Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
terça-feira, 27 de janeiro de 2009
A verdade de Baldo
Esse trem de verdade e mentira sei lá, dá uma confusão na gente. Eu então, sempre juro; 'digo sempre a verdade, bem lá de dentro.' Outro dia desses o Teobaldo me encheu de dúvida. ‘Que verdade nada, você pensa que é, mas não é.’ ‘Baldo’ conseguiu me deixar mais confuso ainda. Fiquei até meio nervoso, descrente comigo mesmo, com um sentimento de traição entranhada de mim para mim. Coisa estranha essa, quando alguém fala de uma certa certeza da gente, põe em dúvida e a gente se põe a duvidar mesmo. No início dá revolta, depois é uma decepção, a gente acha até que é uma judiação. Aí a gente pensa, repensa e até entende o que antes achava puro descalabro. Baldo falava que a verdade era uma mentira cheia de manha e propriedade, que nem dá pra perceber de tão cabida. Resultado; me deixou ainda mais triste. Aquela história dele virou um bater de sino na minha cabeça, irritante, agudo. Matutei tanto que hoje consigo até entender o Baldo. É que ele tinha mente pra frente, sabia que gente é coisa que muda e a verdade fica lá coitada, deixada pra trás, vira é verdade de outro tempo.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2009
Desculpe-me
Não percebe que estou assim, prestes a naufragar. Que envolta tem uma matéria liquefeita que me apavora, que não sei aonde vai dar. Não creio que crê assim, de fato, que tenho uma bússola nas mãos, que sei o caminho, que tenho alguma indicação. Tudo o que vejo é larguidão e sítios desconhecidos. Não insista na minha intuição. Preciso de instrumentos e de um guia até para afundar. Se me larga aqui na imensidão, posso contrariar as leis da física, posso boiar, suspirar e afundar, e nunca mais me encontrar. Posso sumir de mim mesma; e parar em um navio carcomido no fundo do mar, e fazer dele o meu paraíso e meu inferno aquático. Posso acompanhar um cardume, virar comida de peixe grande, ou então, esconder-me num coral multicolorido. Se me guiar, também não prometo nada, não pretendo nada, porque o meu desejo é feito a onda do mar, tem mansidão, tem destruição. Talvez devesse vendar meus olhos, cegar-me pra acender meu olfato, minha audição, meu tato. Quem sabe não encontraria o lugar ou ele viria até mim feito perfume que inebria, som encantado ou superfície delicada. Desculpe-me, são muitas curvas e reentrâncias no caminho; acho que queria mesmo um ninho de limites precisos, perfeitamente adequado para minha imprecisão. Desculpe-me, de verdade.
quinta-feira, 22 de janeiro de 2009
Simples assim
Se quer me agradar
Vá rápido e coloque uma música assim na vitrola
Deixe que ela chegue aos meus ouvidos
E caia no meu coração
Mas faça uma prece pra que eu retorne
Pra que eu não me perca no labirinto do som
Mas dê-me esse som
Pra acordar meu coração
Não interrompa a audição
Ouça comigo na mesma vibração
Não despreze o meu gosto
Que tem muito de emoção
Coloque por favor uma música assim
Que venha morar no meu coração
E que você queira ouvir também
Sem nenhuma reticência
Amante
Cúmplice da minha emoção
http://www.youtube.com/watch?v=sHQ_aTjXObs
Vá rápido e coloque uma música assim na vitrola
Deixe que ela chegue aos meus ouvidos
E caia no meu coração
Mas faça uma prece pra que eu retorne
Pra que eu não me perca no labirinto do som
Mas dê-me esse som
Pra acordar meu coração
Não interrompa a audição
Ouça comigo na mesma vibração
Não despreze o meu gosto
Que tem muito de emoção
Coloque por favor uma música assim
Que venha morar no meu coração
E que você queira ouvir também
Sem nenhuma reticência
Amante
Cúmplice da minha emoção
http://www.youtube.com/watch?v=sHQ_aTjXObs
quarta-feira, 21 de janeiro de 2009
Sutil entremeio
