A visão daquela lagartixa ali esmagada no portão, rodeada de formigas de traseiro cor de ouro foi um tormento para elas. ‘Que dó’, lamentou a mãe de Liria. Primeiro espremida sem ninguém que a avistasse, depois comida lentamente por aqueles insetos carnívoros. Que sina mais triste, morrer assim num fechar de porta, num trancar displicente. E toda morte não é mesmo um fechar de portas e não se dá de susto, por acidente, muitas vezes?
Elas também poderiam ir desse mundo nesse piscar de olhos. Agora pior que piscar e não ver mais seria olhar e não ver. Não ver mais os lagartos em suas fugas vertiginosas. E nesse não ver definitivo, serem carcomidas por quaisquer insetos ou organismos microscópicos sem qualquer salvação.
As lagartixas sempre foram bem vindas naquela casa, sobretudo, é claro, por seu adorável gosto por baratas; um inseticida natural e ágil. Além disso, esses pequenos lacertídeos lembravam a elas réplicas diminutas e delicadas de répteis pré-históricos, quase míticos a vagar por florestas distantes. Só que estranhamente vieram conviver nas casas. Em que momento teria se dado esse movimento lacertídeo para um ambiente tão hostil, em que portas e trancas podem os esmagar quase sem chance de fuga?
Elas se sentiam assim; sem chance de fuga. Esmagadas e rodeadas por formigas famintas a roer suas idéias e sonhos simples, seus olhares deslocados na multidão. Talvez outros também se sentissem assim e vagassem por pensamentos inconclusos, por terras desconhecidas, alienígenas. Por isso, os lagartos as encantavam, e as lagartixas, em habitat tão antinatural, intrigavam-nas.
Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sábado, 22 de janeiro de 2011
sexta-feira, 21 de janeiro de 2011
Lagartos 4
Os lagartos em fuga, um desejo profundo em Liria. Eles pareciam a ela nunca contingentes, obrigatórios. Sua permanência nos lugares era fugaz, eles não se demoravam e raramente deixavam rastros. Pareciam uma névoa que passou. E Liria queria esse passar que passou; queria mais; queria que tudo passasse sem deixar marcas, um mundo dela imemorial. O sofrimento apagado, a lembrança feliz não interrogada, só o porvir sem planos, acidental.
Parecia a ela que lagartos estavam no entrelugar, porque nem rastejavam propriamente, nem voavam. E podiam botar ovos e ainda tê-los, os filhotes, já prontos. E não se apegavam às crias. Criavam-se sozinhos, e talvez, por isso, não faziam morada, não assentavam em lugar qualquer, somente iam. De fato, não eram animais disponíveis à domesticação, embora fosse possível criá-los em cativeiro. Agora, querer afagá-los com carinhos e conversas, quase improvável. Mas a mãe de Liria cria nessa possibilidade, pensava somente que o afeto era rejeitado por falta de tato, a gentileza ideal no momento certo, uma abordagem lenta e permanente a cada dia.
Fosse o mundo cruel o tanto que fosse, se o espírito do lagarto grudasse em gente, não haveria sofrer, perder, regressar. Era isso que encantava Liria, esse inevitável existir assim, um lagarto que chega e vai veloz pelos muros, a criar novas divisas, a indivisar-se por estar apenas ali e em nenhum outro lugar do pensamento, sem deslumbramentos, senão o tiro certeiro, a língua bumerangue na direção do alimento.
Absolutamente naturais, sem razão que se considerar, os largartos apareciam para Liria e sua mãe como a adensar o fosso de seus sentimentos, de seus tormentos diante do oposto cheio de nada, de uma vida sem considerações razoáveis, apenas o movimento de viver, nascer, se proteger, fugir, comer, reproduzir. E então, pensavam elas que isso era o verdadeiro encanto, e que apareciam assim nos caminhos, nas encruzilhadas de suas mentes para dizer exatamente da necessidade de retomar esse natural perdido, acometido da moléstia do julgo, pura artificialidade.
Parecia a ela que lagartos estavam no entrelugar, porque nem rastejavam propriamente, nem voavam. E podiam botar ovos e ainda tê-los, os filhotes, já prontos. E não se apegavam às crias. Criavam-se sozinhos, e talvez, por isso, não faziam morada, não assentavam em lugar qualquer, somente iam. De fato, não eram animais disponíveis à domesticação, embora fosse possível criá-los em cativeiro. Agora, querer afagá-los com carinhos e conversas, quase improvável. Mas a mãe de Liria cria nessa possibilidade, pensava somente que o afeto era rejeitado por falta de tato, a gentileza ideal no momento certo, uma abordagem lenta e permanente a cada dia.
Fosse o mundo cruel o tanto que fosse, se o espírito do lagarto grudasse em gente, não haveria sofrer, perder, regressar. Era isso que encantava Liria, esse inevitável existir assim, um lagarto que chega e vai veloz pelos muros, a criar novas divisas, a indivisar-se por estar apenas ali e em nenhum outro lugar do pensamento, sem deslumbramentos, senão o tiro certeiro, a língua bumerangue na direção do alimento.
Absolutamente naturais, sem razão que se considerar, os largartos apareciam para Liria e sua mãe como a adensar o fosso de seus sentimentos, de seus tormentos diante do oposto cheio de nada, de uma vida sem considerações razoáveis, apenas o movimento de viver, nascer, se proteger, fugir, comer, reproduzir. E então, pensavam elas que isso era o verdadeiro encanto, e que apareciam assim nos caminhos, nas encruzilhadas de suas mentes para dizer exatamente da necessidade de retomar esse natural perdido, acometido da moléstia do julgo, pura artificialidade.
quinta-feira, 20 de janeiro de 2011
Lagartos 3
Liria como a mãe não vivenciara o afeto paterno desde o início, mas teria a mãe sempre próxima. As duas seguramente não viram os lagartos no começo, mas tiveram visão reveladora tempos depois.
