quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Sesmarias

Houve um tempo de descobrimento, quando tudo respirava tropical naquela terra de ninguém. Ar quente temperado de torrentes de água; clorofilas de toda cor. Não havia instituições formalizadas, senão aquelas conquistas do dia a dia, o colher que a terra dá, o colher que o alguém planta, as hierarquias consentidas pela sabedoria que a vida leva, do natural que a vida oferece e que gasta o tempo do processo, o tempo da natureza. De repente, aportaram caravelas, naus indiscretas a perguntar sobre o destino das roupas e a duvidar da limpidez do espelho de rio. Quem era rei sem coroa virou alienígena, indígena. Vieram brancos de corpos bem vestidos, oprimidos pelo inverno, deslumbrados com as partes pudendas expostas, o arrepio do vento e os ouros da terra, paus e minerais e cafezais. Começaram então a provinciar tudo, sesmariar a terra, agora de alguéns; o início da fidalguia, oligarquia. Se antes era desmando, banho de rio; agora eram perfumes e laçarotes ao pescoço e pés em solado. Depois vieram uns quaisquer de pele escura pra suportar o escuro dos porões que navegam, dos porões feitorias do branco bem comportado para esvaziar riqueza da terra. Fizeram de todos eles, alienígenas, ocres e escuros, alguma mistura pra dar nome a um tipo qualquer, habitante feito de história perdida. Fez-se então a história de uma terra dividida enorme para alguém imperializar, domesticar. Os anos se passaram e as sesmarias viraram desenho no mapa, compridas, estreitas, largas e finas; enquanto alguns borrões ao norte, mais mato e sertão, sobraram sem nome e diligências. Ainda sobrariam alguns ninguéns a serem recuperados. Por oportuno, os das naus trouxeram anchietas e também atravessadores da riqueza que não se continha. Depois fazendearam tudo, comoditaram o que de comer, sobreviver. Coronelizaram as almas, afastaram os ninguéns da sua cor ocre. As ocas agora viriam enfileiradas, lineares na horizontal e na vertical. A terra de ninguém ficara moderna, com fumaças envaidecidas a sumir antiguidades mobiliárias, enquanto os núcleos se multiplicavam em acordos bem apropriados para não dividir a terra. Hoje, a terra graça a mesma divisão, que se saiba; colonizador e colonizado, rico e pobre; tudo por conta das doações sem lastro fato. ‘Achei, pego e divido como quero, ou não divido, faço onda, discurso raso; peguei, está tomado.’ Hierarquias forjadas na força do leite que falta, do café que sobra, da mente iletrada, desatinada, arremessada no circo, picadeiro de caras em bocas, de gestos acuados, de olhos enraivecidos; tudo pela sesmaria. Fosse possível descolonizar e toda terra voltasse a ser de ninguém, alienígena indígena poderia voltar misturado até com naus em cidadela da memória, talvez nômade, ou à beira de um rio sem que ele fosse secar. A terra daria de tudo para quem quisesse aportar sem sesmariar.

sábado, 11 de outubro de 2014

Grito

Decididamente não era um bom vivã. Esquecera-se de deixar de remoer fatos que agora só restavam na memória. Não havia repercussão alguma deles, senão as reprimendas que fazia a si próprio por ter figurado naquele cenário de circo; as silhuetas flutuantes, as palavras amáveis, os rostos curiosos, a bebida na medida do sonho. Agora adentrava seu quarto a avistara pela entrada do banheiro aqueles ladrilhos de parede. As mulheres se repetiam com sombras e traços indeterminados; retratos nos ladrilhos. Cada uma delas, uma boca em grito; um só olho e nada de narinas. A visão era baça, assimétrica, metades irreconhecíveis de qualquer coisa. O cheiros sumiam até dos perfumes. Por certo teriam perdido o nasal naqueles sucessivos espirros. A boca gritava fundo pra dentro, pra fora; e o grito não saía dos ladrilhos, sufocava.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Arte na velhice

