Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
‘Pense no Haiti, Reze pelo Haiti’
Colocar-se no lugar de outro, não é algo que se faça comumente. Nós ‘humanos’ ‘sofremos’ do mal que há muito acomete a humanidade, desde tempos imemoriais. Egocêntrismo sim, e com um balanço desequilibrado de pensamentos e ações, meio solidários, meio egoístas, mas quase sempre egoístas, voltados para o mundo de desejos, sonhos, frustações e realizações próprios. E o que parece valer no mundo é mesmo a autopromoção, o vale pelo que tenho, e assim o nosso mundinho se divide em nações desenvolvidas, em desenvolvimento e subdesenvolvidas; pessoas bem sucedidas, em potencial e mal sucedidas. Essa divisão cabe muito bem ao Ego, ao mundo dos sistemas econômicos, compartimentaliza até os sentimentos, e muitos não se dão conta que são diminutos e infinitos também. Tem gente que faz verso; ‘Pense no Haiti’, ‘Reze pelo Haiti’, ‘O Haiti é aqui’, ‘O Haiti não é aqui’. Tem gente que pelo menos se dá conta que existe um Haiti. Tem gente que diz que vai em missão de paz. Tem gente que vê na TV e na Internet os corpos feridos, sumidos, a indigência marcada pelo terremoto, e sente dor e mareja os olhos, e sente até o odor descrito pela voz dos repórteres, sente náuseas. Tem gente que vai lá fazer trabalho voluntário pela Ong Viva Rio (uma amiga até me disse uma vez da sua vontade de ser voluntária no Haiti). Tem gente que vai lá fazer palestra e não volta. Tem ‘bicho’ que vai lá farejar os corpos mortos, descobrir os indigentes de anos, agora com o cheiro de morte. Tem gente que vai visitar o mar do caribe, deslumbrar-se com o azul infinito e as acomodações confortáveis. Tem gente que vai ao Haiti experimentar a alteridade? Ou resguardar a diferença? Tem gente que não pensa no Haiti, nem reza pelo Haiti, salvo em momentos de emergência, quando a calamidade é um espetáculo grandioso de falta que a natureza desnuda. E por ‘coincidência’ de nudez negra, de geografia centro sul tropical. Tem gente que pensa no Haiti e no sentido de pensar no Haiti, mas tem as mãos atadas, consciência aprisionada para o querer ter, para ser, e nem tem culpa disso, vítima que é dos mesmos abutres que rodeiam os corpos mortos, com câmeras ávidas, olhares de compaixão inertes a serviço delas mesmas. É preciso fazer um esforço, nada pessoal, pela sobrevivência daqueles seres, como uma política de preservação ambiental, porque algumas raças forjadas socioeconomicamente não podem ser eliminadas de pronto, mas lentamente. Por isso, ‘Pense no Haiti’, ‘Reze pelo Haiti’, ‘O Haiti é aqui’, ‘O Haiti não é aqui’...
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Anjo
A gente devia mesmo era viver de aparição,
Coisa que passa e que ficamos sem saber o que é exato;
Nem dá dor no coração,
Porque era pra ser só aparição mesmo;
Aparição, aparece e pronto, desaparece...
Sabe quando vem aquela imagem de supetão, e deixa a gente de peito disparado?
Isso é aparição, coisa trocada no mundo da gente, diferente...
De tão trocada nem parece gente, e coisa também não.
Termina sendo gente diferente,
Que depois vira ausente,
Feito nuvem empurrada pela brisa
Pelo vento,
De alvura tanta, que faz doer os olhos.
Pior é quando abre os olhos azuis e vem aquele encanto;
E quando fecha, parece que o céu fugiu.
Ficar sem céu não é nada fácil.
Voar pra onde se não é pro céu?
É, devia ser um anjo mesmo,
Fingindo de gente diferente,
Porque os cabelos desciam pelo pescoço do jeito de um raio de sol;
Sabe quando a gente pinta a parede de casa?
É pra fugir da escuridão.
E quando a gente cerra os olhos com muita força?