Já disse. Não quero que me olhe desse jeito, com esse olho de admiração, de reflexão; porque nada há em mim que transcenda o simples habitual. Prefiro e reivindico olhares de cobiça, sem motivos aparentes, ainda que determinados até pelo que vê. Porque a cobiça esconde uma finalidade alheia qualquer, não é de recheio esperado como o admirar. A cobiça é um abismo sem fim ou de fundo longíncuo, uma aventura quase interminável até chegar o fim. A admiração já é o próprio fim, mesmo sem ter fim. Talvez esteja enganado; a gente sempre se engana nos meandros do sentir, porque nada mais sublime do que admirar, mas sem distâncias respeitosas, sem medos tão visíveis. Talvez valha mais a operação admirar mais cobiçar que dizem é amar. Porém, estes entes tão distantes, brigam por qual atitude tomar. É no entre que eles se encontram, fazem festa e inundam o coração. É trivial e sofisticado assim. Cabem rotinas e improváveis, cabem beijos suaves e mordidas ferozes, cabe até o que não se contém; porque entre o admirar e o cobiçar tem um fetiche qualquer vestido e nu, como um carnaval de faces irreconhecíveis, fartas e sedutoras, de melindres e fortalezas. Se não me visita assim com o rosto coberto de todas as máscaras, fico confuso, descrente do absoluto, sempre improvável. Não o renego se só me admira ou só me cobiça, mas interpelo você, louco, incompreendido, magoado por tanta precisão, porque quero a indecisão definitiva, a sutileza do entremeio.
domingo, 18 de janeiro de 2009
Tem
Tem um diz que me diz que não diz
Tem um jeito sem jeito que me atiça
Tem uma bruma no olho que não condiz
E um brilho que diz e rediz e desdiz
Tem alguém que aparece assim
Nem tão de repente
Nem tão imponente
Mas premente
Não mente
Só desentende
Mas acende
O meu coração inocente, reticente, demente e indulgente...
Tem um jeito sem jeito que me atiça
Tem uma bruma no olho que não condiz
E um brilho que diz e rediz e desdiz
Tem alguém que aparece assim
Nem tão de repente
Nem tão imponente
Mas premente
Não mente
Só desentende
Mas acende
O meu coração inocente, reticente, demente e indulgente...
Cada dia
Casara-se com Francisco há cerca de quarenta anos; homem forte, trabalhador, limpo. Agora ficava lá na cama, inerte, mas era bonzinho, aceitava tudo que lhe davam; banana amassada, sopa, alimentos previamente liquefeitos, para ajudar os movimentos peristálticos prejudicados. Wal fazia o que podia pelo marido, mas incomodava-se com aquela situação, vinha uma tristeza, um aperto no coração. Francisco não havia sido um marido desses exemplares, muito pelo contrário, porém tinha suas qualidades e era bom pai. Os filhos a ajudavam na lida com ele. Estranha doença o acometeu; segundo os médicos um tumor silencioso tomava conta do seu cérebro, e assim suas funções iam cada vez mais se perdendo, sem, contudo, lhe provocar dor física. A rotina era cansativa; banho de leito, troca de fraldas, alimento na boca, e na saída ele puxava a gola de Wal como que dizendo ‘fica’. Um dia também apertou com força a mão de Márcio, seu filho, no tom ‘gosto muito de você’. Wal dizia; a gente vai levando como pode, mas se assustava mesmo é quando o marido pegava no sono. Ficava olhando o pulsar da blusa que ele vestia, se o coração ainda batia. Todos os rancores naquele momento pareciam menores; ela não queria que Chico se fosse, ninguém queria. Sensação estranha essa do costume com a vida, mesmo frágil, quase a desaparecer. Todos na casa se revezavam nos cuidados, se consumiam nas incertezas dos gostos dele, se a temperatura e o sabor o satisfaziam, se o corpo estava bem acomodado. Ficavam mirando os olhos dele à procura de respostas. Faziam o que podiam, o que não era pouco. Mas a sensação era eterna impotência, mas ao mesmo tempo um viver pleno no cada dia.