Em certo tempo de suas vidas apareceram vários lagartos no quintal, já em cidade longíncua dos tempos do sertão, dos tempos da vila. Elas descobriram que os lagartos estavam em todos os lugares, e sempre naquele andar vertiginoso de fuga.
Nos fundos da casa resolveram fazer morada nos buracos do canteiro. Botavam ovos, e dos ovos pequeninos nasciam diminutos lagartos de olhos gigantes, como desnutridos do sertão naqueles corpinhos fininhos, frágeis, naquelas barriguinhas protuberantes a mostrar linhas de assombro, sanguíneas e digestivas.
De toda aquela vertigem rastejante, sobrou apenas um lagartinho no ninho, ao lado do ovinho quebrado. A mãe de Liria quis criar o pequenino mágico saído do ovo; tentou alimentar com comida e afeto, mas ele insistia repetidas vezes na fuga pelo corredor em direção à rua. Um dia ele conseguiu e foi dar no jardim sem que nada elas pudessem fazer. No dia seguinte estava lá ressecado, rodeado de formigas famintas.
Liria achava que essa fixação da mãe em criar um lagarto era a lembrança do ovo da infância, ainda que só lembrasse por alguém contar. Algumas histórias eram como sombras, passados eternizados, e viriam em sonho e vida com diversos disfarces, faces.
Em certo tempo de suas vidas apareceram vários lagartos no quintal, já em cidade longíncua dos tempos do sertão, dos tempos da vila. Elas descobriram que os lagartos estavam em todos os lugares, e sempre naquele andar vertiginoso de fuga.
Nos fundos da casa resolveram fazer morada nos buracos do canteiro. Botavam ovos, e dos ovos pequeninos nasciam diminutos lagartos de olhos gigantes, como desnutridos do sertão naqueles corpinhos fininhos, frágeis, naquelas barriguinhas protuberantes a mostrar linhas de assombro, sanguíneas e digestivas.
De toda aquela vertigem rastejante, sobrou apenas um lagartinho no ninho, ao lado do ovinho quebrado. A mãe de Liria quis criar o pequenino mágico saído do ovo; tentou alimentar com comida e afeto, mas ele insistia repetidas vezes na fuga pelo corredor em direção à rua. Um dia ele conseguiu e foi dar no jardim sem que nada elas pudessem fazer. No dia seguinte estava lá ressecado, rodeado de formigas famintas.
Liria achava que essa fixação da mãe em criar um lagarto era a lembrança do ovo da infância, ainda que só lembrasse por alguém contar. Algumas histórias eram como sombras, passados eternizados, e viriam em sonho e vida com diversos disfarces, faces.
quarta-feira, 19 de janeiro de 2011
Lagartos 2
Antes da vila foram outras cidadelas e sua mãe, suas origens mais remotas do sertão, dos lagartos camaleões, rápidos no movimento dos membros e das cores, bem mais espertos que os lagartos do tempo de Liria. Sua mãe dizia que eram muitos e que a carne era tenra e saborosa. E naquelas terras onde a carne era escassa, o lagarto fazia a festa no almoço matutino e vespertino. Era comum almoçar ao levantar feijão com milho e vez por outra um pedaço de carne, de passarinho morto a estilingue, de lagarto morto a tiro e raramente alguma criação.
O ovo também era fonte de proteína e energia importantes, mas não eram muitas as aves chocadeiras, e muitas eram as pessoas carentes do alimento, as cozinheiras a fazer bolos. Assim, sua mãe se punha a vigiar o descenso do ovo, aquele parto maravilhoso que lhe dava água na boca. Por vezes, vasculhava os ninhos, e saía feliz com o ovo nas mãos, como se sua sobrevivência e alegria estivesse ali naquela esfera mágica.
Tal qual Liria não se lembrava dos lagartos no começo do seu tempo, sua mãe não se lembrava de sua própria mãe, a avó, senão por uma pequena fotografia, em que ela fechava o cenho diante do sol ardente, os braços pendentes e curtinhos apoiados em um vestido de chita a dar nos joelhos. Diziam que sofria dos nervos, teimava em não conseguir andar, e no dia do casamento recusara levar qualquer pessoa na garupa do cavalo, sob pena de amassar o traje. Terminou por levar uma sobrinha, depois de obter a garantia de que a mocinha, em hipótese alguma, seguraria-se nela. Casou-se, mas pouco durou o matrimônio, vítima que foi de um parto difícil e mal curado feito em casa.
A mãe de Liria fora a primeira nascida e já com três anos não havia mãe que lembrar e nem pai, que este abdicou da função. Foi então que toda fuga sem destino começou. Ela retornaria àquelas terras e veria os camaleões nos troncos tortuosos, veria a terra ressecada cheia de falhas, veria as cabras a beber no açude e os moinhos a moer a cana pra dar rapadura e o ‘fininho’, o puxento doce dos dias de moagem. A casa do pai ficava cheia de cortador de cana e o carro de boi fazia aquele som retinente, enquanto os pobres animais alinhados, presos pelo pescoço, por obra do homem, faziam aquele monótono e duro movimento circular. Via tudo enquanto o pai permanecia calado, os olhos inexpressivos naquela mansidão estranha, naquele fugir do afeto paternal.
O ovo também era fonte de proteína e energia importantes, mas não eram muitas as aves chocadeiras, e muitas eram as pessoas carentes do alimento, as cozinheiras a fazer bolos. Assim, sua mãe se punha a vigiar o descenso do ovo, aquele parto maravilhoso que lhe dava água na boca. Por vezes, vasculhava os ninhos, e saía feliz com o ovo nas mãos, como se sua sobrevivência e alegria estivesse ali naquela esfera mágica.
