Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Pensamentos
O prazer não é um abismo ou um encontro assentado nos aparatos da fisiologia. A ciência peca toda vez que tenta fazer esse enquadramento preciso. É fora do quadro que mora a fruição, o prazer estético. O gozo está no pensamento, apenas nas idéias prévias que vão compor qualquer cena. O prazer é pensamento potencializado pelos sentidos e fisiologia.
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...nesse circo desinteressante em que encenamos não quisera estar, mas no circo malabarismos, palhaços, brincadeiras sem fim em pernas de pau para alcançar o céu...
Inutilidades
Amava a utilidade das inutilidades; buscava-as todas a palpadelas, miradas, fungadas, saboreadas. Ouvia-as. Que paraíso instantâneo provocavam, avivavam e extasiavam. Ah! Inutilidades todas; quanta utilidade, quanta pessoalidade e adesão, tesão!
Sem fim
Toda vez que se punha a pensar naquela amizade sem fim, transbordava em tempestade. A palavra vinha oca, num vácuo de imprecisões de um amor que não se consolidava, mas explodia. Teimavam em dizer que ela era sua mãe, mas essa palavra não cabia nos máximos de sentir. A cada dia uma nova raiz crescia em seus pés, mas a ponto de se fixarem, rompiam a terra seca no incentivo de liberdade que aquela amizade inspirava. Toda proteção era apenas o desejo de libertar em alegria. Era além do tempo aquela amizade. O amor maior.
Gigantes
Estivera a pensar na utopia dos ouvidos; algo como um mundo fantástico de ouvidos gigantes para absorver todas as falas na infinidade dos detalhes, na sutileza, no perdão das incongruências; mas aí estaríamos todos mudos ávidos por ouvir o não dizer do outro; só ouvidos seríamos. Quanta gentileza nesse silêncio de ouvidos gigantes, quanto espaço para gesticular e abraçar e beijar e dar as mãos.
Deuses Pan
Somos todos deuses Pan, rodeados de pandemônios, pândegas, pandemias. Cabeças de homens com instinto ruminante, de pensar que não se acaba, com adornos córneos insistentes de histórias que escapam. Somos todos deuses pan, de pés laminados inflamados a caminhar por descaminhos em busca de anestesia. E os pelos que nos nascem em espessura e tamanho são essa mesma lembrança epitelial dos tempos ancestrais pan, que nos sobrepujam para esse contemporâneo fadigado de pensamento, loucos para correr pelos campos em desatino e encontrar, e tocar a flauta mágica num lamento de ironia e libertação.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Estão a dizer por aí que a vida bem vivida é desapego. Eu chamo isso de medo; pois que viver é tão só apegar. A planta que cresce é porque 'pegou', fez ninho na terra, enraizou. Gente semeia lembrança ou esquecimento. Apego é lembrar e produzir e sentir rumores, gritos e cantos. Se esquece fenece; morte em vida.
Sim; era só o começo, mas parecia um início sem fim. Sempre aquela alegria de estar e olhar e conviver. Não havia juras, enganos; era o sol e aquele calor por dentro. O corpo que se reclinava sob o dela e aguardava uma carícia, e palavra muda inundada de poesia. Era um mundo de pupilas que se tocavam e procuravam não ver; sentiam-se como em festas de luz. Era só começo, início do sem fim.
quarta-feira, 27 de janeiro de 2016
Águia
Sabia desde sempre que de perto ninguém era igual, que os traços se projetavam e ganhavam contornos de alma. Ela invadira aquela face de tal maneira a ver a fantasia exposta pela realidade. Ele tinha olhos de águia, redondos, vivos como a claridade. Seu nariz curvava-se levemente, enquanto as narinas abriam caminho para o ar do mundo. Cabia tudo naqueles pulmões, ou seriam sacos aéreos?! Um dia ela disse a ele; 'por fim, eram mesmo uma ficção'. E foi assim que nasceu a águia, de braços de longos e espessos tendões; quase asas. Os abraços faziam ninho em volta dela. A boca era um sonoro acalento de alimentar e acariciar. Os dedos eram de rapina; grudavam, mas também doavam; alimento na boca da cria. Todo o corpo era um tomar voo, e pra pousar quanta precisão e leveza. Era por certo um homem águia, um doce sonho real, a ficção dos olhos dela.
