Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sexta-feira, 28 de março de 2008
Viúva Ambrósia
Sol com chuva; casamento de viúva...Sol com chuva; casamento de viúva...Esse rifão mais parecido com uma cantinela, ciranda de gente grande, acompanhou toda a infância e adolescência de Carmem. Nunca houvera em toda a história dos tempos modernos uma família de tantas tias viúvas, como a de Carmem. Mas eram viúvas recidivas; enviuvavam, casavam, enviuvavam, casavam...Em uma delas, Ambrósia do Carmo, a viuvez parecia cármica. Já estava na quarta, mas não desistia nunca e confiava piamente no rifão gasto, mas certeiro do sol com chuva. A viúva era mesmo um manjar dos deuses aos olhos dos moçoilos de todas as idades e jeitos. Andava gingado, sempre de saias no joelho bem justas ou vestidinhos floridos, que sorriam junto com seu rebolar. O primeiro marido foi ajuntamento de conveniência, coisa de ‘desejos’ da família. Contraiu doença grave, irremediável, morreu. Ambrósia nem sentiu tanto. O segundo marido conhecera em um dia de finais de março, quando o sol teima em não se despedir e a chuva se intromete copiosa, exagerada. Nesses tempos de antagonismo harmonioso é que Ambrósia conheceu Adalberto. Tudo por culpa de uma carona de guarda-chuva e um roçar de braços adoráveis, a que eles se refeririam mais tarde como “sem malícias”. Adalberto como não poderia deixar de ser, morreu de solicitude junto com um ceguinho, a quem atrapalhadamente tentava dar os braços para atravessar a rua. Um carro virou à toda e não houve salvação. O terceiro, contrariando o rifão, veio em um dia de verão sem chuva mesmo, na sorveteria do Seu Amaro, numa paquera desenfreada, com lambidas insinuantes e uma aproximação cremosa, açucarada. As altas taxas de açúcar no sangue, potencializadas pelos sucessivos encontros para tomar sorvete, acabaram por levar Roque para o lado de lá. Os casamentos de Ambrósia, não se sabe o porquê, duravam pouco; assemelhavam-se a tramas novelescas de início e final marcado. O quarto esposo então; esse deu ao rifão todas as odes. Chamava-se Último o último. Casaram-se em um dia coroado de pingos de ouro de um dia 28 de março. Mas Ambrósia tinha medo mesmo era do nome Último, porque pelas estatísticas dos seus casamentos, a chance de encontrar um amor em dia de sol com chuva era mesmo grande, e nesses dias ela se esforçava mais nos caprichos da conquista. A sobrinha Carmem, já muito adiante da idade esperada de se casar, passava horas conversando com Tia Ambrósia. Quem sabe não pegava sua forma de ser e se livrava de inaugurar uma nova era na família, a das solteironas. E quem sabe o rifão Sol com Chuva não podia também ajudar no seu caso.
terça-feira, 25 de março de 2008
Brumas e Bruxas
Lembranças, às vezes, nenhumas;
Às vezes, algumas;
Ânsias;
Intrusas;
Sem tempo;
A qualquer tempo;
Lembrumas;
Do que se foi, saudades;
E não foi;
Enganos na mente;
Falhas;
Rasuras;
Rasas;
Profundas;
Por vezes, realidades;
Ficcionalidades;
Lembruxas.
Às vezes, algumas;
Ânsias;
Intrusas;
Sem tempo;
A qualquer tempo;
Lembrumas;
Do que se foi, saudades;
E não foi;
Enganos na mente;
Falhas;
Rasuras;
Rasas;
Profundas;
Por vezes, realidades;
Ficcionalidades;
Lembruxas.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Sonora Amargura
Tudo começou de madrugada, logo depois da ingestão forçada de uma imensa cápsula de tetraciclina. Lara nunca entendera o motivo de cápsulas tão gigantescas para cobrir uma quantidade ínfima de pó; só mesmo para agarrar na garganta, no esôfago e dar aquela sensação ilusória de que tamanho remédio, tamanha cura. O sono vinha, ela dormia. O sono ia, ela sentia aquela tetra volumosa, inconveniente, que não deslizava nem a poder de reza.