Tal qual Liria não se lembrava dos lagartos no começo do seu tempo, sua mãe não se lembrava de sua própria mãe, a avó, senão por uma pequena fotografia, em que ela fechava o cenho diante do sol ardente, os braços pendentes e curtinhos apoiados em um vestido de chita a dar nos joelhos. Diziam que sofria dos nervos, teimava em não conseguir andar, e no dia do casamento recusara levar qualquer pessoa na garupa do cavalo, sob pena de amassar o traje. Terminou por levar uma sobrinha, depois de obter a garantia de que a mocinha, em hipótese alguma, seguraria-se nela. Casou-se, mas pouco durou o matrimônio, vítima que foi de um parto difícil e mal curado feito em casa.
A mãe de Liria fora a primeira nascida e já com três anos não havia mãe que lembrar e nem pai, que este abdicou da função. Foi então que toda fuga sem destino começou. Ela retornaria àquelas terras e veria os camaleões nos troncos tortuosos, veria a terra ressecada cheia de falhas, veria as cabras a beber no açude e os moinhos a moer a cana pra dar rapadura e o ‘fininho’, o puxento doce dos dias de moagem. A casa do pai ficava cheia de cortador de cana e o carro de boi fazia aquele som retinente, enquanto os pobres animais alinhados, presos pelo pescoço, por obra do homem, faziam aquele monótono e duro movimento circular. Via tudo enquanto o pai permanecia calado, os olhos inexpressivos naquela mansidão estranha, naquele fugir do afeto paternal.
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Lagartos 1
Não que fossem eles os únicos fugitivos, mas Liria sempre se surpreendia com aquele movimento rápido dos lagartos pelo chão, pelos muros; surpreendia-se com a agilidade do arrastar frente a qualquer perigo, verdadeiro ou falso. Isso sempre ocorria a ela; largartos de todos os tamanhos e nuances nem tão distintas pelas ruas que caminhava, pelos muros que margeava, pelas matas que visitava e mesmo nos quintais.
Liria nascera em uma casa que não se lembrava e só vira por fotos de um álbum de infância. O quintal tinha ibiscos vermelhos, assim aparentavam, posto serem as imagens em preto e branco. O lugar tinha terra vermelha, a que o tom de cinza precariamente tentava imitar, embora muito atiçasse a imaginação. A casa também era de pisar em vermelho, daquele vermelhão de concreto tingido, sedento por cera pegajosa, lindo sangue a brilhar por baixo.
Nesse tempo, esse de que ela não se recordava, os lagartos deveriam estar, e talvez Liria corresse atrás deles, ou mesmo se aproximasse enquanto eles fugiam. Liria não se lembra deles naquela vila distante de sua infância primeira, de seu primeiro ano de vida. E foram tumultuados esses instantes, contava sua mãe. As duas migraram para aquela pequena cidade em formação, cidade em busca do encontro ou do desencontro, do povoamento. Fora talvez uma viagem de fuga aquela ida, fuga para encontrar? Ela ainda ia barriga adentro, naquele rio morno, amniótico. E foi com esse ventre repleto que sua mãe navegou também no largo rio de nome também largo, rio do norte.
Por pouco tempo Liria permanecera ali, e nunca mais retornaria. Talvez toda a angústia do seu nascimento estivesse guardada naquele lugar, fincada naquela terra encarnada, naqueles momentos de chegada e largada para o mundo, quando os lagartos ainda não apareciam para ela.
Liria nascera em uma casa que não se lembrava e só vira por fotos de um álbum de infância. O quintal tinha ibiscos vermelhos, assim aparentavam, posto serem as imagens em preto e branco. O lugar tinha terra vermelha, a que o tom de cinza precariamente tentava imitar, embora muito atiçasse a imaginação. A casa também era de pisar em vermelho, daquele vermelhão de concreto tingido, sedento por cera pegajosa, lindo sangue a brilhar por baixo.
Nesse tempo, esse de que ela não se recordava, os lagartos deveriam estar, e talvez Liria corresse atrás deles, ou mesmo se aproximasse enquanto eles fugiam. Liria não se lembra deles naquela vila distante de sua infância primeira, de seu primeiro ano de vida. E foram tumultuados esses instantes, contava sua mãe. As duas migraram para aquela pequena cidade em formação, cidade em busca do encontro ou do desencontro, do povoamento. Fora talvez uma viagem de fuga aquela ida, fuga para encontrar? Ela ainda ia barriga adentro, naquele rio morno, amniótico. E foi com esse ventre repleto que sua mãe navegou também no largo rio de nome também largo, rio do norte.
Por pouco tempo Liria permanecera ali, e nunca mais retornaria. Talvez toda a angústia do seu nascimento estivesse guardada naquele lugar, fincada naquela terra encarnada, naqueles momentos de chegada e largada para o mundo, quando os lagartos ainda não apareciam para ela.
quarta-feira, 5 de janeiro de 2011
por vir...porvir...
