quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Trocado?

Ele estava sentado ali na calçada em curva, os sapatos trocados, mas bem postos em pés sem meias, o olhar vago e o dorso nem tão emborcado. Ele achou de dar-se por ali, naquele canto sem canto, enquanto transeuntes olhavam-no dispersos, uns poucos atentos. Talvez ele fosse trocado de lugar como as vestes dos pés, talvez estivesse no lugar exato que planejara por força daquilo que não entrevia. Não havia paisagens, embora sob a cabeça o céu fosse razoavelmente azul por nuvens em contraste, rasas nuvens de chuva. Seus olhos também eram rasos, mas por eles não verteria chuva alguma, senão breves piscadelas sem direção, pura vaguidão. E assim ele vagou por lá sem vagar, com o vagar de quem contempla sem contemplar o de fora, mas um contemplar por dentro, de um jeito sanguíneo e melancólico, tudo em vermelho e preto, dia e noite a se fazer distante dos relógios do mundo. E por horas trocou-se por lugar algum que não aquele mesmo, onde não se situou, não voltou, nem sequer esteve.

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vingar

Ela se ressentia das amizades que não vingavam; ironicamente tencionava se vingar de todos esses sentimentos desatentos, rasos, indisponíveis. Mas ela também não se redimia de tê-las também negligenciado por avaliações precipitadas ou por indigestões momentâneas e até duradouras. Essa visão sempre voltada para o centro de si mesma, ainda que disperso, por boas vezes, bloqueara essa visão plena do outro, suas possibilidades infinitas, repugnantes, mas também adoráveis. Mas ela sabia também que o outro podia ser um caminho inóspito, e então, o dispêndio de forças em desequilíbrio teria quase sempre o efeito de ofegar e lamentar menos experiências compartilhadas. Alguns diziam que existia uma tal afinidade, uma empatia a que não se podia fugir. Ela não cria piamente nessa idéia, posto que a revelação de si para outro era sempre incompleta, e esses ‘disfarces’ de proteção ou dissimulação talvez fossem o desafio mais fundo de viver o outro. E viver o outro era surpresa a cada instante, se houvesse disponibilidade, gentileza. Mas ela nem sempre se punha disponível, gentil, porque esse ideal subsumia diante do mundo de objetivar em que se embrenhou, diante de tanta individualização. E subjetivar o outro em suas diferenças, em suas sombras, reflexos famintos de compreensão, era todo o sentido, o significado de viver. E se a custo da sobrevivência, a alteridade tivesse que ser desprezada, o mundo seria pouco e a sobrevida ressecada, improdutiva. Teria que se vingar a todo tempo dessa escassez de sentimentação pelo outro, do excesso de sentimentação sobre si mesma. Teria que ser sentir ação misturados, em diálogo permanente, a afastar toda materialidade ou abstração utilitárias. Teria que se convencer do convívio em fragmento, em busca de completude. Teria que se convencer da dor e da alegria de conhecer, desse entrelugar dos sentimentos em ação pendular, em perfeito desequilíbrio.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Rever a ilha

Há lugares que nunca mais voltaremos ou veremos como tal; sensações também nem sempre serão percebidas como dantes. Os lugares, os mesmos lugares de outrora, diferentes são porque são ida em retorno, pra guardar outras experimentações, ‘sentimentações’ sobre um sedimento qualquer de plenitude e solidão. A ilha fora para ela uma descoberta redescoberta sem tanta pressa e tanto deslumbramento por imensidão de mar, mas uma angústia por registrar cada detalhe, como se fizesse lupa humana, e humana se ‘agrandasse’ na visão sempre incompleta, naquilo que não se apreende, mas vaza em si e também retém, como represa em tempo de seca, em tempo de tempestade. A perfusão de pessoas a chegar e a ir era a mesma da outra vez, mas ela não se via assim nesse turbilhão primeiro, mas em uma meia mansidão de um já visto, nem todo visto. E revisitava aquele pedaço de terra desgarrado do continente com desejo de rever algo que não fora esquecido, mas que encontraria de outra forma, em meio a outras pessoas em espírito vário como o de sempre, e o tempo não seria o mesmo, o ‘dorminhar’, o acordar, o pisar. Repetira alguns lugares, fora a outros, e não saberia dizer da exata sensação do ‘repetir’, do ‘descobrir’. Pensava, por vezes, que a confusão vinha dessa disposição inconstante da alma. Rever a ilha fora degustar e não abarrotar o estômago faminto. Rever a ilha fora entrar em si em descoberta de susto e calma, de apreender a ilha de dentro, solitária e gregária, em desajeito e procura de firmeza. Rever a ilha fora conviver mais de perto, enfatizar o ver e o sentir dos lugares para ouvidos mais atentos quem sabe, fora segurar mãos, segurar-se sem mãos, respirar e ficar sem ar, esquentar e esfriar, perceber esse intermeio, esse entrelugar tão humano.


