terça-feira, 9 de março de 2010

Assentos

Aquelas duas cadeiras postas
E a luz serpenteando no meio
Aquele vazio nos assentos
Gravemente acentuado
Pela luz no entremeio
Aquelas duas cadeiras postas ali
Para o sentar de descanso e ‘canso’
E a luz escapando pelo meio
E os corpos ausentes
Enquanto os assentos silentes
De nem mentes
De nem montes
Cavernosos ou rochosos
Se enchem
Aquelas duas cadeiras postas
Sem mortos ou vivos
Talvez natimortos
Os que não vieram
E a luz se deu
Nos partos esfumaçados
Da imaginação
Enquanto as cadeiras postas ali
Quase ventres estéreis
E a luz atiçante, ululante
No apago da noite
No lago do dia
E as almas sobre os assentos
Em ‘Ls’ obscenos
Escondidos gozos
Ofuscados de luz divina
Aquelas duas cadeiras postas ali
E aqui, e acolá
Por um clássico sabor de solidão
A decorativa solidão
Até vir os complementos de solidez
Os complementos de sordidez
As visitas indiscretas
No templo do vazio
Sem anedotas ou sátiras
Ou risos de sorrir da boca faminta
Aquelas duas cadeiras postas ali
Sem os liames sonoros
Do assentar e conversar
E gozar no outro
De ouvido nu
O gozo maior da palavra
Bem ali
Nos dois assentos postos ali...

Segredo confesso

Ela sabia do segredo, do dela tão segredado, guardado para si, desgarrado de si, gritado nos olhos de desvio, nos lábios de dúvida, no franzir da face, na testa cheia de entrelinhas...Ela sabia que esses espaços dúbios dentro de si estavam lá exatamente pra serem segredados, porque o que segreda grita tão alto que faz subsumir todo silêncio sufocado. Ela sabia que o segredo é sempre parco, mas vaza como leite derramado e escorre na boca afogada em saliva, em ossos e carnes trêmulos...Ela sabia que ele saberia do segredo maior que não tem nome, nem chave mestra, nem qualquer outra que sirva pra abrir, porque segredo nenhum fica escondido, porque nasce do compartir entre momentos, entrelinhas, entremeios...Ela sabia que segredo tem um nome qualquer do sentir esconder que nunca se esconde dos olhos do gato ou mesmo do retrato, dos congelados escancarados ou mesmo disfarçados...Ela sabia do segredo e sabia que segredar é romper o indizível na performance do devaneio, do instante roubado e divinizado dos entremeios, entre ela e ele num barco qualquer em mar alto ou no silêncio do fundo do mar, mesmo no ar de repercussões sonoras e cheiros misturados, o disfarce da essência entre outras, entre respiros pelo ar e para o ar...Ela sabia e não tinha a pretensão de segredar, mas segredava e segregava o outro, no fingir confesso de dizer mesmo sem dizer...no segredo confesso...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Inclemente

Assuta-me esse calor inclemente
Tão verdadeiro
Incendiário
Assusta-me essa modorra incoerente
Esse mover que não urge
Pelo calor retinente
Assusta-me esse sono quente
Esses braços pendentes
Essas pernas ausentes
E o calor que não se sente
Que se mistura sem mente
E ferve na gente
E ferve no mundo
Cozido mundo mudo
Mudo que grita
Aflito
E pede clemência