Estou no exato meio do caminho, fincada no sentimento inquieto do que está por vir. Por enquanto, abstenho-me das minhas e das histórias dos outros que, por vezes, são minhas também, para esperançar e medir as possibilidades do porvir, para agir e ser agida. Que seja de fim ou recomeço, mas que esteja a inaugurar algo findo em recomeço, esquecido dos tempos de nuance de parca cor, de escuro inesperado.Que seja um momento espelhado não de luz intensa cega de ilusão, mas de mansidão da alma e do corpo, de calmaria não isenta dos redemoinhos que se vão, de alegria vivida em plenitude e de tristeza bem motivada.Que seja eu diante do outro e pelo outro, um olhar de admiração sincera, a angústia que não paralisa, mas que ativa contornos de sobriedade e claridade.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Casabarco
Ela sonhara que morava numa casabarco, e nesse navegar sem fim em oceano, sem porto qualquer, ela se perdia e se encontrava apenas por instantes. Eram tão insolentes, porém, esses momentos, tão absurdamente graves, que nela ficavam marcas de encontros e desencontros, tão precisos e precisados. E se o mar avançava por terra ou cruzava um rio a beirar o continente, ela de súbito pressentia uma idéia vaga qualquer de solo firme, estranhamente movediço, cheio de angústia. E a sensação de tanta prisão por ficar, aportar, fazia com que ela volvesse o leme pra no mar ficar. E a casabarco já era parte dela, exatamente por não ser casa, apenas barco intruso na imensidão, enquanto seu corpo era corpo que passou, como o barco passou. Sua casa se fingia de barco, ela se fingia de navegante, enquanto toda fluidez por si passava, toda fluidez de si escapava e caía no mar. Então ela era mar, era amar cada vaivém pra se aprumar.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Quisera
Quisera escrever um texto de fôlego. Quisera construir uma história em que os personagens caíssem feito estrelas cadentes na trama de infinitos nós. Quisera imaginar todos os possíveis fatos, até os inimagináveis, e fazer deles matéria prima de enredo, sem arremedos, sem medos. E colocar em cada fato o personagem mais embrenhado, cúmplice sem restrições, e que por pensamentos e atos se fizesse tão humano, frágil e forte, sempre no entrelugar, na oscilação, na contradição inerente ao viver. Quisera fazer um longo texto que coubesse a prosa e a poesia, todas suas fusões e incongruências, até vir o real, até beirar a irrealidade. Quisera conduzir o leitor nesse caminho sem volta, nessas vidas cheias de voltas, até vir o começo, até chegar o fim. Quisera escrever um texto de fôlego. Que fosse longo o suficiente para cobrir dias e noites de dedicação por puro envolvimento voluntário. Mas que fosse na medida oposta a qualquer monotonia, senão àquela que viesse no momento exato, que monotonia é parte natural de qualquer movimento que se espere mais extenso, prolongado. Quisera ter essa respiração profunda a inspirar todos os poros, a inundar todos os vasos, a exalar perfumes doces e ácidos. Quisera, quisera tanto, que ansiava não fechar qualquer texto, qualquer vida grudada nele, e deixar uma reticência depois de conclusões inconclusas, diálogos intermináveis a germinar na alma do leitor.
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Temia
Temia que o amor fosse apenas um discurso ou uma afirmação por absoluta teimosia de dizer o que se diz, o que se espera que se diga. O retórico amor, um discurso aparentemente cheio, mas sobretudo persuasivo, bem ao estilo dominador, mas em forma de fragmento, de maneira que palavra não poderia se converter em ação, amor sem amar, puro dizer... Temia que o amor fosse apenas um miasma a rondar os corpos até evaporar sobre poros de pele impermeável, a traduzir toda dureza da alma...Temia ser o encanto um momento qualquer de desatino da percepção, por simples desconhecer e se colocar curioso diante de visão, prestes a migrar em desilusão...E temia mais exatamente por temer tanto esse dizer, relutar no dito o mover da palavra em direção à realidade, posto ser o amor um capricho do dizer, um diálogo a envolver um e outro na tentativa da própria essência do discurso em ação, porque palavra é o confeito da alma, essa mistura que se enche em desatino, embora esteja sempre e sempre só, até vir um alento de ternura, um ouvido atento, um pensamento ainda que distante...Essa palavra amor temida e ousada seria então essa superfície de proteção em torno da dispersão pela própria sobrevivência, um retorno, um ponto de equilíbrio...Por isso temia não dizer, mas ainda que dissesse temia também a indisposição sobre essa palavra amor, esse agir amor...
quinta-feira, 18 de novembro de 2010
Indelével
Depois que o conhecera, vivia em abraço. Ninguém a compreendia quando chegavam perto e ela, subitamente, rejeitava outro abraço, quando então dizia: ‘Já estou em abraço’. Tudo começou quando reconheceu os braços dele e fundiu-se de forma irrefreável como num enlace inevitável. Era incompreensível o dizer dela para os olhares em redor: ´Já estou em abraço’. Nada se via grudado nela, senão a cena, o mimetismo do abraço vez por outra. Era indelével, já parte dela o abraço. Fora permissível demais, em exagero, tanto que o abraço pregara de forma irremediável. Os familiares começaram a se preocupar seriamente com aquela moça em abraço; pensaram em coisa de espírito, em uma espécie de síndrome siamesa invisível mesmo tardia, que haveria alguma séria afecção do pulmão ou do coração que tornava o peito dolorido a rejeitar outros braços. Pensaram muitas possibilidades, visitaram especialistas, e nenhum observara nada de anormal, senão o afastamento súbito, amedrontado. Com o passar do tempo os braços dela começaram a volver outro corpo ‘inexistente’, ficavam em arco permanente e os dedos das mãos tensos; de tempos em tempos fazia uns movimentos de dança com a mãos, resguardados os limites de círculo, um abraço, talvez no entorno do corpo dele. Ninguém jamais o vira, embora ela jurasse que o abraçara e que ele jamais a soltara. No tempo em que o abraço tomara aquela conformação tão evidente e fixa de braços em abraço, ela não pôde mais saciar a sede, a fome, pôde sequer satisfazer as necessidades funcionais do corpo, os apelos fisiológicos, sem a ajuda de sua mãe. Viveu assim por algum tempo, como a carregar outro corpo consigo aonde fosse. Morreu assim. Nada foi possível fazer quanto às suas mãos. Por nenhum esforço manifesto elas se colocaram no peito em forma entrecruzada para a habitual vigília dos familiares e amigos após a morte. Entre ela e as mãos estava ele, ele no entrelugar do coração dela, dos braços e das mãos...Forçoso foi aumentar as medidas da caixa grande em que ela descansava e enterrá-los assim, em abraço...
