Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
terça-feira, 23 de setembro de 2008
Blusinha branca
Blusinha branca já deu música e história também. Eu tenho mais de uma. Quase todo mundo tem alguma. A minha, porém, já se tingiu de vinho, água salgada, água doce, percorreu lugares quadrados, redondos e sem forma. Blusinha branca é peça fundamental; tem algo de fantasmagórico, muda e nunca muda de cor. É quase indelével até o primeiro furo. Guarda segredos sem deixar marcas. Guarda mãos apressadas, delicadas, suores e olhares. Pode lavar com sabonete, mergulhar no cloro ou no sabão em pó. Às vezes ganha um tom azulado, fica hipotérmica a coitada, mas só até a próxima levada e lavada. Depois volta branca, cheia de manhas e avessos; suspira no guarda-roupa, implora o afago; aventureira blusinha branca sambista, alpinista. Sem blusinha branca eu não vou.
Riso
Da gente mesmo?
Do outro?
Do ‘nosco’,
Vício tosco,
Desenrosco;
Consente,
Desarma,
Separa,
Falha,
Ponto desaponto?
Veredicto sem suspeitas?
Febre maleita,
Escudo das tormentas,
Medo;
Riso alegria?
Sem cria pensamento,
Vai dentro;
Fomento,
Sem lamento;
Instantâneo,
Sem sucedâneo;
Espontâneo.
Do outro?
Do ‘nosco’,
Vício tosco,
Desenrosco;
Consente,
Desarma,
Separa,
Falha,
Ponto desaponto?
Veredicto sem suspeitas?
Febre maleita,
Escudo das tormentas,
Medo;
Riso alegria?
Sem cria pensamento,
Vai dentro;
Fomento,
Sem lamento;
Instantâneo,
Sem sucedâneo;
Espontâneo.
sexta-feira, 19 de setembro de 2008
Passou
Entre eu e o belo passante,
Do outro lado da rua,
Havia um tronco de árvore;
Lutei contra o arranjo de floemas e xilemas,
Apertei o passo,
O moço também;
Soltei o passo,
O moço também;
E o tronco sempre no caminhar nosso,
Irritantemente no meio,
Num passar quase combinado,
Pra gente não se ver;
O moço se foi,
Eu fui também...
Nem pude ter certeza do belo que passou...
Do outro lado da rua,
Havia um tronco de árvore;
Lutei contra o arranjo de floemas e xilemas,
Apertei o passo,
O moço também;
Soltei o passo,
O moço também;
E o tronco sempre no caminhar nosso,
Irritantemente no meio,
Num passar quase combinado,
Pra gente não se ver;
O moço se foi,
Eu fui também...
Nem pude ter certeza do belo que passou...
quarta-feira, 17 de setembro de 2008
Quase nada
A alegria é o quase nada,
O quase nada é o olho fixo,
Sem cruxifixos,
Sem inimigos.
Olho despudorado,
Indiscreto,
Infinito no finito.
Ah! O quase nada tudo!
Jamais todas as cenas.
Olho fixo no horizonte?
Olho de angústias,
Indecisões,
Solidões...
O quase nada fixo?
Instantâneo repleto,
Incontinências,
Encantamentos,
Desaparecimentos...
Simples é a alegria;
É quase nada...
O quase nada é o olho fixo,
Sem cruxifixos,
Sem inimigos.
Olho despudorado,
Indiscreto,
Infinito no finito.
Ah! O quase nada tudo!
Jamais todas as cenas.
Olho fixo no horizonte?
Olho de angústias,
Indecisões,
Solidões...
O quase nada fixo?
Instantâneo repleto,
Incontinências,
Encantamentos,
Desaparecimentos...
Simples é a alegria;
É quase nada...
terça-feira, 16 de setembro de 2008
No ponto
Tudo vai
Tudo volta
É no circular
No eixo
Que a gente se ‘em volta’
E no átimo
Desatino
Se confunde
No horário anti-horário
Na fuga do ponto
Grudados no ponto
E ponto
Tudo volta
É no circular
No eixo
Que a gente se ‘em volta’
E no átimo
Desatino
Se confunde
No horário anti-horário
Na fuga do ponto
Grudados no ponto
E ponto
segunda-feira, 15 de setembro de 2008
Brumosas
Expectativas sempre brumosas,
Por que não dá-las o aroma da surpresa?
Esquecê-las,
Combatê-las delicadamente,
Buscá-las sem arroubos,
Sem roubos,
Deixar os corações sossegados,
Afagados sem enganos e decepções?
