Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quinta-feira, 12 de março de 2015
Os outros
Certificava-se lentamente de que quanto mais se isolava, mas o mundo a jogava em direção às pessoas para confrontá-la com o seu estúpido sentimento de suficiência. Não fazia por mal, senão por um jeito de evitar conflitos. Só que agora precisava dos outros para desembaraçar seus caminhos tortos, muitos por contingência, outros por inexperiência; alguns por completa ignorância e submissão. Restava-lhe, ou melhor, sobrava-lhe a convicção de que o outro é uma necessidade permanente, imanente. E a vida se compunha dessa soma inevitável.
Tiro
Só a ação faz mesmo sentido. A palavra é só o tiro que marca o início da ação. Tem ação que nem tem palavra. Sempre teimei na palavração, na fé ingênua de fazer com palavra um mundo ideal. Não há ideais, senão ações que traduzimos em ideais. No papel, na tela; tudo somente um esboço, o tiro! Resta saber quem vai começar a correr!
quarta-feira, 11 de março de 2015
...)
A vida é lutar sim contra o hereditário, contra esse atavismo uterino imemorial, fincado lá no código genético antepassado que forja os preconceitos de toda espécie, as formas de dominação inciais e consolidadas, o submisso inaudito, consentido por puro acanhamento e até estranhamento. Estranho é tudo o que coage e cala.
Repete
A vida se repete no pequeno traço do passado; naquele perfil há tempos registrado e no alcance enviesado das aproximações que se fizeram distantes. A vida se repete no mesmo chão de encanto que depois vira desencanto; e é custoso compreender esse ponto de mutação de rumo desconhecido, esse foi não ido, essa máscara de segredo, antes limpa, de tão limpa informe, bela na imperfeição. De repente vem a rudeza do gesto que cumprimenta o antes nunca visto, e segue os passos, e segue o chão, e outros ainda passarão sem gesto algum ou emissão de som. E a vida se repete com suas fitas protéicas a dançar em mistura, empírica e modesta, enquanto a morte não vem.
sábado, 7 de março de 2015
Antes
Primeiro não veio a palavra. Veio o gesto, veio o som. Palavra é coisa que se usa para compensar o seu próprio desuso; dificilmente cabe bem, ora até cabe por força das circunstâncias, da emoção. Em outras, soa falsa, malidicente, inapropriada. Primeiro não veio a palavra. Aliás, não se sabe o que veio primeiro, quando muito, sabe-se o que veio antes.
quinta-feira, 5 de março de 2015
Enigmas
Toda vez que teimamos em fazer combinação de palavras estamos querendo é ser reconhecidos, ser devassados por dentro e por fora, como uma coleção de escrituras mágicas, repletas de fórmulas que traduzem ou obstruem o entendimento sobre nós mesmos. Combinação de palavras só é dada para quem nos lê e ousa perceber ou incompreender. Uns nunca saberão sobre nós, escritos encantados. Outros terão a ousadia, aventurar-se-ão nesse caminho de desencontro e tentação.
quarta-feira, 4 de março de 2015
eu você
Porque eu estou lá é dentro de você, naquele lugar obscuro em que você formulou minha personalidade e minha total ausência de persona. Foi lá, dentro de você que tudo se deu; na imagem que invadiu seus olhos, no cheiro ainda que insuspeito, nas minhas palavras cheias de contradição e certezas mancas. Foi lá, dentro de você que eu surgi em devaneio real, perfeitamente atinada aos seus meandros, aos seus escândalos e contenções. Eu ficarei sempre lá, dentro de você do jeito meu que na realidade é seu.
