quarta-feira, 11 de junho de 2014

Morrida e Matada

Eu sempre achei que morte matada era por tiro ou faca; e que morte morrida era morte sem jeito, de doença, de bebida, de velhice. Tempos depois comecei a entender diferente. Morte morrida é morte por fora, tem cerimônia formal de despedida, está lá pra qualquer um ver. Agora morte matada acontece lá dentro da gente, mesmo que ninguém veja.

terça-feira, 10 de junho de 2014

Um despertar

Passara meses dormindo, talvez anos; só acordava por força das obrigações cotidianas; não que não lhe trouxessem algum prazer, por certo traziam. Mas o sono vinha em qualquer recostar, e vinha pesado em sonho esquecido, uma espécie de inércia, dormia e não queria acordar. A realidade parecia-lhe pouco curiosa, parecia-lhe que o sono era um sustento da alma descrente, da alma que cansava o próprio corpo. Não mais que de repente despertou num susto, viu sentido onde já não mais havia; as imagens ordinárias ficaram suaves, familiares, amigáveis. Queria passar por outras ruas, alternar o passo com dança, recitar em alto tom, queria conviver. Seu corpo já não era o mesmo, cada parte dolorida se compadecia de outra, de forma que se criou um mecanismo de absurda solidariedade. O mínimo toque era sentido em potência, não como delírio. Cria que não sonhava, embora sonho fosse sua matéria principal. Era tão real aquele tempo sem planos, de futuro incerto, mas certo o presente de sentir. Não via verdadeira ressonância nisto tudo, salvo em si e em almas parecidas para quem contava seus pensamentos insanos que lhe pareciam tão saudáveis. Essas almas irmãs davam a ela um pouco de alento no mundo sem sonho. E ela não separava corpo e alma; todo o erotismo parecia sangrar e pulsar por dentro e por fora. Ela era rio, água pra peixe nadar e desovar. Ela era um amontoado de químicos em propulsão criadora. Ela também era terra pra brotar e se refazer em fertilidade mineral, a revolver toda e qualquer camada mais profunda. Ela era um pouco fogo pra queimar, mas sem a menor intenção de machucar qualquer que fosse; queria provocar um aquecimento de estufa, brando e prolífico. Ela também era ar; e solta no ar podia voar.

sábado, 7 de junho de 2014

Subida

Empanturrou-se com uma porção gigantesca de nhoque ao molho vermelho de calabresa; Regou aquelas substâncias máximas e avermelhadas com uma taça de vinho seco de marca desconhecida; Subira o meio aclive sem cambalear, mas sob um relaxamento taciturno; Os carros subiam, desciam, gritavam e perguntavam pra onde iam; Chegou, subiu três lances de escada em tempo de eternidade; Recostou-se repleta; Não conseguiu dormir.

Noite tonta

Num susto tudo mudou, tudo chegou no ponto, desapareceu do outro ponto; Num susto tudo mudou, não era mais a mesma face, o mesmo corpo, O coração tinha outra batida, era de fanfarra; Num susto o ponto ficou no outro ponto, Num susto tonto, de noite tonta, tudo chegou no ponto.

Frio e Saudade

Frio é primo da saudade; traz vontade de cheiro de cozinha de mãe, de papo solto; tudo na partilha de picar no meio do bate papo, enfiar colher na panela e experimentar queimando a língua; e falar que delícia com vontade e exagero, só pra voltar de novo...

(...)

Interessava-a amar intensamente, com sustos e sossegos, com egos inflamados e solicitude irrepreensível, com carícias e gestos bruscos de sentir; carecia o amor dessas nuances contrárias, dessas metades mal acabadas, assimétricas; carecia o amor do valor indefinível, que não se tem; que não se percebe; carecia o amor daquilo que não se nomeia; de um abismo escuro e um lago límpido; de umas formas espúrias só por serem incompreensíveis, carecia o amor somente de sentidos, desde que não fossem parcos.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

A validade da arte

Estive pensando sobre a validade da música, do cinema, dos livros, da poesia; serenamente e sinceramente. Nada mais são do que 'esvaziadores da alma', instrumentos hábeis em nos fazer pensar na absoluta falta de necessidade da praticidade e de tantas utilidades que poderíamos descartar. Sim, são esvaziadores da alma, pra ela caber, encher, esvaziar e caber de novo...Caber de novo com ternura, sorriso no olhar e batida de coração...

Palavra pra acordar

Desde que te conheci fiquei meio esquisita, insone; Parei de dormir pra fazer palavra no lugar de sonho; Desde que te conheci o sonho não vem, e a palavra escorre sonâmbula; O sono vem tarde no sonho insone, acordada por você; Sonho no quarto de panos, pernas e braços em laço, largados no ar; Sonho no quarto de bocas perdidas em dizer e silenciar; Desde que te conheci fiquei meio esquisita, insone; Parei de dormir para acordar na palavra de sonho, pra ver se acordo você...