Expectativas espadas,
Empunhadas,
Riscos iminentes,
Fadadas descontentes,
Copos sem beiradas,
Corpos reluzentes sem mente,
Inocentes,
Expectativas esperanças,
Ânsias,
Reentrâncias na gente,
Por que ficar descontentes?
E não atentos?
Ao vento presságio,
Ao gesto delicado,
Ao inesperado?
Expectativas futuro?
Só passado cozinhado,
De miasmas,
Vapores irreconhecíveis,
E sabores duvidosos...
Expectativas espectrais,
Multicores,
Desvios,
Arrepios fugidios...
Por que não dá-las o aroma da surpresa?
Esquecê-las,
Combatê-las delicadamente,
Buscá-las sem arroubos,
Sem roubos,
Deixar os corações sossegados,
Afagados sem enganos e decepções?
Expectativas espadas,
Empunhadas,
Riscos iminentes,
Fadadas descontentes,
Copos sem beiradas,
Corpos reluzentes sem mente,
Inocentes,
Expectativas esperanças,
Ânsias,
Reentrâncias na gente,
Por que ficar descontentes?
E não atentos?
Ao vento presságio,
Ao gesto delicado,
Ao inesperado?
Expectativas futuro?
Só passado cozinhado,
De miasmas,
Vapores irreconhecíveis,
E sabores duvidosos...
Expectativas espectrais,
Multicores,
Desvios,
Arrepios fugidios...
terça-feira, 9 de setembro de 2008
Tempo Continente
Poucos são os momentos na vida em que temos a impressão que o tempo não é mais, não é menos; é apenas o tempo no seu curso espontâneo. Não corre e sai atropelando a gente; não passa monótono, irritante, dando a impressão de eternidade vã. Foi assim esse final de semana em Itaipava; tranqüilo e movimentado, com jeito de entrelugar. Conheci o anfitrião Rodrigo em Ilha Grande, exatamente em um passeio de barco, onde o tempo ao contrário do que se imagina, não passava modorrento, mas festivo, com um quê de realidade fantástica. Apesar de estarmos cercados de água, a sensação não era de ‘ilhação’, ‘solidão’; as pessoas se amontoavam, o sentimento era continente. E Itaipava pareceu-me mais continente ainda, desde o trajeto de ônibus.
Lá fomos nós, eu e prima Ana Márcia. Eu de olhos abertos, mirando estrelas vivas lá fora, estrelas do céu e estrelas baixas, luzes artificiais cintilando na bruma. Ana Márcia pelejando com o sono que não vinha...até que surge uma conversa curiosa no banco da frente. Não soube o nome da senhora, mas boa parte de sua vida ela contara ali no caminho, pra quem quisesse ouvir. Fizera tantos negócios, comprara pedaços de terra, trocara, fora enganada...mas o que mais achei interessante foi o formato verbal da traição fofocada... ela dizia: “ele ventilou no ouvido de fulano, perdi o lote...” Rimos tanto que relaxamos; Márcia desistiu de dormir e o sono veio; eu desisti de perseguir as estrelas.
Chegamos na Rodoviária de Petrópolis no sábado com o nascer do sol, retornamos à Itaipava e demos um tempinho pra ligar sentadinhas no murinho do terminal. Eu, mineira, um tanto desconfiada; Márcia mais despachada só no incentivo. Afinal de contas, conhecera Rodrigo muito pouco, quase rapidamente. Liguei e o menino da Ilha já estava acordado; veio prontamente com os mesmos cabelos de caracol, só que de voltas mais generosas, o sorriso...Foi familiar o encontro...não teve a estranheza do reconhecimento. Seguimos, nos alojamos em sua casa, mistura de coisas antigas e novas, sem ânsia desenfreada por consumir sem pensamento...tudo, cada objeto parecia ter um motivo.
O roteiro do dia foi montado ali mesmo, na base do improviso; a sugestão vinha certeira, ao gosto. Fizemos uma bela trilha no Parque Nacional da Serra dos Órgãos para conhecer a cachoeira do véu da noiva. Rodrigo mais esperto, suando cachoeiras; Ana Márcia habilidosa, mesmo de chinelos; e eu sempre mais lenta, precisando de uma mãozinha. Entramos na água fria exclusiva, comemos pãozinho de batata delicioso e bananinha adocicada.
