quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cor dos olhos

Pensei que era a cor dos olhos
Que o resumo da paixão tinha cor
De folha, de céu, de terra, de sol
E até de sangue

Depois atinei que era o movimento deles
Que em cada cor tinha um ritmo
Que minha mirada coreografava

No começo eles dançavam sozinhos
Depois faziam par com os meus
E a cor dos olhos já não era a mesma
Era um abraço de olhos
De cores sobrepostas
No início mancas
Depois saltitantes e cintilantes

Continuei a pensar na cor dos olhos
Até me esquecer da cor e do tom exato
E lembrar da história deles
Mesmo des(conhecida)
Do movimento da cor...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O pregador

Ele já surgira assim, com aquela verve, com aquelas mãos postadas sobre a pasta preta, cheia dos textos sagrados, e o entorno dos olhos arroxeados como se a visão avançasse de tal maneira sobre o horizonte, que gastava o viço da epiderme e subsumia os globos oculares já pequeninos. Em verdade, seus olhos eram luzes apagadas frente ao contingente de ligações neuronais demandadas naquele momento sagrado, e não faltavam vocábulos apropriados, nem tão usuais, que davam esse teor de que há algo revelador no dito. Na fronte, os primeiros sinais de calvície, hereditária, e aquele nariz ligeiramente aquilino a fortificar o sorriso de dentes miúdos e intervalados. Era irmão por parte de pai, mas jamais ela o vira com consistência, nem na infância, nem na adolescência. Portanto, foi mesmo pregador desde o primeiro instante irreal tão real.

Apareceu quase divinizado após a terceira década de nascido, trazendo a mão calejada e histórias de uma união enganosa com a mulher e intrigas com os pais; e ele parecia realmente disposto a se redimir pela palavra, sem ganância alguma. Ela, a irmã, achava, verdadeiramente, estranho conhecê-lo assim tão personificado, sem as nuances do convívio próximo, a resguardar surpresas a cada momento e, mesmo assim, capaz de gerar aquele afeto pelas incongruências. Estranhava aquele absoluto dito, vivido, e, por isso, via-o com curiosidade, bem distante do afeto. Seu empenho maior era em pregar de casa em casa a palavra dita pelo senhor, registrada na Bíblia. Dizia; prego a Bíblia. Segundo alguns a religião dele não tinha templo nem liderança. Passava horas na marcação das idas às casas de familiares e outros que se dispusessem a ouvi-lo, e até mesmo contradizê-lo, para que a palavra sagrada compensasse tudo, como se já estivesse lá acabada, sem dúvidas para qualquer objeção. Levava uma companheira para suavizar o desgaste da pregação e dar aquele tom mais feminino, que muitas vezes amolece a alma.

A irmã admirava aquela habilidade, posto que, o discurso era de fato bem formulado, enriquecido por informações de outras ordens, até científicas e filosóficas, do tamanho infinito do universo, da pequenez e da grandiosidade, das interpretações falhas da Bíblia. Mas o paraíso usurpado, a Eva malfazeja, a cobra venenosa e os corpos do pó ainda eram o início de tudo, e ele buscava os minerais dos ossos e dos processos neuronais e fisiológicos para consubstanciar o fantástico, em meio à cientificidade do mundo moderno. E se o interpelavam sobre algum espírita reconhecido por bondade e resignação, sua companheira era a muleta certeira: ‘a maldade se esconde por traz da veste da bondade’. E assim aquele homem, em verdade ‘um lobo na pele de cordeiro’, era julgado sob a veste da intolerância. E o juízo final? ‘Esse não fora marcado, e o aquecimento global talvez seja mesmo o anúncio do fim do mundo’. E a reencarnação? ‘Ora, se houvesse mesmo, o mundo não teria melhorado? Por que tudo piora?’ E o destino existe? ‘ A gente tem o livre arbítrio, tudo uma escolha’. E a companheira do pregador, por vezes, complacente com o pecado; ‘não é o tamanho do pecado que vale, mas o tamanho do arrependimento’.

