Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sábado, 12 de julho de 2014
Sempre porque amei
É verdade que te amo e também que não te amo, não porque pensei que te amei, porque se já virou pensamento foi sentimento vivido, remoído. Se não te amo mais ainda te amo por instantes que te amei; e a lembrança permanece nos mínimos de trocar palavras, no toque delicado das mãos, na ansiedade e na descoberta do beijo. Mas é pelo sorriso que mais te amei e te desamei e, por isso, amei. Amei a graça da boca estendida cheia de dentes e a gargalhada do simples contar que vive; graças que a vida dá no cotidiano, dos afetos, dos avós, das praças proibidas. Graças das neuroses que parecem enlouquecer, mas que viram graças ainda maiores no contar; são cantos no contemplar. Graças de te ver dormindo, respirando, graças da vida que vive.
Intemporal
Dizem que amor tão grande dura é no tempo. Lisandra duvidava do tempo e nem por isso desacreditava do amor; para ela amor era intemporal, gastava o tempo de um suspiro e de uma lembrança intermitente. Amor tanto era muito mais amizade, esse amor de eternidade. A vida e o amar andavam assim sazonais, invernais e primaveris, nos tempos de alternância, hibernação e floração. Quando dormia a vida era sonho de amar; quando florescia era deslumbramento de inquietar, um respiro forte de doer coração.
quarta-feira, 9 de julho de 2014
Pontos de mutação
Compreendia lentamente que as pessoas andavam em busca de outras que fossem repletas, em busca de uma ilusão em identidade forjada, fixa, quase inerte. Esqueciam-se dos inúmeros pontos de mutação, que colocavam qualquer que seja em um vazio profundo, em um não lugar permanente. O resto eram só disfarces, personagens para alguém ver; para construírem seus contos de fada, seus contos de fatos, registros memoráveis para contar. Enquanto isso, o presente se esvaía na perda do vazio mais profundo e prolífico, onde cabiam tantos gestos e palavras dispersas, espontâneas, capazes de gerar o verdadeiro afeto, afeto livre.
Um caminho
Já havia se acostumado com os caminhos e seus pés parcialmente doloridos, vivos. E nessas ruas havia silêncio e ruído, e placas; muitas promessas comerciais e até utilitárias. No último que percorreu 'amolavam tesoura, faca e alicate de unha', vendiam 'coisas e koisas'; havia também um centro de flores. Incompatibilidades a parte, entrevia que seu olhar não as teria mirado sem propósito algum. Os objetos usados tinham recuperação, havia coisas e 'Koisas', e as folhas modificadas, a que chamam flores, preservavam a poesia.
domingo, 29 de junho de 2014
...
Humanos são realmente estranhos; sucedem-se em supostos erros e acertos; a dita e revelada humanidade se desfaz e se conserta em pulos no abismo e nos vôos até o céu estrelado...
...
Todos nós temos plena absolvição de nossos atos, uma vez que dependem exclusivamente do valor que damos a eles; bons ou ruins são adjetivos meramente subjetivos. O fato é: conveniências determinam qualificações.
quinta-feira, 26 de junho de 2014
Devíamos
Devíamos sempre respirar fundo antes de dizer qualquer palavra, ainda que em momentos emergentes, quando não dá pra adiar porque ela vem solta e cheia de emoção. Devíamos ponderar mais para evitar o imponderável de nós mesmos em desatino. Devíamos soletrar a palavra pra nós mesmos ou encontrar um buraco escuro e gritar para ver que tom adquire, que vida cria ou mata. Devíamos ser mais avisados da navalha dos fonemas reunidos, dos cortes insanos forjados entre mente, língua e coração. Devíamos até ponderar o aparente imponderável, porque a reflexão é doída, mas leva a lugares enormes, distantes e tão completamente outros, que o dito fica subversivo, parco, excessivo para pouco, incompreensível depois de algum tempo. Devíamos evitar a confusão entre palavra e sentir, por mais que ela tente dizer do sentir. Devíamos nos conter, inspirar profundo, engolir, saborear, deglutir, ruminar como um bovino, calmamente em pasto largo sob a luz ou o sereno a espera de uma digesta mais elaborada, finamente cortada pra virar um nutriente precioso do diálogo. Devíamos, mas raramente somos dever ser, somos apenas ser.