terça-feira, 26 de janeiro de 2016
'Coisinhas'
O amor é feito de coisinhas, instantes que se repetem na teia do dia a dia que provocam encanto. Em absoluto! Não se trata de um diminutivo-coisinhas-, mas de um contínuo improvável; gestos sem utilidade, quase estado de arte, de uma estética indizível. Essas coisinhas são segredos, um código próprio nascido pra encantar.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2016
Morrer é preciso
Nunca saberemos quantas vezes teremos que morrer pra desfrutar mais uma vez um amor, uma visão encantadora, uma fresta a deixar passar a luz pela janela, uma conversa de esquecer o entorno; e também, por vezes, morreremos pra morrer de novo nos idos a se repetir até vir uma clareza simples de viver. O que soa banal é apenasmente e grandemente o sopro da sabedoria, não dos livros ou das reflexões complexas; o que soa banal é somente soar, pois em verdade verte silêncio por não se traduzir em palavras, e é toda razão de morrer dia após dia e reviver, como um parto no tempo certo, aquela cabeça a se insinuar pegajosa para o vento do ar, para a claridade temível, para o sentir de solidão só para encontrar.
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Há tanto perigo submerso nas falas e frases repetidas, nos chavões endurecidos. Há tanta liberdade nos ditos de afeto retificados, ratificados, sovados e polvilhados. Há tanta suavidade nessa massa de dizer inesgotável, avessa aos pudores, degustativa, cheirosa e inebriante. Há tantas indeterminações fabulosas, enganos verdadeiros, enquanto absolutos pairam emburrecidos, pousam pesados. Há tanta liberdade negada a propósito de nada sentir.
sexta-feira, 11 de dezembro de 2015
Abraço escarlate
Sonhara com uma névoa escarlate, morna a flutuar em seu entorno, corpo. Uma ambiência quase sonora a beirar silêncio, medrosa de importunar o enlace suave, toque de nuvem. A névoa carregava, embalava, faiscava sem incendiar; vela cumprindo pedido. Era como uma oração sinuosa, um rito pagão santificado, exorcismos de sentir; a névoa morna; abraço escarlate.
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Vastidão
Pensara que sofria de vastidoes; enganara-se por certo. Vastidão era o além do além, algo que emergia pra submergir em seguida; não apenasmente seus passos longos de sonho até o infinito. Na vastidão cabia finitude de cada dia, limites adoráveis cobertos de gestos insuspeitos, silêncios e gargalhadas, sustos e encantamento. Vastidão não cabia na palavra, escorria rio e aportava e navegava . Era o bico enviesado da canoa com custo endireitado e depois o sossego do prumo por instantes. Era a voz que guardava o caminho desconhecido, o pai e o filho, a atitude matriarcal de cada dia, os ninhos escondidos, as fugas do olhar, os mergulhos de olhos em ondas de mar e mansidão de lagoa. Vastidão era retidão também; delicadezas em tempo vivido sem pressa, coração em sobressalto e calmaria, medidas sutis inauditas, sentidos de faces raras e tão comuns e tão exóticas. Vastidão é desmedida que não sufoca e desespera, é medida que chega em tempo de acalento.
terça-feira, 20 de outubro de 2015
contradição platônica
De tantos que somos, há alguém que mora na caverna da contradição iluminada, no lugar escuro onde a luz da imaginação aquece os sentidos do saber; aninhar, costurar historinhas singelas, tocar palavras esquecidas e inertes, afetar adormecimentos, cintilar verdes e azuis até avermelhar e aquecer não ditos sentidos, o outro em nós mesmos.
erótica
Se aos humanos fosse dado o poder de ver e sentir todo erotismo da vida; transcendente ao tocar dos corpos e ao vislumbre estético padrão; Se tudo o que fosse visto fosse um enternecer erótico, de singeleza que afronta e provoca; Então a busca do prazer deixaria de ser compulsão; Viraria, o prazer, um contínuo, infinitude de trocar; Nem haveria alheamento e indiferença.
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