quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Fundo

Amor é sentimento fundo
De tão fundo perde o fundo
Amor não tem fundamento
Ainda que fundamentado
Em argumentos falhos
Argumentos imprecisos
Amor é coisa de se admirar
E angustiar no dia
À espera da noite
Amor é céu noturno em constelação
Às vezes tem cara de lusco fusco
Confuso amor
Só certeza de fazer existir
Existir pelo amor
Em lembrar que volta toda hora
Grudado no sem fundo
Subterrâneo amor

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Casa Mãe"

Ela não sabia se era mesmo a ‘Menina do Rio’, porque tinha nela uma mineirice, um ar de montanha tão agarrado, que seria difícil assumir um papel assim de verão da alma. Pensava sim que os cariocas tinham uma alegria de tempo de sol, até mesmo nos momentos de humor conturbados, abriam-se em palavras rasgadas com som a reverberar, soltavam o grito, aliviavam a alma. Mas ela achava que tinha um privilégio naquela cidade de água, rocha, verde e construção, que a fazia meio de Rio, meio de Mar. Lá já tinha morada com direito a acolhimento de família, a risos em volta das refeições, mas muito mais um prazer ao retorno a um mundo lúdico e incansável, como se a juventude pudesse durar o tempo da eternidade. Lá se sentia mesmo menina, e soltava gargalhadas, e perdia o juízo pelo mar e pelo sol, e era um pouco filha da Gláucia e do Gilmar, irmã da Gabi, da Vick e do Danilo. Os visitantes dessa vez se multiplicaram; meninas de Minas, menino Paulista. A mim e Vivi se somaram a energia e o riso solto da Sílvia, o comedimento sensato da Vilmara e a meninice do Zé. Eram cinco a mais na casa, sem contar os de lá, primos e amigos, as crianças do Rio, todos acampados em colchões distribuídos por toda Casa Mãe. O programado era visitar os pontos turísticos mais conhecidos, o Cristo, o Pão de Açúcar, mas tudo se desviou e o cotidiano da cidade ficou mais próximo no Centro do Rio mesmo, com a cadência do Samba da Rua do Ouvidor, cheia de casario antigo, pontes de luz e charmosos barzinhos e livrarias, e a travessia de barca Rio-Niterói com vista linda da Baía de Guanabara, do aeroporto Santos Dumont, da Ilha Fiscal e da dança das gaivotas.


A Santa Terez(s)a de lá

A de lá é parecida com a daqui
Tem morro de subir e de descer
Tem gente a procurar
Tem gente a encontrar
E tanta casinha de encantar
E ruína de admirar;
E a música bonita também mora lá
E nas infinitas portinhas de vender
O saborear dos quitutes e o bebericar, o papear;
O bonde daqui já se foi
Mas o de lá continua a passar
Com gente a amontoar, a dependurar
Até por sobre arcos a equilibrar
Com rés e trancos do caminho
E gente namoradeira a sorrir
Ranzinza a reclamar
Curiosa a olhar,
E no susto do alto
Até chegar no baixo
Nos chãos depois de voar
A lembrança de querer voltar
Pra ver o Rio
Vale encantado
Do morro de Teres(Z)a Santa
A vigiar...


‘Em Chamas’

Bem lá na comunidade do Rio dos Pedras, no Rio, tem um castelo enorme a que chamam Castelão. Só que o Rei de lá não tem coroa nem cetro, parece mais um dragão a cuspir fogo pelo salão. O Funk é o grande Rei a ditar o ritmo frenético do baile, e todo mundo vira rei a se exibir, nos movimentos de requebrar, até o castelo ficar em chamas. Não há dança nobre e nem vive de nobreza o castelo, mas de uma mistura de gente de todo jeito que se imaginar. Chegam pessoas de todos os lugares só pra dançar no baile de passo sensual e criativo, ou mesmo para ver o ritual dançante do outro, mas sem reverências obrigatórias, somente o direito de se soltar e incendiar o castelo.