E assim o Deus misericordioso que sumia, ressurgia de tempos em tempos. Mas em nenhum momento qualquer escolha ou opinião era de fato considerada. A palavra final era vertida, num quase monólogo de duas bocas, e ele saía resoluto das pregações, com apertos de mão, empenhando-se na marcação da próxima.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ida nua

A vida invade
A vida esvazia
Traz contos
Encantos
Ornamentos
Lamentos
A vida deságua
Aterra
Esfera
Infinita de pontos
Em rotação
Tonteia
Escamoteia
Sombreia
De sol
De lua
Esquenta
Amua
A vida desvia
Apruma
A vida é uma
Nenhuma
Alguma
A vida é rua
É ida nua

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

'Com camisinha'

A despeito das divergências sobre as conveniências de se pegar um táxi, posto ser o transporte coletivo demorado e impessoal, havemos de admitir que nos ônibus as histórias fervilham, dado o contingente humano com suas nuances esperadas e inesperadas. Mas o motorista é quase um anônimo, robotizado, ali no compromisso de pegar e largar gente e, raramente, as pessoas se lembram da face do sujeito. Agora no táxi tudo muda; ou nos deparamos com um ser hermético e ávido pela corrida sem mais delongas, ou então, o caminho se torna o próprio divã. Assim, as histórias também se multiplicam ou se condensam na mente.

Não me lembro exatamente o nome da taxista, nem mesmo qual era a empresa a que servia, senão que chegou bem na garagem do prédio em que estávamos; o ar era de segurança e conforto. Mas quando adentramos o recinto motorizado, verificamos que a condutora estava um tanto nervosa e se embaralhava com vários objetos entre rádio escuta, sacolas plásticas e volante. Como o motivo era de festa e não havia horário determinado de chegada, relaxamos.

Iam eu, Vivi e Gabi pro samba. Pra onde é?, interpelou a taxista. Pra quadra da Mangueira, respondeu Gabi. Onde é isso?, perguntou a taxista. E a fachada de segurança se desmanchando, enquanto eu e Vivi no banco de trás nos olhávamos meio duvidosas, meio prendendo riso. Gabi logo direcionou a condutora, que deveria ir pela Serra mesmo; caminho menos tortuoso, mas que reservava uma descida considerável para uma motorista que parecia até aquele momento não se preocupar tanto com o volante. E dessa maneira seguiu os primeiros dez minutos do trajeto, sobretudo, na ânsia da escuta.

Na verdade, ela não se preocupava com o caminho a seguir, mas sim com o próximo que deveria fazer enquanto as falas no rádio em altíssimo volume a deixavam ainda mais ligada na disputa pelas corridas. Curiosamente, no meio do caminho, ela terminou entrando num papo ‘opinioso’ sobre filhos, os quais nunca quis ter, e sobre o uso obrigatório da camisinha com seu marido. ‘Terrível o número de mulheres casadas que contraem aids’, e nós assentimos, sem ter como questionar. Nesse momento percebi que a taxista não era nada confusa. Era simplesmente uma futurista nata. Tudo era milimetricamente planejado, por isso, o volante, de vez em quando parecia nem importar tanto, nem sequer os caminhos, porque o que valia mesmo era chegar no próximo destino. Agora voltar ali na Mangueira ‘nunca’, ‘quando vocês saírem daqui já estarei dormindo’...

Chegamos bem; aproveitamos o samba no melhor estilo e pra variar, na volta, pegamos um táxi. Só que o condutor dessa vez não parecia nada futurista; aproveitou o momento para paquerar, enquanto tentávamos, pegando carona na manha dele, livrar-nos do adicional do pedágio...Aqui o tom era leve e brincalhão. O assunto da obrigatoriedade do uso da camisinha não surgiu, e não nos livramos do pedágio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Encanto

O que me encanta em ti? Não digo, pois que encantamento não é coisa de se dizer. Tão logo se matuta sobre o que de encanto há, tão logo vem certas arestas, certas amarguras ou dúvidas, posto que encanto não nasceu pra ser dito, só ouvido e sentido como palavra exata. Talvez o que me encante em ti seja exatamente a palavra silenciada que não traz ofensas, nem disfarces. Guardo de ti aquela face de alvura mansa a refletir a luz como um clarão; e os olhos cor de folha semi-desidratada, quase um verde complacente e equilibrado com meus sentimentos meio tortos, como se a esperança ali condensada naquele olhar fosse o próprio dizer de encanto, e não valha a pena fazer interpelações ou elucubrações a ou sobre sua pessoa além daquele lugar de descoberta. Porque o lugar da descoberta é o natural encanto que não se desfaz, porque fica lá in memoriam, em quase estado de latência, numa potência de sentir plena e inesgotável. E aquele toque de bocas, um tátil inquestionável de um movimento meio ternura, meio curiosidade por aquilo que não se conhece, muito aquém da mágoa, dos pensares que antecedem o gesto espontâneo e justo. É isso o encanto; um lugar infantil, de brincadeiras e experiências, um lugar de jogo sem planos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Beija-flor

