quinta-feira, 28 de maio de 2015

Doçura

Por certo, já ouvistes falar em doçura. Ela chegou até nós mirrada, saída de um mato vizinho. Nunca conseguimos nomeá - la; essa sorte ela teve. Podia ser chamada linda, charmosa, gostosa e arreganhada. Sim; abria as pernas por um carinho na barriga quentinha. Vários nomes foram aventados, mas não couberam em seu jeito variado. Foi embora hoje de jeito inesperado. Deixou - nos o gosto da doçura.

quarta-feira, 20 de maio de 2015

spectrais

Se os olhos não podem ver, o espelho se encarrega. Ironia ou coincidência; foi assim aquele encontro desencontrado versão duplicada. A imagem teimava em se fixar num voyerismo acidental. Fora sempre assim; ele e ela em noite fria que congela; spectrais.

segunda-feira, 18 de maio de 2015

Pan

Somos todos deuses Pan, rodeados de pandemônios, pândegas, pandemias. Cabeças de homens com instinto ruminante, de pensar que não se acaba, com adornos córneos insistentes de histórias que escapam. Somos todos deuses pan, de pés laminados inflamados a caminhar por descaminhos em busca de anestesia. E os pelos que nos nascem em espessura e tamanho são essa mesma lembrança epitelial dos tempos ancestrais pan, que nos sobrepujam para esse contemporâneo fadigado de pensamento, loucos para correr pelos campos em desatino e encontrar, e tocar a flauta mágica num lamento de ironia e libertação.

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Amiga

Toda vez que se punha a pensar naquela amizade sem fim, transbordava em tempestade. A palavra vinha oca, num vácuo de imprecisões de um amor que não se consolidava, mas explodia. Teimavam em dizer que ela era sua mãe, mas essa palavra não cabia nos máximos de sentir. A cada dia uma nova raiz crescia em seus pés, mas a ponto de se fixarem, rompiam a terra seca no incentivo de liberdade que aquela amizade inspirava. Toda proteção era apenas o desejo de libertar em alegria. Era além do tempo aquela amizade. O amor maior.

Nuvens

Hoje as nuvens se deitaram no céu em forma de serpentes. Não tinham a cabeça em posição de bote, de defesa ou ataque. Estavam calmas a flutuar em mar azul e calmo. Sempre a surpreendiam; as nuvens. Assumiam tantas formas quanto houvesse. E como pinta - las? Pois que sempre vazavam do quadro rebeldes? Por vezes tão agitadas a dançar!? Como fazê-las parar para fixar - lhes em êxtase? Sobrava então o devaneio da nuvem que passou.

quinta-feira, 7 de maio de 2015

Luso Ricardo

Entre esquinas, viradas e reviradas, perderam-se na cidade de nome Porto. Subiram e desceram ruas margeadas por sobrados e igrejas escurecidas em jeito típico de forasteiros, até que apareceu outro de nome Ricardo. Português de olhos azuis, e traços bem harmonizados com esses outros, mas cambaleante e um tanto decepcionado, choroso. Fez de tudo para guiá-los no mapa do caminho que desconhecia. No fundo queria dizer do ‘bolo’ que levara da provável amada que não chegara. No grupo seguiam moças namoradeiras, mas que absolutamente não iluminaram seus azuis. Seu céu tinha nuvens melancólicas de um marcado sem resposta. Uma das estrangeiras esteve ali ao seu lado a escutar seus lamentos, enquanto todo grupo se perdia nas linhas de mapa perdido. Ricardo não era mal intencionado; pelo contrário, era educado e bem apessoado. Foi-se num lamento, deixando a nítida impressão que o caminho era da descoberta. Enganaram-se os estrangeiros, que no fundo se divertiam em ruas desconhecidas ao cair noite. Ricardo delicadamente queria fazer apenas lamento poético luso, e assim fingiu conhecer destino de forasteiros no mapa e nos sentidos entoados em desacerto.

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Amorfa

A sensação da beleza é amorfa; faz -se num instante, por uma silhueta em perfil que jamais revelará a fronte, ou mesmo por um traço em sua robustez ou delicadeza. A forma jamais se completa em ideal estético, mas transborda, vaza de si mesma, sublima.