quinta-feira, 11 de novembro de 2010
O que o beijo tem
A boca dela tinha um olho, e cada vez que a língua dele se intrometia , vinha visão em via de transitar rápido, como se todo caminho se desnudasse na janela ao lado; a cena corrida das paisagens que ficam pra trás, das paisagens que se renovam e atropelam as outras. O beijo deveria ser o estável esquecimento frente a todos os dilacerantes instantes de incompreensão, os momentos superpostos de ação e inanição. Mas o olho da boca se abria adensado feito rio e vertia saliva em forma de lágrima. A boca chorava em momentos de solidão, como faminta a revelar o vazio gástrico, uma fome da alma. O beijo era também o acalento da visão, uma venda irrefreável que ela buscava insolente, sem pudores, sem limites. Mas o limite não tardava a interromper o beijo de olhos abertos, visionários. Entre vendado e desnudado, na maquínica percepção de disjunção, embora todo o desejo fosse de unir, colar irremediavelmente, o olho da boca se debatia. A separação era nítida e jamais ela se faria decifrar e sequer decifraria aquela languidez ou rigidez muscular do beijar, do ver, do olho que o beijo tem.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Mãos
Estranhas mãos essas que não se aquietam
Mãos em ti forçosamente a reconhecer
Mesmo em lembrança
Cada traço, cada mormaço, cada embaraço
Estranhas mãos essas em quietude
Mãos em lembrança de ti, por ti
À espera de decifrar
Cada passo, cada queda, cada enlevo
Estranhas mãos a desejar
Mãos em fogo e remanso
De alternâncias súbitas a percorrer
A delinear suas faces de prazer e angústia
Mãos que não se podem conter
Ainda que por palavras a verter
Sentidos inapreensíveis, sensíveis
Tanto que dizem e não dizem
Tanto que sentem
Mãos apessoadas em seus dedos
Entrelaçadas e fadigadas de tanto conter
Por querer em ti fazer arte do momento
Fazer memoriais instantâneos de permanecer
Mãos incontidas que tanto contém
Feito mente abarrotada
Em registro de pensamento de estarem em ti
Um negativo prestes a se revelar
Mas por fantasma ser
Apenas mãos em oferenda
Em apreensão pelo toque de conhecer
E encanto de desconhecer
Mãos de entranhas
Quase digestivas mãos
De gestos que não bastam
Incompletas mãos
Doloridas mãos
Teimosas mãos de carne crua
Cruas em sentir outras mãos
Mãos em ti forçosamente a reconhecer
Mesmo em lembrança
Cada traço, cada mormaço, cada embaraço
Estranhas mãos essas em quietude
Mãos em lembrança de ti, por ti
À espera de decifrar
Cada passo, cada queda, cada enlevo
Estranhas mãos a desejar
Mãos em fogo e remanso
De alternâncias súbitas a percorrer
A delinear suas faces de prazer e angústia
Mãos que não se podem conter
Ainda que por palavras a verter
Sentidos inapreensíveis, sensíveis
Tanto que dizem e não dizem
Tanto que sentem
Mãos apessoadas em seus dedos
Entrelaçadas e fadigadas de tanto conter
Por querer em ti fazer arte do momento
Fazer memoriais instantâneos de permanecer
Mãos incontidas que tanto contém
Feito mente abarrotada
Em registro de pensamento de estarem em ti
Um negativo prestes a se revelar
Mas por fantasma ser
Apenas mãos em oferenda
Em apreensão pelo toque de conhecer
E encanto de desconhecer
Mãos de entranhas
Quase digestivas mãos
De gestos que não bastam
Incompletas mãos
Doloridas mãos
Teimosas mãos de carne crua
Cruas em sentir outras mãos
quarta-feira, 3 de novembro de 2010
Cansaço
Ela se sentia tão cansada, tão impotente diante daquilo que se apresentava aos seus olhos, ouvidos e mente. Não era um cansaço plenamente justificável, mas um cansaço de estar sempre em um não lugar, até perante o outro. Sentia-se nesse descolamento, como se o cenário estivesse diante dela e bastasse um pulo para que se colocasse no quadro perfeito, de expectativas satisfeitas, conforme seus sentimentos mais verdadeiros. Mas aquela cena não durava nem sequer o instante do esperar, pois que ela vagava sempre em espera de dúvida, já com as forças sumidas, e o coração que batia célere era puro desatino diante das possibilidades que se multiplicavam, mas nenhuma delas fazia concerto em sua alma, eram apenas dissonâncias poéticas a virar aves sem retorno. Sentia-se incongruente, como um ângulo em geometria solitária, sem par. Sentia-se sem par, sem ar, em meio ao turbilhão de suposições improváveis, sem prova sequer, apenas supostas idéias sobre o inapreensível do outro e de si mesma. Sentia e pensava sobre as vidas no entorno e dentro de si, vidas razoavelmente esperadas, continuadas, sem tantas perguntas que angustiar, só o viver a cada dia, e queria mesmo saber porque sempre fora assim desencontrada por querer e não querer, até que toda diferença de ação restasse como se nada houvesse a que se apegar de fato, somente a dúvida e a total inadequação de viver segundo um nem sei o quê de provável e respeitável. O mundo poderia ruir, cair, mas nada seria mais tenebroso que os escombros de si mesma, escombros vazios de vivência amontoados nela, sem projetos de construção e reconstrução. Desde que se dera por viva, sentia essa inquietude sísmica, e cismava tanto por tudo e por nada, teimava-se nessa confusão, e se cansava, cansava...
quinta-feira, 21 de outubro de 2010
Trocado?
