quarta-feira, 6 de maio de 2015

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É nos implícitos que tudo é revelado. Tudo dito e tudo representado em pormenores parte do sentimento de insuficiência do discurso e da paisagem. As falhas aparecem em camadas que se aprofundam até o infinito. O que está lá se basta; nós é que não nos bastamos, ansiamos preencher; pobres de nós...

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O prazer não é um abismo ou um encontro assentado nos aparatos da fisiologia. A ciência peca toda vez que tenta fazer esse enquadramento preciso. É fora do quadro que mora a fruição, o prazer estético. O gozo está no pensamento, apenas nas idéias prévias que vão compor qualquer cena. O prazer é pensamento potencializado pelos sentidos e fisiologia.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

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No final das contas somos feitos é de silêncio. O som vem acidental. Por vezes, o som chega tão desavisado, que cala. Fica ali quietinho no pensamento de palavra boa, tanto tanto que cala. Resta o olho que diz, o nariz na inquietude do perfume, as mãos num desenho de afeto e o silêncio que grita.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Encantado

Não há melhor ideia para descrever a morte do que o encantamento de Rosa. Lembrara agora do seu pai preto que fora sem alarde em um boteco da avenida abaixo da casa dela. Silencioso até na despedida, pediu uma água e nem chegou a beber, pois já estava repleto. Viveu na simplicidade do fazer das mãos. Para tudo tinha um pensamento de conserto numa paciência que chegava irritar. Só muito mais tarde ela percebera o valor daquela calma; apenas uma forma de chegar na sua solução, porque não dava a mínima para as soluções rápidas dos outros. Cambaleava feito um copo que simula cair e não cai. Achava a vida boa e insistia nessa cantiga e no fazer impossível sempre possível. As mãos eram grandes e não encaixavam nos pequenos parafusos e canos submersos, mas ele esgueirava os dedos pacientemente até encaixar e desimpedir os caminhos. Ele foi silencioso feito alguém que não vai. Ficou encantado.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Cá

A flor não está lá. A flor é apenas a percepção da flor. A flor pode nascer no cimento; pode nascer no campo infinito; pode nascer no coração da mente. A flor não está lá. A flor está cá.

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Eram a vela e o leme que direcionavam o barco na ventania, ou havia uma pipa a puxar-lhe o esqueleto pesado até o céu? A vida era um estar real, ou apenas um sonho vivido, lembrado ou esquecido, que fazia florescer a mente?

Veias abertas

'Veias abertas' chegou- me às mãos na tenra idade, mas chegou de um jeito acidental, meio corroído de traças, um tanto mofado, umas folhas caídas e outras prestes a cair. A edição antiga era severa, sem elementos pictóricos em capa, senão umas linhas mal postas em vermelho e branco; e claro, as garrafais veias abertas da América Latina. Adentrei aquele mundo de histórias da história meio assustada com tantos minerais escorrendo em letras, e uma delicada descrição, quase uma arqueologia do solo latino. Um sangue escorria grosso e brilhante em minhas mãos, enquanto meus olhos se enterneciam e se indignavam. Era a primeira vez que percebia esses veios cavados a escorrer riquezas e todo o efeito disso nas pessoas. Um tio por certo o lera,; não contara. Mas deixara nas caixas de livros antigos e eu o encontrara.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Quase amor

Aquele quase amor tivera o término por um parágrafo, nem tão longo, nem tão curto. Fora como um livro não escrito, suprimidas a introdução e a narrativa;, história interrompida. Os fatos ficaram suspensos por ordem do descuidado desamor que mais tarde viraria um oi mal saído feito um já foi. Curioso ter ido sem ter chegado, num passo esquecido. Aquela silhueta ficar-lhe-ia na lembrança do contrário; cuidado. Ia ao longe por alguém que amava, mãos postas sobre ombros e reclinar de cabeça aconchego. Por certo, podia amar, mas desamou em lapso de desatenção.