sábado, 17 de janeiro de 2009
Compressão
Sempre tivera a mania de ficar parada, não em repouso contido, mas em inércia. Para que entrar em movimento, se nenhum impulso era forte o bastante, suficientemente sedutor? Por que mover sequer uma fração do dedo, um metacarpo? Diziam que era depressão, que não havia motivo, que tudo era tão cheio de beleza, que tanto havia pra fazer e acontecer. Mas ela queria ficar quieta, como se nada a atingisse, uma pedra, posta, assentada em seu destino mineral. Que se desfizesse assim com o passar do tempo, ao sabor do vento escultor, da água e do ar e retomasse um rumo natural, assim pensava. Juravam-lhe inerte, não entreviam o turbilhão lá dentro; o futuro sonhado, quase memória; o passado que queria esquecer, relembrado a todo instante, definitivo; o presente vazio, no entrelugar. A confusão do estar aqui e agora e não estar, mente solta presa nos idos e no porvir. Disseram-lhe para não pensar demais, para abstrair os insucessos, os infortúnios fatais, os desamores. Mas era tudo feito cria no ventre, de estágios embrionários e finais, provocando a compressão dos órgãos e da mente, fazendo entremeio, ligando pontas improváveis até, passado e futuro enlaçados, comprimindo o presente. Descubrira que a ausência de mover era o próprio entrelugar, o ínfimo instante entre o que foi e o que viria. Não o entrelugar móvel, passagem, sem paradeiro, mas o entre indeciso, alheio do presente, fincado entre memórias e expectativas.
terça-feira, 13 de janeiro de 2009
Entressonho
Sonhara de novo com ele. Não sabia bem se era ‘entresonho’, aquele no meio do acordar e dormir, no ‘entressono’. A presença veio assim exata, como verdade indiscutível. Entrara no carro abarrotado de coisas, ajeitara-se bem no cantinho que sobrara, enquanto na frente ele ia não se sabe pra onde, mas levando-a como um de seus pertences móveis; travesseiros e inúmeras lonas soltas. Ficara quieta por instantes, até que ele se virou brincalhão e começou a cobri-la com aqueles cacarecos todos. No meio da sufocação, ela o deteve, descobriu o rosto e olhou-o fixamente; ‘vim aqui pra te ver.’ Ele reclinou a face suavemente em busca de suas mãos e ela o acolheu; conteve aquela mandíbula e os maxilares fortes entre dedos e palmas, sentiu os pêlos brotando intrigantes, os olhos negros pequeninos e brilhantes, a fronte ampla úmida de suor. Não esperava aquele gesto de quem declinava sempre. Não conteve o impulso de beijá-lo até a eternidade, mas acordou quase que instintivamente, como uma negação à reação inesperada. O beijo que desejara roubar daquela imagem que nunca alcançara, aquela inclinação doce de quem pede um carinho ficaram no entressono.
terça-feira, 6 de janeiro de 2009
Provocação 'Beirut'
Rodar, Rodar, Rodar
Em corpo e membros
E parar remanso,
Dançar, Dançar, Dançar,
Crescer em dedos piano,
Em bocas sopros,
Em mãos percussivas,
Extensão e repressão
Sanfonas flexíveis,
Cordas e pulos,
Respirar sem ar,
Despejar suspiros cadentes,
Morcegos pendentes,
Sonar, Sonar, Sonar,
Solar, Luar,
Quedar,
Acalentar,
Jogar,
Resgatar,
Guerrear,
Mergulhar,
Naufragar.
'De onde veio?' 'De onde 'leio' 'ouvileio': http://www.myspace.com/beruit
Em corpo e membros
E parar remanso,
Dançar, Dançar, Dançar,
Crescer em dedos piano,
Em bocas sopros,
Em mãos percussivas,
Extensão e repressão
Sanfonas flexíveis,
Cordas e pulos,
Respirar sem ar,
Despejar suspiros cadentes,
Morcegos pendentes,
Sonar, Sonar, Sonar,
Solar, Luar,
Quedar,
Acalentar,
Jogar,
Resgatar,
Guerrear,
Mergulhar,
Naufragar.