Finalmente aproximava-se as seis da manhã. Foi ao quarto da mãe se queixar da noite terrível, do estômago, enrolada no lençol e com travesseiro na mão. A mãe a olhou com a aquela cara de quem já conhecia a cena. ‘Lá vem essa menina...meu Deus o que será...ou vem por insônia ou dor...é sempre assim.’ - “Que que é Lara?” – “Passei uma noite de cão, tô passando muito mal, é o estômago; desse jeito como vou passar o dia, resolver tudo que preciso hoje? A cada ‘drama’ exposto um movimento doloroso na boca do estômago. – “Espera aí...vou preparar um chá de boldo.” Mãe é uma maravilha, e de filha dramática então, muito mais.
Veio então o famoso chá morninho, carregado pelas mãos solicitas de Rute. Adentrou o quarto e encontrou Lara sentada na beirada da cama com a costumeira cara de desespero; não pôde conter as gargalhadas. Enquanto isso, Lara esbravejava contra o sorriso fácil da mãe em face de tamanha tragédia. Pegou o copo e começou a engolir aos poucos. Não era nada fácil, os goles queimavam a cada escorregadela goela abaixo. Aquela amargura escorrendo e Lara cada vez mais amargurada. E Rute tranqüila, sempre crédula dos poderes mágicos do boldo; eles nunca falharam; não seria desta vez. E não foi mesmo. O estômago de Lara permaneceu meio dolorido por algumas boas horas, mas não tão indomável que a impedisse de realizar as tarefas do dia.
Boldo! Agora Lara percebia a sonoridade nem tanto amargurada do exclamar do Boldo. Boldamos nós, boldam vocês e segundo uma amiga de família de Lara, de muitos anos: “minha mãe sempre disse, se está se sentindo mal, toma Boldo, porque ele serve pra curar sete tipos de mal.” Coincidência ou não Naildes fez uma visita à casa de Lara exatamente na tarde depois da manhã terrível, em que seu estômago se contorcia, ardia, fazia nós.
O chá de Boldo foi parar até em página da Bíblia de Rute, justamente, em cima de uma oração que fazia referência a umas dores que ela sentia e não conseguia explicar. O restinho do líquido ficara sobre a mureta da janela do quarto e desabou sobre o livro sagrado no salmo 102, que dizia entre outras lamentações: “Pois meus dias desaparecem como fumaça; meus ossos queimam como ardor de brasa” e “Por causa do meu suspiro dolorido, meu osso adere em minha carne.” Rute deu por definitivo o milagre boldal e finalmente pôde levar o texto descritivo detalhado para a próxima consulta médica ortopédica.
Finalmente aproximava-se as seis da manhã. Foi ao quarto da mãe se queixar da noite terrível, do estômago, enrolada no lençol e com travesseiro na mão. A mãe a olhou com a aquela cara de quem já conhecia a cena. ‘Lá vem essa menina...meu Deus o que será...ou vem por insônia ou dor...é sempre assim.’ - “Que que é Lara?” – “Passei uma noite de cão, tô passando muito mal, é o estômago; desse jeito como vou passar o dia, resolver tudo que preciso hoje? A cada ‘drama’ exposto um movimento doloroso na boca do estômago. – “Espera aí...vou preparar um chá de boldo.” Mãe é uma maravilha, e de filha dramática então, muito mais.
Veio então o famoso chá morninho, carregado pelas mãos solicitas de Rute. Adentrou o quarto e encontrou Lara sentada na beirada da cama com a costumeira cara de desespero; não pôde conter as gargalhadas. Enquanto isso, Lara esbravejava contra o sorriso fácil da mãe em face de tamanha tragédia. Pegou o copo e começou a engolir aos poucos. Não era nada fácil, os goles queimavam a cada escorregadela goela abaixo. Aquela amargura escorrendo e Lara cada vez mais amargurada. E Rute tranqüila, sempre crédula dos poderes mágicos do boldo; eles nunca falharam; não seria desta vez. E não foi mesmo. O estômago de Lara permaneceu meio dolorido por algumas boas horas, mas não tão indomável que a impedisse de realizar as tarefas do dia.
Boldo! Agora Lara percebia a sonoridade nem tanto amargurada do exclamar do Boldo. Boldamos nós, boldam vocês e segundo uma amiga de família de Lara, de muitos anos: “minha mãe sempre disse, se está se sentindo mal, toma Boldo, porque ele serve pra curar sete tipos de mal.” Coincidência ou não Naildes fez uma visita à casa de Lara exatamente na tarde depois da manhã terrível, em que seu estômago se contorcia, ardia, fazia nós.