A praia das pedras


Tem gente que gosta é de mar aberto, e margeando algumas pedras, mas nada pelo caminho. Santo Antônio, a praia em Ilha Grande, é cheia de pedra pelo caminho, e até caminho de pedra a dar em outro mar. Ter uma pedra pelo caminho pode não ser lá muito convidativo, mas várias pedras em mar alto, de rocha maciça e em falhas só pra receber o mar, é lindo de ver. A água entra arrogante nas falhas e bate tão forte que sobe em movimento chafariz. Ao longe se avistam nuvens de fumaça, delicadas rosas instantâneas, rosas fluidas, rosas de água, flores atômicas no meio do mar. Eu queria ganhar uma rosa de água todos os dias à beira mar e só olhar as pedras no caminho do mar, pedras só de admirar. E pensar que foi num desvio do caminho que fomos dar no mar de pedra, com todo custo pelas pedras do caminho fomos dar em mar de pedra, pedra boa onde brota rosa de água, que nasce e desmancha em instantes, no inconstante entrelugar da rocha e do mar.


Entre a ilha e a ilha

‘Que distância acha que existe entre cá e lá?’ Cá era um ponto da Praia de Lopes Mendes em Ilha Grande. Lá era a Ilha de Jorge Greco. Não havia por perto ninguém que detivesse essa informação, apenas nós, eu e Helvécio, sentados no tronco de árvore e essa pergunta em busca de resposta. A questão era optar por um método de calcular o espaço entre a praia e a Ilha. Enquanto eu supunha quilometragens absurdas, ele tergiversava sobre a impossibilidade daqueles números e propunha uma forma de cálculo que considerasse o tamanho das construções visíveis e da falange distal do dedo polegar posicionados na conhecida fórmula matemática da regra de três, que por fim definimos que resolve quase todo problema matemático. Encontramos um número razoável de quilômetros, que fez praticamente cem quilômetros cair para dez, coisa de gente que costuma andar somente sobre terra. O mar nem estava frio e as ondas não eram muito revoltas, mas do lado de fora vigorava o vento e o céu anunciava uma chuva em breve. Optamos por voltar de barco para evitar os tropeços na trilha enlameada e quem sabe a escuridão do dia que já se findava. Tudo no entre; entre a ilha e a ilha, entre o dia e a noite, entre o sol e a chuva, entre eu e ele...


Dois para Dois


Resolvemos no último dia estender nossos ‘estudos’ na ilha e visitar Dois Rios em abraço com o mar. Pegamos a estrada, denominada também T14, e tencionamos até migrar para a T13 rumo ao Pico do Papagaio, mas declinamos da idéia. Seguimos mesmo, eu e Helvécio, pra Dois Rios, naquela estrada já cheia de história divina em oração e macabra dos tempos do presídio. Ilha geralmente é lugar de isolamento, e para elas, as ilhas, muitos foram levados para perderem a chance de serem solução de continuidade; um isolamento físico para apagar as almas que, muitas vezes, só se sabem por conviver, só se ressentem e se embatem por conviver. Enquanto isso, íamos nós nesse convívio de caminhar muito mais que falar, nesse convívio de dar as mãos e impor o ritmo pra chegar, pra descobrir. Foram várias as paradas; no mirante pra ver a Vila do Abraão por trás, nas pontes pra ver água e resvalar por rocha, até pegar a trilhinha mágica de bambus, curta e hospitaleira, e voltar pra estrada. Chegamos enfim na guarita, registramos os nomes e avistamos e vila em círculo, pequena, meio vazia, de casas antigas e árvores altas e frondosas. Seguimos para a reserva do almoço com uma das duas Terezas e aportamos no mar azul anil, ladeado nas pontas por rochas, por trás por mata atlântica, mar pra se ver todo, pra gente se fazer solidão e companhia. Visitamos também um dos braços de rio com água a cintilar ouro da areia do mar, rio a se confundir com mar. Nadamos pouco, mais olhamos com deslumbramento de ver o belo. Almoçamos comida caseira e voltamos em passo rápido pra não perder a hora da barca, a ida de volta para casa.


Entre o barco e o frio


Os passeios de barco são para nós que estamos longe da vida do mar, sempre uma grata surpresa. E claro, tencionamos passear em um lindo dia de sol, e mergulhar, e secar em vento morno. Mas esse que fizemos em direção às ilhas de Angra dos Reis – Botinas e Cataguazes – e Lagoa Azul foi no frio mesmo, regado a chuva e respingo de mar. Fomos eu, Helvécio, as meninas da excursão, Elisa, Mércia, Ceura e Eliana, todas animadíssimas e sempre de bom humor a despeito do tempo adverso, e prontas pra fotografar. Todos equipados e ansiosos por ver peixe debaixo de mar, por ver paisagem reluzente. O sol não deu o ar da graça, e o frio impiedoso em certos momentos, motivo de abraços, aconchego e conversa. O barco foi lugar de buscar mais o outro do que vislumbrar, desbravar o de fora. O horizonte em mar aberto, o fundo do mar e as terras em forma de ilhas deixaram de protagonizar a cena para fazerem parte de um cenário real, do dia que não faz sol, mais um jeito do dia no mar.