'De onde veio?' 'De onde 'leio' 'ouvileio': http://www.myspace.com/beruit
Arraial
Sempre julguei o prenome de Arraial como algo pequenino, acolhedor, genuíno no jeito de falar, de postar-se diante de alguém como quem faz uma gentileza, um agrado desses do interior muito mais de dentro da gente do que de uma contingência geográfica. E assim parti para mais uma viagem com minha amiga Vi. Disseram-me que era Arraial D’Ajuda, mas confesso que o contingente turístico não permitiu tanta ajuda assim, embora não deva negar a ajuda de alguns. Disseram-me também que estava na Bahia, meu vizinho aqui de Minas, da maneira do Norte, dos sarapatéus, bobós, tapiocas, vermelhos e axés. Estive lá sim, porém senti falta do sotaque exagerado, preguiçoso baiano como ninar de rede em todos os cantos. Fiquei procurando a Bahia dos meus sonhos. Terminei ouvindo baianês, sons latinos e europeus; visitei avenida elegante de suveniers, roupagens e petiscos italianos, argentinos e tantos outros no arraial. Esperei um rodízio de massa na única mesa redonda do Mr. Pastas argentino; só esperei, mas comi um delicioso bolinho de aipim com camarão na barraca de um migrante mineiro lá em Pitinga. Vi pôr do sol na barraca do Parracho ao som axé ‘contaminado’ de tantos outros suingues, guitarras e tribo em festa. Mergulhei em mar de água mansa Mucugê, de onda que quebra em coral e vem balançar a gente em remanso leve. Vi azul de todos os tons de mar e céu, conheci gente do Albergue, da rua e do mar, do quarto de dormir, Marisa, Jana e Solange, gente de correr e subir a ladeira, gente de acolher e gritar e cantar. Não visitei um Arraial, visitei uma vereda de contingentes imensos, distantes, próximos; um sertão que virou mar, se perdeu mar por tantos que chegaram. E eu desavisada, não desesperei, esperei até o último instante o Arraial e ele estava lá imponente por trás, em detalhes que talvez me escaparam, na história que se fez. Agora, pensando bem, o Arraial está aqui, está lá...Arraial é dentro da gente mesmo, no desejo dos encontros de verdade, dos encantos. Confundi-me no entrelugar, nessa ânsia da procura de um único lugar que não existe, de nacionalidade precisa, de modo exato, que faz a gente querer congelar o instante, na busca de uma identidade que se desfaz em multiplicidade inevitável.
sexta-feira, 12 de dezembro de 2008
Meros expedientes
É o meio que nos apavora. A simples idéia de que qualquer ação ou palavra seja um meio de intenções não nobres, ‘morais’; não um fim, uma verdade, assusta, intriga. Por isso, nego-me ao expediente? Por vezes, rendo-me a ele? E esse perfil ao lado, essa descrição ainda que escorregadia de quem pretende alguma autoria, não é um expediente? Por momentos, pode até ser que eu seja o expediente, o mentor desses textos já escritos, ligeiramente modificados na minha ânsia literária. Por outros instantes, chego a crer no expediente inexistente, no layout copiado, doado pelo google; chego a crer na perfusão de histórias e textos que me assolam, que entram em mim, que eu ingênuo, creio tomar de mim mesmo, já esquecido de onde vieram, do lastro original. De todos os tipos, estilos, de tema vário, os textos vêm, assombram-me, fazem tumulto em mim. Vejo-me mero expediente de assombração. E tudo que se diz, que se faz, quase sempre não é mero expediente? De cálculo quase preciso, e até obtusos, intuitivos, os expedientes são fantasmas inevitáveis, institutos de sobrevivência, de convivência. Onde está o fim, a verdade? Tudo não é mero recurso, expediente?
quarta-feira, 10 de dezembro de 2008
A rosa
Nunca havia dado uma rosa. Comprou uma vermelha forte, de pétalas rijas e reluzentes. Preferiu as sem espinhos. No caminho, teve dúvidas sobre a entrega, mas seguiu. Postou-se no portão da moça irrequieto, num vai e vem de quem quer mais é ir sem deixar rastros. Não foi. Apertou reticente a campainha. Colocou a rosa quase no chão da porta e se foi com o pulmão paralisado e o coração em suspense. Se fosse rosa andante entraria feito gato que afina o corpo pra passar em qualquer greta e se alojaria nas delicadas mãos de moça. Mas a rosa sem espinhos e ousadia ficou ali a mercê, um delicado sinal, prestes a desaparecer. Continuou vívida, quase ansiosa na cor, porém, imóvel até a porta se abrir. E aí foi pétala pra todo lado e caule machucado; a rosa ‘desconcertada’. A moça, num suspiro reprimido, olhou o chão de pétalas de sangue. A primeira rosa recebida na vida, assim despedaçada, mas sem os tropeços do caminho futuro, sem idas e voltas de quem chega e nunca sabe se fica.
terça-feira, 9 de dezembro de 2008
Lobo Judas
Oi?