É pra ver o clarão, um tipo de aparição.
Coisa que passa e que ficamos sem saber o que é exato;
Nem dá dor no coração,
Porque era pra ser só aparição mesmo;
Aparição, aparece e pronto, desaparece...
Sabe quando vem aquela imagem de supetão, e deixa a gente de peito disparado?
Isso é aparição, coisa trocada no mundo da gente, diferente...
De tão trocada nem parece gente, e coisa também não.
Termina sendo gente diferente,
Que depois vira ausente,
Feito nuvem empurrada pela brisa
Pelo vento,
De alvura tanta, que faz doer os olhos.
Pior é quando abre os olhos azuis e vem aquele encanto;
E quando fecha, parece que o céu fugiu.
Ficar sem céu não é nada fácil.
Voar pra onde se não é pro céu?
É, devia ser um anjo mesmo,
Fingindo de gente diferente,
Porque os cabelos desciam pelo pescoço do jeito de um raio de sol;
Sabe quando a gente pinta a parede de casa?
É pra fugir da escuridão.
E quando a gente cerra os olhos com muita força?
É pra ver o clarão, um tipo de aparição.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Esperneia
Enquanto o preto e o branco silenciam
Seus matizes sussurram
E as cores?
Falam
Dizeres comedidos
Ditos irrefreáveis
Gritos
E o silêncio esperneia em nós
O preto e o branco
Silentes da foto
Palavra sobre o papel
Sobrancelha na pele branca
Na pele preta
Pupila negra na esclera
Pupila multicor
Que vê cor
E sente preto e branco
Veste sobre a pele
Luto
Preto no branco
No menos branco
No mais branco
Nuances esperneiam silentes
Lua no céu
E argênteas estrelas
Tudo meio silente
Ausente em nós
Preto e branco...
Seus matizes sussurram
E as cores?
Falam
Dizeres comedidos
Ditos irrefreáveis
Gritos
E o silêncio esperneia em nós
O preto e o branco
Silentes da foto
Palavra sobre o papel
Sobrancelha na pele branca
Na pele preta
Pupila negra na esclera
Pupila multicor
Que vê cor
E sente preto e branco
Veste sobre a pele
Luto
Preto no branco
No menos branco
No mais branco
Nuances esperneiam silentes
Lua no céu
E argênteas estrelas
Tudo meio silente
Ausente em nós
Preto e branco...
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Melhor lugar
O melhor lugar é uma cena
Uma cena que retorna
Conhecida e bela
O melhor lugar é mãe
É cochilo desavisado
Desarmado
E pescoço pendente
É colo repleto de pés
E toques delicados
O melhor lugar
É aquela face de proteção
De espera
De volta
O melhor lugar é mãe
É cena de casa
Uma cena que retorna
Conhecida e bela
O melhor lugar é mãe
É cochilo desavisado
Desarmado
E pescoço pendente
É colo repleto de pés
E toques delicados
O melhor lugar
É aquela face de proteção
De espera
De volta
O melhor lugar é mãe
É cena de casa
terça-feira, 5 de janeiro de 2010
Gentes de coração
Tem gente que conhece a gente na formalidade, depois vira informal até demais. Outros ficam sempre na formalidade. Tem gente que é um desnudar na vida da gente, porque pega a gente de susto, no tropeço, no afogamento, no desalento, no riso espontâneo descontrolado, no mundo paralelo, no mundo real tão irreal (talvez a gente seja o irreal mesmo que vive teimando em ser real pra não confundir muita gente. Tolos os que pensam que a gente é palpável porque o toque é só o prenúncio da lembrança e a imagem é um estreito espaço de tempo que se perpetua e se desfaz em sub imagens, super imagens). Para os jornalistas não falarem que estou fazendo nariz de cera, a popular enrolação, afirmo que essa introdução é fundamental para a compreensão dessa croniqueta de viagem no mundo e nas pessoas que conheci e reconheci. Nem sei o que pensaram sobre mim, porque nem sei o que pensar sobre mim, porque às vezes gastamos o tempo no fazer, às vezes no pensar, às vezes no pensar fazer, e tudo se confunde. Resumindo: fizemos e deixamos de lado o pensar, ainda que ele, o pensar, nos tocasse a mente insistentemente. Fechamos as portas e nos colocamos nas caixas, na poltrona da sala da casa, na cadeira da praia, no banco do carro, no banco da rua, no colchão, no salão de festa; libertamos o riso para ele não se perder