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É nos implícitos que tudo é revelado. Tudo dito e tudo representado em pormenores parte do sentimento de insuficiência do discurso e da paisagem. As falhas aparecem em camadas que se aprofundam até o infinito. O que está lá se basta; nós é que não nos bastamos, ansiamos preencher; pobres de nós...

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O prazer não é um abismo ou um encontro assentado nos aparatos da fisiologia. A ciência peca toda vez que tenta fazer esse enquadramento preciso. É fora do quadro que mora a fruição, o prazer estético. O gozo está no pensamento, apenas nas idéias prévias que vão compor qualquer cena. O prazer é pensamento potencializado pelos sentidos e fisiologia.

sexta-feira, 24 de abril de 2015

...

No final das contas somos feitos é de silêncio. O som vem acidental. Por vezes, o som chega tão desavisado, que cala. Fica ali quietinho no pensamento de palavra boa, tanto tanto que cala. Resta o olho que diz, o nariz na inquietude do perfume, as mãos num desenho de afeto e o silêncio que grita.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Encantado

Não há melhor ideia para descrever a morte do que o encantamento de Rosa. Lembrara agora do seu pai preto que fora sem alarde em um boteco da avenida abaixo da casa dela. Silencioso até na despedida, pediu uma água e nem chegou a beber, pois já estava repleto. Viveu na simplicidade do fazer das mãos. Para tudo tinha um pensamento de conserto numa paciência que chegava irritar. Só muito mais tarde ela percebera o valor daquela calma; apenas uma forma de chegar na sua solução, porque não dava a mínima para as soluções rápidas dos outros. Cambaleava feito um copo que simula cair e não cai. Achava a vida boa e insistia nessa cantiga e no fazer impossível sempre possível. As mãos eram grandes e não encaixavam nos pequenos parafusos e canos submersos, mas ele esgueirava os dedos pacientemente até encaixar e desimpedir os caminhos. Ele foi silencioso feito alguém que não vai. Ficou encantado.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

A flor não está lá. A flor é apenas a percepção da flor. A flor pode nascer no cimento; pode nascer no campo infinito; pode nascer no coração da mente. A flor não está lá. A flor está cá.

?...

Eram a vela e o leme que direcionavam o barco na ventania, ou havia uma pipa a puxar-lhe o esqueleto pesado até o céu? A vida era um estar real, ou apenas um sonho vivido, lembrado ou esquecido, que fazia florescer a mente?

Veias abertas

'Veias abertas' chegou- me às mãos na tenra idade, mas chegou de um jeito acidental, meio corroído de traças, um tanto mofado, umas folhas caídas e outras prestes a cair. A edição antiga era severa, sem elementos pictóricos em capa, senão umas linhas mal postas em vermelho e branco; e claro, as garrafais veias abertas da América Latina. Adentrei aquele mundo de histórias da história meio assustada com tantos minerais escorrendo em letras, e uma delicada descrição, quase uma arqueologia do solo latino. Um sangue escorria grosso e brilhante em minhas mãos, enquanto meus olhos se enterneciam e se indignavam. Era a primeira vez que percebia esses veios cavados a escorrer riquezas e todo o efeito disso nas pessoas. Um tio por certo o lera,; não contara. Mas deixara nas caixas de livros antigos e eu o encontrara.

quinta-feira, 9 de abril de 2015

Quase amor

Aquele quase amor tivera o término por um parágrafo, nem tão longo, nem tão curto. Fora como um livro não escrito, suprimidas a introdução e a narrativa;, história interrompida. Os fatos ficaram suspensos por ordem do descuidado desamor que mais tarde viraria um oi mal saído feito um já foi. Curioso ter ido sem ter chegado, num passo esquecido. Aquela silhueta ficar-lhe-ia na lembrança do contrário; cuidado. Ia ao longe por alguém que amava, mãos postas sobre ombros e reclinar de cabeça aconchego. Por certo, podia amar, mas desamou em lapso de desatenção.

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O transcendente serve para dizer daquilo que não ousamos ou podemos entender. A poesia também faz esse papel; transcender...