Seu José era como um beija-flor. Davam as exatas duas horas de permanência no baile e ele ia embora, feito pássaro saciado de seiva por aqueles instantes. Diziam que ia cedo porque morava longe e que se tardasse, sendo ele já um senhor na casa dos setenta, poderia correr algum perigo. Helena, também pra lá dos setenta, fazia par com ele todas as vezes que aparecia. A ‘parte’ era concedida a ela com tanta delicadeza e distinção que ela não pôde deixar de se encantar. Ela se encantou tanto, que sua ida ao forró, como todos diziam, era obrigatório, pelo menos duas vezes na semana. Helena ia de vestido de crochê tecido pelas suas próprias mãos já calejadas, mas ainda ágeis. Dizia que recebia elogios sem igual, que a chamavam de menininha, e sua voz de empolgação ao contar não desmentia a meninice dentro dela. Impressionava-se com a vestimenta de José, ‘sempre limpinho’, ‘bem arrumado’; lembrava-lhe um pouco seu marido pela altura e pela magreza. Aprendeu uma soma de dança com ele, forró, bolero e tango. ‘Tô dançando bem demais’, ela se alegrava. E desandava a falar de seu José, disfarçando a intenção de amizade, porque queria mesmo era um namoro daqueles que ela nunca experimentara, de beijos e carícias, coisa que seu falecido jamais entendera. Certa vez ousou dar-lhe um abraço e ele entendeu como um empurrão, lamentou-se da iminência da queda, com olhar de incompreensão. O beija-flor agora anda em seus sonhos e ela deixa que ele sugue todos os momentos com os passos de sua dança, até que se vá com seus braços de asa, voando, voando, até pousar de novo em volta dela no próximo baile.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

'Reencontro'

Poucos são os lugares a que retornamos, senão àqueles bem nossos, quase estados de alma, contra e a favor dos quais não sabemos dizer, só mesmo sentir. E, sem dúvida, não retornamos a nenhum lugar, mas sim a um estado de espírito curioso de novas visões mesmo que com vestes repetidas. Voltamos para o reencontro do aconchego, da nossa própria casa estampada nas outras. Voltamos para o olhar de consentimento e desaprovação cúmplice e solidária. Voltamos para rever o que nem tínhamos visto e saber do reencontro, sem nem mesmo ter encontrado antes. Foi assim essa nossa ida ao Rio. Eu e Vivi de novo na rodoviária, com alguns tropeços pelo tempo das partidas e chegadas repetido e novo, até retomarmos a conversa pelo caminho. Tudo seguiu cheio de movimento; na Lapa, na quadra da Mangueira, até na entrada do Castelão, que ficou só na concentração, e na praia. Agora um movimento foi, não diria inusitado, mais quase raro; o cuidado dos anfitriões. Gabriela sempre bem disposta, sorridente e companheira. Gláucia e Gilmar, espontâneos e acolhedores, na fala, no preparo das comidas, nas conversas vastas em torno da mesa da cozinha. Vitória que viu seu quarto multiplicado de gente e coisas espalhadas pelo chão, sem a menor expressão de irritação. Rhany, a visita constante e carinhosa. E todas as outras pessoas que passaram pela casa ou pela rua para nos ver ou nos rever, como Vânia, e a sensação permanente de ser de lá por aqueles dias, parte daquele lugar, no retorno sem nunca ter estado, como aquela história da ‘saudade daquilo que nunca se viveu’, e do ‘amor ferida que dói e não se sente’...desse sentimento que a gente tem daquilo que parece que já vivemos um dia assim que encontramos ‘em algum lugar do passado’, mas presente, supreendentemente vivo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Onde está?