‘Em ondas’

Afogamento não tem graça nenhuma, mas o do Zé, primo da Vivi, vai ficar pra história. Zé pensou que onda tinha natureza controlável, contornável, e se ‘misturou’ na onda. O Zé é um paulista que foi visitar o Rio e ficou só no meio de carioca e de mineiro, melhor dizendo; mineiras. Logo no final do feriado, o Zé deu de se empolgar e mergulhar no mar de tormenta, lá na Barra. Foi ele, nesse dia fatídico, atrás do Hugo e do Danilo, primos cariocas experientes no balanço das ondas. O mar não estava pra peixe e muito menos pra gente. Dia meio frio de ventania, de mar fundo na beira, quando de repente se avista o Zé num tumulto de braços num buraco de mar, sem conseguir dar um passo nem para frente, nem para trás. Danilo e Hugo um tanto solidários, mas também receosos, nada conseguiram fazer, até que chegaram dois salva-vidas e resgataram o Zé, que saiu meio tonto, de perna bamba, uma delas manca. As meninas mineiras ficaram só a ver a cena; desconfiadas com tudo não iam abusar logo do mar. Gabi, a cicerone, não perdeu a chance de tirar mais uma foto. Todas assistiram ao salvamento no entrelugar do riso e do meio susto, porque nunca acharam mesmo que o Zé fosse se afogar. E Vivi dizia: ‘Meu Deus, já pensaram se acontece alguma coisa com o Zé? Todos iam cair em cima de mim...’, como se o Zé ainda fosse criança. Bem, não foi preciso fazer respiração boca a boca e o Zé não teve que suportar mais essa gozação de todos. São e salvo, sem perder a pose de paulista se dando bem no Rio, o Zé terminou mesmo sendo o protagonista da mais engraçada e memorável história do dia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ruído encantado

Não importava para ela a proximidade máxima naqueles instantes. Valia mais aquela audição de idéias em perfusão, aquelas palavras argumento que vinham em torno da mesa redonda, em meio à pequena sala. Ecoava aquela voz grave no ambiente, e pelos seus ouvidos ávidos entravam dizeres de consentir, dizeres de duvidar, dizeres vários. Vinha por vezes um soluço silencioso no peito, de não compreender exato, tal qual ele dizia, por não haver a comunicação perfeita, um saber a anteceder, e pela falha na interlocução, um som inaudível qualquer, perturbador, dificultava o entendimento, e ele dizia sem pudores, seguro em fortes evidências acadêmicas, sobre essa impossibilidade do diálogo perfeitamente claro, raro, apenas um ideal. Nesses momentos surgia certa angústia e a vontade dela era chegar perto e tocar a boca dele em beijo infinito, fazer laço apertado no corpo dele com o dela, mas sabia que não podia fugir dos ditos a ressoar na mente; então retornava pacientemente à audição, àqueles tons crescentes e decrescentes de voz, àqueles movimentos ascendentes e descendentes dos braços dele a conduzir a palavra em gesto, enquanto os olhos buscavam compreender também a recepção; os olhos dela de acolhimento e de incompreensão. Assim, ele sempre duvidava da compreensão dela, pensava ser tediosa sua fala, extensa, empolgada, como se o mundo dos seus próprios pensamentos girasse em torno dele, como um satélite manco, deficiente em irradiar, senão a ele mesmo, a avançar sobre si de forma inevitável. Mas a angústia de entender era também convergente, dela pra ela. As palavras chegavam solitárias, ansiosas pelo interpretar. Nesse momento eram palavras órfãs à espera de adoção, da emoção e da inquietude de receber, de reconhecer e de estranhar. E o conviver, viver, era reconhecimento e estranhamento por meio da palavra, do movimento calado, gritado. E esse ruído impertinente devia ter mesmo algo de maléfico, mas também de virtuoso, porque permitia enviesar os caminhos e encontrar outras possibilidades; subjetividades, alteridades necessárias. Ele sempre fora para ela essa confusão encantadora, esclarecedora e ruidosa, toque e palavra a se encontrar entre razão e natureza, fronteira.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ricardo Fabião

Recebi com muita alegria de Ricardo Fabião esse lindo texto!

A FRONTEIRA


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as palavras do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve e também tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres – que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até assim. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá estava seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era o segredo, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, com reticências para que ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto, desconhecedor das horas. E foi nessa margem menos visitada que cresceu. Assim, o adulto e o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário da falta, algo que vedasse o incômodo de enxergar além. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira. Um dia encontraram apenas a escada. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.




Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Dona Tereza

Com seus olhos azuis pequeninos ela adentrava todos os dias a sala de fisioterapia. Irradiava risos por todos os cantos daquele lugar, feito um anjo levado, cheia de histórias macabras, eróticas e até singelas. Ninguém diria que já alcançara, aliás, já passara dos oitenta anos, tão vívida era sua presença, de jovialidade incandescente... Certa vez contou de seu tio de Muriaé, criador de porcos. Este morrera de pescoço decepado num acidente de Kombi, e os porquinhos todos rolaram pela estrada...’uma tristeza’, dizia ela. ‘Tiverem que costurar a cabeça pro velório...’ Outra vez contava das paqueras e do casamento que já ia nos seus cinqüenta e oito anos. Brincava com seu jeito zombeteiro, ‘Mulher tem garantia, homem não’...Tanto que de vez em quando alardeava um flerte na esquina com um moço bem moreno e cativante, depois concluía...’sou casada’...com aquele pesar de moça namoradeira. Dificilmente haveria em tão dura idade, quando as articulações se colam e os músculos se ressentem, alguém como Dona Tereza, a fazer gente rir todas as manhãs, tamanha a espontaneidade, o vigor. A despeito de seus tendões do ombro rompidos, doloridos, ela era a única ‘paciente’ a não reclamar do gelo tópico no inverno, talvez porque o gelo se tornasse líquido morno rapidamente em contato com a pele dela. Ela era adaptável, dobrável; a rigidez não se fixara em sua alma. Lembro-me do seu toque carinhoso em minhas mãos e no meu rosto; as jovens mãos de Tereza ávidas por carinho, cheias de vida.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Beatbrasilis 5



Queridos amigos que me lêem, que me vêem assim pela escrita; acaba de sair a 5ª edição da revista eletrônica Beatbrasilis´, textos bacanas e três pequeninos meus! Será um prazer uma visita de vocês no,

http://www.beatbrasil.blogspot.com/

Abraço grande a todos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Elas em Pirambu

Quisera um dia poder voltar ‘praquele’ lugar no meio de mar, no meio de rio
Quisera poder balançar na onda e repousar na calmaria daquele entre
Em meio a barcos pesqueiros, barcos de gente peixe a enredar, terra de gente cabocla contemplativa
Quisera voltar a ver as casinhas em fileira cor de fumaça de gota suspensa, quase miragem
Da baixa areia beira mar avistar aquele romper de mancha d’água em guerra pra ir pro rio, pra ir pro mar
E o rio a se misturar com mar sem o sal se desmanchar, riomar de gosto forte,
Marjaparatuba, Japaratubamar
Ela e mãe em Riomar entrelugar a festejar
A nadar, A caminhar, A admirar...
Elamãe, Mãela em Riomar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Qual era a música?

Ela deveria estar em outro lugar, mas não sabia qual. Não havia desejo preciso no pensamento dela, mas a sensação clara do lugar errado. Sempre se sentira assim em lugares errados, porque não os escolhera, não os desejara de fato, fora a eles apresentada, ficara; e uma vez assim neste estado de ficar sentia grande dificuldade das despedidas e de que os outros lugares também não fossem os lugares certos, ao menos por algum tempo. Então ficava e se admoestava por pensamentos de ir, enquanto seu corpo não movia e a sensação de lutar era antes uma falta de revelação incontida que um manifestar evidente e necessário sob os olhares de incompreensão. Ah...ela lutava por ir enquanto ficava; era sempre assim; esse ir por dentro que não ia por fora, e o tempo em vertigem sobre o abismo do mundo e da alma. Ela sabia que ele, o tempo, era o motivo exato de tanto pensar em ir, posto que se não fosse poderia não haver mais tempo. E ficava esse ressoar de fala em caverna dentro da cabeça; vá, vá, vá...Uma caverna apinhada de morcegos pendentes, cegos de visão e visionários do som. Ela sabia que havia uma música qualquer que devia ser a música dela, mas os ratinhos voadores não faziam concerto; somente alternavam a expectativa de uma seqüência de sons. Ela tentava em vão escutar o seu som, porque as notas não tocavam harmônicas e sequer faziam dissonância rara a repetir de tempos em tempos. Ela só precisava de um sinal sonante ou dissonante, qualquer sinal de ir pra outro lugar sem medo de não estar novamente, como sempre não esteve.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Maior Flor do Mundo | José Saramago

Como as 'pequenas coisas' podem se agrandar,
Como as ‘grandes coisas’ podem se apequenar...
Pena, por vezes, termos visão tão nublada...
Pena sermos engano de pensamentos e ações...
Pena sofrer os olhos dessa imaginação invertida, que pouco cria, e quase sempre copia...
Pena escapar o sentimento da imaginação...