sobre as situações indiscretas tão próprias e impróprias. Eu e Vivi sempre juntas, encontramos outros sempre juntos; Ju, Gabi e Bruno, no Rio de Janeiro. Reencontramos tanta gente, gente que ficou exponencial de tanta atenção e acolhimento; Gláucia, Gilmar, Vick (ótima companhia de rir junto, comer macarrão oriental e pizza quente na feirinha, de olhar pro alto, fingindo mirar janela pra não inibir a moça alta, que queria entrar no Estrela da Lapa para ver show de bossa eletrônica, e tantos outros disfarces) e Danilo (em volta da gente na hora da maquiagem, por todos os lugares, como um menino de outro século, encantado pelo preparo das meninas para festa; o doce Danilo, sonhador e acolhedor) e todas aquelas gentes em torno da mesa, engraçadas e acidamente bem humoradas como Eron e Jairo, silenciosas e sabiamente observadoras como Abraão, alegres e ensolaradas como Eva, ‘cuidadora’ amorosa dos especiais e delicados Buch e Megue como a Edna, e tantos outros que seria prolixo enumerar, pois a casa da Gabi parece mais uma praça de degustação de comidas deliciosas, onde todos se reúnem pra falar de água, de pó e de ar, de toda matéria e i(matéria), do coração e da mente. Gilmar brindou meus ouvidos com a linda coletânea do Elvis Presley e sua culinária de todo dia, feita com carinho e cuidado. Gláucia é difícil dizer, porque é o dito de carinho e atenção, e acho que todo mundo vai lá sentir as emanações dos seus olhos azuis vivos. Gabi nossa sempre companheira de festa e de soninho. Ju , embora não tivéssemos sido formalmente apresentadas, já sabia meu nome e não lançou nenhum olhar de reprovação, mesmo sabendo que fiquei presa no banheiro em plena festa de reveillon e pior, vomitaram no meu pé. Ela simplesmente, solidariamente, pôs-se a lavar os pés dela na piscina junto comigo. Ou seja, se caíssemos, caíamos juntas. Agora o Bruno, o menino no meio das meninas, penso nele como um perfeito espião do mundo feminino, o confuso mundo feminino da modernidade. Mas um espião do bem, com a palavra julgamento esquecida, o riso solto e uma habilidade pra levar as garotas para o mar e fazê-las virarem ‘sereia’. Eu mesma tive aulas de pegar onda e saí toda alegre, com a sensação de dever cumprido. ‘Entra na onda’, Bruno dizia, ‘foge dela não, que é pior...’ E foi nessa onda de entrar na onda que passamos o final do ano, eu e Vivi, a contadora das proezas de todas as noites e dias, que eu sou obrigada a reverenciar, porque perto da oralidade dela, essa minha escrita fatalmente já se perdeu...
Olhar de amor...
Depois de um certo tempo a necessidade de um grande amor se desfaz sem sofrimento, senão por um certo pesar daquele bater descompassado no peito e daquela necessidade de aconchego, daquelas sensações tão nossas, indivisíveis com o outro. Começamos a destilar olhares de cobiça e conquista, mas com a quase convicção de que o amor, ah o amor, esse não pode jamais ser grandioso se não tem explicação. Começamos então a cuidar de olhar sempre, mas sem o sentimento de posse pelo ideal, mas de doação daquilo que nos surpreende exatamente por não ser nosso, e nem queremos mais que seja, a menos que se configure como afeto sem ansiedade, curiosidade sem pressa, aquele ouvir da fala mansa, em cadência de piano teclado delicadamente, daquele olhar que não incomoda, mas que incomoda porque não olha, porque buscamos o olhar mais de proteção que de admiração, que no fundo, deve ser mesmo o olhar de amor. Começamos a pensar no amor manso, porém revolto na cumplicidade do toque. Começamos a pensar no intenso repleto e aí vem um vazio intolerável enquanto o escudo nos protege. E vamos multiplicando os escudos e abaixando as armas para que o amor venha como num abrir de portas e aparecer de cenários repetidos e surpreendentes, chorosos e sorridentes, de montanha e de mar. Para que o amor apareça insistentemente, na mente e no corpo, na fala que grita e silencia, no gesto diminuto, imperceptível, de confiança, adorável.