Por que me olha assim desse jeito?
Desse jeito benevolente?
De olhos semi cerrados?
Por que esse olhar de compadecimento?
E essa calma?
E essas mãos eternamente ocupadas?
Uma bíblia e um cajado nas mãos?
Por que insiste?
E eu?
Por que o olho assim curioso?
E não consigo sentir conforto?
Por que voltou?
Saiu do santinho?
Incorporou a imagem?
Por que essa delicada forma?
Essas vestes verdes de esperança?
Esse manto vermelho contundente?
E esses cabelos que lhe caem na face?
Feito véu, feito chuva mansa?
E essas barbas lisas?
Entristecendo os limites do lábio?
A inibir o sorriso pleno de boca e dentes?
Ou o encolhimento de tristeza?
Por que insisto em mantê-lo aqui?
Diante de mim?
Se não creio com fervor?
Se me confundo na expectativa do existir?
Para que serve essa sua base sólida?
Esses membros ocupados?
Realizados?
Enquanto minhas mãos estão soltas?
Por que não me responde?
Por que me obriga a retornar a pergunta?
A mim mesmo?
Eu que não tenho respostas?
Por que me olha assim desse jeito?
Desse jeito benevolente?
De olhos semi cerrados?
Por que esse olhar de compadecimento?
E essa calma?
E essas mãos eternamente ocupadas?
Uma bíblia e um cajado nas mãos?
Por que insiste?
E eu?
Por que o olho assim curioso?
E não consigo sentir conforto?
Por que voltou?
Saiu do santinho?
Incorporou a imagem?
Por que essa delicada forma?
Essas vestes verdes de esperança?
Esse manto vermelho contundente?
E esses cabelos que lhe caem na face?
Feito véu, feito chuva mansa?
E essas barbas lisas?
Entristecendo os limites do lábio?
A inibir o sorriso pleno de boca e dentes?
Ou o encolhimento de tristeza?
Por que insisto em mantê-lo aqui?
Diante de mim?
Se não creio com fervor?
Se me confundo na expectativa do existir?
Para que serve essa sua base sólida?
Esses membros ocupados?
Realizados?
Enquanto minhas mãos estão soltas?
Por que não me responde?
Por que me obriga a retornar a pergunta?
A mim mesmo?
Eu que não tenho respostas?
sábado, 6 de dezembro de 2008
Comadre
Há ainda hoje quem cultive as comadres...os compadres. Há quem não os chame mais assim; mas eles continuam presentes. Há quem um dia precise de uma ‘comadre’; aquela de acrílico duro, irritantemente arredondada em forma de semi-prancha para abarcar o que durante anos se tentou esconder nos vasos, latrinas, e canos invisíveis por trás das paredes, para depois levar o conteúdo exatamente para esses mesmos lugares esconderijos. Etelvina tinha horror de toda sorte de necessidades fisiológicas e alimentava-se periodicamente de bananas ‘de vez’ pra evitar descargas sólidas em curtos espaços de tempo. Quantos aos líquidos não controlava tanto, porque eram informes e o cheiro nem tão imediato. Até que um dia sofreu um acidente paralisante; teve que suportar o convívio com a comadre, objeto inanimado, obrigado a se animar, e como...
A comadre ficava lá na beira da cama, parcialmente descoberta pelo balde vermelho, onde Margarida, a enfermeira, depositava o que Etelvina tanto rejeitava durante a noite. Encarregada de trazer e levar a comadre, dar aquele banho de desinfetante e ajustá-la no traseiro da convalescente, e ver o nascedouro de todo aquele resíduo alimentar, Margarida não se importava; já estava acostumada. Mas Etelvina se constrangia de tal forma, que não podia evitar o sentimento de decepção de a virem assim, expelindo o que a humanidade durante tantos anos se aperfeiçoou em esconder, como de forma tão adequada Milan Kundera descreveu na ‘Insustentável Leveza do Ser’. Etelvina era leitora ávida de diversas literaturas, e essa em especial a fez pensar sobre o que tanto a afligia. Aliás, a leitura a deixou parcialmente conformada, porque não era somente ela quem tentava esconder até de si mesma o caráter humano perecível, que já dá suas demonstrações durante toda a vida.
