Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
'Reencontro'
Poucos são os lugares a que retornamos, senão àqueles bem nossos, quase estados de alma, contra e a favor dos quais não sabemos dizer, só mesmo sentir. E, sem dúvida, não retornamos a nenhum lugar, mas sim a um estado de espírito curioso de novas visões mesmo que com vestes repetidas. Voltamos para o reencontro do aconchego, da nossa própria casa estampada nas outras. Voltamos para o olhar de consentimento e desaprovação cúmplice e solidária. Voltamos para rever o que nem tínhamos visto e saber do reencontro, sem nem mesmo ter encontrado antes. Foi assim essa nossa ida ao Rio. Eu e Vivi de novo na rodoviária, com alguns tropeços pelo tempo das partidas e chegadas repetido e novo, até retomarmos a conversa pelo caminho. Tudo seguiu cheio de movimento; na Lapa, na quadra da Mangueira, até na entrada do Castelão, que ficou só na concentração, e na praia. Agora um movimento foi, não diria inusitado, mais quase raro; o cuidado dos anfitriões. Gabriela sempre bem disposta, sorridente e companheira. Gláucia e Gilmar, espontâneos e acolhedores, na fala, no preparo das comidas, nas conversas vastas em torno da mesa da cozinha. Vitória que viu seu quarto multiplicado de gente e coisas espalhadas pelo chão, sem a menor expressão de irritação. Rhany, a visita constante e carinhosa. E todas as outras pessoas que passaram pela casa ou pela rua para nos ver ou nos rever, como Vânia, e a sensação permanente de ser de lá por aqueles dias, parte daquele lugar, no retorno sem nunca ter estado, como aquela história da ‘saudade daquilo que nunca se viveu’, e do ‘amor ferida que dói e não se sente’...desse sentimento que a gente tem daquilo que parece que já vivemos um dia assim que encontramos ‘em algum lugar do passado’, mas presente, supreendentemente vivo.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Onde está?
O entrelugar está em migração,
Anda em direção ao outro lugar,
O contrário do lugar que era,
O outro inóspito,
Irreconhecível lugar,
De agostos passados,
De setembros passados,
De frio no lugar do sol,
Do calor inclemente,
Inesperado,
De chuva tempestade;
O entrelugar suave,
A delicada transição,
Deliciosa e sutil,
Esvaziou
Na inconstância do clima,
Nas certezas alienadas,
Nas almas em fuga...
Anda em direção ao outro lugar,
O contrário do lugar que era,
O outro inóspito,
Irreconhecível lugar,
De agostos passados,
De setembros passados,
De frio no lugar do sol,
Do calor inclemente,
Inesperado,
De chuva tempestade;
O entrelugar suave,
A delicada transição,
Deliciosa e sutil,
Esvaziou
Na inconstância do clima,
Nas certezas alienadas,
Nas almas em fuga...
segunda-feira, 31 de agosto de 2009
Azeitonar
Aquela reunião regada a vinho se repetira;
Dessa vez era um Rosé, quase um licor de morangos excessivamente maduros, barato, mas degustado com prazer; com jeito de caro nas mesmas taças repetidas, ávidas pelos lábios;
O vinho era fálico e o corpo amolecia;
As falas reverberavam na alma e os ouvidos se distraíam e voltavam, sem pudor de não ouvir, de não ter qualquer parecer sensato a dar, senão o contemplar do aconchego e da familiaridade do instante;
Na mesa o pequeno prato com azeitonas verdes e nas bocas o experimentar sendento das esperanças, verdes;
E as verdes esperanças eram engolidas sem respirar entre os dizeres e risos já amarelados, querendo esverdear de novo, azeitonar, com o sal na medida e o oliva reparador...