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não se sabe

Aquela sala de fisioterapia era o exato lugar do passar do tempo, primeiro nos seus próprios tendões e músculos a fadigar, depois naquelas imagens já antigas a resmungar dores nas pernas, dedos em cãimbra, colunas em ardor, pelves em desalinho. Seu problema parecia simples; disseram-lhe ser coisa de tecido mole, um tendão aborrecido a queimar o calcanhar, a relembrar uma dor de infância, que tinha dentro do osso, assim lembrava. Antes, disseram-lhe que era dor da perda, da separação, da falta quem sabe. Agora, atribuíram às dores a sua anatomia cava dos pés. Talvez seja esse fosso nos pés que guardava tudo, pensava. Mas na perspectiva médica era um mecanismo normal de compensações a ser suficientemente remediado com antiinflamatórios e fisioterapia. Dito e feito. Lá se foi ela todas as manhãs em busca da ‘cura’, mas temerosa de que estivesse a esconder um presságio da alma, do coração. Contudo o tempo que passava com a doutora (assim diziam as mais velhas) era agradável, posto que vinha cheia de acalento em panos quentes, massagens vigorosas e delicadas e aquelas conversas de gente velha nada velha, só nos ossos e nas carnes já gastas. Percebera que a antiguidade se renovava, e algumas, até irmãs e carolas, diziam da igreja, dos padres, mas diziam também das patroas italianas a fazer um filho enquanto outro nem havia começado a andar. Diziam da lavoura, da política inacreditável. Diziam de tudo e menos da dor. Perguntavam-lhe, tão moça e já aqui? Concluíam que dor era coisa de ‘jovem’ também; consolavam-se? A sala era acolhedora, a doutora talvez na metade do tempo, no entrelugar da ‘moça’ e das ‘velhas’, contava histórias, ouvia histórias, lembrava o passado, antevia o futuro? O calcanhar ia aos poucos revelando novas sensações, não se sabe se de cura permanente, ou de dor que vem e passa, um aviso da alma.

Espero...

‘Você espera alguma coisa de mim...’ ‘Como?’ ‘Você espera alguma coisa de mim...’ ‘Não, espero tudo...não espero alguma coisa; espero o tudo que cabe muito, que cabe qualquer coisa, até o nada, mas todos juntos na cadência indecifrável e necessária do humor e da circunstância que não anula em nada o bem querer. Espero suas certezas, suas incertezas, suas contradições...Espero um sorvete no banco da praça, chegadas ao luar e no sol a pino marcadas e não marcadas, presença de pensar, qualquer plano que não seja eterno e longíncuo, mas terno, simples e próximo, plano de ficar, plano de ir a qualquer lugar. Espero absolutamente tudo e tenho tudo pra dar-te também, mesmo meu vazio, minha dúvida...mesmo meu sentimento confuso por aprender...Espero tudo porque não compreendo nada que não seja tudo, que tudo é presença de qualquer forma cabível e incabível, tudo é conciliar, tudo é compartilhar, tudo é testemunhar...Não, não espero alguma coisa...que não há marcação específica no tudo que contém tudo...porque tudo é inesperar cada dia...porque tudo é ousar completude em face das partes...porque tudo é amar...

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Lamento

Lamento não ter a leveza dos loucos...Lamento não ter a dureza dos arrazoados...Lamento por me perder entre espaços de motivos alheios, que terminam meus, que no fundo são meus, e que me lembram do esquecimento tão necessário ao bem viver, que retorna como lembrar perturbador...Poderia simplesmente apagar os motivos da razão diante da emoção, da emoção que faz tudo tão terno e raro, tão belo... Lamento querer amar tanto e me confundir entre a entrega e o disfarce; que disfarce é coisa custosa pra mim, porque não aprendi camuflar sentimentos, confusões em mim...Lamento que me vejam assim tão frágil em perfusão de frases contraditórias por razões e desrazões tão muitas...Lamento que não compreendam lamento meu de momento que dura eterno no sentir...Lamento ter encantos quebráveis, que encanto é arte de desencanto submerso que vem à tona pra respirar e vazar pelos olhos de lágrimas, e pela boca a escapar coração...Lamento...Lamento ser oscilação tão clara, tão fatal...Lamento...Lamento....