Por certo a infância tinha lá sua graça, as brincadeiras de fazer arte sem saber arte. Mas na velhice com arte, os cabelos brancos, as cartilagens desgastadas, os dentes postiços, são mais infância ainda em fazer arte, uma demência inovadora por consequência do tempo inconsequente, absolutamente abstrato em dissonância com o aspecto físico em deterioração, ressonância de ainda estar vivo pela arte. Há um vício qualquer neste caso da velhice com arte, uma forma de desmerecer a morte; quase um lugar de estar sempre a brincar pela arte. Velho que faz arte se faz criança com arte.

segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Morreu MPB

Mirou aquela sardinha gigante com cheiro de mar. Guelras absolutamente coradas, olhos brilhantes, carne firme. Olhou fixamente para o aquário do mundo, desfez redoma, fez hipnose musical. Rodou uma MPB, ignorou o rock. A sardinha coitada ficou seduzida pelos olhos vidrados e pela malandragem dos movimentos, meio samba. Foi morar em sua boca felina; pobre sardinha. Nem teve tempo de mostrar seu bebop, seu lamento blues, seu balanço Mick Jagger...

sábado, 27 de setembro de 2014

'Raskolnikov'

Sabia que era assim; uma pessoa ou algum fato seriam fatalmente responsabilizados pela erupção de suas profundezas. Ela estava assim uma Raskolnikov, só que sabia do crime e não compreendia o porquê do castigo. O certo era ultrapassar aquele rasgado do carpete do corredor e avistar o número do quarto; sete passos apenas para a linha de chegada, um alívio para os olhares indiscretos e julgamentos que ela imaginava.

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Culpa

A culpa do que aconteceu foi toda minha, e eu não vou me desculpar por ser eu. Vítimas são barcos no porto, perfeitamente ancorados por tempo indeterminado, ou enferrujados, carcomidos. Culpados são barcos em alto mar de velas içadas, emaranhadas ao vento. A culpa foi toda minha. Agora, da sua culpa, eu não posso saber.

Sentimentalidades

Não haveria porque desamar, porque não havia amado, e ainda assim havia o amor pressuposto, imaginado, realizado portanto. Amar não passava de uma ideia compartilhada ou imaginada, aberta aos sentidos vivos; cenas, audição, cheiros, gostos e toques; e aos sentidos esquecidos não haveria de dar importância. Sentidos esquecidos são a reta final; morte, e para quem imaginou ou viveu, eles estarão; os sentidos latentes ou florescentes na raiz da ideia amor. Tudo uma suposição na concretude dos sentidos; afinal só por eles se insurgem existências amorosas ou sonhadoras de amar. Os sentidos ilusionados também vivem, e qualquer desgosto se apaga pela lembrança do momento de sentir. Eternidade é um passo longo e nefasto; sentidos não podem se eternizar senão na imaginação; daí advém a repetição de quem abraça a ideia do amor, repetição com confeitos ou com ingredientes insuficientes; performances inovadores de sentir. O enquadramento geral repleto e descuidado; o close inundado de detalhes, apenas um fragmento. Cada filme do sentido, único. Todo filme uma especialidade; a descoberta dos ombros ou do pêlo indiscreto da sobrancelha. O cenário conhecido de tomadas já visitadas ou a locação recém descoberta, que nunca mais se verá.

segunda-feira, 22 de setembro de 2014

Na pele e no fundo

Toda gente, por certo, em algum momento da vida se pergunta sobre a existência do amor, sobre essa realidade cada vez mais parca, quase de infinito desaparecer. Por certo também alguns o cultuam e bradam em alto tom o amor que sonham, que almejam num lampejo de magia. Há outros também que subvertem os sentidos, quase os enganam em relações assépticas, formais no jeito de um rito permanente de disfarce. São faces de tantas interpretações quais sejam as que mais lhes convencem e com as quais se deparam. Certo é que há tantos mais; os divididos, os crucificados, os ilusionados, os usurpados, os esquecidos, os lembrados, os de carne viva, os de morte lenta. Mas de todos esses, e ainda dos que não são por falta de palavras, há os indiscretos; talvez os mais hábeis em forjar o significado da palavra amor. Roland Barthes disse em seus fragmentos amorosos dessa indiscrição, dessa morbidez do discurso amoroso, das peles, dos pêlos; essas vestes que escondem os músculos, os ossos e o líquido divino da vida; dessas vestes que nascem e morrem por instantes. Às mucosas, às peles molhadas Barthes não fez referência, talvez lhes resguardando a viva umidade que escapa ao olhar; ficam reservadas às secreções incontidas, espermas luzidios e inconstantes, salivações amalgamadas de visões e enganos, lágrimas de rios fumegantes tal qual crosta terrestre.

