem para aquela carinha lívida e sugerir um nome. Achava no tom de pele e nos traços preguiçosos um quê de lirismo insistente. Então, lembrou-se dos lírios, presentes do namorado Rosalvo. Mas como não podia ser Lírio, convenceu Gonçala de que Líria era um nome adorável, pois remetia aos lírios do campo, tinha ares femininos e delicados. A criança cresceu envolta em atenção e proteção. Na adolescência idealizou rapazes, sonhou príncipes e amor eterno. Posto que nenhum dos ideais tornaram-se realidade, a moça Líria pôs-se resoluta em conhecer o lado mais prático, instintivo dos encontros. Foi quando conheceu Jaime, moço obtuso, de cabelos compridos, ligeiramente ondulados e assanhados, mandíbulas fortes, quadradas, quase eqüinas. A despeito de caracteres tão masculinos, os músculos eram discretos, sem grandes proeminências; um corpo imberbe, um rosto duro, pré-histórico. Marcaram um encontro em uma cidade de nome rimado com poema, mas que fora o ar interiorano, não tinha nada de poética. O quarto ficava em um hotelzinho simples e da janela dava para ver os limites do vale onde estavam; vale sem frescor, sem lírios. Os olhos de Jaime percorriam Líria com curiosidade, sem nenhum afeto. Dizia que nunca havia gostado de ninguém e que, certamente, não seria desta vez. Sem lirismo, mas sem agressividade, Jaime retirou lentamente as roupas de Líria e olhou -a ávido, de nervos a artérias tensas, prestes a explodir. Enquanto isso, Líria contemplava Jaime e se concentrava para o início e o desfecho da cena. Procurava nele o frescor dos campos, o olhar consentido. Passaram dois dias completos se rodeando, nus, de almas incompreendidas, numa constante interrogação. Líria voltou para casa; não viu Jaime mais. Com o passar dos anos seu rosto corou, perdeu a lividez. Desde aquele encontro ela temeu reconhecer desafetos, arriscar-se em momentos forjados; assumiu de vez a evocação de tia Gardênia, inscrita no seu nome.

terça-feira, 20 de maio de 2008

Anonimato

O anonimato não está no mato
Está no ato
No passeio-cimento
Dito civilizado
Na fala e no gesto
No relance
No susto passante
No ouvido errante
“- Cara... outro dia desses um chegado meu foi lá em casa.
Fiquei bobo! Já tem dois filhos e só tem vinte anos. E sabe
o que é pior? A mulher dele é feia feito o diabo.”

quarta-feira, 14 de maio de 2008

"Brucutu"

Brucutu. Vocábulo cheio de “us”, fortes “us”, naturalmente agudos. A palavra veio numa sugestão de vídeo, num e-mail encaminhado por um amigo. O termo contempla várias acepções, desde o midiático global "Brucutu Garanhão" de uma novela das sete, até o carro Blindado da Ditadura Militar, o "Brucutu Camburão". E para maior surpresa, é nome também de música do cantor Roberto Carlos, uma referência ao “Brucutu das Cavernas”: “Olha o Brucutu, Bru-cu-tu! Nas histórias em quadrinhos, Das revistas, dos jornais...- Olha o Brucutu, Bru-cu-tu!” Poderíamos aventar um “Brutus Brucutu”, adversário do espinafrado herói Popeye dos animados televisivos. Contudo, o mote do vídeo não era nenhum desses “Brucutus”, mas a validade da fé de alguns frente à vaidade de outros. A grande personagem é mesmo a “Mina de Brucutu”, proeminente preposto minerador, que decidiu inundar de rejeitos o Vale da Serra do Tamanduá, localizado no município de São Gonçalo do Rio Abaixo, em Minas Gerais. Tamanha é a capacidade de espoliação da mina, tamanha sua produção de restos insustentáveis, tamanha sua grandiosidade frente à população espoliada na paisagem, no ar, na história inscrita na rocha e marcada no solo, na lembrança e nos ritos que ali têm lugar; não poderia deixar de ser a personagem, tal qual, um dia, Émile Zola retratou tão bem em "Germinal". O célebre livro "As Veias Abertas da América Latina", do historiador Eduardo Galeano, continua inacabado, tão poderosas são as minas, a esfacelar nossas terras, nossos eus.

O vídeo:

http://br.youtube.com/watch?v=tU0HH7fW2zk

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Um lugar no antes

Velozmente,
Bate o coração;
Involuntário,
Mio,
Cárdio,
Bomba,
Explosão!
Vertigem!
Oração!
Deus! Nossa senhora!
Todos os santos!
Louvação!
Acabam de nascer,
Asas na solidão!
Estão em queda,
As cores da razão!
Lusco-fusco,
Imprecisão!
Nem lua,
Nem sol;
Riso,
Dor,
Clamor!
Clarabóia,
Extintor,
Onde estarão?
No alto,
No profundo,
Na folha sob a brisa?
Redemoinho,
Inspiração,
Oxigênio!
Bate à porta lucidez!
Não tem chave!
Ficou tudo escondido,
No fundo do mar,
No susto do naúfrago,
No teto azul,
De pássaros,
De vôos!