quinta-feira, 24 de dezembro de 2009
O gosto da solidão
A ausência de lembranças tem o sabor exato da solidão. E mesmo no mundo da lembrança tem buracos, fendas profundas que remetem a um sentimento de sabor acre ou de dissabor. Mas a solidão pode ser adocicada quando se está em paz, sem angústias ou expectativas. Ainda assim, a sensação é fronteiriça, nem contentamento, nem descontentamento. Talvez a palavra tenha jeito de aumentativo porque o sentir é grande em forma de ão, talvez tenha jeito de objeto sólido que excede porque é preciso atingir sua exata materialidade, escapar do sentir abstrato incompreensível de um para o outro. Solidão é par de incompreensão, solidão no amor, solidão na dor, solidão na euforia, solidão no gozo, solidão na tristeza, solidão na indiferença, solidão na diferença...Solidão é no coração, nasce, vira embrião e anfitrião, porque só nela percebe-se o de si para si, porque solidão é lembrança de ser não...ou se ser só sensação...
Ganhei o ponto
Hoje o ponto mudou de ponto,
Não tinha ponto,
Mas barracas em fileira,
Frutas, legumes, verduras e biscoitos em profusão,
Delícias...
Precisei mudar de ponto;
Perdi o ponto,
Que se desfez em linha,
De infinitos pontos...
Aquele ponto se perdeu de mim,
Mas ficou-me os gostos da expectativa;
Deletei a curva do ponto,
Fui na reta mesmo
Em busca de outro ponto;
Lastimei a perda da rotina,
Agradeci a perda do ponto,
Ganhei outro ponto,
Pude sonhar outros pontos...
Não tinha ponto,
Mas barracas em fileira,
Frutas, legumes, verduras e biscoitos em profusão,
Delícias...
Precisei mudar de ponto;
Perdi o ponto,
Que se desfez em linha,
De infinitos pontos...
Aquele ponto se perdeu de mim,
Mas ficou-me os gostos da expectativa;
Deletei a curva do ponto,
Fui na reta mesmo
Em busca de outro ponto;
Lastimei a perda da rotina,
Agradeci a perda do ponto,
Ganhei outro ponto,
Pude sonhar outros pontos...
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Passageiro
Déni era e não era um cavalheiro quixotesco,
Não tinha cavalo nem escudo,
Mas sonhava,
Manuseava rifles,
Voava na imensidão,
Atirava sem compaixão,
Defendia sem restrições,
Amava o selvagem de si,
O selvagem do outro;
Déni era livre,
Civilizado,
Incivilizado para datas,
Não queria compromisso com nenhuma Dorotéia,
Ou qualquer título de nobreza,
Ou dotes fabulosos;
Mas Déni amava fábulas,
Para ele os bichos eram melhores que gente,
Porque não tinham incertezas,
Somente eram certas as suas predestinações,
E a fala no olhar era mais palavra neles,
E os sons que emitiam tinham o ritmo para o momento exato;
Déni sabia que não era eterno,
Devia gostar dos contratos de prazo certo,
Mas odiava todos,
Fadados que eram aos limites do tempo,
Aos interesses do tempo,
Às posses descomedidas,
Às incertezas do poder e do amor;
Déni era passageiro...
E não comemorava datas...
