terça-feira, 24 de março de 2015

Portugueses

Sempre me pergunto por que me encantam os poetas portugueses. Pois bem; eles falam de um sentimento intenso de amar, um transbordamento acidental que faz nascer flores. Eles falam também da intensidade da morte em nós, do vazio que nos recobre a despeito de todas as possibilidades de preenchimento. Eles revelam encanto e desolação, a quase exata medida de ser e não ser.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mineral

Um desejo mineral a perseguia desde tempos imemoriais. Havia um linguista russo que dizia sobre esse desejo humano fatalmente expresso no seu linguajar, no seu agir. Talvez uma necessidade de permanência mais duradoura jogasse o humano nessa vontade inaudita; desejo, pensava.Voltava-se pois a sua aparente forma orgânica, aos tecidos epiteliais que a abandonavam diariamente, e para os quais não havia garantia de substituto à altura. Restavam sucessos, insucessos e mutações favoráveis e desfavoráveis. Enquanto isso, estava lá o mineral absoluto, gasto ao longo tempo, com uma organização estável, tão apropriado para as investidas da arqueologia, das datações. Agora a investida na organicidade era abismal, um buraco sem fundo repleto de camadas justapostas em permanente mutação. Então esse desejo mineral devia ser sinal do medo do precipício que sempre a perseguia.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Pequeno comentário sobre a arte...

Quando miramos a arte, ou vemos arte no que parece não ser arte, fazemos um deslocamento criativo, avançamos em direção a possibilidades aparentemente discretas ou até inexistentes. A realidade tem um peso que cega, que emudece e provoca surdez quando vista na sua forma pura, um passante desavisado. A arte vai na contramão; ela potencializa os sentidos absurdamente, preenche um vazio temporal. É como se estivéssemos aprumados sobre o mar.

Os outros

Certificava-se lentamente de que quanto mais se isolava, mas o mundo a jogava em direção às pessoas para confrontá-la com o seu estúpido sentimento de suficiência. Não fazia por mal, senão por um jeito de evitar conflitos. Só que agora precisava dos outros para desembaraçar seus caminhos tortos, muitos por contingência, outros por inexperiência; alguns por completa ignorância e submissão. Restava-lhe, ou melhor, sobrava-lhe a convicção de que o outro é uma necessidade permanente, imanente. E a vida se compunha dessa soma inevitável.

Tiro

Só a ação faz mesmo sentido. A palavra é só o tiro que marca o início da ação. Tem ação que nem tem palavra. Sempre teimei na palavração, na fé ingênua de fazer com palavra um mundo ideal. Não há ideais, senão ações que traduzimos em ideais. No papel, na tela; tudo somente um esboço, o tiro! Resta saber quem vai começar a correr!

quarta-feira, 11 de março de 2015

...)

A vida é lutar sim contra o hereditário, contra esse atavismo uterino imemorial, fincado lá no código genético antepassado que forja os preconceitos de toda espécie, as formas de dominação inciais e consolidadas, o submisso inaudito, consentido por puro acanhamento e até estranhamento. Estranho é tudo o que coage e cala.

Repete

A vida se repete no pequeno traço do passado; naquele perfil há tempos registrado e no alcance enviesado das aproximações que se fizeram distantes. A vida se repete no mesmo chão de encanto que depois vira desencanto; e é custoso compreender esse ponto de mutação de rumo desconhecido, esse foi não ido, essa máscara de segredo, antes limpa, de tão limpa informe, bela na imperfeição. De repente vem a rudeza do gesto que cumprimenta o antes nunca visto, e segue os passos, e segue o chão, e outros ainda passarão sem gesto algum ou emissão de som. E a vida se repete com suas fitas protéicas a dançar em mistura, empírica e modesta, enquanto a morte não vem.