À Deriva

Estamos eternamente à deriva; o mar que nos balança é o mesmo que nos afunda; não há saídas, somente esse navegar sem fim em busca de terra alguma; um frio na barriga enquanto o mar em imensidão nos submete; de vez em quando uma ilha vestida de árvores cheias de frutos e cabanas aquecidas; em outras vezes continentes inteiros a nos sumir por dentro e por fora em um anonimato cansativo e inebriante. E o mar, sempre o mar a levar o barco que somos nós de proa hesitante, de seta equivocada e cheia de si, e vazia de si; um não saber a navegar infinito em busca de coordenadas alienadas, confirmadas em gestos fugidios, silenciadas em ilusões. Nós todos um barco à deriva quase a alcançar um pedaço de terra, uma miragem dissimulada de descoberta.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

Deusa

A escrita vinha num fluxo irreprimível...Se não deixava correr rio, a memória não segurava as palavras que viriam; elas, as palavras se distraíam; já não eram as mesmas; os encaixes com os sentimentos e pensamentos se perdiam. O que vinha era assim impreciso, parecia um registro do passado focado no presente futuro. Assim, toda vez que se colocava em escrita, cada instante era único, irrepetível; as palavras e conexões jamais seriam encontradas novamente daquela forma, e talvez a onda psicanalítica, o deslanchar de sentimentos se contivesse nesse mesmo momento pra renascer não sei onde, de um jeito imprevisto. Por isso mesmo, impressionava a ela a capacidade da memória e sua amplitude de descrição ao sabor das particularidades do tempo; bastava um segundo e o dito já era outro e os detalhes já não eram os mesmos. Os registros, por certo, eram volúveis, embora a memória permanecesse intacta nas suas múltiplas potencialidades. Tudo está contido nela, mas só fatias são recuperadas de tempos em tempos...incompletudes...A escrita então era sempre essa parca tentativa de ser memória, a deusa memória.

sábado, 30 de agosto de 2014

...(

O sonho ele carregava sozinho, como o peso de uma névoa, com embaçado nos olhos e a clarividência da mente, imaginação. Há tempos seus olhos turvavam as imagens, doíam; então resolveu chorar e chorar intermitente ao sabor de tudo que houvesse de terno e bruto, de árido e úmido. Tentava suplantar a todo custo aquela secura que cegava em busca do sonho.Foi tanto choro que os olhos viraram rio; enquanto superfície secava os afetos, lá no fundo entre pupila e linha d'água viviam cardumes inimagináveis, corais multicores e ondas de alegria.

Passarar

Por certo, parecia a ela banal aquela pergunta retumbante; ‘qual o sentido?’ A pergunta ecoava e seu coração era sonar; batia a pergunta no oco de sangue e reverberava por todo corpo uma música oleosa, azeitada, um cheiro acre e doce e um tato malfazejo. Sim, a música era um ecoar de sino sem igreja, uma agonia de vila sem habitantes. A cidadela parecia estar abandonada por séculos e também habitada por angústias, seres fantasmas em coro uníssono a repetir a mesma pergunta de sempre; ‘qual o sentido?’ Levara algum tempo a discutir com outra alma perguntadeira sobre a famigerada pergunta. Ela assegurou-lhe que bastava ficar alegre que sentido vinha. Fazia sentido a explicação sobre o sentido. Mas se sentido fosse já não seria sentido; explicado fosse seria motivo. Sentido era apenas sintoma ou causa? Sentido era o que tocava ou o que emanava sem tocar? Onde estava aquela abstração que para muitos parecia tão concreta e a outros sublime, etérea...E se não havia sentido, o que haveria? Ela então mudou a pergunta; por que não há sentido? Por que esta terra ficou desabitada e as flores a repeliam? Não havia garantias de significação no jogo de estar e ser. Tudo se convertia rapidamente em sonho de acordar e dormir; nada soava real. Às vezes vinha alegria, vinha sentido, mas tão breve e inconstante que sentido passarava em céu de estrelas caídas.