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Tempo perdido IV: eu nós

Não queria fazer uma narrativa do personagem narrador...queria ser o onipresente, que vê tudo e apreende cada instante como um círculo de infinitos pontos a girar, cada ponto um conto, de mim e de você...Esse pedaço do tempo perdido, talvez seja o mais perdido de todos, porque é porção de aventura do pensamento, de sensações de pensar em não pensar um tanto particulares, mas por momentos, compartilhadas...Esse pedaço é aquele pedaço ainda cru, cheio de trigo e açucar, a raspinha da forma, a sedenta raspinha ávida por línguas de papilas curiosas, o segredo maior do ritual do bolo. Não quero te imortalizar em uma escrita torta nem reta, porque você me encontrou nesse meu não lugar, e não se incomodou com esse nomadismo inconstante meu; parece-me que não. E você deixou que eu morasse um pouco em ti, ainda sabendo que não se mora em ninguém, nem na gente mesmo. Esse é o encontro mais divertido e sério que pode haver, porque é de uma disputa pra não ganhar, mas pra conhecer e reconhecer e desconhecer, sem olhos de comiseração ou de admiração extrema; imagino, pois que não tenho a visão, mas uma visão, clara somente por momentos. E ver o nascer do sol em relativo silêncio, e brincar de jogar e não vencer, pelo gosto discreto do empate, da vitória da companhia, e das mãos de apoio nas trilhas e do roçar de braço quase pequenino, grande na graça, e do dançar no salão e em escuros da alma e do corpo, perto de escadas e muros, insustentáveis na mente da gente, e a serra sob o olhar nosso de pedra que se desfaz em água quente e gélida, e em corações quase cerebrais, querendo compreender a emoção, o sentido irrecuperável do sentir, que passa e permanece na gente...

Tempo perdido III: a fonte mágica

Nada melhor do que um lugar onde jorra água, onde se pode beber de graça, onde se acredita em pureza, nem que seja de intenções...Nada melhor também que encontrar alguém pelo caminho, pelo desavisado caminho, quando o objetivo principal se perde, e outro qualquer ganha formas de magia, inesperada brincadeira em noite quente de lua...Eu, Silvinha e Tiaguinho perdidos em três ruas de dimensões diminutas em busca de uma mercearia...Eu, Silvinha e Tiaguinho profanando os sinos da igreja como quem faz arte, transgride sem o desejo de ninguém ver, senão por buscar o contentamento de brincar no lugar onde ninguém está, como um segredo, no esconderijo escancarado pro riso e para o dobre reprimido do sino, tocado em noite sem missa...E depois ir beber na fonte, no chafariz cheio de água em noite escura; e não ver a fonte, para que ela se fizesse na nossa imaginação, teimosa e democrática, revestida de magia...Foi assim o encontro memorável que tivemos, eu, a querida Silvinha e o menino duende das poções mágicas, e a fonte escura, que a imaginação clareia...

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Tempo pedido II: Eri

Pra gente se salvar e mergulhar no tempo perdido é preciso alguém que nos faça recordar do texto que há em tudo, das histórias e dos pareceres que há em nós mesmos. É preciso divagar sobre o importante e o aparentemente banal, e sorrir repetidas vezes das mesmas coisas, pois nada há de novo, embora o novo esbarre na gente discreto, sorrateiro. Erivelton já chegou fazendo festa e adiando o destino perdido, porque se perdia no tempo e nas sensações, encontrava o tempo. Foi ‘auxiliar’ de guia de viagem, instrutor ambiental, recreador e consultor para assuntos diversos. Uma das mais engraçadas consultorias versou sobre o modo feminino da conquista, interpelação curiosa da Sílvia; ‘Afinal de contas, como abordar um homem no qual estamos interessados?” E aí Eri foi construindo o tal ‘guia prático’; “pergunte pra ele: você está disponível?!" Isso com a voz arrastada, malandra e risonha...E em seguida; "diga a ele: eu estou completamente liberada para você.” E a finalização em todos os fins de frase; “Pá”, como se quisesse marcar o ponto, sinalizar a simplicidade...E simples foram suas incursões de conquista um tanto atrapalhadas nos bares milho verdenses, porque absolutamente espontâneas. É que Eri não é tão atento aos riscos, mas sabe fazer a conquista dos sorrisos, sem pudores. As pessoas se colocavam totalmente disponíveis e liberadas para o riso, sem que perguntas fossem feitas e negadas, porque um verdadeiro manual de conquista talvez seja mesmo o desprendimento do Eri, um se soltar das posturas fixas.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Tempo perdido I: o quarto