Não tinha cavalo nem escudo,
Mas sonhava,
Manuseava rifles,
Voava na imensidão,
Atirava sem compaixão,
Defendia sem restrições,
Amava o selvagem de si,
O selvagem do outro;
Déni era livre,
Civilizado,
Incivilizado para datas,
Não queria compromisso com nenhuma Dorotéia,
Ou qualquer título de nobreza,
Ou dotes fabulosos;
Mas Déni amava fábulas,
Para ele os bichos eram melhores que gente,
Porque não tinham incertezas,
Somente eram certas as suas predestinações,
E a fala no olhar era mais palavra neles,
E os sons que emitiam tinham o ritmo para o momento exato;
Déni sabia que não era eterno,
Devia gostar dos contratos de prazo certo,
Mas odiava todos,
Fadados que eram aos limites do tempo,
Aos interesses do tempo,
Às posses descomedidas,
Às incertezas do poder e do amor;
Déni era passageiro...
E não comemorava datas...
terça-feira, 24 de novembro de 2009
Renovadora
Não existe mais Sapateiro. Agora passa lá na Renovadora de Calçados! Tem até orçamento sem compromisso. Serviço profissional para quem quer dar uma ‘garibada’ naquele calçadinho meio batido, mas que ainda dá um caldo, quer dizer, uns passos. O material é o mesmo do sapateiro; tem sola, preguinho, martelo, cola; tudo do mesmo jeitinho, só que agora é na renovadora de calçados. Na rua principal do bairro tem duas, com placa em letras garrafais e tudo, que sapateiro é coisa de outro tempo. Agora é o tempo das renovadoras de toda sorte, um apelo moderno para o antigo e batido sapateiro que precisa de um nome mais comprido e que não diga respeito a ele em especial, mas à renovadora de calçados. Ninguém mais quer ir ao João Sapateiro, mas sim à renovadora de calçados. Que negócio é esse de arrumar o sapato? Não, não e não. Na renovadora seu sapato sai renovado, praticamente novo, que sapato velho, usado, é coisa de outro tempo.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
'O Leitor'; sobre Literatura e Liberdade
A narrativa do relacionamento entre pessoas de gerações diferentes, que se aproximam e se distanciam durante a vida pelas contingências pessoais, sociais e políticas de uma Alemanha marcada pelo nazismo, mas que permanecem de certa forma unidas pelo amor à literatura e a tudo o que ela remete. O autor alemão Bernhard Schlink, em ‘O leitor’, conta a história do envolvimento do estudante Michael, de 15 anos, com Hanna, de 36 anos, logo após a Segunda Guerra Mundial. Por alguns meses eles têm encontros amorosos, durante os quais Michael lê para ela autores clássicos da literatura como Tolstói, Dieckens e Goethe. Até que Hanna desaparece e os dois se reencontram em um julgamento, em que muitas revelações vêm à tona. Ele, estudante de direito; ela, acusada.Também um metatexto sobre a leitura e literatura, o livro de Schlink não tem a pretensão de ser um tratado sobre as características de um leitor e nem tão pouco sobre as expectativas do escritor sobre o leitor, senão chamar atenção para as mazelas e frustrações engendradas no regime totalitário racista e as implicações psicológicas na sociedade. A história e os personagens são conduzidos sem exageros panfletários, mas de forma suave e contundente, quase como um segredo que o desenrolar dos fatos desvenda de forma irremediável. Escrito em primeira pessoa, por meio do olhar do ‘menino’ Michael, o texto apresenta frases curtas, o que encerra o dizer reprimido das vozes ainda caladas pelo regime nazista. As descrições são, por vezes, resumidas, outras, detalhadas, ao sabor das ânsias e contemplações do narrador; “o prédio antigo tinha a mesma altura e quatro andares, um piso de blocos de arenito afiados como diamantes no térreo e três andares superiores de paredes atijoladas com arcadas de arenito, varandas e janelas gradeadas.”
