Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quinta-feira, 18 de maio de 2017
Especulações de Eduardo Coutinho
Pois que deus não é mesmo o homem que morreu?! Disse a menina ; e rezava o pai nosso início, meio e fim conforme todos nós; todos a rezar pelo homem que foi lá pro céu, como diz a oração; vivemos mesmo é de dizer, de desdizer também...agora o dito redito fica tão mais dito, desmedido, ladainhas de viver e conviver...
O homem das pedras
Foi-se o homem das pedras....Sim, Todorov sempre foi pra mim o homem das pedras. O conhecido linguista estruturalista ,que analisou os formalistas russos, não passara pra mim de um homem das pedras. Ele dizia sobre o desejo mineral do homem, desejo de ser pedra. Poucas vezes na vida tive tamanha sensação de clarividência; o tal desejo mineral, a solidez desmanchada a custo pelas forças da natureza, e o fatal retorno à terra, sem apodrecimentos; uma deterioração lenta amiga do tempo, suficiente pra condensar e expelir energias, suficiente para construir sabedoria. Pedra...confesso aqui meu desejo mineral, esquelético descarnado das futilidades do mundo. Confesso meu desejo mineral, densidade e silêncio, paralisia pensante a passar por tudo e permanecer, terra. Confesso meu desejo mineral...
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Há tempos ela questionava o porquê dos seus interesses tão variados, possivelmente divergentes. Tomava-a uma angústia irreprimível de passar por tantos lugares em tempos diminutos, como o da hora e o do dia. No ano então, perdia-se completamente sob o constrangimento da memória perdida, das palavras, dos nomes, das cores, dos sons e dos cheiros; tantos eram os caminhos de destinos provisórios. Sim, eram provisórios porque se metiam a entrar uns pelos outros em forma de fronteira eterna; da mesma forma que se encontravam e se identificavam, sumiam-se os destinos e se faziam pontos de largada, recomeços incessantes.
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Toda vez que teimamos em fazer combinação de palavras estamos querendo é ser reconhecidos, ser devassados por dentro e por fora, como uma coleção de escrituras mágicas, repletas de fórmulas que traduzem ou obstruem o entendimento sobre nós mesmos. Combinação de palavras só é dada para quem nos lê e ousa perceber ou incompreender. Uns nunca saberão sobre nós, escritos encantados. Outros terão a ousadia, aventurar-se-ão nesse caminho de desencontro e tentação.
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Primeiro não veio a palavra. Veio o gesto, veio o som. Palavra é coisa que se usa para compensar o seu próprio desuso; dificilmente cabe bem, ora até cabe por força das circunstâncias, da emoção. Em outras, soa falsa, malidicente, inapropriada. Primeiro não veio a palavra. Aliás, não se sabe o que veio primeiro, quando muito, sabe-se o que veio antes.
mar ilha, ilha mar
Pois então, o mundo e suas 'coisas' não são todos representantes em oposição? Não existem por oposição?! Os mundos e os desmundos; as coisas e as não coisas. A saber; não coisas podem ser sentimentos, imaterialidades quaisquer, essas coisas que nos estranham, atormentam e encantam?! Pois então; não é que outro dia ela sonhara que o mar é que era a ilha?! Sim, estava ele ali todo azul e denso de ondas medianas a conversar com terras em volta. Ele, de fato, não queria assaltar as terras de susto. Enquanto isso, ela nadava e se debatia dentro do azul, essa fluidez imensa. Restrito feito uma uma ilha, o mar cercado de terra. Era pois o aquoso quase terra, a partir de onde não se navegava. Então, possível talvez fosse navegar na terra?! Ora, é que mar e terra nem são tão distantes assim, opõem-se por pura convenção, necessidades práticas da racionalidade. O mar dela se fez terra, ao nadar não se desgrudava como se fosse árvore fincada! Queria então desesperadamente navegar na terra. Ironias! É como desmundos; por vezes é o mundo distante mais próximo, o mundo de cada um. E as não coisas! Ah, as não coisas, que belas coisas. Pode-se com elas fazer um mundo, são geratrizes. Pois então, nem há mais oposição! Meras muletas da razão!