O entrelugar está em migração,
Anda em direção ao outro lugar,
O contrário do lugar que era,
O outro inóspito,
Irreconhecível lugar,
De agostos passados,
De setembros passados,
De frio no lugar do sol,
Do calor inclemente,
Inesperado,
De chuva tempestade;
O entrelugar suave,
A delicada transição,
Deliciosa e sutil,
Esvaziou
Na inconstância do clima,
Nas certezas alienadas,
Nas almas em fuga...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Azeitonar

Aquela reunião regada a vinho se repetira;
Dessa vez era um Rosé, quase um licor de morangos excessivamente maduros, barato, mas degustado com prazer; com jeito de caro nas mesmas taças repetidas, ávidas pelos lábios;
O vinho era fálico e o corpo amolecia;
As falas reverberavam na alma e os ouvidos se distraíam e voltavam, sem pudor de não ouvir, de não ter qualquer parecer sensato a dar, senão o contemplar do aconchego e da familiaridade do instante;
Na mesa o pequeno prato com azeitonas verdes e nas bocas o experimentar sendento das esperanças, verdes;
E as verdes esperanças eram engolidas sem respirar entre os dizeres e risos já amarelados, querendo esverdear de novo, azeitonar, com o sal na medida e o oliva reparador...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Com quem será?

Sua cabeça fervilhava, mas não de uma perfusão de acontecimentos, lembranças ou versações da alma, e sim de um único assunto, o qual nada nem ninguém jamais conseguiria remover. Virgílio tinha, aparentemente, meia idade, porém nada em sua imagem revelava desgaste excessivo; o corpo era esbelto em baixa estatura, os dentes bem cuidados e as linhas pela face ainda rasas. Ela o conhecera na rua mesmo, paralela à estação do metrô, de camisa azul com logotipo, calças jeans. Os cabelos grisalhos colaboravam com a aparência distinta, mas o sorriso revelava algo de torpe, sedutor e enganador. Encontraram-se algumas vezes, muitas talvez. Contudo, a vida dele sempre pareceu, a ela, um tanto nebulosa. Diziam que era separado da esposa, era professor de instituição reconhecida, ainda que não ganhasse muito; pegava o trem urbano todos os dias e, por vezes, na sexta, tirava seu carrinho da garagem. Seus encontros foram sempre furtivos, guardados para beijos e roçar de pele e pêlos e mãos exploradoras, na praça, no bar, no cantinho escuro da rua. Nesse tempo ela andava com sorriso sonhador e queixo avermelhado. Disso tudo, sobrou quase nada na alma dele e tudo na dela, uma batida forte na cabeça; Virgílio, Virgílio, Virgílio...e uma seqüência de ladainhas, tanto que as falas se repetiam e também as inconclusões.“ Ele está com ela. Tô falando. Ela, a Mariângela, é ela, ou então é a filha dela, porque a filha dela é nova, bonita.” Outras vezes se lembrava de Mara, uma vizinha, que tinha se envolvido com Virgílio em primeira mão, ‘aquela traidora, que me trazia salgadinhos com a cara mais limpa’. Depois era a Gina, negra corpulenta da escola, bem vestida com pose no carrão. Mas agora era mesmo a Mariângela; ‘a conversa dela é esquisita. Ela comprou até cama de casal. Agora deve estar lá deitada com ele no bem bom e eu aqui sozinha.’ Ela se ressentia por não ter dado boa vida ao Virgílio. Lamentava não ter lhe dado a comida quentinha e outras quenturas descaradamente. 'Eu acho que a Mariângela deu até carro pra ele. Eu vi ele saindo do prédio dela na hora do almoço. Bem, ou tá com ela a Mariângela, ou com a filha dela, que é nova, bonita.' E interpelava e concluía: ‘ele não presta né? Nem vou mais ligar pra ele; ele não presta mesmo...mas é tão bonitinho...eu gostei tanto dele...’ E duvidava: ‘ou ta com ela, a Mariângela, ou com a filha dela, ou com a Mara...ele teve um caso com a Gina também...’

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Aparição

Aparição é coisa de assustar. Tem visões que nem são visões e são visões, porque parecem visões. De tanto esperar e evitar e esperar aquela imagem, a surpresa pelo privilégio daquilo divinizado diante de si, fez faltar o ar. O corpo ganhou tamanha capacidade de sobrevivência e os tecidos, todas as células ficaram atléticas, apnéicas, mudamente histéricas, amitocondriais, enquanto a imagem dela desaparecia frente a sua fisiologia alterada naquele instante. Tudo que poderia ter dito se calou, porque o instinto de sobrevivência não permitiu nem raciocínio, nem fala que valesse ou suportasse a confusão por dentro dela. E a torcida era toda para que ninguém percebesse, tão incomum pareceria algo assim não dito e tão vívido e vivido. E qualquer gesto não valeria, porque simplesmente, tudo o que se apoderara dela era uma espécie de dormência, porque, afinal de contas, não havia mais oxigênio em parte alguma. Aparição é coisa de tirar o ar e não cabe entendimento algum. É uma espécie de constatação sem argumentos e sem salvação, simplesmente aparição.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Uma cama no além