Os diálogos mínimos, à despeito da discussão sobre intencionalidade do autor, terminam por esconder o que vai fundo na alma, as vergonhas, que em instantes aparecem como um afago ou uma violência exagerados; “Ela tinha nas mãos o cinto fino de couro com o qual prendia o vestido na cintura, deu um passo para trás e o lançou no meu rosto. Meu lábio estalou, e senti o gosto de sangue. Não doeu. Fiquei terrivelmente chocado. Ela pegou o cinto de novo. Mas não voltou a bater.” Contudo, algumas passagens demonstram uma poesia desconcertante como; “Quando ela estava adormecida sobre mim, a serra calava no pátio, o melro cantava, e das cores das coisas na cozinha só restavam tons acinzentados mais claros ou mais escuros, e eu era completamente feliz”, e os protagonistas se revestem de uma verdade crua, da impossibilidade de estarem juntos; “Hanna como doença. Envergonhei-me. Mas falar à vontade de Hanna é que eu não podia”, e da dúvida; “O verão foi o vôo planado de nosso amor, ou muito mais do meu amor por Hanna; sobre seu amor por mim eu não sei nada.”
‘O leitor’, fala de vida, da descoberta do amor e do sexo; fala de morte, morte em vida, vida em morte, e literatura. O leitor Michael é alguém que apresenta os mundos para outro alguém, Hanna, e que a deixa livre para fazer sua própria leitura, desobrigada, distante da realidade vivenciada, mas vivida no ato da leitura; “Ela gostava dos poemas entremeados. Gostava dos disfarces, dos enganos, das confusões em que o herói se envolvia na Itália. Ao mesmo tempo implicava com ele por ser um velhaco, não se responsabilizar por nada, não conseguir nada e nem querer conseguir. Ficava arrebatada e, horas depois que eu tinha parado de ler, ainda podia vir com perguntas.” Já Hanna é a mulher sem pudores, o colo de mãe, o acalento; é também a representação da força, de uma transformação, de como a oportunidade pode ser aproveitada em toda sua plenitude; “Era visível a resistência que Hanna precisou superar para transformar as linhas de tinha em letras e compor com as letras as palavras. A mão da criança tende a se desviar aqui e ali, precisando ser mantida no percurso da escrita. A mão de Hanna não tendia a lugar algum, precisando ser obrigada a seguir adiante.” Os dois protagonistas são leitores com seus pontos de vista, suas vivências, são livres naqueles momentos.
A obra de Schlink é um despertar para a discussão sobre os conceitos pré-concebidos, para as exclusões injustas, mas é também ode ao amor, ao amor que une as pessoas com motivação óbvia, quase irrefreável da atração física, mas de um amor maior, que sobrevive por aquilo que o outro tem a dar, a ensinar, o motivo maior da troca e da solidariedade. Mas é, sobretudo, um livro de exaltação à literatura e à descoberta da leitura e ao mundo novo que ela desnuda a cada momento, no reconhecer de si próprio e dos outros, na compreensão das diferenças marcadas nas pessoas pelo tempo, pelos lugares e até nas incompreensões, daquilo que não se explica.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
Sinos sem dobres
Por sobre a rua estendiam-se as campânulas dos sinos sem dobre. A rua era pequena e as casas vinham uma a uma num ritmo lento até que os olhos se esgueiravam na busca de horizonte maior e ele não vinha. Não se sabe por que as badaladas já há cem anos não soavam mais, senão pela morte do último sineiro, que despencara lá do alto. E assim, todos choravam as mortes e comemoravam os nascimentos da vila ao som da Ave Maria ou do Pai Nosso entoado na próxima missa pelas vozes de ladainha, o que se ouvia até o fim da rua. Dos sobrados os rostos, de face lúgubre e festiva, não ousavam ultrapassar os batentes das janelas. Às vezes interpunham-se somente as pontas dos narizes mais compridos ou mesmo se insinuavam alguns fios de cabelo em dias de ventania. Não se sabe por que, cessadas