O chá de Boldo foi parar até em página da Bíblia de Rute, justamente, em cima de uma oração que fazia referência a umas dores que ela sentia e não conseguia explicar. O restinho do líquido ficara sobre a mureta da janela do quarto e desabou sobre o livro sagrado no salmo 102, que dizia entre outras lamentações: “Pois meus dias desaparecem como fumaça; meus ossos queimam como ardor de brasa” e “Por causa do meu suspiro dolorido, meu osso adere em minha carne.” Rute deu por definitivo o milagre boldal e finalmente pôde levar o texto descritivo detalhado para a próxima consulta médica ortopédica.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Quixote Pança; Sancho de La Mancha
Há algum tempo tento decifrar os segredos do cavaleiro andante e do escudeiro de Cervantes. Um cavaleiro triste, esquálido, sempre a sofrer arranhões e feridas de performances em batalhas imaginárias, e além de tudo eternamente apaixonado por Dulcinéia Del Toboso. Um escudeiro pançudo, ‘experimentando’ ser governador da Ilha Baratária. Os dois tão juntos; misturados na loucura ou na ilusão? Andam tão próximas essas duas; praticamente irmãs gêmeas. Dizem por aí que o que as separa é apenas o tempo. A loucura seria um estado permanente. A ilusão, inevitavelmente, refém da lucidez. Ou ainda, que a loucura seria uma sucessão de ilusões. Como andam juntas as duas, femininas e confidentes, a separação é mesmo improvável. Por loucura ou ilusão, La Mancha e Pança eram extremados, e o excesso é mesmo coisa da imaginação, posto que o equilíbrio se dá muito mais com a razão. Quando têm dores de amores, dizem as pessoas: “estava louco, foi pura ilusão.” E quando sonham com o sucesso, a felicidade plena, dizem: “isso não existe, a felicidade é pura ilusão.” Outro dia desses vi um andarilho fazendo um solilóquio, ou seria um diálogo imaginário? Ele se deliciava em gargalhadas e gestos exagerados, no seu mundo paralelo. E tem tanta gente aí que se delicia em pensamentos tresloucados, e as vemos tão comedidas, controladas. Vivemos assim, cercados por essas femininas deusas; Loucura, Ilusão e Razão. Todas as três desarazoadas, sustentáculos da existência, as responsáveis pela mistura da pândega e do comedimento, da alegria e da tristeza, das panças e manchas, dos Quixotes e Sanchos.
terça-feira, 11 de março de 2008
A luz de Vagner
Tem gente que faz a gente sorrir por dentro; que deixa a gente boquiaberto mesmo de boca fechada e que faz a gente pensar, pensar...e se encantar. Roberta nunca achara a profissão de motoboy das mais gratas. Pelo contrário, sempre pensara que “rimava” com caos, espaços estreitos, tempos corridos, contados, entrega isso, busca aquilo, quase sempre, sem sequer um olhar. Mas Vagner mudou tudo. Tornou-se em poucas semanas o preferencial no escritório onde ela trabalhava. Tinha uma delicadeza, um sorriso no rosto, que não vira em sua vida muitas vezes. Não era uma norma de comportamento. O sorrir era leve, fácil, sem nenhum esforço. A fala era baixa, pausada, sem os respiros da correria. Se demorava a chegar, desculpava-se. Vagner exalava gentileza, tanto que um dia ligou do correio e perguntou: o dinheiro que me deu não é suficiente para despachar a encomenda, quer que eu pague e depois acertamos? Luísa, que também trabalhava no escritório e atendera o telefone, ficou visivelmente afetada: Não Seu Vagner...pode não...o valor é alto...não tenho essa quantia no meu caixa. As meninas olharam umas para as outras, desta vez, boquiabertas de verdade. E esse foi só um dos episódios atenciosos de Vagner. Toda vez que o Vagner vinha, todos se sentiam tranqüilos pelo serviço bem feito, mas Roberta pensava: será que quem recebe as encomendas tem idéia de quem faz a entrega? Outro dia desses Roberta solicitou (era impossível mandar) a Vagner que levasse uma luminária. Ele demorou a chegar, pediu mil desculpas e se foi com o sorriso de sempre...Roberta sabia que o baú da moto de Vagner era uma espécie de compartimento do coração. Que o que Vagner levava jamais seria uma entrega qualquer. Que aquela luminária adquirira a partir daquele momento outra luz, a luz do gentil Vagner.