Viagens
Há três tipos de viagem; aquelas em que excursionamos por lugares desconhecidos delimitados nos mapas, aquelas em que nos embrenhamos por nossos pensamentos ao ponto de chegarmos a lugares até inesperados, e a mais aventureira de todas; o sonho. Há quem diga sonhar acordado, mas aí é uma estratégia de pensamento. A viagem sonho mesmo não goza da racionalidade, pois que é da ordem do desejo ainda que inconsciente. Aqui não há limites afetos à realidade e sim o espaço fluido, as inversões, as contaminações de toda ordem; nada de assepcias. Ora, não era que ela sonhara assim com aquela figura aparentemente distante?! Pois que estavam os dois frente a frente em um encontro não marcado, distância de menos de meio metro, assentados frente a frente a dizer do quanto tempo...Ela tocou levemente a face dele, ao que ele registrou no ato saber que ela faria aquilo. O sonho era pois a constatação da expectativa imaginada do outro, a dizer dela, espelhada nele, e o que ficou na verdade foi simplesmente a sensação real provocada pelo toque no sonho; os dedos por sobre aquele rosto barbado. Em seguida, o beijo roubado ao lado da boca, tão próximo, que o registro poderia ser outro; uma prova inconfessável de um desejo avassalador. Mas não, apenas um beijo torto, enviesado, desejado, mas mal dado. Agora o mais surpreendente veio abaixo dos pés; aqueles felinos comprimidos sobre o piso incorreto em sobressalto.Quase dezena deles, aparentemente reais, até que já eram uma ninhada e sua mãe, até que começavam a virar figuras multicoloridas com rabos a pavão, jubas em leque. A realidade sumiu no sonho, perdeu totalmente a assepcia do real, o esperado da forma. Fez-se o sonho enfim; uma aventura inesperada. Seriam os felinos o desviar da incongruência daquele encontro irreal?! Seriam eles a verdadeira realidade da mente dela? A fantasia daquilo que subverte o real e, por fim, muito mais concreto na profundidade do olhar, a invenção do olhar? O encontro preto e branco a ganhar cor felina em efeitos surreais? Não à toa pode-se confundir sonho e arte; ambos sem as assepcias da realidade.
Mágoa
Tem gente que magoa a poesia. Ela cerca, dá volteio, sobrevoa; não tem jeito. Tem gente que magoa. Poetar reserva a mágoa do nunca lembrado, pássaro ido.Tem gente que acolhe poesia, faz graça pra ela; sopro de beijo mesmo sem beijar. Poetar também reserva contentamento, alento. Poesia é apenas o tempo; deixa entrar ou deixa passar.
Pensamentos
O prazer não é um abismo ou um encontro assentado nos aparatos da fisiologia. A ciência peca toda vez que tenta fazer esse enquadramento preciso. É fora do quadro que mora a fruição, o prazer estético. O gozo está no pensamento, apenas nas idéias prévias que vão compor qualquer cena. O prazer é pensamento potencializado pelos sentidos e fisiologia.
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...nesse circo desinteressante em que encenamos não quisera estar, mas no circo malabarismos, palhaços, brincadeiras sem fim em pernas de pau para alcançar o céu...
Inutilidades
Amava a utilidade das inutilidades; buscava-as todas a palpadelas, miradas, fungadas, saboreadas. Ouvia-as. Que paraíso instantâneo provocavam, avivavam e extasiavam. Ah! Inutilidades todas; quanta utilidade, quanta pessoalidade e adesão, tesão!
Sem fim
Toda vez que se punha a pensar naquela amizade sem fim, transbordava em tempestade. A palavra vinha oca, num vácuo de imprecisões de um amor que não se consolidava, mas explodia. Teimavam em dizer que ela era sua mãe, mas essa palavra não cabia nos máximos de sentir. A cada dia uma nova raiz crescia em seus pés, mas a ponto de se fixarem, rompiam a terra seca no incentivo de liberdade que aquela amizade inspirava. Toda proteção era apenas o desejo de libertar em alegria. Era além do tempo aquela amizade. O amor maior.
Gigantes
Estivera a pensar na utopia dos ouvidos; algo como um mundo fantástico de ouvidos gigantes para absorver todas as falas na infinidade dos detalhes, na sutileza, no perdão das incongruências; mas aí estaríamos todos mudos ávidos por ouvir o não dizer do outro; só ouvidos seríamos. Quanta gentileza nesse silêncio de ouvidos gigantes, quanto espaço para gesticular e abraçar e beijar e dar as mãos.
Deuses Pan
Somos todos deuses Pan, rodeados de pandemônios, pândegas, pandemias. Cabeças de homens com instinto ruminante, de pensar que não se acaba, com adornos córneos insistentes de histórias que escapam. Somos todos deuses pan, de pés laminados inflamados a caminhar por descaminhos em busca de anestesia. E os pelos que nos nascem em espessura e tamanho são essa mesma lembrança epitelial dos tempos ancestrais pan, que nos sobrepujam para esse contemporâneo fadigado de pensamento, loucos para correr pelos campos em desatino e encontrar, e tocar a flauta mágica num lamento de ironia e libertação.
quarta-feira, 10 de agosto de 2016
Estão a dizer por aí que a vida bem vivida é desapego. Eu chamo isso de medo; pois que viver é tão só apegar. A planta que cresce é porque 'pegou', fez ninho na terra, enraizou. Gente semeia lembrança ou esquecimento. Apego é lembrar e produzir e sentir rumores, gritos e cantos. Se esquece fenece; morte em vida.
Sim; era só o começo, mas parecia um início sem fim. Sempre aquela alegria de estar e olhar e conviver. Não havia juras, enganos; era o sol e aquele calor por dentro. O corpo que se reclinava sob o dela e aguardava uma carícia, e palavra muda inundada de poesia. Era um mundo de pupilas que se tocavam e procuravam não ver; sentiam-se como em festas de luz. Era só começo, início do sem fim.
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