Ele vinha sempre, nos últimos meses, deitar-se ao seu lado na cama, naquela cama que insistentemente adquiriu, mais ampla, como se realmente houvesse alguém pra se deitar ali todos os dias, desde sempre. Foi divino já tê-la ali, espaçosa, ainda antes que ele chegasse. De fato, ele parecia meio fantasmagórico, posto que nem sempre se deitava na mesma hora que ela, nem mesmo se levantava quando os olhos dela se abriam para as manhãs obrigatórias, com seu coração ainda em sono de sonho. Ele surgia em horas imprevistas quando a mente dela divagava e o peito ansiava um afago, e o corpo sofria de uma angústia inexplicável. E ela se alegrava por tê-la, a cama tão grande pra que ele se aconchegasse, mesmo que não ocupasse todos os espaços, sempre insistente que era na superposição de corpos, como se o vazio o aterrasse, o vazio daquela cama. O rosto dele nem sempre vinha o mesmo, muito menos o corpo; por vezes parecia-se com alguém conhecido, mas ela pressentia que, de verdade, o reconhecimento era algo forçado, como se um fantasma não coubesse naquela cama, mas antes um desejo bem formulado, exato dos gestos que seu corpo pedia sem reservas. E aquele desprendimento todo, aqueles arrepios e convulsões vinham de um jeito sôfrego, porque sempre aquele que vinha se afastava, mas sem movimento algum, e aquele espaço da cama de estendia no além...

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Soletrado

In-sig-ni-fi-cân-cia… Era assim desse jeito soletrado que seu sentimento vinha, quase num ecoar de badaladas de sino intermitente, e essa palavra tinha quase a exata substância do que ela sentira durante muitos anos de sua vida, embora, por vezes, tentasse se enganar. E aquelas imagens de rotina, que vez por outra se mesclavam com uma ordem de insatisfação com tudo, mas sobretudo, com o passar do tempo irremediável. Ao lado aquela face já marcada e aquelas mãos já gastas no traje preto e nas pulseiras de contas a rememorar um tempo; e num paradoxo a mesma inquietude com o bater forte do sol na pele ainda sensível. Na descida de um ponto de ônibus qualquer aquela outra face de dentes alvos e olhos arbóreos, quase um esperar calmo, sem desatino, uma promessa. Mais uns passos e lá vinha a fadinha no borboletar de asas e óculos cor de rosa e aquele vestidinho verde água puxados pela mãe, apenas uma fantasia da vida que por não se saber vida real, sobrevive imageticamente, com delicada força, até desaparecer... assim como o passar do tempo...até desaparecer...In-su-por-tá-vel, assim soletrado também, era toda a ambiência em que ela se apresentava, porque dentro de si havia algo que faltava tão densamente, que transfigurava tudo a sua volta num remoer de coisa já moída, prestes a desaparecer...E ela não queria ser solidária, companheira, nada do esperado dos outros, senão a pura imagem do desprezo por tudo a sua volta, porque dentro tudo era confuso e triste e não havia sentidos para se mover nem sequer com os olhos, nem para ouvir quaisquer palavras, posto que tudo soava fúnebre ou irritante. E os sorrisos a sua volta eram luzes piscantes, ‘insubstantes’, e naquele mero instante vinha um sentimento de também querer sorrir, mas o rosto encontrava-se de tal forma retesado, que o sorriso sairia mais um desagrado ou um susto de dentes à mostra por força que por querença. E aquele movimento todo em busca do nada e do tudo a sua volta era um passo inconsistente no vácuo...e naquela vastidão aprisionada nas beiras de uma mesa qualquer, de umas paredes quaisquer, de uns aparelhos inevitáveis ela se postava feito um artefato qualquer, crente que alguém a confundisse, a esquecesse, até desaparecer...De-sa-pa-re-cer, soletrado assim...tinha algo de sublime que ela não queria, senão o desaparecer rápido, sem sílabas, num átimo...Que fosse o desaparecer esse próprio segundo, mas de primeira leva, sem seguridade, lamentações e hesitações...Sumir....Su-mir....até desaparecer...sem voz que sair, sem ouvido que guardar, sem olhos que consentir, sem nariz que farejar...Es-que-ci-men-to...

