Disseram-lhe; não há amor sem dor
Que dor...
Incompreendeu-se da dor de amor, tola...
Porque o via repleto,
Continente que extravasa;
Esquecia-se do incompleto amor, todo amor...
Do todo amor, amor de partes,
Que só as temos; as partes,
Até as partes de nós...
Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quarta-feira, 12 de maio de 2010
Beirada
O sexo era um prenúncio; Era a pretensão de uma completude vaga, Pelo gozo de desfalecer e esquecer o instante, e viver o instante; Era talvez um presságio de não existir, para reconhecer a existência parca, sumida, que finita se refazia em novo prazer de reviver; O sexo era vida e morte, um espelhado no outro; a face brilhante ainda que fosca diante da escura máscara; e ao fundo um riacho, límpido de peixes a ir, em cardumes coloridos, na fuga da isca, na procura da isca; O sexo era vertigem rasa e funda nas peles sobrepostas em delírio convulso, profundo e epidérmico; Era mesentérico o sexo, no ventre repleto, anelar, solar e lunar; Era submarino, andarilho, era o suspense da próxima cena não vista, sentida torta no olhar do outro, de olhos fechados em sonho de êxtase e abertos nublados, visionários, solitários e ansiosos de compartir o sentir indizível, indivisível; O sexo era o outro lembrado e esquecido, a disputa entre reconhecer a presença e a não presença, o lugar distante e próximo, alçapão; O sexo era razão e natureza, sentir razão, pensar natureza, sobrepostos, em estado de fronteira, beirada.
segunda-feira, 10 de maio de 2010
Prêmio Dardos

Recebi do autor do blogue "Curvas da Palavra", o prêmio Dardos.
Este selo foi uma criação do Junior Vilanova do blogue Contactos Imediatos e da Olga do blogue Pensamentos, Ideias e Sonhos, e segundo eles - trata-se de um reconhecimento dos valores que cada blogueiro emprega, ao transmitir valores culturais, éticos, literários, pessoais, etc. Agradeço a indicação de Ricardo Fabião, que me acolhe sempre com palavras de mente e coração cheias de sentimentos.
Há, no entanto, algumas regras a serem seguidas após o recebimento deste selo:
1 - exibir a imagem do selo em seu blogue;
2 - postar um link para o blogue que o escolheu;
3 - escolher outros quinze blogues a quem entregar o prêmio;
4 - avisar aos escolhidos.
Os escolhidos:
1 - "Damaria"
2 - "Sabe de uma coisa"
3 - "Specullum"
4 - "Marcas d’água"
5 - "Borboletas de Fevereiro"
6 - "Num Café Pequeno"
7 - "Suprasensorial"
8 - "Eu e mim mesma"
9 - "Rudaricci"
10 - "Sara-evil"
11 - "Da Cor da Felicidade"
12 - "Michelfm"
13 - "Freiregari"
14 - "Curto Circuito Literário"
15 - "Poros"
quinta-feira, 29 de abril de 2010
Outro ele
Até hoje sinto falta do Zé Leôncio. Ele era bravo feito onça, mas vez por outra vinha de manso, cheio de delicadezas, todo mudado do jeito comum de todo dia. Tem gente que é assim mesmo, de humor confuso; alguns até se fingem de resolvidos na maneira de ser e aí vem um sentimento qualquer que vira tudo e a pessoa fica assim incompreendida no susto refletido nos olhos dos outros. Mas entre mim e Zé Leôncio não; ele mudava e sabia que eu sabia disso, que eu gostava era dessas horas de ternura desavisada, rara gentileza que deixa a gente de coração e respirar em disparo, um susto, até vir aquele encanto de contemplar lago em dia ameno, de sol quase tímido, mas brilhante, de sensação de aconchego. Ele chegava assim num toque de face, de mão, quase um arranhar felino sem querer machucar, e não raras vezes ronronava no seu dormir em meu peito. Depois acordava assustado como bicho em armadilha, frágil de dormir assim e deixar sua vigília de lado, esquecida. Zé Leôncio dizia que eu fazia reviravolta nele, e que ele assim era mais ele, mas deixava de ser onça brava não, que só por mim virava bichinho pequeno, presa de mim, descobridor do outro ele, muito mais ele.