Ele estava sentado ali na calçada em curva, os sapatos trocados, mas bem postos em pés sem meias, o olhar vago e o dorso nem tão emborcado. Ele achou de dar-se por ali, naquele canto sem canto, enquanto transeuntes olhavam-no dispersos, uns poucos atentos. Talvez ele fosse trocado de lugar como as vestes dos pés, talvez estivesse no lugar exato que planejara por força daquilo que não entrevia. Não havia paisagens, embora sob a cabeça o céu fosse razoavelmente azul por nuvens em contraste, rasas nuvens de chuva. Seus olhos também eram rasos, mas por eles não verteria chuva alguma, senão breves piscadelas sem direção, pura vaguidão. E assim ele vagou por lá sem vagar, com o vagar de quem contempla sem contemplar o de fora, mas um contemplar por dentro, de um jeito sanguíneo e melancólico, tudo em vermelho e preto, dia e noite a se fazer distante dos relógios do mundo. E por horas trocou-se por lugar algum que não aquele mesmo, onde não se situou, não voltou, nem sequer esteve.
terça-feira, 19 de outubro de 2010
Vingar
Ela se ressentia das amizades que não vingavam; ironicamente tencionava se vingar de todos esses sentimentos desatentos, rasos, indisponíveis. Mas ela também não se redimia de tê-las também negligenciado por avaliações precipitadas ou por indigestões momentâneas e até duradouras. Essa visão sempre voltada para o centro de si mesma, ainda que disperso, por boas vezes, bloqueara essa visão plena do outro, suas possibilidades infinitas, repugnantes, mas também adoráveis. Mas ela sabia também que o outro podia ser um caminho inóspito, e então, o dispêndio de forças em desequilíbrio teria quase sempre o efeito de ofegar e lamentar menos experiências compartilhadas. Alguns diziam que existia uma tal afinidade, uma empatia a que não se podia fugir. Ela não cria piamente nessa idéia, posto que a revelação de si para outro era sempre incompleta, e esses ‘disfarces’ de proteção ou dissimulação talvez fossem o desafio mais fundo de viver o outro. E viver o outro era surpresa a cada instante, se houvesse disponibilidade, gentileza. Mas ela nem sempre se punha disponível, gentil, porque esse ideal subsumia diante do mundo de objetivar em que se embrenhou, diante de tanta individualização. E subjetivar o outro em suas diferenças, em suas sombras, reflexos famintos de compreensão, era todo o sentido, o significado de viver. E se a custo da sobrevivência, a alteridade tivesse que ser desprezada, o mundo seria pouco e a sobrevida ressecada, improdutiva. Teria que se vingar a todo tempo dessa escassez de sentimentação pelo outro, do excesso de sentimentação sobre si mesma. Teria que ser sentir ação misturados, em diálogo permanente, a afastar toda materialidade ou abstração utilitárias. Teria que se convencer do convívio em fragmento, em busca de completude. Teria que se convencer da dor e da alegria de conhecer, desse entrelugar dos sentimentos em ação pendular, em perfeito desequilíbrio.
sexta-feira, 15 de outubro de 2010
Rever a ilha
Há lugares que nunca mais voltaremos ou veremos como tal; sensações também nem sempre serão percebidas como dantes. Os lugares, os mesmos lugares de outrora, diferentes são porque são ida em retorno, pra guardar outras experimentações, ‘sentimentações’ sobre um sedimento qualquer de plenitude e solidão. A ilha fora para ela uma descoberta redescoberta sem tanta pressa e tanto deslumbramento por imensidão de mar, mas uma angústia por registrar cada detalhe, como se fizesse lupa humana, e humana se ‘agrandasse’ na visão sempre incompleta, naquilo que não se apreende, mas vaza em si e também retém, como represa em tempo de seca, em tempo de tempestade. A perfusão de pessoas a chegar e a ir era a mesma da outra vez, mas ela não se via assim nesse turbilhão primeiro, mas em uma meia mansidão de um já visto, nem todo visto. E revisitava aquele pedaço de terra desgarrado do continente com desejo de rever algo que não fora esquecido, mas que encontraria de outra forma, em meio a outras pessoas em espírito vário como o de sempre, e o tempo não seria o mesmo, o ‘dorminhar’, o acordar, o pisar. Repetira alguns lugares, fora a outros, e não saberia dizer da exata sensação do ‘repetir’, do ‘descobrir’. Pensava, por vezes, que a confusão vinha dessa disposição inconstante da alma. Rever a ilha fora degustar e não abarrotar o estômago faminto. Rever a ilha fora entrar em si em descoberta de susto e calma, de apreender a ilha de dentro, solitária e gregária, em desajeito e procura de firmeza. Rever a ilha fora conviver mais de perto, enfatizar o ver e o sentir dos lugares para ouvidos mais atentos quem sabe, fora segurar mãos, segurar-se sem mãos, respirar e ficar sem ar, esquentar e esfriar, perceber esse intermeio, esse entrelugar tão humano.
A praia das pedras
Tem gente que gosta é de mar aberto, e margeando algumas pedras, mas nada pelo caminho. Santo Antônio, a praia em Ilha Grande, é cheia de pedra pelo caminho, e até caminho de pedra a dar em outro mar. Ter uma pedra pelo caminho pode não ser lá muito convidativo, mas várias pedras em mar alto, de rocha maciça e em falhas só pra receber o mar, é lindo de ver. A água entra arrogante nas falhas e bate tão forte que sobe em movimento chafariz. Ao longe se avistam nuvens de fumaça, delicadas rosas instantâneas, rosas fluidas, rosas de água, flores atômicas no meio do mar. Eu queria ganhar uma rosa de água todos os dias à beira mar e só olhar as pedras no caminho do mar, pedras só de admirar. E pensar que foi num desvio do caminho que fomos dar no mar de pedra, com todo custo pelas pedras do caminho fomos dar em mar de pedra, pedra boa onde brota rosa de água, que nasce e desmancha em instantes, no inconstante entrelugar da rocha e do mar.