Sonho de encontrar

Faltaram poucos passos; Eram tão poucos pra chegar; Nem tão longe, tão perto encontrar; Faltavam poucos passos, mas não deu; Você ficou no meu sonho de te encontrar... A curva virou, o passo acelerou; Sobraram meus passos; Tão perto encontrar, ficou tão longe; Sobraram meus passos; E você ficou no meu sonho de te encontrar... Você sumindo, sombra no infinito, no meu sonho de te encontrar...

quinta-feira, 5 de junho de 2014

Gente que não é mais gente

Tem tanta gente na rua, Tanta gente que não é mais gente, Tem tanta gente na rua enquanto passam carros, Máquinas e pessoas em meio a gritos, conflitos, no fluxo, no sinal “Está cega trouxa! Sai da frente!” “Filha da puta!” No trânsito de tanta gente e suas ações inconsequentes, Tanta gente não é mais gente, Mentes esquecidas do outro, O outro que não mente, No seu corpo farrapo, e ninguém entende... Tem tanta gente na rua, Tanta gente que não é mais gente.

domingo, 25 de maio de 2014

Diálogo

Chegou-me assim de meio supetão E perguntou: quem é você? No que prontamente respondi Depois voltou insistiu Fez caminho de conversa Rodeou, voltou Falou E perguntou: o que fazes aqui? No que prontamente respondi, sem saber se era pedra ou rio o porvir Então foi Voltou e perguntou mais manso: serve um almoço, um café ou qualquer coisa? No que prontamente escolhi Serve o que me faz sentir, existir...

Transgressão

Era certo que ela precisava aguçar os sentidos, mas aguçá-los não somente naquilo que se esperava deles; ver além com olhos, cheirar além com narizes, ouvir extremos com ouvidos, tocar intenso com mãos, saborear como rio a inundar...Não, não eram esses os sentidos, eram além mais, como uma forma de transcender suas capacidades inatas, aquilo que se espera deles. Ela descobrira que sentidos eram vivos e multifacetados; podiam por certo exercer uns pelos outros como um concerto harmonioso alternado, livre no experimentar, como olhos que ouvem, ouvidos que vêem, mãos que cheiram, bocas que tocam...E nesses aspectos turvos tão somente restritivos que a vida impunha a cada parte, cada uma ou cada um deles ganharia nuances surpreendentes, pinturas caóticas, plenamente compreensíveis em serem inapropriadas, experimentação daquilo que não se espera. Ah! Os sentidos seriam transgressão puramente ingênua, descoberta, deslumbramento.

sábado, 3 de maio de 2014

A forma que damos

Te amo a despeito de tudo que passamos De tudo que não passamos também Porque sempre desfilarão por nossos olhos Instantes de viver atentos e desatentos Te amo a despeito das inconstâncias do seu ser E do meu ser também E os momentos; os terei fielmente guardados Nessa mente que não se cala Nesse silêncio que sente Nas irreverentes cenas de amar E desejar nossas solidões compartilhadas Eu aqui, você ali Nós aqui ali fazendo sons incompreensíveis a nós mesmos Palavras cheias de vãos E a despeito dessas frestas, falhas, te amo Porque não há previsões consolidadas de fato Porque o amor muda e permanece no formato que lhe damos E a despeito de suas nuances, há sempre uma espécie de reamar Um reclame, um costume de reivindicar amar e ser amado E a despeito das acusações de por que amar É o não porque que se mantém Inconformes em amar e reamar por motivos que se desfazem e refazem Te amo a despeito, com pesares recalcados, com alegrias iminentes, Só pra ver o seu lábio ligeiramente rasgado a querer sorrir, Seus olhos a brilhar na busca do de dentro dos meus... E a despeito da boca apertada, dos olhos foscos e tristes, te amo Te amo no inesperado, porque deixou de haver precisão, necessidades O que espera se apaga lentamente...

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Além do tempo

Ela procuraria por Gunnar anos mais tarde; muito depois daquele tempo de afeto inocente. Lembrava-lhe o sorriso largo dele, os dentes espaçosos, as conversas no parquinho a balançarem-se naquelas gangorras de correntes grossas; os pés sobre a areia escura, os olhos vidrados. Também havia os longos banhos de piscina até os dedos enrugarem; a pele avermelhada, esquecida do sol. O coração disparava e o corpo brincava com os sentimentos, clamava pela paixão e pela criança de cada um. Anos mais tarde, ela procuraria por ele naquela rua distante; muito além do tempo. Não encontraria. Ficaram os dois a balançar naquela gangorra, refletidos naquela água azul; os dentes largos inundando a boca, os olhos com brilho, além, muito além do tempo.

sábado, 29 de março de 2014

Verdemente

O poeta disse: "no meio do caminho tinha uma pedra"; Hoje a pedra rolou, E no meio do fio, Bem acima da minha cabeça, Tinha uma ave, Estridente, Verdemente impertinente...

sábado, 8 de março de 2014

Feminino

“Nada mais insistente do que o feminino; Feminino se parece com latente; Está simplesmente; Espreita quando não mais se espera; Atento até em desatenção; Feminino é expressão de corpo em espírito; Viver feminino faz dor, faz amor também; Viver feminino é como vinho; Vermelhidão e sol.”