Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
terça-feira, 16 de dezembro de 2014
Gente
A gente é coisa que não se entende mesmo; a gente se sente, não se entende; e a gente que se sente, sente parte, um naco no aparato incerto de ser; porque gente é toda gente, é seres; e a gente é só uma gente nesse mar de gente que se sente.
quinta-feira, 4 de dezembro de 2014
Desaparecer
Se em dado momento estamos, logo viramos spectro. Se em dado momento mudamos, então somos apenas spectro do que já fomos. Somos apenas luzes que carregamos; somos guiados pelo movimento do desaparecimento dos lugares e das mentes. Os que se lembram sequer nos contam como somos, mas simplesmente como nos perceberam ao passar da luz. As vezes sobra um calorzinho, outras um fogaréu que se apaga, ou ainda um frio de morte.
O que não está
É o que não está que nos perturba grandemente; a palavra que não se diz, o gesto descuidado, as mecanicidades do dia a dia, os porvires inconsistentes, inconscientes, as vidas que se apagam num virar de rua. É preciso uma visão apenas, que grite, mesmo que depois da árvore ela desapareça; desde que renda um poema ou um sentir estranho qualquer que não se apaga. Nesse caso não é sumiço nem rebuliço, é como uma névoa que adentra as narinas, inunda sentidos até virar sonho de lembrança.
Árvore de natal
A árvore de natal da mamãe é feita no cactus. Ela se debruça sobre os espinhos para fazer o cactus florir. Ele fica todo vistoso e ainda guarda aquela água ancestral do sertão, de quem viu carro de boi a moer cana e cabrito raspando restos de ervas na caatinga. A árvore de natal da mamãe é mais árvore para mim.
quinta-feira, 27 de novembro de 2014
Por uma ciência poética
Nada contra os discursos acadêmicos; debruço-me também sobre eles e até retiro deles alguma essência poética. Mas de fato são poucos os que transitam por essa vontade de percepção, ciência como percepção. É isso! Toda vez que um cientista se põe a relatar seus experimentos, suas conclusões, prende-se a nomenclaturas aceitas, absolutamente codificadas enquanto fatos precisos. Não demora muito e a ciência cai do barranco em abismo sem fim, porque jamais irá atingir o exato, jamais obterá as condições totalmente controladas; os frutos maduros dificilmente terão o mesmo amarelo ou a mesma vermelhidão. Repetir e atestar em orgulho a vitória do experimento, atinar para congruência dos resultados, parece o desejo mais proeminente do homem para tudo o que faz e não faz. Vencer a dúvida é o que deseja, o sucesso do experimento. O poeta apenas substitui a dúvida pela palavra exata inexata, pelo gesto impreciso, riso não visto, choro escondido. A poesia é o imponderável, incontrolável para o qual não existe nomenclaturas precisas. Uma ciência poética é um passo para o humano que não se pondera, que não erra nem acerta, simplesmente vive o peculiar, o que não se repete.
quarta-feira, 26 de novembro de 2014
Planos
Como fazer planos se a existência não passa de uma alternância de sopé e montanha, de água que amansa e faz onda? Como fazer planos, escolher destinos absolutamente improváveis nessa suposição absurda de que alguma escolha é certa e provável? Sim, há como fazer planos e acertar-lhes as arestas pontudas, fingir-se de bobo ante as decepções cadenciadas do dia a dia; montar um álbum de falhas submersas em imagens condensadas de mimetismos de risos e choros de emoção. Do que eu falava mesmo? De planos...tão obtusos; cubos.
terça-feira, 25 de novembro de 2014
Fêmea
Até hoje me surpreende a alcunha mulher, simplesmente porque fêmea cabe infinitamente mais, posto que traz consigo a perfeita definição nominal daquela que gera, amamenta e recobre com pêlos e pele, daquela que se altera por sentidos de proteção e selvageria em acalento; todos os sentidos em alerta. Terminantemente, mulher se presta apenas para delimitar o feminino subjugado no horizonte cultural de ‘minha mulher’. Mulher fala tão pouco enquanto grita a fêmea sufocada em seus instintos de existir, mas principalmente em coexistir em estado belo, natural.
...