Dessa vez era um Rosé, quase um licor de morangos excessivamente maduros, barato, mas degustado com prazer; com jeito de caro nas mesmas taças repetidas, ávidas pelos lábios;
O vinho era fálico e o corpo amolecia;
As falas reverberavam na alma e os ouvidos se distraíam e voltavam, sem pudor de não ouvir, de não ter qualquer parecer sensato a dar, senão o contemplar do aconchego e da familiaridade do instante;
Na mesa o pequeno prato com azeitonas verdes e nas bocas o experimentar sendento das esperanças, verdes;
E as verdes esperanças eram engolidas sem respirar entre os dizeres e risos já amarelados, querendo esverdear de novo, azeitonar, com o sal na medida e o oliva reparador...
quinta-feira, 27 de agosto de 2009
Com quem será?
Sua cabeça fervilhava, mas não de uma perfusão de acontecimentos, lembranças ou versações da alma, e sim de um único assunto, o qual nada nem ninguém jamais conseguiria remover. Virgílio tinha, aparentemente, meia idade, porém nada em sua imagem revelava desgaste excessivo; o corpo era esbelto em baixa estatura, os dentes bem cuidados e as linhas pela face ainda rasas. Ela o conhecera na rua mesmo, paralela à estação do metrô, de camisa azul com logotipo, calças jeans. Os cabelos grisalhos colaboravam com a aparência distinta, mas o sorriso revelava algo de torpe, sedutor e enganador. Encontraram-se algumas vezes, muitas talvez. Contudo, a vida dele sempre pareceu, a ela, um tanto nebulosa. Diziam que era separado da esposa, era professor de instituição reconhecida, ainda que não ganhasse muito; pegava o trem urbano todos os dias e, por vezes, na sexta, tirava seu carrinho da garagem. Seus encontros foram sempre furtivos, guardados para beijos e roçar de pele e pêlos e mãos exploradoras, na praça, no bar, no cantinho escuro da rua. Nesse tempo ela andava com sorriso sonhador e queixo avermelhado. Disso tudo, sobrou quase nada na alma dele e tudo na dela, uma batida forte na cabeça; Virgílio, Virgílio, Virgílio...e uma seqüência de ladainhas, tanto que as falas se repetiam e também as inconclusões.“ Ele está com ela. Tô falando. Ela, a Mariângela, é ela, ou então é a filha dela, porque a filha dela é nova, bonita.” Outras vezes se lembrava de Mara, uma vizinha, que tinha se envolvido com Virgílio em primeira mão, ‘aquela traidora, que me trazia salgadinhos com a cara mais limpa’. Depois era a Gina, negra corpulenta da escola, bem vestida com pose no carrão. Mas agora era mesmo a Mariângela; ‘a conversa dela é esquisita. Ela comprou até cama de casal. Agora deve estar lá deitada com ele no bem bom e eu aqui sozinha.’ Ela se ressentia por não ter dado boa vida ao Virgílio. Lamentava não ter lhe dado a comida quentinha e outras quenturas descaradamente. 'Eu acho que a Mariângela deu até carro pra ele. Eu vi ele saindo do prédio dela na hora do almoço. Bem, ou tá com ela a Mariângela, ou com a filha dela, que é nova, bonita.' E interpelava e concluía: ‘ele não presta né? Nem vou mais ligar pra ele; ele não presta mesmo...mas é tão bonitinho...eu gostei tanto dele...’ E duvidava: ‘ou ta com ela, a Mariângela, ou com a filha dela, ou com a Mara...ele teve um caso com a Gina também...’