terça-feira, 27 de abril de 2010
Parto
O parto maior que ela sonhara era o da palavra em potência, germinada em paredes uterinas rubras e almofadadas de epitélio de ondas, em aconchego cíclico de progesterona que cala e grita em escamas, num fluxo irremediável. Era essa palavra do tempo circular, difusa de humores, de sabores da alma que exala em estrógenos convulsos e morre todo tempo em partos sucessivos que ela sonhara viver; a palavra vida que aborta e nasce, que cresce e se retrai em silêncio profundo, palavra de útero partido em instantes de expectativa e frustação, útero palavra viva, que nasce potência, quente cor de sangue, cortante, tranqüilizante, inquietante...
sexta-feira, 23 de abril de 2010
Puxadinhos
Embora muitos exaltassem os olhos grandes e amendoados por sua beleza, ela cria quase piamente que aqueles puxadinhos como janelas entreabertas fossem muito mais visionários; porque ficavam o tempo todo na dúvida do movimento, no atávico entrelugar do fechar e do abrir, e sempre passavam a impressão de sonolência, como entressonho, um caminho entre o real e o inconsciente. Sabia que era delírio seu, mas se permitia encantar com essa possibilidade anatômica ligada às coisas da alma. E quando esses traços vinham distantes do oriente mistificado, historicizado, surpreendia-se mais, porque pensava em uma aldeia pequenina de olhinhos puxados, janelas duvidosas de acanhamento e mistério para alguém empurrar vagarosamente e morar lá dentro um tempo, dentro do sono cheio de sonho de sol, de lua, estrelas e mato infinitos...
quinta-feira, 22 de abril de 2010
Abraço
Ela jurava que a culpa do amor era o abraço. E aquele enorme e pequenino cruzar de braços, tão apertado, era quase uma redenção por qualquer deslize, por qualquer afeto que faltara. Porque tudo se ampliava e se reduzia na união silenciosa e barulhenta dos corpos a ofegar, no estalar pequenino dos ossos, no contrair absurdo e incontido daqueles músculos em mistura, como se só assim o coração pudesse ficar mais perto e bater em compasso de harmonia, em compasso só descompasso de emoção que transborda e não se diz. Tudo valeria pelo abraço e a falta daqueles braços e o desperdiçar daquele enlace pelo ensimesmar, em certa vez, era tristeza sem medida. Porque a medida maior do amor era o abraço, um laço de dança, êxtase; e angústia pelo desatar dos braços, dos delicados braços, fortes no abraço.
Escapava
Ela escapava de si mesma e procurava ao redor um sinal mínimo de sua existência nas pessoas, nos objetos. Ela escapava de si e por dentro vagava um vazio, cheio de tão vazio, enquanto os olhares buscavam nela uma completude ainda que vaga. Ela escapava e voltava diante de si mesma e se aterrorizava por escapar e voltar para o mesmo ponto ausente, silente e insurdecedor dela mesma. Ela não queria escapar, queria antes voltar e permanecer, mas escapava e se sentia cava rasa e cava funda sem fundo, de outro mundo e desse mesmo mundo de atitudes parcas, responsabilidades inexistentes de si para si, de si para o outro, esse mesmo outro ela mesma espelhada na sua originalidade pouca. Ela escapava louca e rouca cantava e sóbria calava e inventava mesuras, desculpas sem culpa, e plantava um jardim sem flores. Ela escapava num instante e permanecia eternamente na escuridão das idas indeléveis de sua alma. Ela escapava dos vindouros, antes por carecer do ir que por recusar o vir, mas recusava esse vir para ela mesma, como se fosse sombra de insanidade; o vir. Você virá? Perguntavam-lhe. E ela escapava ainda que viesse...
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Vulcânica
Alguns lugares eram permanentes na mente dela. Voltavam sempre, mesmo em sonhos, nos momentos menos esperados. E um desses lugares era corpo de geografia aparentemente plana, mas que no detalhe, parecia a ela, um mar de montanhas, pequeninas projeções na qual moravam os folículos pilosos, uma superfície que jamais esquecera. E o contato com aquele lugar onírico era o prenúncio de pêlos em mutação, miragens de porções pequeninas de lava, vulcões em erupção no corpo, surreais. Talvez fosse o que não foi que a fazia sonhar assim de um modo tão geográfico, porque ela buscava naquele lugar, naquele corpo, alguma evidência viva que pudesse se solidificar, esquentar e petrificar, num movimento de explosão e morte. Era sempre assim no sonho, esse alternar em um relevo inconstante. E havia rios, uma hidrografia de ramificações tortuosas, uma mistura de fogo líquido e suor, fertilidade. O sonho era de trilha, trilha sem rumo, como se o próprio andar fosse um lugar de fusão, do percorrer a sensação em busca do grande vulcão, do magma alma, coração.