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O transcendente serve para dizer daquilo que não ousamos ou podemos entender. A poesia também faz esse papel; transcender...

segunda-feira, 30 de março de 2015

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Um dia perguntaram a ela o porquê de sua preferência pelos animais não humanos. Ela pensou bem e tentou com muita força duvidar de si mesma. Voltou ao animal do próprio humano, tentando nele encontrar as mesmas virtudes dos não humanos em vão. O animal no humano vinha com face endurecida, quase somente em momentos de fuga e defesa. A face espontânea, lúdica, ou até mesmo nas essencialidades; no alimentar, no reproduzir, no descansar e levantar, escapavam do humano. As pessoas estavam sempre em busca dos manuais porque desentendiam de tudo o que nelas lembrava instinto. Envergonhavam-se daquele esticar do corpo fora das academias; dedicavam-se exclusivamente aos bocejos em momentos de absoluta fadiga e tédio. O corpo ia endurecendo, enguiçando antes do tempo. Fatalmente a última recomendação seria o repouso. A falta de estímulos naturais do dia a dia enterrava o humano em um torpor quebradiço por falta de minerais, falta de essencialidades e brincadeiras. O humano se esquecia do código, das possibilidades marcadas; orgânicas. Nunca mais se lembrava, fingia que era máquina até obsolescer em si mesmo.

Inércia

Era certo que os animais e as máquinas tendiam à inércia, fosse em repouso, fosse em movimento. O desafio era encontrar o ponto de desatinar e o ponto de descansar em tempos de sensatez. O problema é que os pontos andavam sempre fronteiriços e havia guerra até o desenlace final. Ou morria - se em inércia consensual ou na euforia de não parar até o esgotamento. Guerra inglória.

quinta-feira, 26 de março de 2015

Cegueira

Nunca pensara que estivesse acima de qualquer suspeita. A própria palavra suspeita já remetia a essa suspensão, esse incerto de ser, ainda que se esforçasse em direção a uma conduta minimamente amigável, gentil. E tudo eram apenas instantes; uma virada de torso, de um olhar, e a oportunidade da gentileza escapara. Ou seria responsabilidade, responsabilidade pelo outro? Não fora intencional aquela ausência de gesto, senão uma distração perversa que sempre a tomava; pensamentos. Pra completar veio aquela bengala tecnológica a perscrutar aquela rua e os óculos meio cibernéticos. Ela jurara que o cego tinha algum apoio que fosse mais do que ela por ínfimos segundos, até que chegou alguém mais sensato e se dignou a atravessá-lo nos moldes analógicos. Ela então fizera parte da cena e saíra com o coração meio apertado pela falta de prontidão; gentileza.

terça-feira, 24 de março de 2015

Portugueses

Sempre me pergunto por que me encantam os poetas portugueses. Pois bem; eles falam de um sentimento intenso de amar, um transbordamento acidental que faz nascer flores. Eles falam também da intensidade da morte em nós, do vazio que nos recobre a despeito de todas as possibilidades de preenchimento. Eles revelam encanto e desolação, a quase exata medida de ser e não ser.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Mineral

Um desejo mineral a perseguia desde tempos imemoriais. Havia um linguista russo que dizia sobre esse desejo humano fatalmente expresso no seu linguajar, no seu agir. Talvez uma necessidade de permanência mais duradoura jogasse o humano nessa vontade inaudita; desejo, pensava.Voltava-se pois a sua aparente forma orgânica, aos tecidos epiteliais que a abandonavam diariamente, e para os quais não havia garantia de substituto à altura. Restavam sucessos, insucessos e mutações favoráveis e desfavoráveis. Enquanto isso, estava lá o mineral absoluto, gasto ao longo tempo, com uma organização estável, tão apropriado para as investidas da arqueologia, das datações. Agora a investida na organicidade era abismal, um buraco sem fundo repleto de camadas justapostas em permanente mutação. Então esse desejo mineral devia ser sinal do medo do precipício que sempre a perseguia.

quinta-feira, 12 de março de 2015

Pequeno comentário sobre a arte...

Quando miramos a arte, ou vemos arte no que parece não ser arte, fazemos um deslocamento criativo, avançamos em direção a possibilidades aparentemente discretas ou até inexistentes. A realidade tem um peso que cega, que emudece e provoca surdez quando vista na sua forma pura, um passante desavisado. A arte vai na contramão; ela potencializa os sentidos absurdamente, preenche um vazio temporal. É como se estivéssemos aprumados sobre o mar.

Os outros

Certificava-se lentamente de que quanto mais se isolava, mas o mundo a jogava em direção às pessoas para confrontá-la com o seu estúpido sentimento de suficiência. Não fazia por mal, senão por um jeito de evitar conflitos. Só que agora precisava dos outros para desembaraçar seus caminhos tortos, muitos por contingência, outros por inexperiência; alguns por completa ignorância e submissão. Restava-lhe, ou melhor, sobrava-lhe a convicção de que o outro é uma necessidade permanente, imanente. E a vida se compunha dessa soma inevitável.