terça-feira, 18 de agosto de 2009
Aparição
Aparição é coisa de assustar. Tem visões que nem são visões e são visões, porque parecem visões. De tanto esperar e evitar e esperar aquela imagem, a surpresa pelo privilégio daquilo divinizado diante de si, fez faltar o ar. O corpo ganhou tamanha capacidade de sobrevivência e os tecidos, todas as células ficaram atléticas, apnéicas, mudamente histéricas, amitocondriais, enquanto a imagem dela desaparecia frente a sua fisiologia alterada naquele instante. Tudo que poderia ter dito se calou, porque o instinto de sobrevivência não permitiu nem raciocínio, nem fala que valesse ou suportasse a confusão por dentro dela. E a torcida era toda para que ninguém percebesse, tão incomum pareceria algo assim não dito e tão vívido e vivido. E qualquer gesto não valeria, porque simplesmente, tudo o que se apoderara dela era uma espécie de dormência, porque, afinal de contas, não havia mais oxigênio em parte alguma. Aparição é coisa de tirar o ar e não cabe entendimento algum. É uma espécie de constatação sem argumentos e sem salvação, simplesmente aparição.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Uma cama no além
Ele vinha sempre, nos últimos meses, deitar-se ao seu lado na cama, naquela cama que insistentemente adquiriu, mais ampla, como se realmente houvesse alguém pra se deitar ali todos os dias, desde sempre. Foi divino já tê-la ali, espaçosa, ainda antes que ele chegasse. De fato, ele parecia meio fantasmagórico, posto que nem sempre se deitava na mesma hora que ela, nem mesmo se levantava quando os olhos dela se abriam para as manhãs obrigatórias, com seu coração ainda em sono de sonho. Ele surgia em horas imprevistas quando a mente dela divagava e o peito ansiava um afago, e o corpo sofria de uma angústia inexplicável. E ela se alegrava por tê-la, a cama tão grande pra que ele se aconchegasse, mesmo que não ocupasse todos os espaços, sempre insistente que era na superposição de corpos, como se o vazio o aterrasse, o vazio daquela cama. O rosto dele nem sempre vinha o mesmo, muito menos o corpo; por vezes parecia-se com alguém conhecido, mas ela pressentia que, de verdade, o reconhecimento era algo forçado, como se um fantasma não coubesse naquela cama, mas antes um desejo bem formulado, exato dos gestos que seu corpo pedia sem reservas. E aquele desprendimento todo, aqueles arrepios e convulsões vinham de um jeito sôfrego, porque sempre aquele que vinha se afastava, mas sem movimento algum, e aquele espaço da cama de estendia no além...
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
Soletrado
In-sig-ni-fi-cân-cia… Era assim desse jeito soletrado que seu sentimento vinha, quase num ecoar de badaladas de sino intermitente, e essa palavra tinha quase a exata substância do que ela sentira durante muitos anos de sua vida, embora, por vezes, tentasse se enganar. E aquelas imagens de rotina, que vez por outra se mesclavam com uma ordem de insatisfação com tudo, mas sobretudo, com o passar do tempo irremediável. Ao lado aquela face já marcada e aquelas mãos já gastas no traje preto e nas pulseiras de contas a rememorar um tempo; e num paradoxo a mesma inquietude com o bater forte do sol na pele ainda sensível. Na descida de um ponto de ônibus qualquer aquela outra face de dentes alvos e olhos arbóreos, quase um esperar calmo, sem desatino, uma promessa. Mais uns passos e lá vinha a fadinha no borboletar de asas e óculos cor de rosa e aquele vestidinho verde água puxados pela mãe, apenas uma fantasia da vida que por não se saber vida real, sobrevive imageticamente, com delicada força, até desaparecer... assim como o passar do tempo...até desaparecer...In-su-por-tá-vel, assim soletrado também, era toda a ambiência em que ela se apresentava, porque dentro de si havia algo que faltava tão densamente, que transfigurava tudo a sua volta num remoer de coisa já moída, prestes a desaparecer...E ela não queria ser solidária, companheira, nada do esperado dos outros, senão a pura imagem do desprezo por tudo a sua volta, porque dentro tudo era confuso e triste e não havia sentidos para se mover nem sequer com os olhos, nem para ouvir quaisquer palavras, posto que tudo soava fúnebre ou irritante. E os sorrisos a sua volta eram luzes piscantes, ‘insubstantes’, e naquele mero instante vinha um sentimento de também querer sorrir, mas o rosto encontrava-se de tal forma retesado, que o sorriso sairia mais um desagrado ou um susto de dentes à mostra por força que por querença. E aquele movimento todo em busca do nada e do tudo a sua volta era um passo inconsistente no vácuo...e naquela vastidão aprisionada nas beiras de uma mesa qualquer, de umas paredes quaisquer, de uns aparelhos inevitáveis ela se postava feito um artefato qualquer, crente que alguém a confundisse, a esquecesse, até desaparecer...De-sa-pa-re-cer, soletrado assim...tinha algo de sublime que ela não queria, senão o desaparecer rápido, sem sílabas, num átimo...Que fosse o desaparecer esse próprio segundo, mas de primeira leva, sem seguridade, lamentações e hesitações...Sumir....Su-mir....até desaparecer...sem voz que sair, sem ouvido que guardar, sem olhos que consentir, sem nariz que farejar...Es-que-ci-men-to...