quarta-feira, 24 de março de 2010
Plano Preventivo Santa Magnólia anuncia
Façam o Plano Preventivo Santa Magnólia; serviços funerários para prevenir o ‘imprevenível’. Temos traslado imediato em Van espaçosa, caixões personalizados, coroas de flores, maquiagem suavizadora para faces acometidas por acidentes ou mesmo aquele significativo ou discreto empalidecer do pós vida, além de uma completa rede conveniada com todos os cemitérios da cidade, uma forma de facilitar sua passagem. É bem verdade que não sabemos exato para onde irá passar esse transeunte sem movimento aparente, mas de qualquer maneira, é justo que a família adquira um plano preventivo completo como garantia. Também podemos indicar as melhores opções de ‘morada’, desde túmulos mais simples até mausoléus com acabamento em mármore ou granito. Artistas renomados em arte sacra ou mesmo os mais contemporâneos também fazem parte de nossa rede conveniada, porque é sempre bom proporcionar beleza para quem está nesse estado obrigatório e imprevisível; pela família que visita, pelo espírito que pode querer habitar com mais conforto nas horas em que não vaga por aí, pela alma que aguarda ascensão ou sofre pelo descenso, ou simplesmente para resguardar todos dos ‘cheiros’ da indigência. A lápide também está inclusa, com escritos personalizados com letras a sua escolha. Caso tenha dificuldades em formular a inscrição temos excelentes escritores de lápide para reavivar sua memória, sua história, seu nascimento e sua morte, ou mesmo fazer de você um personagem mais cativante nesse pós. Lembre-se; a melhor opção para prevenir o ‘imprevenível’ é mesmo o Plano Preventivo Santa Magnólia!
segunda-feira, 22 de março de 2010
In(exato)
Ah se fosse possível fazer um tratado sobre a sensação, um tratado verdadeiramente coerente com o sentir, essa entidade tão abstrata que só cabe mesmo no sentir, para a qual só cabe dizer: sinto...E nenhuma palavra substitui e o verbo fica implorando complementos e todos são ‘incomplementos’. E a gente tenta buscar na batida do coração e no ar que entra e sai dos pulmões como se o intraduzível pudesse morar ali naqueles involuntários tão naturais de nós mesmos, que não dizem, só sentem...E a precisão escapa na mistura dos sentidos e só valeria explicar fazendo o outro sentir e ainda assim o sentir fugiria por ser tão pessoal e ao mesmo tempo tão impessoal na sua forma indescritível...E vem uma angústia do querer experimentar para precisar o sentir e ele vem com outra veste e continua inapreensível, impalpável...E é inabalável o sentir, com gosto, cheiro e imagem, e se torna necessário, por ser tentador, experenciá-lo, descobri-lo, deixá-lo nu, enquanto ele se esconde envergonhado e feito um camaleão se confunde em qualquer superfície e fica grudado em um mimetismo qualquer que jamais será qualquer, mas de tons absolutamente novos e surpreendentes...E a gente só lembra que sentiu...frágeis só lembramos do que não lembramos exato...o que sentimos...o inexato sentir...