...

Cada vez mais compreendia e descompreendia a necessidade das interpretações, investigações sobre as reais intenções, os poréns e subliminares da vida e dos textos vivos. Escrever não parecia a ela um ato racional, embora afeto às normas gramaticais, à pontuação; e claro, a versar sobre descrições e explicações. Em fuga dos trejeitos acadêmicos, recheados de referências e conceitos, o escrever simplesmente, a que chamam literatura, ou mero diário de alguém, está muito além da compreensão. É possível sim cortar o fio narrativo, rebuscar as expressões, caminhar na aridez filosófica por vaidade ou mesmo apreço. Mas a escrita latente, viva, esta tem uma fluidez indecifrável e diz absolutamente tudo com singeleza e agudeza. É uma quina e uma pancada a encher a carne e os ossos de dor; serve também para enternecer e morrer de vontade de adormecer e sonhar.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Tempo tardio

O tempo a conduzia forçosamente para lugares inóspitos. Alguém diria; ‘tempo tardio’; e ela remendava; ‘isso custa, mas é o custo que inebria e vem com o tempo, o tempo de qualquer um que seja’. E o tempo corria vertigem, atropelava os sentidos, e os sentidos quedavam em falha, e lá ficavam no cofre sem chaves. Bastava o mínimo movimento na tampa da caixa preta para sentidos sublimarem em cores no ar pesado das gotas de lágrima, dos infinitos poluentes, entidades a condensar sentimentos. Sentidos no ar a escapar de pandora numa dança frenética, insana; mergulhos em abismo seco em direção ao fundo da terra dela mesma, cheia de calcário e insalubridades férteis de fazer pensamento. E o tempo se perdia no pensar obtuso, nas suspeitas sem comprovação, nos ideais de afeto, nas crenças perdidas. E o tempo se achava também nos carinhos diários de perguntas que esperam respostas, sorrisos largos e silêncios absolutos, daqueles que não pedem o som. Tudo se misturava nesse tempo tardio, precoce na alma; afeto e descrença; chocolate e pimenta. A boca salivava e o nariz coçava em vermelhidão até espirro sair; seu corpo todo um refletir, sintomas de alguém no tempo tardio, no tempo reivindicado de ser, de sentir. Os olhos avermelhados de capilaridades, olhos sanguíneos para ver cenas de um lugar qualquer fora do tempo, dentro do tempo tardio dela mesma.

Inexplicáveis

Morreremos na ânsia da explicação dos inexplicáveis. Tentaremos em vão conceituar, interpretar, colocar nomes no que é apenas vacuidade. Talvez seja essa a angústia maior do ser humano; explicar. Explicações soam confortáveis para a alma; e a mente, é claro, felicita-se com conclusões ainda que absurdas ou simplórias demais. Hoje eu vi um ipê de flores amarelas; só havia flores, pois que as folhas estavam esquecidas nesse tempo invernal. As nossas explicações são como esse ipê no qual se vê somente as flores amarelas. A gente se esquece das folhas de antes, a gente não conjuga as estações. Somos e sempre seremos seres sazonais, afetados unicamente por nós mesmos, por nossos invernos, primaveras e verões. E são tão profundos estes estados, que qualquer refutar se torna inválido. Concluímos é de coração e mente insana; somos amarelo sol, tanto que dói olhar, dói pensar a gente mesmo.

domingo, 17 de agosto de 2014

Descobridores de alma

Ela andava em busca descobridores de alma; não de sombras revestidas de carne e osso; mucosas irrefletidas, nascimento e morte. Ela andava assim meio palhaça nesse picadeiro de devaneios, de pensamentos rasos, leituras inapropriadas para constar em papos 'caretas', posturas soberbas, auto-ajudas informes; somente escritos apagados em ações pavoneadas de tentativas vãs. Podes tentar sim, mas há que tentar com o vigor da poesia de ver sorriso, expressão, braveza e silêncio. Há que tentar na cadência da ilusão que morre e renasce por segundos, que não há alma inerte, estátua bem conformada para deleites rasos.