Cada vez mais assegurava-se de que ser feliz era esquecer-se, por instantes perder-se no presente e esquecer-se.
Vazio
Desafio maior não deve haver; descrever o vazio e sua vocação de se instalar entre as extremidades; entre dor e prazer, tristeza e alegria, sorte e infortúnio, desejo e desprezo, vontade e desânimo. O incontido no vazio subverte o repleto e o desafia enchendo- se do nada. Curioso esse vazio cheio de nada, incompreensões em desaviso, desafetos sem lastro, amenidades das conquistas, solidões, cactus no deserto, inundações em reservas de alma, e lá fora vazio; miragens de sóis, incontáveis linhas que se perdem; vazio.
quarta-feira, 19 de novembro de 2014
se...se,se,se
"Que deus te dê em dobro aquilo me desejas"; estava lá inscrito no vidro traseiro de um carro de uma rua qualquer de uma cidade qualquer. Esqueceu-se de dizer, ou melhor; preferiu não explicar que o dobro poderia ser de bem ou de mal. Ou melhor; quis deixar claro que a recompensa poderia ser boa ou má, ou que só o bem poderia advir?! Traquinices das frases completas incompletas.
Corpos-instrumentos
E nossos corpos instrumentos concertaram o mundo em chuva de raios luminosos, até cegar a vida e acordar a morte; E nossos corpos instrumentos harmonizaram uma melodia seca, de cadência frouxa, até acordar de novo; E a dança foi de sopros e cordas enviesados feito esconde esconde no balanço irreconhecível para todos passantes; E nossos corpos instrumentos ficaram ali meio tortos, congelados no movimento sonolento de quem se acomoda no afeto.
quinta-feira, 30 de outubro de 2014
Tempo...
O tempo voltara a se manifestar naquele exato instante improvável. O tempo que passara voltara para avisar que estava ali em júbilo, perfeitamente assustador. Já não era a primeira vez que acontecia. Dar de frente com aquela figura adolescente, agora de cabelos de algodão naquela mesma escola em dia de pleito eleitoral; ela saindo, ele chegando. Agora ele vinha com uma miniatura sua puxada pelas mãos. Os olhos se cruzaram num reconhecer discreto, mas seguramente revelado na lembrança das outras mãos dadas na oração do pai nosso em uma missa distante qualquer. Havia também os olhos castanhos dele destacados na pele branca, reluzente; olhos castanhos adolescentes a revelar um amor imaginário. Agora era só o tempo que passara e a suposta lembrança.
quinta-feira, 23 de outubro de 2014
Soldado
Sempre fora um soldado mal aparentado, meio despenteado, sem farda e botas, com armas imaginárias; Mas sempre um soldado, embora de vestes imagináveis da mente que não discutia ou tergiversava, que apreendia o sentido da ordem, da obediência; Sempre fora um soldado pela exigência de um limite qualquer por medo insensato de virar liberdade; pavor da extremidade do prazer que esbarra no tédio desmedido; Sempre fora um soldado mal aparentado, por bem que pudesse fazer de suas boas intenções; até um dia descobrir não por absoluto, mas quase certo a maldade das boas intenções; Sempre fora um soldado mal aparentado a descaminhar entre a veste e a mente; Desmanchava a expectativa da veste, enquanto a mente em agonia; Até quis pentear os cabelos para esperar a hora marcada de qualquer compromisso; mas descobriu outras possibilidades; Quando alguém não vinha haveria outro alguém por ali em arremedo de distração para organizar a ordem aparentemente desfeita. Sempre fora um soldado mal aparentado a tentar sumir com os relógios em vão, sempre na busca desse tempo irreal que some qualquer ponteiro das vestes de viver.
