Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quarta-feira, 9 de setembro de 2015
Se soubesse
Se tudo soubesse dessa matéria do viver; Se custasse uma vida aprender; apreender essa ode; Bastaria todos os lados em definição, finitude; Ah! Nem precisaria de mais saber em dado ponto concluso; Se soubesse gastaria menos peripécias, menos tentativas, menos evasões e encontros em desacerto; E por não saber fica assim emaranhado no caos, sem medida certa que medir, com ímpetos de conseguir ou naufragar; O se soubesse pesa desfeito e termina por fazer a mais elevada reverência que é não saber pra saber mais e aprender essa matéria, ora impulso, ora inércia; ora flor, ora ardor, ora amargura, ora candura; Se soubesse dessa matéria do viver, o que saberia?
Como a vida...
A escrita é cria da gente e do outro em nós; ela vem ansiosa pela ponta dos dedos numa conexão misteriosa, vinda de um lugar que urge se expor. É uma sede pelo branco sem margens, geometrias que se expandem e perdem o ar e puxam o ar. A própria vida é mesmo assim; um fazer de pontas de dedos.
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Avesso
É o avesso da vida, entrante, sumido em nós, guardado nos escondidos momentos de afeto, raramente divulgados; o que não se vê por fugidia intensidade, tão transitável que flui, escoa rio; atmosférico a rondar e brincar; que perpassa aquilo que teimamos chamar alegria; é em verdade, o avesso pulso de vida.
normal?
...a normalidade é a ideia mais absurda da humanidade; é por meio dela que se instala a pseudo humanidade, disfarces insistentes de uma lógica distante da natureza. Somos essa perfusão de substâncias endógenas e exógenas que nos submetem aos humores conhecidos e estranhos a nós mesmos.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Intrigância
Intrigava - a todas as formas de afetos. Aos exagerados concedia o perdão da empolgação, mas pensava - os como um torvelinho prestes a se desfazer. Aos escassos , cria - os dementes como uma má - formação congênita, um tipo ou subtipo eterno, calcificado na ausência dos sentidos pouco práticos. Por certo, não havia os afetos plenos de equilíbrio, mas um tipo curioso, respeitoso até na dúvida. Esse poderia se autogerar, retroalimentar-se como um processo fisiológico muito bem acertado com os sentidos pouco práticos e adoráveis. Então, esses eram os afetos menos intrigantes e mais intrigantes, que beiravam a verdade da delicadeza; uma certa justeza no sentir sem esgotamentos e transbordamentos fatais.
nu
A única forma de viver é estar nu; todas carnes, ossos e sangue à mostra, vestes compreensíveis da vergonha e devassidão; por que te vestes e te iludes? Viras retalhos em super exposição; aí é que te olham pra ver se encontram algum espírito; agora nu, estás repleto em suas partes inseparáveis; falam cada uma delas a esquecerem - se das outras, lindamente desavergonhadas, límpidas como um suspiro , vento na vela do barco, amplidão.
quinta-feira, 20 de agosto de 2015
Custa-nos...
Custa-nos amar o silêncio porque o primeiro murmúrio causou encantamento. Descoberta é assim; arrepia e provoca uma compulsão, tudo a se repetir. Aí o homem tentou tanto que conseguiu transformar balbucio em palavra, até que o gesto adormeceu. Por isso, custa muito amar o silêncio, atinar o olhar e aguçar as terminações sensíveis da pele, ouvir o vazio onde tudo se dá em devaneio de completude.
quarta-feira, 19 de agosto de 2015
Se me vives...