Existem lugares em que a intensidade do sentir toma proporções consideráveis. As emoções explodem feito vargem seca, numa batida seca e forte, e espalham as sementes dos afetos e desafetos guardados, resguardados talvez. Mas isso quase sempre acontece nos quartos pequenos, nos lugares pequenos, onde os limites esbarram na gente e trazem revelações. Alguns têm os ânimos acirrados e decepcionados se põem a chorar; outros têm os corações pulsantes por tanta visão de liberdade e querem ter essa liberdade, e se desfazem em deselegantes risos. Os humores são cáusticos, mas doces também. As ironias e gargalhadas enormes ecoam na atmosfera. Esses são os lugares dos encontros; não das apresentações formais, mas das negociações inesperadas e necessárias. E foi assim, num desses pequenos lugares que nos encontramos e reencontramos; Milho Verde verde de esperanças verdes, de danças convulsivas e reflexões eufóricas e paisagens encanto. Milho verde, um lugar perdido no tempo, dos tempos da rotina da gente, escorregadio tempo...Lá o tempo é mais fluído, mas contraditoriamente tem ares densos...Eu e minhas companheiras de ‘quarto negociado’, dando pra serra bonita; um lugar pra ver as nuances do céu, sempre surpreendentes, diferentes; um lugar para o conversa solta, os pareceres imprecisos e certeiros, da fisiologia da gente, da fisionomia da gente...Eu e a sempre companheira Ana Márcia de tempos, de viagens tantas, de saberes tantos do conviver...eu e Silvinha, amiga emprestada que já virou amiga minha, sempre bem disposta para as aventuras e venturas...Eu e Marisa, menina de palavras engraçadas, de língua solta e sentimento pulsante...Eu e o casal vizinho, Vanessa e Algemiro, emprestando espelhos, secadores, rodos, emprestando afeto e atenção...Eu, simplesmente eu e o que qualquer um quiser achar e me revelar...Nem sei se elas perceberam a preciosidade daqueles instantes de ‘perrengue’ por falta de água para o banho, por falta de luz...aqueles momentos em que a falta nos coloca cara a cara com o limite, e nos permite sondar e expressar sentimentos de revolta, tolerância e humor...e nos permite pensar sobre o significado real da falta, que é, muitas vezes, o sintoma de um costume, de um hábito, e não de uma necessidade urgente...Estivemos no tempo perdido achado, lá na cachoeira do tempo perdido, com sua cortina de água cortante...o cortante tempo perdido sem os afazeres cotidianos, guardado para o encontro do tempo, na verdade o tempo do encontro.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Roedor

Se o passado te tem
Não te desdenhes
Que o futuro lá se forjou

Se uma lembrança afeta
É porque não é discreta
E por ela teus olhos se injetam
E o coração também

Se o presente é solene
Porque dita o que virá
Não te iludas
Que o presente é caco
É um naco qualquer
Que escapa de tal modo insolente
Que vira passado
Que vira futuro

O presente não se tem
Senão o ausente de presente
A correr feito lebre
E agora o que fazer?
Se nem podes pegá-la
Roedora do tempo
Roedor presente
Roedor de presente...

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

‘Pense no Haiti, Reze pelo Haiti’