quarta-feira, 5 de março de 2008
O dia do Pacabá
Sacola cheia é uma agonia. Tem dia que chega tudo novinho, fresquinho. Tem dia que estraga; e dia de domingo estraga mais ainda. Os preços caem; tem gente que sabe.Tem gente que não sabe e presencia todo o ritual. Tem gente que participa, tem gente que olha. Foi assim com Dona Carmem e Lucinha, sua filha. Domingo é dia do “Pacabá”; não tem placa avisando, mas todo mundo vai lá encher a sacola. O dia ficou célebre depois que Toninho, funcionário mais comunicativo da rede ABC, virou porta-voz da promoção imperdível. Funciona assim: as bancas vão esvaziando com o preço do sacolão, mas têm frutas e legumes que por estarem fora de safra são cotados lá em cima e a banca fica cheia. Domingo já viu, até empregado de sacolão descansa um pouco, sai mais cedo. Resultado: tudo perece e o povo padece. Assim, Toninho ficava de olho no movimento das bancas até que escolhia estrategicamente o momento e gritava com aquele ar meio risonho, sarcástico, incitando a “boiada”: Vamo lá pessoal, uva itália por apenas um real o cacho, vamo lá gente, é Pacabá....O Pacabá entrava vertiginosamente nos ouvidos e todos se amontoavam. Era uva, pêra e cenoura baroa pra todo lado. As donas mais cheiinhas liderando, as mais magrinhas e tímidas, forjando uma educação pra lá de relativa, mas atordoadas por perderem a competição. E Carmem? Atrasada, decepcionada com a banca vazia, enquanto Lucinha balançava a cabeça horrorizada com a cena e dizia: já falei mãe, hoje não é dia de vir ao sacolão. Foi sempre assim; quando iam as duas, justamente, no Domingo, não aproveitavam o Pacabá, mas o resto dos ‘sacoleiros’ saíam orgulhosos da economia, de sacola cheia e cheios de esperança para o próximo Pacabá.
terça-feira, 4 de março de 2008
No bolo
Passamos olhamos não vemos
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Estátuas móveis móveis estátuas
Olhares harmônicos dissonantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
A objetiva mira registra
O existir frágil sem ágio
De sorriso largo apertado
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Estátuas móveis móveis estátuas
Olhares harmônicos dissonantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
A objetiva mira registra
O existir frágil sem ágio
De sorriso largo apertado
Tantos iguais diferentes
Uns dançantes outros parantes
Serão ninguéns? Serão alguéns?
domingo, 2 de março de 2008
Aura
Para Walter Benjamin, “Aura” é tudo aquilo que por mais próximo que esteja permanece distante. É uma espécie de atmosfera que paira em torno de um objeto. Enfim, algo que se percebe, mas não se toca. Diz respeito ao intangível, intocável, sagrado, mágico. Esse conceito está ligado à obra de arte, à sua concepção como tal e como figurava em tempos passados.
Vive-se hoje em meio a um turbilhão de imagens, as quais os olhos humanos sequer conseguem codificar, quem dirá refletir, sentir, apreender. Será o triunfo ou o fracasso dos tempos modernos? Tal qual como a arte, nós, seres desse mundo, somos revestidos por uma “aura”. Os avanços da tecnologia permitiram fotografar a “aura” e definir um tipo de mapa energético que reflete o estado psíquico, e por que não dizer o espírito de uma pessoa. Ora, segundo o sentido dicionarizado, espírito pode ser humor, graça, imaginação, o que foge ao material.
Sendo a expressão da genialidade, da criação, o objeto de arte é parte da natureza humana, portanto, confunde-se com o ambiente coletivo, com a vivência e a cultura do indivíduo. Talvez fosse mais fácil entender a arte por meio da complexidade do homem. Da mesma forma que a arte, o homem é sacralizado, vira uma espécie de semi-deus, metade matéria, metade alma.
Quando a alma se perde, dando lugar ao predomínio do racional, perde-se a dimensão da percepção, os sentimentos tornam-se fracos, banais. Fazer uma ode à “aura” seria um passo para a humanização. Perceber o outro como original é cobri-lo de energia, aura. É o espaço da concessão e do respeito, como outrora eram vistas as pinturas e as esculturas.
Vive-se hoje em meio a um turbilhão de imagens, as quais os olhos humanos sequer conseguem codificar, quem dirá refletir, sentir, apreender. Será o triunfo ou o fracasso dos tempos modernos? Tal qual como a arte, nós, seres desse mundo, somos revestidos por uma “aura”. Os avanços da tecnologia permitiram fotografar a “aura” e definir um tipo de mapa energético que reflete o estado psíquico, e por que não dizer o espírito de uma pessoa. Ora, segundo o sentido dicionarizado, espírito pode ser humor, graça, imaginação, o que foge ao material.