segunda-feira, 15 de março de 2010
Jeito felino
Acordou com garras
Dormiu num ronronar
E nesse jeito felino
Enroscou-se em suas pernas
Num alcance tonto
E olhos de raios brilho
Íris de toda cor
E com seus pares caninos
Deu um longo bocejo
De riso, de gozo
E denteou seu tornozelo
E lambeu avidamente a pele de sangue
O corpo inteiro
Numa perfusão de beijo felino
Dorminhou num espreguiçar
E sem preguiça alguma
Abriu os olhos
Numa dança longa
Mostrou suas unhas de ponta
Lanças
Arranhou lentamente seus pulsos
E afundou em seu pescoço
Numa cicatriz de linha sanguínea, felina
Deu um longo miado
Rouco, rosnado
Depois estridente
Num chamado alucinado
Desnorteou e pulou
E se foi num jeito felino
Dormiu num ronronar
E nesse jeito felino
Enroscou-se em suas pernas
Num alcance tonto
E olhos de raios brilho
Íris de toda cor
E com seus pares caninos
Deu um longo bocejo
De riso, de gozo
E denteou seu tornozelo
E lambeu avidamente a pele de sangue
O corpo inteiro
Numa perfusão de beijo felino
Dorminhou num espreguiçar
E sem preguiça alguma
Abriu os olhos
Numa dança longa
Mostrou suas unhas de ponta
Lanças
Arranhou lentamente seus pulsos
E afundou em seu pescoço
Numa cicatriz de linha sanguínea, felina
Deu um longo miado
Rouco, rosnado
Depois estridente
Num chamado alucinado
Desnorteou e pulou
E se foi num jeito felino
Sim meio não; não meio sim
Às vezes não temos a resposta, mas simplesmente o sentimento da resposta que ora beira o sim, ora o não. É que respostas só vêm com experimentação, pelo menos as pretensamente verdadeiras. Se o não resvala com um complemento qualquer de justificativa que soa incompleto é porque o sim não se fez sentido, não o sim plenamente justificável pelo sabor da experiência. E esse próprio não possui gradações, intensidades, por vezes, irreconhecíveis pelo outro. E esse outro nos coloca diante da dúvida de nós mesmos; então nos afetamos pelo sim ou pelo não quase absolutos na vã tentativa de esconder essa mesma dúvida, esse sim meio não, esse não meio sim. Porque é o argumento que tem força, mas esse só se faz no fruir daquela mesma pergunta, que ainda assim jamais será exatamente a mesma porque de tempos diferentes, de outros outros... “ Concede-me o prazer dessa dança?” já traz em si o julgamento da dança e o feitiço para a resposta esperada, enquanto “Concede-me essa dança?” tem a palavra julgar meio ausente e suscita a dúvida e pode até trazer curiosidade, mas também o receio. E o porque não? Ah...esse é terrível às vezes, porque a gente só descobre com a reflexão que vem depois, e a resposta deveria ser imediata. E seremos julgados por isso, por frustar expectativas, por não gozar de todas as respostas que hoje se fazem tão prementes, nesse mundo de instantâneos. O sim e o não são construtos, são escolhas da experimentação, são cambiantes, porque basta uma palavra, um tom, um complemento para que se revertam, e não há irremediáveis sins, irremediáveis nãos, mas pequenos detalhes que moldam nossas respostas diante do outros, percepções e ‘impercepções’, conhecidos e desconhecidos momentos de experiência e não experiência que só o tempo é capaz de revelar...
domingo, 14 de março de 2010
Um flash black
Agora a chuva desce copiosamente, depois do calor sufocante e dos corpos frenéticos da madrugada no salão do Flash Dance, em Venda Nova, quase na fronteira com Neves. Corpos em rodopio, em balanço e arrasto de pés puxando os quadris em vertigem branda, em vertigem alucinada pelo swing da música negra, em braços de vôo. Negros corpos esbanjando fantasias, chapéus, casacos, coletes, sapatos bicolores; vaidade e movimento. Nada melhor do que visitar um lugar assim; fora da rota da rotina, das ‘agendas culturais’ da cidade Belo Horizontina, um baile que deixou saudade, que chamam de Saudade, um flash de dança de um tempo que marcou corpo e pensamento, agora lido e relido pelos corpos do presente, de identidades à procura, confusas, mas que carregam um delírio qualquer de nostalgia e pensar sobre o que foi e o que será. E ainda há os corpos ávidos de pura sensação, quase invólucros a esconder um avesso de não pensar em torno de uma ruptura que se desfaz e se refaz, num respirar ofegante. A busca pela experiência pura da sensação que nada mais faz que refletir a compreensão do seu próprio significado, porque sentir é conhecer essa parcela, muitas vezes, renegada desse natural que reivindica o mover, um reflexo de vida que pulsa em ritmos descolados da ordem, que revelam desordem, enquanto os corpos travados em suas potencialidades agonizam. E ali era o espaço do ‘frenesi’, do já visto nunca visto, do palco revelado em cada canto e 'canto' fervente, em cada mistura de pele negra e pele branca, na genialidade da mistura dos cheiros do movimento e do som, um flash cinematográfico, hemorrágico, sem verborragia aparente, mas de palavra latente, a palavra do corpo arte; um flash black.