Depois da trilha feita, a decepção do caldo de cana da dona Maria, que não rolou, até que seguimos para Corrêas, onde bebemos um chope, que desceu como água, e comemos uns pastéizinhos de angu com massa bem mais leve que a mineira. Seguimos para o Bordô, lugar mais fino, com corredorzinho para carros de pessoas elegantes. Lá, tomamos mais uma cerveja, agora de Itaipava mesmo, e experimentamos o primeiro croquete. À noite fizemos refeição em casa; macarrão à minha moda, picanha à moda do Rodrigo, sangrando; depois bem passada ao nosso modo. Findamos o dia no Nucrepe, barzinho de música boa, freqüentado nos velhos e novos tempos pelo Rodrigo.
Domingo foi dia de dar uma olhada em Petrópolis, conhecer a falante e simpática Monique, e visitar o Parque São Vicente, lugar para decolagens de asa deltas e parapentes. Almoçamos pão com lingüiça combinado com croquete no Alemão, e seguimos para os preparativos do show da banda do Rodrigo, a Serra Soul, no bar Nas Nuvens, lá mesmo no parque. As nuvens não deram chance ao pôr do sol, mas os pingos de chuva não foram suficientes para estragar a festa. Encerramos com pizza de massa finíssima e sabor delicado. Retornamos com nevoeiro, como quem está mesmo descendo das nuvens. Quando pensei que o passeio já era todo continente, Rodrigo gritou na hora do café de segunda: “Vai querer vitamina Keila?” Eu tinha dito pra ele da vitamina da minha mãe...– “Quero”, respondi...A vitamina tinha o gosto da minha casa, e é essa lembrança do cuidado do menino de Itaipava que tornou o tempo continente.
Lá fomos nós, eu e prima Ana Márcia. Eu de olhos abertos, mirando estrelas vivas lá fora, estrelas do céu e estrelas baixas, luzes artificiais cintilando na bruma. Ana Márcia pelejando com o sono que não vinha...até que surge uma conversa curiosa no banco da frente. Não soube o nome da senhora, mas boa parte de sua vida ela contara ali no caminho, pra quem quisesse ouvir. Fizera tantos negócios, comprara pedaços de terra, trocara, fora enganada...mas o que mais achei interessante foi o formato verbal da traição fofocada... ela dizia: “ele ventilou no ouvido de fulano, perdi o lote...” Rimos tanto que relaxamos; Márcia desistiu de dormir e o sono veio; eu desisti de perseguir as estrelas.
Chegamos na Rodoviária de Petrópolis no sábado com o nascer do sol, retornamos à Itaipava e demos um tempinho pra ligar sentadinhas no murinho do terminal. Eu, mineira, um tanto desconfiada; Márcia mais despachada só no incentivo. Afinal de contas, conhecera Rodrigo muito pouco, quase rapidamente. Liguei e o menino da Ilha já estava acordado; veio prontamente com os mesmos cabelos de caracol, só que de voltas mais generosas, o sorriso...Foi familiar o encontro...não teve a estranheza do reconhecimento. Seguimos, nos alojamos em sua casa, mistura de coisas antigas e novas, sem ânsia desenfreada por consumir sem pensamento...tudo, cada objeto parecia ter um motivo.
O roteiro do dia foi montado ali mesmo, na base do improviso; a sugestão vinha certeira, ao gosto. Fizemos uma bela trilha no Parque Nacional da Serra dos Órgãos para conhecer a cachoeira do véu da noiva. Rodrigo mais esperto, suando cachoeiras; Ana Márcia habilidosa, mesmo de chinelos; e eu sempre mais lenta, precisando de uma mãozinha. Entramos na água fria exclusiva, comemos pãozinho de batata delicioso e bananinha adocicada.
Depois da trilha feita, a decepção do caldo de cana da dona Maria, que não rolou, até que seguimos para Corrêas, onde bebemos um chope, que desceu como água, e comemos uns pastéizinhos de angu com massa bem mais leve que a mineira. Seguimos para o Bordô, lugar mais fino, com corredorzinho para carros de pessoas elegantes. Lá, tomamos mais uma cerveja, agora de Itaipava mesmo, e experimentamos o primeiro croquete. À noite fizemos refeição em casa; macarrão à minha moda, picanha à moda do Rodrigo, sangrando; depois bem passada ao nosso modo. Findamos o dia no Nucrepe, barzinho de música boa, freqüentado nos velhos e novos tempos pelo Rodrigo.