Entre a ilha e a ilha
‘Que distância acha que existe entre cá e lá?’ Cá era um ponto da Praia de Lopes Mendes em Ilha Grande. Lá era a Ilha de Jorge Greco. Não havia por perto ninguém que detivesse essa informação, apenas nós, eu e Helvécio, sentados no tronco de árvore e essa pergunta em busca de resposta. A questão era optar por um método de calcular o espaço entre a praia e a Ilha. Enquanto eu supunha quilometragens absurdas, ele tergiversava sobre a impossibilidade daqueles números e propunha uma forma de cálculo que considerasse o tamanho das construções visíveis e da falange distal do dedo polegar posicionados na conhecida fórmula matemática da regra de três, que por fim definimos que resolve quase todo problema matemático. Encontramos um número razoável de quilômetros, que fez praticamente cem quilômetros cair para dez, coisa de gente que costuma andar somente sobre terra. O mar nem estava frio e as ondas não eram muito revoltas, mas do lado de fora vigorava o vento e o céu anunciava uma chuva em breve. Optamos por voltar de barco para evitar os tropeços na trilha enlameada e quem sabe a escuridão do dia que já se findava. Tudo no entre; entre a ilha e a ilha, entre o dia e a noite, entre o sol e a chuva, entre eu e ele...
Dois para Dois
Resolvemos no último dia estender nossos ‘estudos’ na ilha e visitar Dois Rios em abraço com o mar. Pegamos a estrada, denominada também T14, e tencionamos até migrar para a T13 rumo ao Pico do Papagaio, mas declinamos da idéia. Seguimos mesmo, eu e Helvécio, pra Dois Rios, naquela estrada já cheia de história divina em oração e macabra dos tempos do presídio. Ilha geralmente é lugar de isolamento, e para elas, as ilhas, muitos foram levados para perderem a chance de serem solução de continuidade; um isolamento físico para apagar as almas que, muitas vezes, só se sabem por conviver, só se ressentem e se embatem por conviver. Enquanto isso, íamos nós nesse convívio de caminhar muito mais que falar, nesse convívio de dar as mãos e impor o ritmo pra chegar, pra descobrir. Foram várias as paradas; no mirante pra ver a Vila do Abraão por trás, nas pontes pra ver água e resvalar por rocha, até pegar a trilhinha mágica de bambus, curta e hospitaleira, e voltar pra estrada. Chegamos enfim na guarita, registramos os nomes e avistamos e vila em círculo, pequena, meio vazia, de casas antigas e árvores altas e frondosas. Seguimos para a reserva do almoço com uma das duas Terezas e aportamos no mar azul anil, ladeado nas pontas por rochas, por trás por mata atlântica, mar pra se ver todo, pra gente se fazer solidão e companhia. Visitamos também um dos braços de rio com água a cintilar ouro da areia do mar, rio a se confundir com mar. Nadamos pouco, mais olhamos com deslumbramento de ver o belo. Almoçamos comida caseira e voltamos em passo rápido pra não perder a hora da barca, a ida de volta para casa.
Entre o barco e o frio
Os passeios de barco são para nós que estamos longe da vida do mar, sempre uma grata surpresa. E claro, tencionamos passear em um lindo dia de sol, e mergulhar, e secar em vento morno. Mas esse que fizemos em direção às ilhas de Angra dos Reis – Botinas e Cataguazes – e Lagoa Azul foi no frio mesmo, regado a chuva e respingo de mar. Fomos eu, Helvécio, as meninas da excursão, Elisa, Mércia, Ceura e Eliana, todas animadíssimas e sempre de bom humor a despeito do tempo adverso, e prontas pra fotografar. Todos equipados e ansiosos por ver peixe debaixo de mar, por ver paisagem reluzente. O sol não deu o ar da graça, e o frio impiedoso em certos momentos, motivo de abraços, aconchego e conversa. O barco foi lugar de buscar mais o outro do que vislumbrar, desbravar o de fora. O horizonte em mar aberto, o fundo do mar e as terras em forma de ilhas deixaram de protagonizar a cena para fazerem parte de um cenário real, do dia que não faz sol, mais um jeito do dia no mar.
O pouso
Pousamos na Pousada Recanto da Pedra, onde tem pedra quase a vagar pelo meio do caminho entre a entrada e o fundo, bem no entrelugar. Lugar silencioso, beirando a estrada do caminho para Dois Rios, bem no fundo da Vila do Abraão. Tínhamos de fato uma pedra no caminho, ‘no caminho tinha uma pedra’, e Eva estava lá para nos lembrar dos momentos de desviar para o café da manhã, e também nos receber logo na entrada, na volta dos passeios pela Ilha, e para nos instruir sobre trilhas e belas paisagens. O lugar do pouso, diferente das trilhas em que nos concentrávamos nos caminhos, foi mesmo o lugar de relembrar o dia que se foi, planejar o que viria; o lugar pra levantar vôo, o lugar para aterrissar em sono bom.