Colocar-se no lugar de outro, não é algo que se faça comumente. Nós ‘humanos’ ‘sofremos’ do mal que há muito acomete a humanidade, desde tempos imemoriais. Egocêntrismo sim, e com um balanço desequilibrado de pensamentos e ações, meio solidários, meio egoístas, mas quase sempre egoístas, voltados para o mundo de desejos, sonhos, frustações e realizações próprios. E o que parece valer no mundo é mesmo a autopromoção, o vale pelo que tenho, e assim o nosso mundinho se divide em nações desenvolvidas, em desenvolvimento e subdesenvolvidas; pessoas bem sucedidas, em potencial e mal sucedidas. Essa divisão cabe muito bem ao Ego, ao mundo dos sistemas econômicos, compartimentaliza até os sentimentos, e muitos não se dão conta que são diminutos e infinitos também. Tem gente que faz verso; ‘Pense no Haiti’, ‘Reze pelo Haiti’, ‘O Haiti é aqui’, ‘O Haiti não é aqui’. Tem gente que pelo menos se dá conta que existe um Haiti. Tem gente que diz que vai em missão de paz. Tem gente que vê na TV e na Internet os corpos feridos, sumidos, a indigência marcada pelo terremoto, e sente dor e mareja os olhos, e sente até o odor descrito pela voz dos repórteres, sente náuseas. Tem gente que vai lá fazer trabalho voluntário pela Ong Viva Rio (uma amiga até me disse uma vez da sua vontade de ser voluntária no Haiti). Tem gente que vai lá fazer palestra e não volta. Tem ‘bicho’ que vai lá farejar os corpos mortos, descobrir os indigentes de anos, agora com o cheiro de morte. Tem gente que vai visitar o mar do caribe, deslumbrar-se com o azul infinito e as acomodações confortáveis. Tem gente que vai ao Haiti experimentar a alteridade? Ou resguardar a diferença? Tem gente que não pensa no Haiti, nem reza pelo Haiti, salvo em momentos de emergência, quando a calamidade é um espetáculo grandioso de falta que a natureza desnuda. E por ‘coincidência’ de nudez negra, de geografia centro sul tropical. Tem gente que pensa no Haiti e no sentido de pensar no Haiti, mas tem as mãos atadas, consciência aprisionada para o querer ter, para ser, e nem tem culpa disso, vítima que é dos mesmos abutres que rodeiam os corpos mortos, com câmeras ávidas, olhares de compaixão inertes a serviço delas mesmas. É preciso fazer um esforço, nada pessoal, pela sobrevivência daqueles seres, como uma política de preservação ambiental, porque algumas raças forjadas socioeconomicamente não podem ser eliminadas de pronto, mas lentamente. Por isso, ‘Pense no Haiti’, ‘Reze pelo Haiti’, ‘O Haiti é aqui’, ‘O Haiti não é aqui’...

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Anjo

A gente devia mesmo era viver de aparição,
Coisa que passa e que ficamos sem saber o que é exato;
Nem dá dor no coração,
Porque era pra ser só aparição mesmo;
Aparição, aparece e pronto, desaparece...
Sabe quando vem aquela imagem de supetão, e deixa a gente de peito disparado?
Isso é aparição, coisa trocada no mundo da gente, diferente...
De tão trocada nem parece gente, e coisa também não.
Termina sendo gente diferente,
Que depois vira ausente,
Feito nuvem empurrada pela brisa
Pelo vento,
De alvura tanta, que faz doer os olhos.
Pior é quando abre os olhos azuis e vem aquele encanto;
E quando fecha, parece que o céu fugiu.
Ficar sem céu não é nada fácil.
Voar pra onde se não é pro céu?
É, devia ser um anjo mesmo,
Fingindo de gente diferente,
Porque os cabelos desciam pelo pescoço do jeito de um raio de sol;
Sabe quando a gente pinta a parede de casa?
É pra fugir da escuridão.
E quando a gente cerra os olhos com muita força?
É pra ver o clarão, um tipo de aparição.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Esperneia

Enquanto o preto e o branco silenciam
Seus matizes sussurram
E as cores?
Falam
Dizeres comedidos
Ditos irrefreáveis
Gritos
E o silêncio esperneia em nós
O preto e o branco
Silentes da foto
Palavra sobre o papel
Sobrancelha na pele branca
Na pele preta
Pupila negra na esclera
Pupila multicor
Que vê cor
E sente preto e branco
Veste sobre a pele
Luto
Preto no branco
No menos branco
No mais branco
Nuances esperneiam silentes
Lua no céu
E argênteas estrelas
Tudo meio silente
Ausente em nós
Preto e branco...