as badaladas, o povo ganhou conformação intimidada diante de tudo e o movimento ficou também silencioso. Começaram todos a ver de forma descomedida e se assustar ao menor barulho por falta dos dobres dos sinos. E cada vez que alguém se pronunciava em alta voz, os ouvidos pareciam doer, como se estivessem submetidos aos mais elevados dobres, de quem está com as campânulas feito chapéu, por sobre as cabeças. Dizia-se que o coração delas batia em disparada a qualquer som que não fosse das rezas na igreja, e que antes do cessar das badaladas, eram todos mais calmos. Havia alguns que se colocavam de joelhos na escadaria dos sinos e que lacrimejavam na lembrança da magia dos dobres que anunciavam alegria e tristeza, depois alegria de novo, de modo que a cada tristeza seguia-se uma alegria e se a alegria vinha, a tristeza era recebida com resignação de quem já foi agraciado com momentos felizes. Morrer o dobre dos sinos foi como morrer a anunciação da vida e da morte, do destino e do recomeço na vila.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
Pedra
Pedra não quisera ser
Pedra só pudera ser
Posto que de tantas pontas de pés
Rolou e parou
E rolou e parou
Resolveu querer ser pedra
Sem pulmões que respirar
E dedos que buscar
E nesse estado de minério
Foi obra inabalável
Sem vertigens de amor e de dor
Pedra não quisera ser
E mesmo assim paralisou
E nunca mais falou
Sob pena de não ter ouvidos que ouvi-la
Deu um último grito e petrificou
E nesse estado mineral
Foi plenitude geológica
Amou a chuva
O sol
O vento
Na dureza do seu esplendor
Foi um adorno de sentimentos
Abortou pedaços e farelos
E sobrou
E rolou
E parou
E foi pedra que passou
Pedra só pudera ser
Posto que de tantas pontas de pés
Rolou e parou
E rolou e parou
Resolveu querer ser pedra
Sem pulmões que respirar
E dedos que buscar
E nesse estado de minério
Foi obra inabalável
Sem vertigens de amor e de dor
Pedra não quisera ser
E mesmo assim paralisou
E nunca mais falou
Sob pena de não ter ouvidos que ouvi-la
Deu um último grito e petrificou
E nesse estado mineral
Foi plenitude geológica
Amou a chuva
O sol
O vento
Na dureza do seu esplendor
Foi um adorno de sentimentos
Abortou pedaços e farelos
E sobrou
E rolou
E parou
E foi pedra que passou
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Penitente
Ela não gostaria que a acusassem de crime ambiental, nem tão pouco que pensassem dela uma enormidade de descaso com as coisas belas e providenciais da natureza. Mas sentia dentro de si uma predisposição para o homicídio, não de gente, que isso ela nunca pensou, salvo, é claro, quando sabia de um tarado molestador de crianças e mulheres. Pensava em assassinar um pé de pitanga e a imagem da moto serra na mente provocava-lhe quase um êxtase. A hipótese do veneno também não era má, mas cria piamente que aquele pé não morreria com medida tão silenciosa. Além do mais, não ia se queimar tanto, com ação tão condenável e muito menos escusa. Preferia o acordo.
Não tinha nada em especial contra a fruta vermelha, saborosa e até adocicada, mas aquela vermelhidão aguada que invadia seu quintal, junto com o verde numeroso daquelas folhinhas e o entupimento da calha recorrente em todos os períodos de chuva, despertava nela aquele sentimento ilegal. E a pitangueira nem era dela; a árvore pendia do muro do vizinho e as folhas e frutos desciam copiosamente, ou então, as florezinhas miúdas a soltar o pólen, num gozo frenético pela irritação nasal e pelas infiltrações na casa. De noite o quintal ficava atulhado de baratas frutíferas e na manhã seguinte, o horror da permanência das frutas vermelhas, posto que poucas se convertiam em caroços brancos, pois até os insetos kafkanianos ficavam enjoados, tanta era a quantidade. Dentro dos cômodos da casa saltavam também os frutos e as solas dos sapatos viravam carimbos de tinta púrpura.