Sombra
Ninguém está livre da sua própria sombra; indiscreta ela se põe em qualquer ritmo que seja; pára, anda, corre, freia,desatina; é tal e qual, de limites precisos e repleta de si mesma numa fusão irrefreável; esse duplo que nos chama atenção para os múltiplos de nós em nós.
segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015
Destinos provisórios
Há tempos ela questionava o porquê dos seus interesses tão variados, possivelmente divergentes. Tomava-a uma angústia irreprimível de passar por tantos lugares em tempos diminutos, como o da hora e o do dia. No ano então, perdia-se completamente sob o constrangimento da memória perdida, das palavras, dos nomes, das cores, dos sons e dos cheiros; tantos eram os caminhos de destinos provisórios. Sim, eram provisórios porque se metiam a entrar uns pelos outros em forma de fronteira eterna; da mesma forma que se encontravam e se identificavam, sumiam-se os destinos e se faziam pontos de largada, recomeços incessantes.
domingo, 22 de fevereiro de 2015
um olhar daqueles dias
...a gente vai embora mesmo querendo ficar, escapa do olhar mesmo na ânsia de permanecer; tudo pode mudar na silueta do entardecer dos olhos que se olham na penumbra do cotidiano, no inusitado do encontro improvável; e ainda que nunca mais se veja, se viu, realmente se viu...
quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015
....amar....
Amar é tão fácil; custa um cadinho de atenção na veia que salta por sobre a mão; Amar é tão fácil; custa só espremer olhos na intenção de fazer esferas de toda cor;
Amar é tão fácil; novelo na pata do gato a escorrer escadarias até chegar lugar aconchego; cambalhotas no ar;
Amar é tão fácil; de tão fácil cabe em cadinhos, em poucos cadinhos de intenção, cadinhos de atenção...
quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015
Fantasma
A vida tem infinitudes até para o finito. Tem presenças, fantasmas e ausências. Algumas ausências mortas, outras vivas. Às vezes a chuva de fora concorda com a chuva de dentro; severamente copiosa a sonhar com um abrandamento qualquer cheirando a terra molhada e da cor de planta; verde de esperar a chuva passar e vir o sol, a chuva cair tempestade e acalmar o céu.
domingo, 1 de fevereiro de 2015
Controle e palavra
O controle social se alicerça basicamente sobre duas condições: a existência das leis formais e informais. Além da norma contratual ou tácita, há o desejo que escapa às nomenclaturas. Mas o homem como ser de palavra, afasta-se do desejo irracional, prende - se aos nomes das coisas e vira coisa, categoria. Aí se encontra e se perde.
terça-feira, 27 de janeiro de 2015
Escorre
É tanta água desperdiçada na calha; pinga grosso e corre desenfreada, desperdiçada na calha, no asfalto, na latrina fora do mato; é tanta água desperdiçada na falha da área de cimento baço, espessura inorgânica, rochas da modernidade eremita; é tanta água desperdiçada que não se sabe onde está; vai longe a água desperdiçada na calha; vai cega na superfície, na supressão da ordem fluida que a submete; é tanta água desperdiçada na calha, canalha calha impermeável; e a água corre pro destino obtuso, alheio a sua vocação de caminhar brincando, e parar, e entrar, e sair, e calhar de ficar.
quarta-feira, 14 de janeiro de 2015
...
Sonhara sim em ser poeta, em encontrar as palavras honestas paras as visões tempestuosas do dia a dia; Sonhara sim em ser poeta, aberta feito vaso de flores, cores, cheiros, estames e anteras; Sonhara sim, não por fetiche de escritor intelectual, para fazer livro em mão de editor pra constar nome e sobrenome no papel da memória da história; Sonhara sim de olhos abertos com as palavras de surpresa, exatas, achadas no fundo abismal das expectativas gramaticais, morfológicas e ortográficas; Sonhara sim em ser poeta, trágica, posta ali pra receber letras desconexas a fiar texto de rede desacertada como a vida.
sábado, 10 de janeiro de 2015
Grandes e 'pequenas'
Enquanto vicejam as grandes tragédias, aquelas reconhecidas como símbolos de comportamentos abomináveis, as pequenas também seguem, em cada casa, em cada vizinhança; as vidas que morrem por desatenção, que adoecem por negação do outro e afirmação de si mesmo. Nesses instantes também vicejam perguntas, dúvidas que se eternizam pela mesma dúvida sobre aquilo que poderia ter sido e não foi.
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