Sendo a expressão da genialidade, da criação, o objeto de arte é parte da natureza humana, portanto, confunde-se com o ambiente coletivo, com a vivência e a cultura do indivíduo. Talvez fosse mais fácil entender a arte por meio da complexidade do homem. Da mesma forma que a arte, o homem é sacralizado, vira uma espécie de semi-deus, metade matéria, metade alma.
Quando a alma se perde, dando lugar ao predomínio do racional, perde-se a dimensão da percepção, os sentimentos tornam-se fracos, banais. Fazer uma ode à “aura” seria um passo para a humanização. Perceber o outro como original é cobri-lo de energia, aura. É o espaço da concessão e do respeito, como outrora eram vistas as pinturas e as esculturas.
O caso do relógio
Um dia desses, estava eu a caminhar pela rua;
Passou alguém por mim: quantas horas são?
Bruscamente levei o braço ao alcance dos olhos;
O pulso estava vazio;
É que outro dia desses, lancei as horas ao ar;
Perdi a máquina do tempo;
O tempo se fora com uma comemoração, num súbito menear de membros;
Desde então estive relutante;
Não quis mais possuir as horas;
Qual a razão do interlocutor?
Por que querer saber quantas horas?
Se horas nunca são,
Apenas se vão?
Passou alguém por mim: quantas horas são?
Bruscamente levei o braço ao alcance dos olhos;
O pulso estava vazio;
É que outro dia desses, lancei as horas ao ar;
Perdi a máquina do tempo;
O tempo se fora com uma comemoração, num súbito menear de membros;
Desde então estive relutante;
Não quis mais possuir as horas;
Qual a razão do interlocutor?
Por que querer saber quantas horas?
Se horas nunca são,
Apenas se vão?
quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008
Biquinho
Desde o dia em que experimentara a primeira vez gostara. Aquele ardor adocicado feito aperitivo, estalado e molhado a inundar toda boca. O biquinho vinha assim naturalmente como sinal de quero mais ou, então, em um ansioso apertar, para não perder o gosto. Foi quando surgiu a boa nova: Clarisse ia ter um pé em casa. Sua mãe havia preparado um canteiro bastante adubado, que já tinha dado alface e almeirão, verdes e macios. A couve é que nunca foi essas coisas; criava mofo antes de crescer, ficava ‘engruviada’ como dizia dona Ruth. Agora o pé de pimenta biquinho; esse fez história naquela casa e em outras também. As colheitas se sucediam após repetidas floradas; branquinhas e pequeninas, as florzinhas iam ficando graciosamente avermelhadas e atrevidas; faziam bicos de todos os tamanhos e foram parar na mesa de toda a família. Cada colheita para Ruth e Clarisse era como se fosse a última. Não era uma ‘biquinho’ qualquer, tinha ares de biquinho, mas personalidade de malagueta. Todos se encantaram com a pimenta biquinho de Ruth, e se encabulavam com uma produtividade tão duradoura; até que um dia o pé de biquinho começou a ‘engruviar’. Agora, todos esperam as pimentas dos brotinhos daquele primeiro pé; fazem encomendas e torcida para que o gosto seja doce e ardido, deliciosamente intrigante como das primeiras ‘biquinhos’.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Pequeno ensaio sobre prosa e poesia
Para essa já repetida discussão me coloco, ou melhor, não me coloco. Se por vezes ouço falar de prosa e poesia me confundo sobre o estatuto do verso e dos parágrafos, e não julgo quem faz prosa poética ou poesia prosaica, se é que alguém já instituiu essa última categoria. Curiosamente, a poesia caberia na prosa e a prosa não caberia na poesia. Seriam compartimentos compatíveis e incompatíveis, matematicamente o contém e o não contém. Ora, poderíamos então dizer que a prosa é comum, vulgar, ordinária? E assim elevaríamos os poetas, como fazedores de combinações mágicas, surpreendentes? E o comum da fala, do prosear tão humano ficaria totalmente distanciado dos ditos metafóricos, das comparações inevitáveis, do sentimento que nomeia, do nome, que antes de tudo é um arremedo da razão sem razão? Vamos supor assim a prosa limpa, a poesia limpa; uma tentativa vã, porque até o silêncio é a poesia do nada e do tudo, é a prosa do não e do sim. O que diremos então dos gestos e dos ditos que anunciam e que silenciam? E das rimas do dia-a-dia, do acaso como “Bom Dia Maria!” E a poesia concreta que se legitima pelo vazio no papel, pela repetição, às vezes irritante dos zumbidos Tum, Tum, Tum, Tumumumumummmm????!!!! E onde ficam os diálogos, a imaginação algumas vezes dúbia, fruto do desejo, do sonho inevitável que preenche os vazios de poesia? Desse falar com o outro tão “prosaico”, calculado, e que de tão medido revela a si, em si o que se quer esconder? Impossível não pensar nas fronteiras, na delicadeza das fronteiras, no que elas têm de mais belo, porque são a tentativa mais humana e desumana de separar, de fazer compreender algo, para depois se desfazerem em sua fragilidade.
quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008
Sexta Treze
Um pra cá, um pra lá... Dois pra cá, dois pra lá... Mais ou menos assim se deu o curioso encontro entre Lara e Juan. Tentavam dançar o forró nordestino, “amineirado” até demais. Tudo começou quando Larinha recusou conceder sua companhia, em princípio, nem tão dançante assim, a um aparentemente digno cavalheiro. Juanito ficou um tanto indignado com a recusa da moça. Então, propôs a ela dançarem, claro, depois que se beneficiasse de uma bebidinha, já que não tinha um tão bom julgamento de seus movimentos ritmados. Uma conversa um tanto inusitada, desprentesiosa, avolumou-se e a pista foi encolhendo cada vez mais. Lara e Juanito aprenderam a rodopiar feito pião.
Lara e Juanito dançavam um ritmo próprio, indefinido. Juanito era todo hormônios; Larinha, pensamentos e algumas provocações. A noite foi passando, o salão de corpos envolventes foi se esvaziando, e Juanito ansioso pelo desfecho. Chegou a hora de ir embora. Larinha e Juanito foram na frente; Terezinha, amiga de Larinha, no banco de trás do automóvel. Terezinha aportou. Larinha e Juanito seguiram, ou melhor, pararam em uma dessas ruas mal iluminadas. Aí começaram os amassos, mãos e pernas desordenados, algumas lutas, até que um grande clarão invadiu o espaço erótico-cômico; coisas da vida. Um “milita” parou rente ao vidro do condutor e solicitou a descida do vidro. Lá vinha a tal advertência, e pior, o constrangimento: “melhor vocês se dirigirem a um drive-in ou a um motel para namorar”. Juanito, antes todo tesão, teve que acomodar coisas, elogiar a ‘boa vontade’ do policial, mostrar os documentos. Graças a Deus, eles existiam.
Seguiram caminho em direção à casa de Larinha. Após o corte abrupto da cena, ficaram desanimados. Foi quando Juanito acabou de parar o carro, paralelo ao portão da moça. Pensou: já que estou aqui mesmo, melhor tentar um outro final. Iniciou-se a nova batalha. Juanito sempre abusado, Larinha recuando, recuando, até que deu a história por encerrada: olhou para fora e viu que a primeira luz do dia já se insinuava. - Melhor ir dormir! - Não...não, podemos ir para outro lugar..., sugeriu Juanito. Larinha pôs-se a descer do carro, quando Juanito fez a última pergunta: - Nunca estive por essas bandas, como faço para voltar? Larinha indicou o caminho. Juanito já sonolento e insatisfeito com o término da questão tomou a direção contrária e passou horas tentando chegar em casa. Chegou, dormiu um pouco e quando acordou lembrou-se da noite, do dia da semana, do número: treze. Coincidência ou não...conheceu Larinha naquele dia, pelejou a noite inteira, perdeu o caminho de volta para casa...Nunca mais viu Larinha.
Lara e Juanito dançavam um ritmo próprio, indefinido. Juanito era todo hormônios; Larinha, pensamentos e algumas provocações. A noite foi passando, o salão de corpos envolventes foi se esvaziando, e Juanito ansioso pelo desfecho. Chegou a hora de ir embora. Larinha e Juanito foram na frente; Terezinha, amiga de Larinha, no banco de trás do automóvel. Terezinha aportou. Larinha e Juanito seguiram, ou melhor, pararam em uma dessas ruas mal iluminadas. Aí começaram os amassos, mãos e pernas desordenados, algumas lutas, até que um grande clarão invadiu o espaço erótico-cômico; coisas da vida. Um “milita” parou rente ao vidro do condutor e solicitou a descida do vidro. Lá vinha a tal advertência, e pior, o constrangimento: “melhor vocês se dirigirem a um drive-in ou a um motel para namorar”. Juanito, antes todo tesão, teve que acomodar coisas, elogiar a ‘boa vontade’ do policial, mostrar os documentos. Graças a Deus, eles existiam.