Se não morro é porque me vives; de tal maneira me olhas que me redime do instante pra chegar infinito; a palavra em escape da expressão cotidiana é o que vives em mim; faz -me ganhar a luz sob as pálpebras, fechadas e lúcidas; tapa - me os ouvidos dos ruídos todos, nós de gritos. Voa - me porque me vives e não morro.
terça-feira, 18 de agosto de 2015
Gonçalo Tavares
Acho tão límpido o que diz Gonçalo Tavares; 'as pessoas que nos morrem'. É como se viesse uma claridade sobre o tempo em lugar de pura percepção. A morte, então, não é uma estatística ou uma evidência substantiva, embora por vezes a queiramos assim. A morte tem natureza verbal; só é porque está em nós; as nossas pequenas e sucessivas mortes, e os nossos afetos e pessoas que nos morrem. E se nos morrem; deixam - nos a ideia irreprimível da oquidão, porque já não estamos os mesmos; morrem - nos cadentes, facho de luz até escuridão; desenlaces de memórias, pouco a pouco reprimidas no fluxo que segue tão adiante.
Palavras e dias
Somos as palavras e os dias; os dias e as palavras. Estivemos por longos tempos a esquecer os gestos em busca do suposto preenchimento dos dias; palavras nomes a nos sumir. Os dias e as palavras; esconderijos para a angústia do nada, ou seria melancolia a se provocar por essa repetição dias e palavras; tédio de perder o gesto na ilusão de dias e palavras para falar do céu e esquecer do céu nas matérias falsamente inertes.
...
Tantos a falar sobre sobriedade; a exaltar os bem comportados; a consciência profunda lúcida. Ora, como se enganam nessa busca da verdade; mortos vivos que não se permitem o prazer dos ébrios e alucinados. Há que se viver essa curva do sonho e do esquecimento; esse desnudamento; afetar os instantes.
Noites tontas
Ah...quanta lucidez em noites tontas; quantas percepções em olhos fechados, e se abertos quantas visões pictóricas; quadros perfeitamente alinhados em emoção, os registros mais sólidos da memória; noites tontas...
quinta-feira, 16 de julho de 2015
Além da margem
Fotografias não revelam o instante, mas o espírito do tempo em sua subjetividade e objetividade. A imagem na foto é o tempo e o espaço enquadrados para além da margem. É o esforço de percepção que se condensa e sublima em susto e ternura.
domingo, 5 de julho de 2015
A bola certeira
Tinha poucos anos para se tornar menos medíocre. Sabia que a grandiosidade era para poucos, se é que de fato existia; a grandiosidade. Fato é que pesava-lhe um egoísmo e desejo de solidão, embora não pudesse fugir da necessidade de acalento, dos cheiros e fumaças da cozinha, dos cobertores e lençóis superpostos em meio a ruído de mãe e da felina misteriosa. É que a proporção se igualava de súbito; vontade de silêncio e de som. O palavreado sucessivo cansava-lhe os ouvidos, mas em silêncio atormentavam-lhe os pensamentos insuspeitos absolutamente tendenciosos, por vezes rasos e torpes, por outras, profundos e amáveis. Não via encantamento em quase nada, mas disparava-lhe o coração por uma arte em tela, por um filme a correr, por uma música surpreendente, por um texto prosaico e poético a dizer-lhe verdades de forma condensada e certeira a fazer-lhe reconhecer-se estúpida e também inteligente. Descobria-se neste ato de se desentender dia após dia, nessa dúvida própria dos medíocres, não piores, simplesmente medianos, jogados no mundo em lance desacertado em busca da bola certa, encaçapada sem rodeio no aro.
quarta-feira, 1 de julho de 2015
sentido e significação
Para ver sentido na vida é preciso não perguntar sobre o sentido. Pois que toda pergunta é fatal; gera dúvida. Então, o sentido só se completa no vivido e não na busca do que viver; o sentido dos sentidos... e não na significação a que também denominamos sentido.
Fato
Estamos mesmo todos rodeados de fatos; fatos programáticos e contingentes, fatos vestimenta. A roupagem um fato indiscutível para reprimendas ou louvações. Um modo fático e fatídico também para olhares discretos e indiscretos. Desleixo e elegância se cruzam no mesmo ponto fatal, da submissão ao fato de como existir. Roupagens de dizeres e de fato, que no profundo rodeiam o mesmo barco.
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