segunda-feira, 3 de agosto de 2009
Sono
Ninguém me subjuga ou me submete. Minto. O sono é meu dono; sujeito tentador e misterioso que me ronda todas as noites e pelos dias assalta-me a lucidez, a ingênua lucidez de estar acordado. Porque em verdade é quando acordo que durmo e quando durmo acordo para o mundo da irrealidade mais real e desejável que possa existir; estar com ele; o sono, é melhor que tudo. Quantas histórias ele me revela e dizem que elas já estavam lá, e ele, o sono, é só um despertar. Que sossego me dá; ele, o sono, que me tira a dúvida, pois que me faz não pensar. E nesse instante, minha mente é contingente de todos os sonhos pensados e impensados; o sono é esse louco amante que me submete, me subverte a todas as impropriedades do real, dessa sonolência de viver acordado, sem ser amado. Porque o sono...Ahh...o sono, ele ama-me com ternura indecente, com afagos irreverentes, com momentos inexistentes que estão lá a me espiar quando durmo acordada. O sono vem me acordar na dormida mais incógnita e aventureira que se pode pensar, pois que ele quer-me tão bem, que não me ilude com possibilidades, porque se pensarmos bem, as possibilidades nem sempre são prováveis, e isso faz-nos tristes e alegres, porque vem ele o sono acalentar; grávido dos sonhos, ele me carrega e embala e me arremessa sem piedade, e me faz de alguma forma reviver...
terça-feira, 28 de julho de 2009
De que me vale...?
De que me vale saber o seu nome e o que vai dentro da sua alma? De nada vale, pois que seu aspecto externo, a visão que tenho de você, e até mesmo da idéia auditiva que tenho do farfalhar das mangas de sua blusa sobre sua pele e do seu sapatear nos passeios já são tudo o que quero? E ainda assim teimo em não querer, por querer tanto assim esse externo que o envolve numa aurora ou num crepúsculo de mistério sem mistério algum, senão essa imagem que me submete em pensar em ti em qualquer instante e em instante algum... De tudo valeria se sua alma fosse alguma expectativa minha, mas em tudo sou confusa e infiel, posto que do seu externo penso românticos os gestos, mas em suas palavras dói-me a alma por serem às vezes ríspidas e impositivas. Assim, de nada continua valer tê-lo de corpo e alma, mas apenas vale essa bruma que o encobre pelos caminhos que visito e imagino. E de tudo, vale-me tanto a emoção que sinto ao pensar em você, nem belo, nem feio, mas de um feitio aterrador e inspirador para minhas ânsias sexuais, mas sempre e eternamente emocionais e textuais. Por isso, esse seu externo me toca tanto, esse seu personagem sem alma, sem nome, com quem posso criar qualquer roteiro, de chegada ou de partida, mas verdadeiramente sempre de partida, pra voltar com outras vestes e farfalhares de mangas e braços pendentes de abraços, e ombros ligeiramente projetados no ir e ao mesmo tempo caídos ou a volver para trás...De nada vale saber de dentro de você, porque só dentro de mim você se faz e se refaz no mistério, na curiosidade, e até no pensamento exato que se formou em qualquer tempo em minha mente, ou em outra qualquer que eu tenha roubado, e levianamente e inocentemente pensei que pensei...De nada vale ter você completo por fora e por dentro, pois tudo vale só pelo meu pensamento de você...desse externo e de todas as cores que você veste; do branco sóbrio, do vermelho quente, do verde quase anil...ou mesmo da cor da pele, revestida de suores e cheiros imaginários...