Seguiram caminho em direção à casa de Larinha. Após o corte abrupto da cena, ficaram desanimados. Foi quando Juanito acabou de parar o carro, paralelo ao portão da moça. Pensou: já que estou aqui mesmo, melhor tentar um outro final. Iniciou-se a nova batalha. Juanito sempre abusado, Larinha recuando, recuando, até que deu a história por encerrada: olhou para fora e viu que a primeira luz do dia já se insinuava. - Melhor ir dormir! - Não...não, podemos ir para outro lugar..., sugeriu Juanito. Larinha pôs-se a descer do carro, quando Juanito fez a última pergunta: - Nunca estive por essas bandas, como faço para voltar? Larinha indicou o caminho. Juanito já sonolento e insatisfeito com o término da questão tomou a direção contrária e passou horas tentando chegar em casa. Chegou, dormiu um pouco e quando acordou lembrou-se da noite, do dia da semana, do número: treze. Coincidência ou não...conheceu Larinha naquele dia, pelejou a noite inteira, perdeu o caminho de volta para casa...Nunca mais viu Larinha.
quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008
Foco invertido
Ei...? Onde você está? A frase se repetia sucessivas vezes; saía pela boca de Gusmão; produzia ecos sem resposta. Enquanto isto, Irene procurava desesperadamente aparecer no visor da máquina digital. Ela era uma bela mulher, nem tanto pelos atributos físicos, mas pelo olhar brilhante e a postura elegante. Ganhara a vida sempre às custas da imagem, tal qual Gusmão. O espaço para a imagem era razoável e o fotógrafo atuava, aparentemente, como recomendavam os manuais de qualquer máquina fotográfica: focalize o objeto com o visor, enquadre–o, reserve espaços relativamente equilibrados no entorno, clique! Irene fazia de tudo, mas cada vez que se colocava no foco sua imagem fugia para os lados, para baixo, para cima, e a angústia se espalhava pelo ambiente.
De repente, um susto: da lente da máquina projetava-se um olho de pálpebras estáticas, negro, sem cílios aparentes; insinuava-se por todos os cantos da máquina como um zoom extremamente flexível; um olho contorcionista procurava Irene. Ela custava entender o que acontecia. Será o olho de Gusmão? Nunca havia visto uma máquina assim...pensava ela. Até que resolveu mudar a tática: e se eu sair do foco? Mas para que lado eu vou? Qual o espaço desta sala estará ao alcance de Gusmão ou será o zoom que me fotografa? – Gusmão? – Sim Irene? – Segure a máquina em uma única posição...vou percorrer todo espaço; enquanto isso veja se eu apareço no visor. – Combinado, respondeu Gusmão, meio incrédulo do sucesso da tentativa da moça.
Irene mapeou o espaço e chegou à conclusão que não poderia esgotar todas as possibilidades, a menos que pudesse voar pela sala, ocupar toda aquela atmosfera. Então começou pelo chão mesmo, mas nunca sabia o quanto deveria de deslocar. Havia também uns móveis, que sofregamente ela afastava para que não houvesse sequer algum lugar em que ela não tivesse se posicionado. – Gusmão? – E aí? – Apareço no visor? – Não Irene...nada...A tensão aumentava, até que Irene, já exausta, foi em direção a ele. – Deixe-me ver se consigo fotografar você. Irene pegou a máquina, colocou-a na altura do rosto Gusmão, clicou; olhou o visor e ficou aterrorizada com o que viu: Era a imagem dela mesma; Irene de sorriso largo, de contornos precisos, o entorno equilibrado...Gusmão não aparecia no visor! Desde aquele dia, o fotógrafo nunca mais conseguiu fotografar, nem a modelo Irene foi fotografada, salvo algumas vezes quando ousou tentar focar alguém.
De repente, um susto: da lente da máquina projetava-se um olho de pálpebras estáticas, negro, sem cílios aparentes; insinuava-se por todos os cantos da máquina como um zoom extremamente flexível; um olho contorcionista procurava Irene. Ela custava entender o que acontecia. Será o olho de Gusmão? Nunca havia visto uma máquina assim...pensava ela. Até que resolveu mudar a tática: e se eu sair do foco? Mas para que lado eu vou? Qual o espaço desta sala estará ao alcance de Gusmão ou será o zoom que me fotografa? – Gusmão? – Sim Irene? – Segure a máquina em uma única posição...vou percorrer todo espaço; enquanto isso veja se eu apareço no visor. – Combinado, respondeu Gusmão, meio incrédulo do sucesso da tentativa da moça.