quarta-feira, 18 de junho de 2014
Incompletudes
Ela sofria de incompletudes; mas não eram incompletudes quaisquer...eram máximas de tão mínimas, corpos em detalhes. E nos dias frios ela se abraçava num instinto natural de conservação, na busca do aconchego, do calor, no receio de petrificar. Não que virar rocha soasse inóspito. Muito pelo contrário; parecia-lhe, por vezes, que ser mineral era até um desejo muito humano; estar lá ao sabor do vento, perfeitamente integrado e vivo a despeito da aparente imobilidade. Mas incompletude mesmo era coisa orgânica; a superfície tão repleta dos objetos e ideais de posse, e as profundezas, cheias de nada. Ela sofria de incompletudes, mas cria cada vez mais nesse compartilhamento de nada, do nada. O amor deveria ser assim, o compartilhar das falhas, dos vazios em abismo, das profundezas. Era o nada e não o tudo que fazia realmente o movimento dos afetos.
Por dentro e por fora
Sorrir por fora é fácil;
Difícil é sorrir por dentro;
Ficar repleto, ecoar alegria;
Ficar repleto, dançar e rodar pra ninguém ver;
Difícil é virar criança e ver graça no mais simples;
Ficar repleto, mergulhar em rio de peixe colorido;
E afundar, leve nas profundezas do mar;
Difícil é encher-se de corais e flores astrais, folhas secas teatrais;
E abraçar, e beijar, e acariciar a pele em adoração;
Difícil é fazer sorriso vazar, escorrer cachoeira sem nem perceber;
Difícil é sorrir por dentro e afundar...
Maria
Maria teria que escolher entre o intenso e o protetivo. Maria teria que fazer várias vozes em reflexo dela mesma pra saber qual tom dar; qual caberia nessa escolha de ser sem sofrer na pauta de uma música de viver. Um tango, um rock, um popularesco qualquer, uma valsa, um blues, um jazz. Teria que fazer vezes de procurar um ritmo adequado para cada história que viesse. Maria teria que ter olhos atentos quase insones para não deixar manifestar as displicências da alma, do coração que quer sem medida e pulsa, e pula e derruba o corpo e aliena a mente. Maria teria que encontrar o exato intenso do momento e esquecer pra crer que foi verdade e não mentira todo aquele aparato de dizer. Teria que absorver momento como fisiologia, como ar de respirar, comida de comer, cheiro de cheirar, pele de pagar, olhos de ver. Maria teria que arrumar o de ser pra viver.
Admito
Admito minha máxima estupidez; Admito sem reservas esse emburrecer na ânsia de acreditar; Admito e me coloco diante de qualquer que seja, derrotada em minhas fraquezas, maculada nos sonhos desfeitos; Admito que a dor não é provocada por outrem; A dor nada mais é que um de si para si por viver momentos de total displicência; O outro só dói por si; A dor mim é esse ego que se desfaz repleto de vergonha, marcada na entranha com ferro quente; Sim, é de ferro em brasa que doemos, e cada lágrima é pequena, só faz acender mais o fogo; Só mesmo quando vir era glacial poderá apagar; Que todo sentir em desatino destrói tudo até vir o gelo, até o sol derretê-lo devagar na esperança de nascer vida em potência de sentimento.