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Não vivo sem Pp(essoa)
Não consigo mais viver sem Pessoa
Mas o Pessoa Fernando
Esse eu sinto e leio mais pessoa
Por isso não vivo mais sem ele
Porque por ele me ‘pessoo’ e me ‘desapessoo’
E se seu ‘desassossego’ foi tanto
Nele e com ele me desassossego
Sob pena de me sossegar
E me desapessoar
Por isso ‘Pessoo’ e ‘pessoo’
Não consigo mais viver sem pessoa...
Mas ele já vive sem mim algum tempo
Sempre viveu algum tempo
Em sossego e desassossego
E se foi no desassossego de nada
E de tudo
Pessoou tanto
Que pessoa eu e você
Até os Fernandos sem pessoa...
Mas o Pessoa Fernando
Esse eu sinto e leio mais pessoa
Por isso não vivo mais sem ele
Porque por ele me ‘pessoo’ e me ‘desapessoo’
E se seu ‘desassossego’ foi tanto
Nele e com ele me desassossego
Sob pena de me sossegar
E me desapessoar
Por isso ‘Pessoo’ e ‘pessoo’
Não consigo mais viver sem pessoa...
Mas ele já vive sem mim algum tempo
Sempre viveu algum tempo
Em sossego e desassossego
E se foi no desassossego de nada
E de tudo
Pessoou tanto
Que pessoa eu e você
Até os Fernandos sem pessoa...
segunda-feira, 20 de julho de 2009
Até que os olhos se fecham...
Era uma perfusão de imagens fundidas em uma só, e ainda assim múltiplas, de facetas sérias e sorridentes. Não saberia precisar a exatidão e nem a inexatidão daqueles momentos de mirar-lhe o rosto, por vezes ranhurado das pregas do sorriso, por vezes retesado como um monólito; e por traz daqueles óculos, um certo olhar comprimido, como se fizesse um movimento de acendimento qualquer, pra ver melhor aquilo que diante de seus olhos poderia ser mera ilusão, ou simplesmente a tentativa de driblar o embaçamento das lentes de grau ou a penumbra das lentes de sol. A face se colocava também num relaxamento involuntário e os lábios entreabriam, mostrando os dentes incisivos principais desalinhados com os outros, em posição de riso brando, contemplativo. E as mãos buscavam a curva do ombro ou qualquer pedaço de pano pendente de sol ou luar, sem saber se queria vestir ou despir aquele momento de todas as intempéries do olhar e da audição. Não queria ser visto, mas ver e tocar o lapso de encantamento; encontrar alguma acertiva para os pensamentos involuntários que rondavam seu corpo, e a mente precisava conter o gesto que de tanto se fazer, desfazia-se num respirar vago e incrédulo. Incredulamente passava aqueles momentos diante de imagem meio obtusa, irritante e até ordinária. Credulamente se postava e pedia um afago qualquer que fosse pra crer naquele instante de divindade e afeto, de sonho refeito no último momento, ressuscitado. Roçava-lhe vagamente a pele do pescoço, num átimo, insuficiente para o gosto e o cheiro serem guardados, senão um único fechar de olhos, quando qualquer um aninha-se no outro, como a dormir na instantânea fragilidade de olhos fechados...