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Melhor lugar

O melhor lugar é uma cena
Uma cena que retorna
Conhecida e bela
O melhor lugar é mãe
É cochilo desavisado
Desarmado
E pescoço pendente
É colo repleto de pés
E toques delicados
O melhor lugar
É aquela face de proteção
De espera
De volta
O melhor lugar é mãe
É cena de casa

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Gentes de coração

Tem gente que conhece a gente na formalidade, depois vira informal até demais. Outros ficam sempre na formalidade. Tem gente que é um desnudar na vida da gente, porque pega a gente de susto, no tropeço, no afogamento, no desalento, no riso espontâneo descontrolado, no mundo paralelo, no mundo real tão irreal (talvez a gente seja o irreal mesmo que vive teimando em ser real pra não confundir muita gente. Tolos os que pensam que a gente é palpável porque o toque é só o prenúncio da lembrança e a imagem é um estreito espaço de tempo que se perpetua e se desfaz em sub imagens, super imagens). Para os jornalistas não falarem que estou fazendo nariz de cera, a popular enrolação, afirmo que essa introdução é fundamental para a compreensão dessa croniqueta de viagem no mundo e nas pessoas que conheci e reconheci. Nem sei o que pensaram sobre mim, porque nem sei o que pensar sobre mim, porque às vezes gastamos o tempo no fazer, às vezes no pensar, às vezes no pensar fazer, e tudo se confunde. Resumindo: fizemos e deixamos de lado o pensar, ainda que ele, o pensar, nos tocasse a mente insistentemente. Fechamos as portas e nos colocamos nas caixas, na poltrona da sala da casa, na cadeira da praia, no banco do carro, no banco da rua, no colchão, no salão de festa; libertamos o riso para ele não se perder sobre as situações indiscretas tão próprias e impróprias. Eu e Vivi sempre juntas, encontramos outros sempre juntos; Ju, Gabi e Bruno, no Rio de Janeiro. Reencontramos tanta gente, gente que ficou exponencial de tanta atenção e acolhimento; Gláucia, Gilmar, Vick (ótima companhia de rir junto, comer macarrão oriental e pizza quente na feirinha, de olhar pro alto, fingindo mirar janela pra não inibir a moça alta, que queria entrar no Estrela da Lapa para ver show de bossa eletrônica, e tantos outros disfarces) e Danilo (em volta da gente na hora da maquiagem, por todos os lugares, como um menino de outro século, encantado pelo preparo das meninas para festa; o doce Danilo, sonhador e acolhedor) e todas aquelas gentes em torno da mesa, engraçadas e acidamente bem humoradas como Eron e Jairo, silenciosas e sabiamente observadoras como Abraão, alegres e ensolaradas como Eva, ‘cuidadora’ amorosa dos especiais e delicados Buch e Megue como a Edna, e tantos outros que seria prolixo enumerar, pois a casa da Gabi parece mais uma praça de degustação de comidas deliciosas, onde todos se reúnem pra falar de água, de pó e de ar, de toda matéria e i(matéria), do coração e da mente. Gilmar brindou meus ouvidos com a linda coletânea do Elvis Presley e sua culinária de todo dia, feita com carinho e cuidado. Gláucia é difícil dizer, porque é o dito de carinho e atenção, e acho que todo mundo vai lá sentir as emanações dos seus olhos azuis vivos. Gabi nossa sempre companheira de festa e de soninho. Ju , embora não tivéssemos sido formalmente apresentadas, já sabia meu nome e não lançou nenhum olhar de reprovação, mesmo sabendo que fiquei presa no banheiro em plena festa de reveillon e pior, vomitaram no meu pé. Ela simplesmente, solidariamente, pôs-se a lavar os pés dela na piscina junto comigo. Ou seja, se caíssemos, caíamos juntas. Agora o Bruno, o menino no meio das meninas, penso nele como um perfeito espião do mundo feminino, o confuso mundo feminino da modernidade. Mas um espião do bem, com a palavra julgamento esquecida, o riso solto e uma habilidade pra levar as garotas para o mar e fazê-las virarem ‘sereia’. Eu mesma tive aulas de pegar onda e saí toda alegre, com a sensação de dever cumprido. ‘Entra na onda’, Bruno dizia, ‘foge dela não, que é pior...’ E foi nessa onda de entrar na onda que passamos o final do ano, eu e Vivi, a contadora das proezas de todas as noites e dias, que eu sou obrigada a reverenciar, porque perto da oralidade dela, essa minha escrita fatalmente já se perdeu...