O Quarto
Não há nada mais quadrado que o quarto; Pra todo lado que se olha quadrado, teto, chão parede, e o cubo se perde; E o infinito adormece; a paisagem da janela escurece; Quarto, quadrado, cubo, quarto, cubículo, cercado; E a janela anoitece! “É tanto excesso que falta...” É tanta falta que excede...
quinta-feira, 12 de junho de 2014
Assassinatos
Ela tinha que assassinar seus sentimentos dia após dia como fossem matérias. Ela tinha que torná-los perfeitamente conformados, objetos desprezíveis nesse mundo banal. Ela tinha que esquecê-los por mais que fossem intensos, matá-los na mente e no coração, e fazer sorrisos pra alguém ver, pra ninguém ver. Morte e sorriso rimavam sem rimar, no mundo feito dessas matérias fortes e superficiais. Lembrava-lhe a mão com aquele segmento de pele a descamar, epitélio suicídio, linfocítico, guerra de dentro pra fora, guerra deflagrada sem saber, auto guerra, bombardeios imunológicos. Lembrava-lhe toda fragilidade da alma revelada no corpo, porque não conseguia de fato ver desumanidade. Mas sentia-se desumanizada, um pedaço de carne sem alma. A morte dos sentimentos vinha assim, dia após dia nas matanças diárias dos sentidos, dos cuidados, dos afetos nascentes.
quarta-feira, 11 de junho de 2014
Morrida e Matada
Eu sempre achei que morte matada era por tiro ou faca; e que morte morrida era morte sem jeito, de doença, de bebida, de velhice. Tempos depois comecei a entender diferente. Morte morrida é morte por fora, tem cerimônia formal de despedida, está lá pra qualquer um ver. Agora morte matada acontece lá dentro da gente, mesmo que ninguém veja.
terça-feira, 10 de junho de 2014
Um despertar
Passara meses dormindo, talvez anos; só acordava por força das obrigações cotidianas; não que não lhe trouxessem algum prazer, por certo traziam. Mas o sono vinha em qualquer recostar, e vinha pesado em sonho esquecido, uma espécie de inércia, dormia e não queria acordar. A realidade parecia-lhe pouco curiosa, parecia-lhe que o sono era um sustento da alma descrente, da alma que cansava o próprio corpo. Não mais que de repente despertou num susto, viu sentido onde já não mais havia; as imagens ordinárias ficaram suaves, familiares, amigáveis. Queria passar por outras ruas, alternar o passo com dança, recitar em alto tom, queria conviver. Seu corpo já não era o mesmo, cada parte dolorida se compadecia de outra, de forma que se criou um mecanismo de absurda solidariedade. O mínimo toque era sentido em potência, não como delírio. Cria que não sonhava, embora sonho fosse sua matéria principal. Era tão real aquele tempo sem planos, de futuro incerto, mas certo o presente de sentir. Não via verdadeira ressonância nisto tudo, salvo em si e em almas parecidas para quem contava seus pensamentos insanos que lhe pareciam tão saudáveis. Essas almas irmãs davam a ela um pouco de alento no mundo sem sonho. E ela não separava corpo e alma; todo o erotismo parecia sangrar e pulsar por dentro e por fora. Ela era rio, água pra peixe nadar e desovar. Ela era um amontoado de químicos em propulsão criadora. Ela também era terra pra brotar e se refazer em fertilidade mineral, a revolver toda e qualquer camada mais profunda. Ela era um pouco fogo pra queimar, mas sem a menor intenção de machucar qualquer que fosse; queria provocar um aquecimento de estufa, brando e prolífico. Ela também era ar; e solta no ar podia voar.
sábado, 7 de junho de 2014
Subida
Empanturrou-se com uma porção gigantesca de nhoque ao molho vermelho de calabresa; Regou aquelas substâncias máximas e avermelhadas com uma taça de vinho seco de marca desconhecida; Subira o meio aclive sem cambalear, mas sob um relaxamento taciturno; Os carros subiam, desciam, gritavam e perguntavam pra onde iam; Chegou, subiu três lances de escada em tempo de eternidade; Recostou-se repleta; Não conseguiu dormir.
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