sexta-feira, 16 de julho de 2010

Camaleão

Parecia-lhe que o amor vinha tarde; e por assim ser, tardio, vinha com força descomunal, num ímpeto de solidão mesmo em presença, num querer abarcar todo instante com sentimento repleto, num transbordamento de cachoeira a escorrer por rocha cheia de falhas, a respingar o mundo. Parecia-lhe que o amor vinha cedo; e por assim ser, impúbere, vinha com incertezas certas a desequilibrar corpo e mente como redemoinho de rio a deixar ponta de pés e cabeça inviesados, puro lamento e afogamento, puro encanto e salvação até ver o céu de novo. Parecia-lhe que o amor vinha no tempo; e por assim ser, certeiro, vinha na madureza duvidosa, no tempo da fronteira, tempo de visões amplas, de visões especulares, lupanares, microscópicas. Parecia-lhe que o amor fugia; e por assim ser, fugidio, desvinha em turbilhões de fantasmas, de imaginários tortuosos, oceanos em tormenta, obscenos. Parecia-lhe que o amor vinha e desvinha, um camaleão em terra ferruginosa, ressequida e sedenta, em terra de vegetais de curvas repetidas e fatais, curvas de cores ocres, troncos de pele; e camaleão lá grudado, pele na pele a memorizar cada nuance, a sobreviver...amor camaleão...

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Poetar

Queria uma poesia larga de mim
Mas a caber-te
A entrar-te num justo movimento
Num agir compreensível
Queria a tua poesia também em mim
A estreitar-se pelos meus caminhos
Mesmo num susto de descoberta
E até em estreitamento
Queria todo desvelamento de mim em você
De você em mim
Poesia astuta e sensível
Poesia verbo eu e você
Poetar-te
Poetarmo-nos

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Aprendiz de voar

Hoje amanheci com mamãe a socorrer uma rolinha aprendiz. Chegou com a toda redondinha de penas, aparentemente calma, mas querendo voar. Mamãe pensou; ‘caiu do ninho’...'corre perigo com tanto gatuno por aqui’...Mamãe abriu a porta numa fala mansa , cheia de carinhos com a bolinha de pena, em mãos acolhedoras, mãos de mãe, preocupada com os gritos da rolinha mãe. A passarinha tinha biquinho saliente e cor de penumbra...e só queria voar...Abriu as asas e deu um rasante e foi parar no chão, bem debaixo da minha cama. Mamãe a resgatou e a colocou sobre o muro, na dúvida de que sobreviveria...Até que chegou a mãe rolinha, e num lance de vôo pro alto motivou a decolagem de bolinha filha..Bolinha acertou o passo, acertou o vôo, e mamãe ficou orgulhosa lá embaixo ao vê-las, mãe e filha no mesmo lance de laje a contemplar quem sabe outro lance mais alto, até o rasante virar vôo alto de vez...

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Desaviso

Lembrava-se...Sim, lembrava-se claramente daquele namorico adolescente que tivera; tão intenso que parecia nuvem baixa, aterradora, a chover forte e fraco, sem parar. Ele postou-se no portão de sua casa, bem do outro lado da rua, com uma pequena sacola dependurada nas mãos, vindo de uma cidade distante, logo ao amanhecer. Ela amanheceu assim amanhecida por ele num susto de visita desavisada. Ele vinha ver o amor de poucos beijos meio incongruentes, segundo a acusara, de quem beija das primeiras vezes; beijos de descoberta...Mas ele disse que viria assim mesmo, a despeito daqueles beijos atrapalhados, porque vira ela como uma membrana de libélula, não perfeita, mas absolutamente transparente, incoerente. Ela abriu-lhe o portão com dores na barriga de tanto susto, mas não deixou que ele entrasse. Disse que já ia; somente guardou a sacola em casa, e levou-o logo cedo para a escola. Não teve coragem de apresentá-lo como namorado de palavra dita, só de presença não dita. Alguns viram neles semelhança curiosa; acusaram-nos de serem irmãos pelo traçado do nariz e da boca, até pelas pernas, pelo jeito acusativo de ser; jeito de gente comum e incomum no sentir, perdidos no encontro que não fora marcado. Passado o tempo de aula se foram e deixaram-se ficar numa das primeiras paradas do ônibus para assistir um filme, do qual não se lembrariam de cena alguma, senão da sua própria cena dirigida para o acerto do beijo e surgir de novas carícias. Teria que levá-lo para casa finalmente e aceitá-lo com qualquer olhar, ainda que esse olhar pudesse fugir dela mesma, escapar do seu vôo, do seu pouso de libélula. Ele entrou sem susto na casinha simples, conheceu a mãe dela, pediu para tomar um banho e seu foi...Ela ainda se lembra do cheiro forte do perfume a exalar pela casa após o banho, e até hoje a fragância submete a sua lembrança em qualquer lugar que surja. Tiveram outros encontros apesar da distância, mas aquele dia desaviso adolescente não se repetiu...o delicioso desaviso, impulso a amedrontar, encantador...