Domingo foi dia de dar uma olhada em Petrópolis, conhecer a falante e simpática Monique, e visitar o Parque São Vicente, lugar para decolagens de asa deltas e parapentes. Almoçamos pão com lingüiça combinado com croquete no Alemão, e seguimos para os preparativos do show da banda do Rodrigo, a Serra Soul, no bar Nas Nuvens, lá mesmo no parque. As nuvens não deram chance ao pôr do sol, mas os pingos de chuva não foram suficientes para estragar a festa. Encerramos com pizza de massa finíssima e sabor delicado. Retornamos com nevoeiro, como quem está mesmo descendo das nuvens. Quando pensei que o passeio já era todo continente, Rodrigo gritou na hora do café de segunda: “Vai querer vitamina Keila?” Eu tinha dito pra ele da vitamina da minha mãe...– “Quero”, respondi...A vitamina tinha o gosto da minha casa, e é essa lembrança do cuidado do menino de Itaipava que tornou o tempo continente.
quarta-feira, 3 de setembro de 2008
Pretinha
Era imponente a pretinha. Olhos frontais, novilha bem conformada, escore médio. Só os chifres pareciam destoar, sobretudo para a ordenha do leite. As recém formadas ‘veterinárias’ fizeram longa viagem, porque Pretinha morava nas terras do meio do país. A propriedade era um pedaço de uma maior dividida entre vários irmãos. As moças tencionavam usar seus dotes acadêmicos; fizeram mochação de bezerro; deixaram os responsáveis do curral indignados. ‘Vê lá se isso é serviço pra mulher.’ Depois de toda labuta, resolveram fechar com chave do ouro o dia. Vamos fazer a descorna? Sugeriu uma delas. A famigerada cirurgia serve para dar um aspecto bonito, para facilitar o manejo...nada muito além disso. Mas quando se complica a tal descorna, é sinusite da brava, pontos infecionados. Só que esse não foi o caso; o caso foi bem pior. O campo cirúrgico ficou restrito; os olhos fixaram-se tão longamente nos chifres, que pretinha sofreu, sofreu...Esqueceram-se da pretinha...Deu o último suspiro, morreu...Morreu? Repetia uma delas sem acreditar...Como pode ser? A bichinha ficou horas em decúbito lateral com seus órgãos digestivos enchendo-se de gases, seu pulmão comprimido...e em nenhum momento atentaram para a vida em suas mãos, que sequer precisava da tal cirurgia estética...cheia de vasos a esguinchar, pele escassa para cobrir o que já era coberto pela natureza. Passaram a noite separando os músculos da pretinha para refrigerar e ‘aproveitar’; atordoadas, repensando os motivos da morte. Correram em busca da explicação pelos corredores da escola de veterinária, e ninguém soube dizer com precisão o que teria ocorrido. Várias possibilidades foram aventadas, mas e a alma da pretinha, e seus olhos frontais brilhantes? E seu corpo todo, seus parâmetros vitais desprezados e a peia a impedindo de fugir? Pretinha nem sabia que era bonito ficar sem chifres e que eles eram tão ameaçadores. Nenhuma das duas moças seguiu carreira, não se sabe se por causa da Pretinha.
Todas as palavras
Entre o aqui e o ali,
Cabe pouco,
Cabe muito...
Aí vem o homem e inventa um nome grande
Pro que não se entende, e se finge entender...
E se disfarça saber...
E nem tem ilusão nisto...
É só escuridão...
De vez em quando vem o clarão,
Mas depois o nome não encaixa,
Porque cabem mais,
Talvez todas as palavras.
Cabe pouco,
Cabe muito...
Aí vem o homem e inventa um nome grande
Pro que não se entende, e se finge entender...
E se disfarça saber...
E nem tem ilusão nisto...
É só escuridão...
De vez em quando vem o clarão,
Mas depois o nome não encaixa,
Porque cabem mais,
Talvez todas as palavras.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Cantiga pro Azulão
Azulão cantava livre, até que Azulão preso ficou
Canta Canta Azulão....Azulão continuou...
Um dia Azulão entristeceu e o canto sumiu...
Ô tristeza Azulão... não canta mais, ô tristeza...
Resolveram soltar Azulão...foi pro mato Azulão,
Esverdeou e avoou, avoou, avoou....
Ê Azulão, ê ê ê, que alegria Azulão....ê ê ê...
Virou folhagem de ventania, tomou banho de chuva...
Esqueceu da prisão o Azulão....
Esverdeou e avoou, avoou, avoou...
Ê Azulão, ê ê ê, que alegria Azulão....ê ê ê...