A praia das pedras
Tem gente que gosta é de mar aberto, e margeando algumas pedras, mas nada pelo caminho. Santo Antônio, a praia em Ilha Grande, é cheia de pedra pelo caminho, e até caminho de pedra a dar em outro mar. Ter uma pedra pelo caminho pode não ser lá muito convidativo, mas várias pedras em mar alto, de rocha maciça e em falhas só pra receber o mar, é lindo de ver. A água entra arrogante nas falhas e bate tão forte que sobe em movimento chafariz. Ao longe se avistam nuvens de fumaça, delicadas rosas instantâneas, rosas fluidas, rosas de água, flores atômicas no meio do mar. Eu queria ganhar uma rosa de água todos os dias à beira mar e só olhar as pedras no caminho do mar, pedras só de admirar. E pensar que foi num desvio do caminho que fomos dar no mar de pedra, com todo custo pelas pedras do caminho fomos dar em mar de pedra, pedra boa onde brota rosa de água, que nasce e desmancha em instantes, no inconstante entrelugar da rocha e do mar.
Entre a ilha e a ilha
‘Que distância acha que existe entre cá e lá?’ Cá era um ponto da Praia de Lopes Mendes em Ilha Grande. Lá era a Ilha de Jorge Greco. Não havia por perto ninguém que detivesse essa informação, apenas nós, eu e Helvécio, sentados no tronco de árvore e essa pergunta em busca de resposta. A questão era optar por um método de calcular o espaço entre a praia e a Ilha. Enquanto eu supunha quilometragens absurdas, ele tergiversava sobre a impossibilidade daqueles números e propunha uma forma de cálculo que considerasse o tamanho das construções visíveis e da falange distal do dedo polegar posicionados na conhecida fórmula matemática da regra de três, que por fim definimos que resolve quase todo problema matemático. Encontramos um número razoável de quilômetros, que fez praticamente cem quilômetros cair para dez, coisa de gente que costuma andar somente sobre terra. O mar nem estava frio e as ondas não eram muito revoltas, mas do lado de fora vigorava o vento e o céu anunciava uma chuva em breve. Optamos por voltar de barco para evitar os tropeços na trilha enlameada e quem sabe a escuridão do dia que já se findava. Tudo no entre; entre a ilha e a ilha, entre o dia e a noite, entre o sol e a chuva, entre eu e ele...
Dois para Dois
Resolvemos no último dia estender nossos ‘estudos’ na ilha e visitar Dois Rios em abraço com o mar. Pegamos a estrada, denominada também T14, e tencionamos até migrar para a T13 rumo ao Pico do Papagaio, mas declinamos da idéia. Seguimos mesmo, eu e Helvécio, pra Dois Rios, naquela estrada já cheia de história divina em oração e macabra dos tempos do presídio. Ilha geralmente é lugar de isolamento, e para elas, as ilhas, muitos foram levados para perderem a chance de serem solução de continuidade; um isolamento físico para apagar as almas que, muitas vezes, só se sabem por conviver, só se ressentem e se embatem por conviver. Enquanto isso, íamos nós nesse convívio de caminhar muito mais que falar, nesse convívio de dar as mãos e impor o ritmo pra chegar, pra descobrir. Foram várias as paradas; no mirante pra ver a Vila do Abraão por trás, nas pontes pra ver água e resvalar por rocha, até pegar a trilhinha mágica de bambus, curta e hospitaleira, e voltar pra estrada. Chegamos enfim na guarita, registramos os nomes e avistamos e vila em círculo, pequena, meio vazia, de casas antigas e árvores altas e frondosas. Seguimos para a reserva do almoço com uma das duas Terezas e aportamos no mar azul anil, ladeado nas pontas por rochas, por trás por mata atlântica, mar pra se ver todo, pra gente se fazer solidão e companhia. Visitamos também um dos braços de rio com água a cintilar ouro da areia do mar, rio a se confundir com mar. Nadamos pouco, mais olhamos com deslumbramento de ver o belo. Almoçamos comida caseira e voltamos em passo rápido pra não perder a hora da barca, a ida de volta para casa.
Entre o barco e o frio
Os passeios de barco são para nós que estamos longe da vida do mar, sempre uma grata surpresa. E claro, tencionamos passear em um lindo dia de sol, e mergulhar, e secar em vento morno. Mas esse que fizemos em direção às ilhas de Angra dos Reis – Botinas e Cataguazes – e Lagoa Azul foi no frio mesmo, regado a chuva e respingo de mar. Fomos eu, Helvécio, as meninas da excursão, Elisa, Mércia, Ceura e Eliana, todas animadíssimas e sempre de bom humor a despeito do tempo adverso, e prontas pra fotografar. Todos equipados e ansiosos por ver peixe debaixo de mar, por ver paisagem reluzente. O sol não deu o ar da graça, e o frio impiedoso em certos momentos, motivo de abraços, aconchego e conversa. O barco foi lugar de buscar mais o outro do que vislumbrar, desbravar o de fora. O horizonte em mar aberto, o fundo do mar e as terras em forma de ilhas deixaram de protagonizar a cena para fazerem parte de um cenário real, do dia que não faz sol, mais um jeito do dia no mar.
O pouso
Pousamos na Pousada Recanto da Pedra, onde tem pedra quase a vagar pelo meio do caminho entre a entrada e o fundo, bem no entrelugar. Lugar silencioso, beirando a estrada do caminho para Dois Rios, bem no fundo da Vila do Abraão. Tínhamos de fato uma pedra no caminho, ‘no caminho tinha uma pedra’, e Eva estava lá para nos lembrar dos momentos de desviar para o café da manhã, e também nos receber logo na entrada, na volta dos passeios pela Ilha, e para nos instruir sobre trilhas e belas paisagens. O lugar do pouso, diferente das trilhas em que nos concentrávamos nos caminhos, foi mesmo o lugar de relembrar o dia que se foi, planejar o que viria; o lugar pra levantar vôo, o lugar para aterrissar em sono bom.
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