sexta-feira, 17 de julho de 2009
Movimento fatal
Poderia escrever algo sobre aquela pipa preta vagando sobre o céu...Sim, poderia pensar na dança da ave negra e do planar solitário no azul, e descrever das mãos do menino naquele movimento firme e rítmico para manter a sensação alada; o vento a bater forte, a pressionar os quadrantes plásticos de uma transparência quase de asa. Alguém me disse algum dia que eu poderia grafar sobre qualquer coisa, até sobre a bula de remédio, já escrita e revolvida por olhos de comiseração por tantas contra-indicações e efeitos fantasmagóricos sobre os patógenos, que nossos olhos só podem ver às custas de cultivos mirabolantes, adocicados, e em grupos de magia colorida e fétida...Poderia discorrer sobre aquela desconhecida mulher grisalha apoiada no meio fio com olhar tenebroso e perdido de coragem, de só estar ali sob a mira dos olhos chocados de interrogação...Poderia dizer em palavras rotineiras da repetição do trabalho do escritório, dos ares de respostas obrigatórias, dos atendimentos telefônicos e das faces escondidas sobre a docilidade da voz, da pilha de papéis inertes e esquecidos sobre as mesas e do barulho insuportável do ar condicionado e dos carros lá fora...Poderia falar de qualquer coisa e grafar com ares poéticos...Mas sinto uma vaguidão qualquer e um sentimento de dizer e escrever o que ninguém jamais escreveu e mesmo assim, forçosamente, devo admitir que tudo já foi dito e escrito, e isso também já foi dito e redito... Pobre de mim, mas sonho e queria vestes irreconhecíveis pra que as histórias soassem novas, e as palavras estivessem ali feito leito manso de rio, a receber corpos animados e inanimados a transbordá-lo de outras vestes...Mas escrever essa primeira veste que se reveste irremediavelmente de outras eu queria...Queria não me identificar com nenhuma escrita, nenhum dito, e me apossar da palavra última, pra que ninguém mais a dissesse em qualquer combinação que fosse, pra não amargar o sofrer de imaginar que ela está lá de alguma forma. Queria a palavra esquecida e lembrada apenas por um instante, repetida sem lembrança de ser repetida...Queria e não queria, porque ao mesmo tempo que me toca o afã da originalidade, tocam-me também as reedições dos pensamentos, dos livros que nunca pensei fossem ler de mim ou de qualquer outro pobre fazedor de historinhas que fosse...porque foi dito e não foi dito está em qualquer lugar, na memória esquecida e nas virtuosidades da lembrança, do aconchego, do reconhecimento da palavra cotidiana, do afeto e do desafeto com a palavra...e o estranhamento da palavra é só um entrelugar que se desfaz e se refaz, e a ida pro lugar estranho e o retorno pra esse mesmo lugar já reconhecido é um movimento fatal de qualquer fazedor de histórias, vivedor de histórias...
quinta-feira, 16 de julho de 2009
(In)exata cadência
Sofro. Sofro pela falta de momentos de desgarramento de mim mesmo. Preso na inconstante e forjada imaginação, me tomo de todas as delícias que a realidade não me permite, não me concede; porque também não se concedem delícias a ninguém, senão a um personagem qualquer, iludido no viver da realidade inexistente. Gostei de você, confesso! Gosto! Mil vezes confesso! Mas sem saber e crente ao mesmo tempo, certo como um devoto. Contudo, só o soube muito além da devoção e das possibilidades várias, irremediáveis e até improváveis.
Era tudo meio nebuloso mesmo, e ainda continua assim, escuro feito nuvem cinza, porém vagante, deixando o céu a descoberto por instantes. E nessa escuridão e por esse clarão, chego a sentir por momentos a solidez de um sentimento, irreconhecível, perdido e achado, perdido de novo e encontrado num lapso, num anuviamento da mente.
Agora tenho que admitir; gosto de você de um jeito estranho, não porque intuo que você não gosta e teimo em querer impossibilidades, mas porque você parece ter gostado de mim um dia, mesmo sem saber; disse que não sabia em olhos de interrogação; disse que sabia em olhos de contemplação.
O gostar de você, simplesmente, é o gosto do gosto dos pensamentos que me tomam todas a manhãs e em todas as horas que se fazem manhãs entre sono e lucidez, quando adormeço, por querer e não querer. E nos dias frios, em que o vento corta os intervalos da trama da lã da blusa, enrigela tudo por dentro, e a alma sonha sonhos de você. Algo que parece já ser o cume de uma geleira, apercebe-se quentura, por isso sente o gelo.