Canta livre de novo Azulão...eô, eô, êo...
Canta Canta Azulão....Azulão continuou...
Um dia Azulão entristeceu e o canto sumiu...
Ô tristeza Azulão... não canta mais, ô tristeza...
Resolveram soltar Azulão...foi pro mato Azulão,
Esverdeou e avoou, avoou, avoou....
Ê Azulão, ê ê ê, que alegria Azulão....ê ê ê...
Virou folhagem de ventania, tomou banho de chuva...
Esqueceu da prisão o Azulão....
Esverdeou e avoou, avoou, avoou...
Ê Azulão, ê ê ê, que alegria Azulão....ê ê ê...
Canta livre de novo Azulão...eô, eô, êo...
sábado, 30 de agosto de 2008
Plano inclinado
Estava lá solto no sonho. Concreto sem pintura; inclinação discreta. Recostamo-nos ali sem termos marcado. Era possível alcançarmos o céu sem tirar os pés do chão, livres da posição ereta, impositiva do pensar lógico. Estávamos ali, os dois para o encontro, para olhar o alto teto azul sem descuidar do lado; o falar ao sabor do sentimento. Mãos e pernas livres, o entorno vazio, pareceu-me que sim. Talvez fosse início da manhã, ou fim de tarde; as luzes não ofuscavam, eram delicadamente brandas, acariciavam. Havia tempo de silêncio e a súbita palavra só para o momento. A despedida não teve hora, aconteceu suave, sem afagos exagerados, sem medos e perdas. Vida real boa é assim; sonho solto no plano inclinado, descanso de faróis brandos acesos, amizade sincera, amor amigo.
Seus olhos
Gosto do seus olhos,
Gosto porque são felinos,
Certos incertos,
Perguntam sem repostas,
Respondem sem perguntas,
São águas escuras de mata fechada,
Recebem chuva,
Inundação,
Recebem sol,
Cintilam ouro,
Angustiam,
Acalmam,
Obrigam,
Desobrigam,
Remanseiam,
Ondeiam,
Tiram o respiro...
São ar...
Gosto porque são felinos,
Certos incertos,
Perguntam sem repostas,
Respondem sem perguntas,
São águas escuras de mata fechada,
Recebem chuva,
Inundação,
Recebem sol,
Cintilam ouro,
Angustiam,
Acalmam,
Obrigam,
Desobrigam,
Remanseiam,
Ondeiam,
Tiram o respiro...
São ar...
'Prosema' Verde
Aviso sem seta,
Rio sem freio,
Cachoeira entremeio;
Montanha caída no vale,
Folha dançante na brisa,
Queda outonal,
Ventania turbilhão;
Broto de primavera,
Lodo caminhante,
Plantas eras alpinistas,
Decidas;
Pedregulhos dissolvidos;
Mergulhos rasos,
Profundezas,
Águas vivas;
Mãos e terra inquietos,
Tremuras;
Pensamento de lembrança incompleta,
Desejo mente e coração,
Sentimento invenção;
Olhos densos, de faíscas perguntas e respostas inexatas,
Água misturada com terra carne;
Corpo pensamento,
‘Sonhação’;
Flor que espera verde o beija-flor;
Doce figo no estalar dos dentes;
Aonde vai dar?
Na vida prenúncio verde cor?
Rio sem freio,
Cachoeira entremeio;
Montanha caída no vale,
Folha dançante na brisa,
Queda outonal,
Ventania turbilhão;
Broto de primavera,
Lodo caminhante,
Plantas eras alpinistas,
Decidas;
Pedregulhos dissolvidos;
Mergulhos rasos,
Profundezas,
Águas vivas;
Mãos e terra inquietos,
Tremuras;
Pensamento de lembrança incompleta,
Desejo mente e coração,
Sentimento invenção;
Olhos densos, de faíscas perguntas e respostas inexatas,
Água misturada com terra carne;
Corpo pensamento,
‘Sonhação’;
Flor que espera verde o beija-flor;
Doce figo no estalar dos dentes;
Aonde vai dar?
Na vida prenúncio verde cor?
quinta-feira, 28 de agosto de 2008
Poti
Poti era pela metade,
Um olho na porta da cozinha,
O outro para o corredor dos quartos;
Poti nasceu incerta,
De mistura de pêlos assimétrica,
Um lado mais claro,
Outro mais escuro;
Poti pedia colo,
Poti subia em árvore,
Poti fazia carinho com arranhão,
Poti miava aos gritos,
Implorava o churrasco da barraquinha,
Sabia os dias, as horas, a mudança do dia pra noite;
Poti era precisão;
Potira virou Poti,
Veio para ti, para mim,
Não tinha dúvidas;
Mesmo de aparência duvidosa,
Titi queria queria queria...