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Sono

Ninguém me subjuga ou me submete. Minto. O sono é meu dono; sujeito tentador e misterioso que me ronda todas as noites e pelos dias assalta-me a lucidez, a ingênua lucidez de estar acordado. Porque em verdade é quando acordo que durmo e quando durmo acordo para o mundo da irrealidade mais real e desejável que possa existir; estar com ele; o sono, é melhor que tudo. Quantas histórias ele me revela e dizem que elas já estavam lá, e ele, o sono, é só um despertar. Que sossego me dá; ele, o sono, que me tira a dúvida, pois que me faz não pensar. E nesse instante, minha mente é contingente de todos os sonhos pensados e impensados; o sono é esse louco amante que me submete, me subverte a todas as impropriedades do real, dessa sonolência de viver acordado, sem ser amado. Porque o sono...Ahh...o sono, ele ama-me com ternura indecente, com afagos irreverentes, com momentos inexistentes que estão lá a me espiar quando durmo acordada. O sono vem me acordar na dormida mais incógnita e aventureira que se pode pensar, pois que ele quer-me tão bem, que não me ilude com possibilidades, porque se pensarmos bem, as possibilidades nem sempre são prováveis, e isso faz-nos tristes e alegres, porque vem ele o sono acalentar; grávido dos sonhos, ele me carrega e embala e me arremessa sem piedade, e me faz de alguma forma reviver...

terça-feira, 28 de julho de 2009

De que me vale...?

De que me vale saber o seu nome e o que vai dentro da sua alma? De nada vale, pois que seu aspecto externo, a visão que tenho de você, e até mesmo da idéia auditiva que tenho do farfalhar das mangas de sua blusa sobre sua pele e do seu sapatear nos passeios já são tudo o que quero? E ainda assim teimo em não querer, por querer tanto assim esse externo que o envolve numa aurora ou num crepúsculo de mistério sem mistério algum, senão essa imagem que me submete em pensar em ti em qualquer instante e em instante algum... De tudo valeria se sua alma fosse alguma expectativa minha, mas em tudo sou confusa e infiel, posto que do seu externo penso românticos os gestos, mas em suas palavras dói-me a alma por serem às vezes ríspidas e impositivas. Assim, de nada continua valer tê-lo de corpo e alma, mas apenas vale essa bruma que o encobre pelos caminhos que visito e imagino. E de tudo, vale-me tanto a emoção que sinto ao pensar em você, nem belo, nem feio, mas de um feitio aterrador e inspirador para minhas ânsias sexuais, mas sempre e eternamente emocionais e textuais. Por isso, esse seu externo me toca tanto, esse seu personagem sem alma, sem nome, com quem posso criar qualquer roteiro, de chegada ou de partida, mas verdadeiramente sempre de partida, pra voltar com outras vestes e farfalhares de mangas e braços pendentes de abraços, e ombros ligeiramente projetados no ir e ao mesmo tempo caídos ou a volver para trás...De nada vale saber de dentro de você, porque só dentro de mim você se faz e se refaz no mistério, na curiosidade, e até no pensamento exato que se formou em qualquer tempo em minha mente, ou em outra qualquer que eu tenha roubado, e levianamente e inocentemente pensei que pensei...De nada vale ter você completo por fora e por dentro, pois tudo vale só pelo meu pensamento de você...desse externo e de todas as cores que você veste; do branco sóbrio, do vermelho quente, do verde quase anil...ou mesmo da cor da pele, revestida de suores e cheiros imaginários...

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Não vivo sem Pp(essoa)

Não consigo mais viver sem Pessoa
Mas o Pessoa Fernando
Esse eu sinto e leio mais pessoa
Por isso não vivo mais sem ele
Porque por ele me ‘pessoo’ e me ‘desapessoo’
E se seu ‘desassossego’ foi tanto
Nele e com ele me desassossego
Sob pena de me sossegar
E me desapessoar
Por isso ‘Pessoo’ e ‘pessoo’
Não consigo mais viver sem pessoa...
Mas ele já vive sem mim algum tempo
Sempre viveu algum tempo
Em sossego e desassossego
E se foi no desassossego de nada
E de tudo
Pessoou tanto
Que pessoa eu e você
Até os Fernandos sem pessoa...