Até o cachorrinho castanho deitado na calçada imensa, com um tomate maduro, rubro ao extremo, diante de si, provoca-me arroubos de calafrios e febre, enquanto você me vem em passos firmes e entrevejo seus lábios vermelhos, quase fruta a derreter. E aquele senhor da vila, sentado na mesma calçada larga, encolhido, encurvado com seu cortador de unha a postos, extirpando as partes mortas, lembra-me ao longe uma fotografia de um parque distante, de alguém que não veio pra ficar, e dentro de mim se faz vila de outono, com folhas caídas, nariz enrubescido e olhos lacrimejantes.
Lembro-me de você e tenho dúvidas sobre se lembro de você ou do que imagino de você ou de mim com você, inimagináveis imagináveis, como num filme, a exata ficção; como na realidade, parca fragmentada, na (in)exata cadência do sentir.
Era tudo meio nebuloso mesmo, e ainda continua assim, escuro feito nuvem cinza, porém vagante, deixando o céu a descoberto por instantes. E nessa escuridão e por esse clarão, chego a sentir por momentos a solidez de um sentimento, irreconhecível, perdido e achado, perdido de novo e encontrado num lapso, num anuviamento da mente.
Agora tenho que admitir; gosto de você de um jeito estranho, não porque intuo que você não gosta e teimo em querer impossibilidades, mas porque você parece ter gostado de mim um dia, mesmo sem saber; disse que não sabia em olhos de interrogação; disse que sabia em olhos de contemplação.
O gostar de você, simplesmente, é o gosto do gosto dos pensamentos que me tomam todas a manhãs e em todas as horas que se fazem manhãs entre sono e lucidez, quando adormeço, por querer e não querer. E nos dias frios, em que o vento corta os intervalos da trama da lã da blusa, enrigela tudo por dentro, e a alma sonha sonhos de você. Algo que parece já ser o cume de uma geleira, apercebe-se quentura, por isso sente o gelo.
Até o cachorrinho castanho deitado na calçada imensa, com um tomate maduro, rubro ao extremo, diante de si, provoca-me arroubos de calafrios e febre, enquanto você me vem em passos firmes e entrevejo seus lábios vermelhos, quase fruta a derreter. E aquele senhor da vila, sentado na mesma calçada larga, encolhido, encurvado com seu cortador de unha a postos, extirpando as partes mortas, lembra-me ao longe uma fotografia de um parque distante, de alguém que não veio pra ficar, e dentro de mim se faz vila de outono, com folhas caídas, nariz enrubescido e olhos lacrimejantes.
Lembro-me de você e tenho dúvidas sobre se lembro de você ou do que imagino de você ou de mim com você, inimagináveis imagináveis, como num filme, a exata ficção; como na realidade, parca fragmentada, na (in)exata cadência do sentir.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
Caminho matinal
Todas as manhãs ele a acordava com aquele suave roçar de lábios em cada meandro, em cada curvatura e reentrância de seu corpo ainda sonolento. E ela se punha quase inerte; temia que seu movimento o fizesse recuar. Era quase um despertar de cada sentido, como se ao final daquele ritual despudorado e delicado, ela finalmente acordasse com sensação de completude, com a percepção de cada parte e o todo, por vezes, até reconhecível. Era esse mimo de todas as manhãs, antes do sol se erguer por completo, que refazia as desajeitadas palavras, as indiferenças do dia a dia, que nem de longe se pareciam com aquele toque matinal, quase um nascer de nervos e capilares inertes, massacrados no quotidiano, e mesmo da noite de gestos urgentes de um prazer, de um instantâneo, de um apagar da memória e de um respirar ofegante, quase egoísta. Mas aquele caminho dos lábios pela manhã o redimia e o cobria de uma aura qualquer, de uma quase arqueologia a cada dia, dos cheiros, dos suores, da temperatura, da textura e das divagações lineares e obtusas de cada conjunto muscular, das tremuras e suspiros da pele e da alma no entressono. Tudo se reencontrava ali naquele instante, e ela despertava e se fingia de sonho, enquanto ele farejava sua superfície meio atônito, mas a controlar a exata tensão para não acordá-la...pra não cessar a noite, para não nascer o dia; para fixar-se na relativa luminosidade da aurora...e esquecer-se do ocaso...
segunda-feira, 6 de julho de 2009
Depois daquele tempo
Depois daquele tempo, em que a juventude já passara, mas ainda sobravam alguns resquícios, as pupilas brilhantes, os olhos meio rasos ao acordar...