Um olho na porta da cozinha,
O outro para o corredor dos quartos;
Poti nasceu incerta,
De mistura de pêlos assimétrica,
Um lado mais claro,
Outro mais escuro;
Poti pedia colo,
Poti subia em árvore,
Poti fazia carinho com arranhão,
Poti miava aos gritos,
Implorava o churrasco da barraquinha,
Sabia os dias, as horas, a mudança do dia pra noite;
Poti era precisão;
Potira virou Poti,
Veio para ti, para mim,
Não tinha dúvidas;
Mesmo de aparência duvidosa,
Titi queria queria queria...
quarta-feira, 6 de agosto de 2008
Pudim de leite moça
Ficara doente de caso meio grave. A família toda visitou, encheu o quarto, aumentou a temperatura, desatinou os ouvidos, quase comprometeu o coração de novo. Liliane se envolvera com ele por anos, a despeito do casamento. Não se importava, gostava dele, o que fazer...Chegou ao hospital meio sorrateira, de maneira que não topasse com a “família”. Poxa vida! Afinal tinha convivido tantos momentos bons, riscos, e pior, agüentado tanta rejeição...Esperou, esperou, até que se foram....Ufa! Gino estava lá, como que atordoado por tê-la esperado tanto. Sabia que ela iria de qualquer forma. Lili era ousada...era capaz de travar batalha com Catarina, sua esposa. O ‘caso’ espalhou-se por meia vizinhança e conhecidos dos conhecidos. Mas Lili foi assim mesmo; ela tinha o que dizer, ele também. Ela só não esperava que fossem falar de cozinha. Não levava o menor jeito. Gino desejava pudim de leite moça, daqueles repletos de furinhos, como a mãe dele fazia. Lili ficou orgulhosa, afinal de contas um paralelo com mãe é algo sublime, e o melhor de tudo; pedira para ela e não para Catarina. Lili tinha temperamento sincero. Confessou suas inabilidades culinárias, mas intuiu que não poderia ser pudim de padaria, aquela mistura sem personalidade. Descobriu uma doceira famosa no bairro, encomendou, levou para Gino, aprendeu. O segredo do pudim de leite moça está na clara que vira neve, que dá aquele aspecto de queijo adocicado e furadinho. Só assim o pudim flutua e se desfaz nas papilas da boca feito nuvem no céu. Os furos repletos de caramelo ligeiramente queimado dão aquele amargor discreto que equilibra o doce, dá a plenitude do sabor. Pudim de leite moça não era coisa simples, era preciso garfos e batedores ágeis, açúcar em fogo brando. O sentimento de Gino e Lili sempre pareceu vertigem. Depois do pudim de leite moça virou cuidado.
sexta-feira, 1 de agosto de 2008
Em todos os lugares
O desequilíbrio do humano assombra. O homem é o próprio entrelugar, e nem tem lugar. Vaga como ave migratória e retorna em desespero pelos humores do ambiente, pela suposta segurança. E se não volta? Continua com o lugar da lembrança. O ‘destino’ também é desequilibrado. E se falta o ‘tino’, o humano vê-se na eminência completa da imprevisão. E os outros olham abobados, a sorte inesperada, supostamente possível, indesejada por vezes. Mesmo se entrevê uma garantia e envolve-se com os bons ares da doação, o retorno é sempre duvidoso. A dúvida é também o próprio entrelugar. Se não se resolve então, vira angústia. Angústia é dúvida, incompreensão de si para si. E o si? O si é o entrelugar. O si alegre, exagerado de contentamento, culpa do momento sem perguntas e pensamentos. E o ‘bobo da corte’? O próprio entrelugar entre o tudo e o nada, felicidade sem justificativa, tristeza empedida. A sabedoria é o equilíbrio? A teoria diria que sim. Mas mesmo válida, a teoria é refém da que virá, é muleta que não engana alguns, mas satisfaz no tempo. A sabedoria também é o entrelugar, a negociação justa entre o sensato e o insensato. O exagero comedido, a contenção comedida, a ilusão do equilíbrio. O entrelugar está em todos os lugares. Nada mais angustiante, desafiador e mágico que o entrelugar.
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