sábado, 7 de março de 2015

Antes

Primeiro não veio a palavra. Veio o gesto, veio o som. Palavra é coisa que se usa para compensar o seu próprio desuso; dificilmente cabe bem, ora até cabe por força das circunstâncias, da emoção. Em outras, soa falsa, malidicente, inapropriada. Primeiro não veio a palavra. Aliás, não se sabe o que veio primeiro, quando muito, sabe-se o que veio antes.

quinta-feira, 5 de março de 2015

Enigmas

Toda vez que teimamos em fazer combinação de palavras estamos querendo é ser reconhecidos, ser devassados por dentro e por fora, como uma coleção de escrituras mágicas, repletas de fórmulas que traduzem ou obstruem o entendimento sobre nós mesmos. Combinação de palavras só é dada para quem nos lê e ousa perceber ou incompreender. Uns nunca saberão sobre nós, escritos encantados. Outros terão a ousadia, aventurar-se-ão nesse caminho de desencontro e tentação.

quarta-feira, 4 de março de 2015

eu você

Porque eu estou lá é dentro de você, naquele lugar obscuro em que você formulou minha personalidade e minha total ausência de persona. Foi lá, dentro de você que tudo se deu; na imagem que invadiu seus olhos, no cheiro ainda que insuspeito, nas minhas palavras cheias de contradição e certezas mancas. Foi lá, dentro de você que eu surgi em devaneio real, perfeitamente atinada aos seus meandros, aos seus escândalos e contenções. Eu ficarei sempre lá, dentro de você do jeito meu que na realidade é seu.

Sombra

Ninguém está livre da sua própria sombra; indiscreta ela se põe em qualquer ritmo que seja; pára, anda, corre, freia,desatina; é tal e qual, de limites precisos e repleta de si mesma numa fusão irrefreável; esse duplo que nos chama atenção para os múltiplos de nós em nós.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Destinos provisórios

Há tempos ela questionava o porquê dos seus interesses tão variados, possivelmente divergentes. Tomava-a uma angústia irreprimível de passar por tantos lugares em tempos diminutos, como o da hora e o do dia. No ano então, perdia-se completamente sob o constrangimento da memória perdida, das palavras, dos nomes, das cores, dos sons e dos cheiros; tantos eram os caminhos de destinos provisórios. Sim, eram provisórios porque se metiam a entrar uns pelos outros em forma de fronteira eterna; da mesma forma que se encontravam e se identificavam, sumiam-se os destinos e se faziam pontos de largada, recomeços incessantes.

domingo, 22 de fevereiro de 2015

um olhar daqueles dias

...a gente vai embora mesmo querendo ficar, escapa do olhar mesmo na ânsia de permanecer; tudo pode mudar na silueta do entardecer dos olhos que se olham na penumbra do cotidiano, no inusitado do encontro improvável; e ainda que nunca mais se veja, se viu, realmente se viu...

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

....amar....

Amar é tão fácil; custa um cadinho de atenção na veia que salta por sobre a mão; Amar é tão fácil; custa só espremer olhos na intenção de fazer esferas de toda cor; Amar é tão fácil; novelo na pata do gato a escorrer escadarias até chegar lugar aconchego; cambalhotas no ar; Amar é tão fácil; de tão fácil cabe em cadinhos, em poucos cadinhos de intenção, cadinhos de atenção...

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Fantasma

A vida tem infinitudes até para o finito. Tem presenças, fantasmas e ausências. Algumas ausências mortas, outras vivas. Às vezes a chuva de fora concorda com a chuva de dentro; severamente copiosa a sonhar com um abrandamento qualquer cheirando a terra molhada e da cor de planta; verde de esperar a chuva passar e vir o sol, a chuva cair tempestade e acalmar o céu.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Controle e palavra

O controle social se alicerça basicamente sobre duas condições: a existência das leis formais e informais. Além da norma contratual ou tácita, há o desejo que escapa às nomenclaturas. Mas o homem como ser de palavra, afasta-se do desejo irracional, prende - se aos nomes das coisas e vira coisa, categoria. Aí se encontra e se perde.