Depois daquele tempo, quase um tempo milimétrico diante da imensidão das horas incontáveis, irreprimíveis de tantas vivências, os olhos subitamente começaram a mergulhar em poço fundo, suas órbitas ganharam bordas arroxeadas...
Depois daquele tempo, em que o sorriso se abria em músculos bem assentados, em gordurosas bochechas e covas, o riso começara a ficar solto, sem os limites aconchegantes de tempos outrora...e a graciosidade das marcas esculpidas desde o nascedouro escapavam...
Depois daquele tempo, os ossos da face já eram indiscretamente visíveis, marcando ângulos antes submersos; praticamente era possível entrever o esqueleto frágil, a verdade óssea camuflada...
Depois daquele tempo, o espelho não devolvia mais aquela imagem suave, de contornos agradáveis e harmônicos; via-se agora a irrupção de qualquer coisa, não se sabia qual, de passar e não voltar...de flexibilidade débil, como um esgarçamento qualquer...
Depois daquele tempo, o sono não servia mais de elixir e o rosto retornava até em pesadelo; sôfrego, não trazia mais o gesto do sonho encantado...
Depois daquele tempo, quase um tempo milimétrico diante da imensidão das horas incontáveis, irreprimíveis de tantas vivências, os olhos subitamente começaram a mergulhar em poço fundo, suas órbitas ganharam bordas arroxeadas...
Depois daquele tempo, em que o sorriso se abria em músculos bem assentados, em gordurosas bochechas e covas, o riso começara a ficar solto, sem os limites aconchegantes de tempos outrora...e a graciosidade das marcas esculpidas desde o nascedouro escapavam...
Depois daquele tempo, os ossos da face já eram indiscretamente visíveis, marcando ângulos antes submersos; praticamente era possível entrever o esqueleto frágil, a verdade óssea camuflada...
Depois daquele tempo, o espelho não devolvia mais aquela imagem suave, de contornos agradáveis e harmônicos; via-se agora a irrupção de qualquer coisa, não se sabia qual, de passar e não voltar...de flexibilidade débil, como um esgarçamento qualquer...
Depois daquele tempo, o sono não servia mais de elixir e o rosto retornava até em pesadelo; sôfrego, não trazia mais o gesto do sonho encantado...
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Algo mejor!
Tienen que conseguir algo mejor! Adamina de Las Casas esbravejava com a nora bem na descida do morro. Bem altas as duas, pareciam quase as extensão íngreme daquela rua que ia dar exatamente na vila onde o filho de Adamina resolvera construir seu ninho de amor e sua oficina de circo. A reforma seguia lenta e ainda se entreviam as vigas que iriam sustentar as paredes sobrepostas. As superfícies aos poucos iam ganhando tons alegres de cor, amarelo, azul e vermelho. Na porta, a kombi, mimetizada de palhaço, parecia mais um da trupe, e os olhos de Adamina cada vez mais estilhaçados de tanto terror. Pois então, não havia vindo de Buenos Aires exatamente pra ver todos bem acomodados? Artistas tão talentosos deveriam mesmo fazer muito sucesso no Brasil. Os projetos se multiplicavam; era visível naquele espaço pouco aconchegante. Ali se amontoavam pernas de pau, vestimentas, perucas, lonas e várias fotos na parede. No chão uns colchonetes e nas faces as almas repletas, mas Adamina ficara injuriada; Tienen que conseguir algo mejor!
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