Irene mapeou o espaço e chegou à conclusão que não poderia esgotar todas as possibilidades, a menos que pudesse voar pela sala, ocupar toda aquela atmosfera. Então começou pelo chão mesmo, mas nunca sabia o quanto deveria de deslocar. Havia também uns móveis, que sofregamente ela afastava para que não houvesse sequer algum lugar em que ela não tivesse se posicionado. – Gusmão? – E aí? – Apareço no visor? – Não Irene...nada...A tensão aumentava, até que Irene, já exausta, foi em direção a ele. – Deixe-me ver se consigo fotografar você. Irene pegou a máquina, colocou-a na altura do rosto Gusmão, clicou; olhou o visor e ficou aterrorizada com o que viu: Era a imagem dela mesma; Irene de sorriso largo, de contornos precisos, o entorno equilibrado...Gusmão não aparecia no visor! Desde aquele dia, o fotógrafo nunca mais conseguiu fotografar, nem a modelo Irene foi fotografada, salvo algumas vezes quando ousou tentar focar alguém.
segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008
A casa da novena
Era um quadrado a casa da novena. Quatro lados iguais, nem um milímetro a menos, nem a mais. Duas janelas caindo na rua, portão lateral e fronte alta. Iam lá quatro senhoras todas as tardes, quase ao sair do crepúsculo. Levavam terço na mão e fôlego para quase centena de Ave Marias, Pai Nossos, Salve Rainhas e Glórias ao Pai no estilo mais católico. As irmãs Dora, Flora e Aurora sempre de vestidinhos floridos, colo e joelhos bem protegidos, eram convictas de sua missão junto a Deus Pai todo poderoso. Acreditavam no poder da reza e achavam mesmo que quanto mais numerosa a ladainha mais graças viriam. Marieta, prima meio desgarrada, aderira à novena fazia poucas semanas. Não descuidava de exibir seu colo amplo, mamas insinuantes e pedaços das pernas, nem na casa da novena. Aderira também a centros espíritas de mesa, umbanda, seitas, cartomantes, beberagens de ervas, Jesus cristos ressuscitados e pastores empresários. Tinha todos os motivos possíveis. Ia mal de dinheiro, de amor. As irmãs carolas a olhavam com compaixão, como se fosse uma ovelha recém recuperada, com vícios ainda vivos e desejos nada nobres, beirando o pecado. Mas a aceitavam mesmo assim, para fortificar a reza e chegar mais alto aos ouvidos de Deus Pai todo poderoso.
quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008
Mar vermelho na TV
Focinho comprido vivia num mar de rosas. Acompanhava sua mamãe desde o nascimento junto com um bando de outros pequenos e outras mães. Davam cambalhotas no ar, tudo sincronizado; cantavam música “quebradinha”, com ritmo de conversa interrompida pela água. Um dia desses o mar se anuviou e Focinho Comprido não viu mais sua mãe. Só lá fora do mundo de água, onde ele puxava o ar, ela foi vista. Estava suspensa a pouca distância do barco de homens de olhos puxados. Um arpão atravessava seu corpo generoso e flexível; saía muito sangue. Sua dança não era mais a de poucos momentos atrás; era um contorcionismo incômodo, uma fuga daquele objeto intruso, daqueles seres do mundo de ar. Os olhos puxados tentavam se esconder da lente da câmera; queriam que o sangue da mãe de Focinho Comprido não fosse vermelho. Não houve como disfarçar: a mancha púrpura concentrada estava lá naquele pedaço do mundo de água logo abaixo dela, e Focinho Comprido não cantava mais música de sorriso na água; ficou com medo do mundo de ar. Homens do mundo de ar com olhos de todos os formatos viram o mar vermelho na TV.
quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008
Poeminha do não
Não estava lá
Não era aquele o lugar
Não! Não era não!
Era tanto não
Não!
Olho de não
Forma de não
Brilho de não
Imóvel não
Redondo não
Abrir de boca
Circular ão, ou não?
Direita
Esquerda
Retão do não
Sem fim do não
Largo não
Imprecisão
Sem dizer não
Estava não
Sintético não
Droga de não!
Por que não?
Não era aquele o lugar
Não! Não era não!
Era tanto não
Não!
Olho de não
Forma de não
Brilho de não
Imóvel não
Redondo não
Abrir de boca
Circular ão, ou não?
Direita
Esquerda
Retão do não
Sem fim do não
Largo não
Imprecisão
Sem dizer não
Estava não
Sintético não
Droga de não!
Por que não?
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