Tentaram de tudo; varreção, adubo, suco, enfim, alguma solução que trouxesse sustentabilidade e paz ao coração, aquela sensação de alma apaziguada. Passaram-se anos e ela nunca tomou nenhuma atitude decisiva ou homicida, senão propor e realizar parcas podas para minimizar a enxurrada de frutos e folhas. O pé de pitanga virou uma espécie de penitência; sim, ela entendeu assim. Que de alguma forma aquele caldo avermelhado no seu quintal deveria ter alguma razão nobre, nem que fosse o encontro da tolerância com os caprichos do vizinho, que não se desvencilhava das árvores frutíferas em seu exíguo corredor, mesmo sabendo que penderiam todas para o quintal ao lado e que poderiam provocar litígios e até nódoas de sangue.
Não tinha nada em especial contra a fruta vermelha, saborosa e até adocicada, mas aquela vermelhidão aguada que invadia seu quintal, junto com o verde numeroso daquelas folhinhas e o entupimento da calha recorrente em todos os períodos de chuva, despertava nela aquele sentimento ilegal. E a pitangueira nem era dela; a árvore pendia do muro do vizinho e as folhas e frutos desciam copiosamente, ou então, as florezinhas miúdas a soltar o pólen, num gozo frenético pela irritação nasal e pelas infiltrações na casa. De noite o quintal ficava atulhado de baratas frutíferas e na manhã seguinte, o horror da permanência das frutas vermelhas, posto que poucas se convertiam em caroços brancos, pois até os insetos kafkanianos ficavam enjoados, tanta era a quantidade. Dentro dos cômodos da casa saltavam também os frutos e as solas dos sapatos viravam carimbos de tinta púrpura.
Tentaram de tudo; varreção, adubo, suco, enfim, alguma solução que trouxesse sustentabilidade e paz ao coração, aquela sensação de alma apaziguada. Passaram-se anos e ela nunca tomou nenhuma atitude decisiva ou homicida, senão propor e realizar parcas podas para minimizar a enxurrada de frutos e folhas. O pé de pitanga virou uma espécie de penitência; sim, ela entendeu assim. Que de alguma forma aquele caldo avermelhado no seu quintal deveria ter alguma razão nobre, nem que fosse o encontro da tolerância com os caprichos do vizinho, que não se desvencilhava das árvores frutíferas em seu exíguo corredor, mesmo sabendo que penderiam todas para o quintal ao lado e que poderiam provocar litígios e até nódoas de sangue.
segunda-feira, 5 de outubro de 2009
Morte do tempo
Não é mais a hora da descoberta encoberta. Dizem e insistem que ela já passou e que não valem mais surpresas e encantos. Que agora restam o cotidiano e os anos que restam. Por isso, não cabem mais as poesias em momentos irrecuperáveis, perdidos. Não cabem nem prosas, nem diálogos infindáveis, porque as conclusões inconclusas não reverberam mais. É hora do resoluto viver, sem artimanhas e deslizes, sem prosas e poesias. Não há mais tempo para elas, que elas gastam o tempo do fazer, do ganhar o dia, o mês, o ano. Quem dirá então da subversão da poesia na ausência do intervalo, no instante da utilidade laboriosa do tempo? Quem ousar infringir essa regra máxima do trabalho e insistir na poesia está desconexo, absolutamente sem lugar. Aos sem lugar o pecado do lugar de estar sem lugar. Não pode mais a poesia, a prosa sobre incompreensíveis maneiras de não viver e viver, de pensar em não viver pelo narrar sem fim e até morrer de tanta poesia e tanta prosa perigosa. Não adianta. Perca o tempo com perfusão de imagens, disfarces hábeis para o vazio, mas não o perca com poesia e morra o tempo. Que a ausência de poesia é a morte do tempo.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
In(certos)
Corredores e portas
Além do vão da porta
Saídas e entradas
Repetidas sombras
De (des)atenção
No sobe e desce
Do elevador
Nos burburinhos
Dos andares
Números
E passos
Até o ponto de chegada
(In)certo
Até o ponto de saída
Ida
Além do vão
Da porta da rua
(In)certa
Além do vão da porta
Saídas e entradas
Repetidas sombras
De (des)atenção
No sobe e desce
Do elevador
Nos burburinhos
Dos andares
Números
E passos
Até o ponto de chegada
(In)certo
Até o ponto de saída
Ida
Além do vão
Da porta da rua
(In)certa
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