Passada a fase crítica de recuperação, Etelvina não precisou mais usar a comadre. Quase se esqueceu dela. Retomou as rotinas higiênicas modelo. Só de vez em quando mirava a comadre bem ao lado da pia, parcialmente aposentada. Contudo, continuou invocada e incomodada com as excrecências humanas, mas agora muito mais com aquelas escondidas não nos canos por trás das paredes e sob o solo, mas percorrendo nervos e mentes.
A comadre ficava lá na beira da cama, parcialmente descoberta pelo balde vermelho, onde Margarida, a enfermeira, depositava o que Etelvina tanto rejeitava durante a noite. Encarregada de trazer e levar a comadre, dar aquele banho de desinfetante e ajustá-la no traseiro da convalescente, e ver o nascedouro de todo aquele resíduo alimentar, Margarida não se importava; já estava acostumada. Mas Etelvina se constrangia de tal forma, que não podia evitar o sentimento de decepção de a virem assim, expelindo o que a humanidade durante tantos anos se aperfeiçoou em esconder, como de forma tão adequada Milan Kundera descreveu na ‘Insustentável Leveza do Ser’. Etelvina era leitora ávida de diversas literaturas, e essa em especial a fez pensar sobre o que tanto a afligia. Aliás, a leitura a deixou parcialmente conformada, porque não era somente ela quem tentava esconder até de si mesma o caráter humano perecível, que já dá suas demonstrações durante toda a vida.
Passada a fase crítica de recuperação, Etelvina não precisou mais usar a comadre. Quase se esqueceu dela. Retomou as rotinas higiênicas modelo. Só de vez em quando mirava a comadre bem ao lado da pia, parcialmente aposentada. Contudo, continuou invocada e incomodada com as excrecências humanas, mas agora muito mais com aquelas escondidas não nos canos por trás das paredes e sob o solo, mas percorrendo nervos e mentes.
sexta-feira, 5 de dezembro de 2008
Gestação
Gang, Gango, Gangor, Gangorra
Gangorra, Gangor, Gango, Gang
Modorra, Modor, Modo, Mod
Mod, Modo, Modor, Modorra
Modorra na Gangorra
Palavras fatais
Abismais
Balanços
Movimentos fatais
Gestacionais
Gangorra, Gangor, Gango, Gang
Modorra, Modor, Modo, Mod
Mod, Modo, Modor, Modorra
Modorra na Gangorra
Palavras fatais
Abismais
Balanços
Movimentos fatais
Gestacionais
'Fotopictóricos'
Sempre achei que as paredes estavam lá para darmos um sentido a elas. Brancas ou de outra cor exata, prestes a receberem um quadro, um pôster, um artefato qualquer; não simplesmente para quebrar a monotonia e dar um ar decor. Conheço até quem goste de parede nua, sem inscrições aparentes, à espera de um sentido esperado ou inesperado. Cultivei algumas fotos emolduradas nesta vida; permiti que sprays coloridos manchassem os limites da minha intimidade. Montei quase um quebra-cabeça dos meus gostos musicais, cinematográficos e da realidade cotidiana, personagens da minha vida, eu mesmo. Encontrei o exato espaço na parede, onde meus olhos percebiam um significado compreensível, uma lógica incompreensível para outros. Ainda restam muitos brancos que não gostaria de preencher. A localização de cada um dos ‘fotopictóricos’ não é de uma exposição; eles não têm tempo marcado para ir embora, nem estão em busca de uns centímetros mais adequados para visitante ver. Seus lugares nasceram de um sentimento intuitivo de organização dos significados, fazem parte do meu entendimento do mundo. Não me importa que as pessoas se dediquem a contemplá-los longamente e até mesmo que fiquem injuriadas, mas de contragosto civilizado. Não me importo também que cheguem mansamente e me ajudem a montar os sentidos dos meus lugares, do meu lugar, desde que eu não perceba o desmontar de mim mesmo. Tudo o que está inscrito aqui nestas 'paredes minhas' tem um quê de 'seminudez minha', quase um conjunto de fragmentos para que eu me situe, mesmo de forma incompleta, nos momentos de acolhimento de mim mesmo, e até de desencontro.
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