terça-feira, 9 de março de 2010
Assentos
Aquelas duas cadeiras postas
E a luz serpenteando no meio
Aquele vazio nos assentos
Gravemente acentuado
Pela luz no entremeio
Aquelas duas cadeiras postas ali
Para o sentar de descanso e ‘canso’
E a luz escapando pelo meio
E os corpos ausentes
Enquanto os assentos silentes
De nem mentes
De nem montes
Cavernosos ou rochosos
Se enchem
Aquelas duas cadeiras postas
Sem mortos ou vivos
Talvez natimortos
Os que não vieram
E a luz se deu
Nos partos esfumaçados
Da imaginação
Enquanto as cadeiras postas ali
Quase ventres estéreis
E a luz atiçante, ululante
No apago da noite
No lago do dia
E as almas sobre os assentos
Em ‘Ls’ obscenos
Escondidos gozos
Ofuscados de luz divina
Aquelas duas cadeiras postas ali
E aqui, e acolá
Por um clássico sabor de solidão
A decorativa solidão
Até vir os complementos de solidez
Os complementos de sordidez
As visitas indiscretas
No templo do vazio
Sem anedotas ou sátiras
Ou risos de sorrir da boca faminta
Aquelas duas cadeiras postas ali
Sem os liames sonoros
Do assentar e conversar
E gozar no outro
De ouvido nu
O gozo maior da palavra
Bem ali
Nos dois assentos postos ali...
E a luz serpenteando no meio
Aquele vazio nos assentos
Gravemente acentuado
Pela luz no entremeio
Aquelas duas cadeiras postas ali
Para o sentar de descanso e ‘canso’
E a luz escapando pelo meio
E os corpos ausentes
Enquanto os assentos silentes
De nem mentes
De nem montes
Cavernosos ou rochosos
Se enchem
Aquelas duas cadeiras postas
Sem mortos ou vivos
Talvez natimortos
Os que não vieram
E a luz se deu
Nos partos esfumaçados
Da imaginação
Enquanto as cadeiras postas ali
Quase ventres estéreis
E a luz atiçante, ululante
No apago da noite
No lago do dia
E as almas sobre os assentos
Em ‘Ls’ obscenos
Escondidos gozos
Ofuscados de luz divina
Aquelas duas cadeiras postas ali
E aqui, e acolá
Por um clássico sabor de solidão
A decorativa solidão
Até vir os complementos de solidez
Os complementos de sordidez
As visitas indiscretas
No templo do vazio
Sem anedotas ou sátiras
Ou risos de sorrir da boca faminta
Aquelas duas cadeiras postas ali
Sem os liames sonoros
Do assentar e conversar
E gozar no outro
De ouvido nu
O gozo maior da palavra
Bem ali
Nos dois assentos postos ali...
Segredo confesso
Ela sabia do segredo, do dela tão segredado, guardado para si, desgarrado de si, gritado nos olhos de desvio, nos lábios de dúvida, no franzir da face, na testa cheia de entrelinhas...Ela sabia que esses espaços dúbios dentro de si estavam lá exatamente pra serem segredados, porque o que segreda grita tão alto que faz subsumir todo silêncio sufocado. Ela sabia que o segredo é sempre parco, mas vaza como leite derramado e escorre na boca afogada em saliva, em ossos e carnes trêmulos...Ela sabia que ele saberia do segredo maior que não tem nome, nem chave mestra, nem qualquer outra que sirva pra abrir, porque segredo nenhum fica escondido, porque nasce do compartir entre momentos, entrelinhas, entremeios...Ela sabia que segredo tem um nome qualquer do sentir esconder que nunca se esconde dos olhos do gato ou mesmo do retrato, dos congelados escancarados ou mesmo disfarçados...Ela sabia do segredo e sabia que segredar é romper o indizível na performance do devaneio, do instante roubado e divinizado dos entremeios, entre ela e ele num barco qualquer em mar alto ou no silêncio do fundo do mar, mesmo no ar de repercussões sonoras e cheiros misturados, o disfarce da essência entre outras, entre respiros pelo ar e para o ar...Ela sabia e não tinha a pretensão de segredar, mas segredava e segregava o outro, no fingir confesso de dizer mesmo sem dizer...no segredo confesso...
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