quarta-feira, 15 de outubro de 2014
Sesmarias
Houve um tempo de descobrimento, quando tudo respirava tropical naquela terra de ninguém. Ar quente temperado de torrentes de água; clorofilas de toda cor. Não havia instituições formalizadas, senão aquelas conquistas do dia a dia, o colher que a terra dá, o colher que o alguém planta, as hierarquias consentidas pela sabedoria que a vida leva, do natural que a vida oferece e que gasta o tempo do processo, o tempo da natureza. De repente, aportaram caravelas, naus indiscretas a perguntar sobre o destino das roupas e a duvidar da limpidez do espelho de rio. Quem era rei sem coroa virou alienígena, indígena. Vieram brancos de corpos bem vestidos, oprimidos pelo inverno, deslumbrados com as partes pudendas expostas, o arrepio do vento e os ouros da terra, paus e minerais e cafezais. Começaram então a provinciar tudo, sesmariar a terra, agora de alguéns; o início da fidalguia, oligarquia. Se antes era desmando, banho de rio; agora eram perfumes e laçarotes ao pescoço e pés em solado. Depois vieram uns quaisquer de pele escura pra suportar o escuro dos porões que navegam, dos porões feitorias do branco bem comportado para esvaziar riqueza da terra. Fizeram de todos eles, alienígenas, ocres e escuros, alguma mistura pra dar nome a um tipo qualquer, habitante feito de história perdida. Fez-se então a história de uma terra dividida enorme para alguém imperializar, domesticar. Os anos se passaram e as sesmarias viraram desenho no mapa, compridas, estreitas, largas e finas; enquanto alguns borrões ao norte, mais mato e sertão, sobraram sem nome e diligências. Ainda sobrariam alguns ninguéns a serem recuperados. Por oportuno, os das naus trouxeram anchietas e também atravessadores da riqueza que não se continha. Depois fazendearam tudo, comoditaram o que de comer, sobreviver. Coronelizaram as almas, afastaram os ninguéns da sua cor ocre. As ocas agora viriam enfileiradas, lineares na horizontal e na vertical. A terra de ninguém ficara moderna, com fumaças envaidecidas a sumir antiguidades mobiliárias, enquanto os núcleos se multiplicavam em acordos bem apropriados para não dividir a terra. Hoje, a terra graça a mesma divisão, que se saiba; colonizador e colonizado, rico e pobre; tudo por conta das doações sem lastro fato. ‘Achei, pego e divido como quero, ou não divido, faço onda, discurso raso; peguei, está tomado.’ Hierarquias forjadas na força do leite que falta, do café que sobra, da mente iletrada, desatinada, arremessada no circo, picadeiro de caras em bocas, de gestos acuados, de olhos enraivecidos; tudo pela sesmaria. Fosse possível descolonizar e toda terra voltasse a ser de ninguém, alienígena indígena poderia voltar misturado até com naus em cidadela da memória, talvez nômade, ou à beira de um rio sem que ele fosse secar. A terra daria de tudo para quem quisesse aportar sem sesmariar.
sábado, 11 de outubro de 2014
Grito
Decididamente não era um bom vivã. Esquecera-se de deixar de remoer fatos que agora só restavam na memória. Não havia repercussão alguma deles, senão as reprimendas que fazia a si próprio por ter figurado naquele cenário de circo; as silhuetas flutuantes, as palavras amáveis, os rostos curiosos, a bebida na medida do sonho. Agora adentrava seu quarto a avistara pela entrada do banheiro aqueles ladrilhos de parede. As mulheres se repetiam com sombras e traços indeterminados; retratos nos ladrilhos. Cada uma delas, uma boca em grito; um só olho e nada de narinas. A visão era baça, assimétrica, metades irreconhecíveis de qualquer coisa. O cheiros sumiam até dos perfumes. Por certo teriam perdido o nasal naqueles sucessivos espirros. A boca gritava fundo pra dentro, pra fora; e o grito não saía dos ladrilhos, sufocava.
sexta-feira, 10 de outubro de 2014
Arte na velhice
Por certo a infância tinha lá sua graça, as brincadeiras de fazer arte sem saber arte. Mas na velhice com arte, os cabelos brancos, as cartilagens desgastadas, os dentes postiços, são mais infância ainda em fazer arte, uma demência inovadora por consequência do tempo inconsequente, absolutamente abstrato em dissonância com o aspecto físico em deterioração, ressonância de ainda estar vivo pela arte. Há um vício qualquer neste caso da velhice com arte, uma forma de desmerecer a morte; quase um lugar de estar sempre a brincar pela arte. Velho que faz arte se faz criança com arte.
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