Olhar de amor...

Depois de um certo tempo a necessidade de um grande amor se desfaz sem sofrimento, senão por um certo pesar daquele bater descompassado no peito e daquela necessidade de aconchego, daquelas sensações tão nossas, indivisíveis com o outro. Começamos a destilar olhares de cobiça e conquista, mas com a quase convicção de que o amor, ah o amor, esse não pode jamais ser grandioso se não tem explicação. Começamos então a cuidar de olhar sempre, mas sem o sentimento de posse pelo ideal, mas de doação daquilo que nos surpreende exatamente por não ser nosso, e nem queremos mais que seja, a menos que se configure como afeto sem ansiedade, curiosidade sem pressa, aquele ouvir da fala mansa, em cadência de piano teclado delicadamente, daquele olhar que não incomoda, mas que incomoda porque não olha, porque buscamos o olhar mais de proteção que de admiração, que no fundo, deve ser mesmo o olhar de amor. Começamos a pensar no amor manso, porém revolto na cumplicidade do toque. Começamos a pensar no intenso repleto e aí vem um vazio intolerável enquanto o escudo nos protege. E vamos multiplicando os escudos e abaixando as armas para que o amor venha como num abrir de portas e aparecer de cenários repetidos e surpreendentes, chorosos e sorridentes, de montanha e de mar. Para que o amor apareça insistentemente, na mente e no corpo, na fala que grita e silencia, no gesto diminuto, imperceptível, de confiança, adorável.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

O gosto da solidão

A ausência de lembranças tem o sabor exato da solidão. E mesmo no mundo da lembrança tem buracos, fendas profundas que remetem a um sentimento de sabor acre ou de dissabor. Mas a solidão pode ser adocicada quando se está em paz, sem angústias ou expectativas. Ainda assim, a sensação é fronteiriça, nem contentamento, nem descontentamento. Talvez a palavra tenha jeito de aumentativo porque o sentir é grande em forma de ão, talvez tenha jeito de objeto sólido que excede porque é preciso atingir sua exata materialidade, escapar do sentir abstrato incompreensível de um para o outro. Solidão é par de incompreensão, solidão no amor, solidão na dor, solidão na euforia, solidão no gozo, solidão na tristeza, solidão na indiferença, solidão na diferença...Solidão é no coração, nasce, vira embrião e anfitrião, porque só nela percebe-se o de si para si, porque solidão é lembrança de ser não...ou se ser só sensação...

Ganhei o ponto

Hoje o ponto mudou de ponto,
Não tinha ponto,
Mas barracas em fileira,
Frutas, legumes, verduras e biscoitos em profusão,
Delícias...
Precisei mudar de ponto;
Perdi o ponto,
Que se desfez em linha,
De infinitos pontos...
Aquele ponto se perdeu de mim,
Mas ficou-me os gostos da expectativa;
Deletei a curva do ponto,
Fui na reta mesmo
Em busca de outro ponto;
Lastimei a perda da rotina,
Agradeci a perda do ponto,
Ganhei outro ponto,
Pude sonhar outros pontos...