O pouso


Pousamos na Pousada Recanto da Pedra, onde tem pedra quase a vagar pelo meio do caminho entre a entrada e o fundo, bem no entrelugar. Lugar silencioso, beirando a estrada do caminho para Dois Rios, bem no fundo da Vila do Abraão. Tínhamos de fato uma pedra no caminho, ‘no caminho tinha uma pedra’, e Eva estava lá para nos lembrar dos momentos de desviar para o café da manhã, e também nos receber logo na entrada, na volta dos passeios pela Ilha, e para nos instruir sobre trilhas e belas paisagens. O lugar do pouso, diferente das trilhas em que nos concentrávamos nos caminhos, foi mesmo o lugar de relembrar o dia que se foi, planejar o que viria; o lugar pra levantar vôo, o lugar para aterrissar em sono bom.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Encontro de sentir

Chamam lembrança essa inscrição de ti nas folhas da minha mente,
Chamam saudade também,
Eu chamo mais,
Alguma coisa sem palavra, inaudita e faminta;
Eu chamo outras palavras e se as somo penso beirar o sentido,
Ainda assim não digo, não encontro;
Algo permanente assim, nem potência, nem realização, um presente em desvão, incompleto e transbordante;
E se com prazer te fito em pensamento;
Com ternura te miro incessante, inebriada, alcóolica;
Uma sensação de estar com, de ponte a ligar dois lugares, e um receio de desabar e em rio me fazer mistura bem distante da nascente, origem, aura esquecida;
No espelho minha visão refletida, parca de mim;
E carente de saber o que vês, em que retrato me julgas ou se distrai de mim, que vozes ecoam dessa imagem de condizer ou desdizer dos cliques inevitáveis no correr do tempo, sou outros tantos, mas há um outro que sou eu mesma no encontro de sentir.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Amor arrebol

Ela pensava que seu amor por ele era feito um arrebol; um lugar de despedida e chegada a todo instante. Alguma coisa que se faz sem perceber; um contentamento de receber e dar, uma dor ao perder, todos os dias esse susto de ter e não ter, a inexata cor fracionada no tempo em nuances claras e escuras, feito um arrebol. Sentia uma intensidade de luz que se aproxima, uma vaguidão de luz que se afasta, como um acalento, uma despedida. Seu amor era sim um arrebol, um entrelugar, a transição do momento, sem nenhuma garantia no tempo; arrebol tão humano, desses que abandonam qualquer um tão logo venha a cegueira eterna; arrebol desumano, desses que desafia as pupilas em ardor. Não haveria melhor descrição senão esse lusco fusco para seu amor, amor arrebol, anúncio do sol e da lua e das estrelas. Um dia, mais de um, ela avistou com ele o arrebol que traz o sol, que traz a lua, e como num cegar santo por tanta beleza, ela virou amor arrebol...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

Esferas insustentáveis

Era no redondo e nas reentrâncias do ombro o reconhecimento do amor. Não havia outra parte mais reveladora nele, que lhe fosse mais atraente e contente de tocar, de acariciar, como se ali estivessem guardados todos os motivos de amor e desamor, tudo revelado naquela circunferência de tato, os dedos dela no ombro dele. Era como apalpar a bola mágica, e então todas as imagens não tardavam a se desfiar como claras e débeis. Era naquele sustentar frágil de certa vez, ou por todo o tempo, o ombro - um lugar que guardou sua vida, seus enlevos, suas derrotas, seus músculos e ossos em articulação de imponência e decadência -, que ela se mirava, se misturava. Era no redondo do ombro que ela sentia o pulsar do coração dele, o porquê de, por vezes, bater lento e descrente, alheio, ausente. Era talvez a profunda angústia nesse toque, a inquietude de conhecer tanto desvelamento, que o fazia delícia. E era também um ninar de criança desprotegida, como se o choro pudesse minar súbito daquele ombro e banhar em vertigem todo o corpo amado, e respingar nela, até que os dois fossem só rio, e seus ombros apenas esferas a flutuar sob um sol morno e brilhante, leves ombros por amar, insustentáveis.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Fundo

Amor é sentimento fundo
De tão fundo perde o fundo
Amor não tem fundamento
Ainda que fundamentado
Em argumentos falhos
Argumentos imprecisos
Amor é coisa de se admirar
E angustiar no dia
À espera da noite
Amor é céu noturno em constelação
Às vezes tem cara de lusco fusco
Confuso amor
Só certeza de fazer existir
Existir pelo amor
Em lembrar que volta toda hora
Grudado no sem fundo
Subterrâneo amor

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

"Casa Mãe"

Ela não sabia se era mesmo a ‘Menina do Rio’, porque tinha nela uma mineirice, um ar de montanha tão agarrado, que seria difícil assumir um papel assim de verão da alma. Pensava sim que os cariocas tinham uma alegria de tempo de sol, até mesmo nos momentos de humor conturbados, abriam-se em palavras rasgadas com som a reverberar, soltavam o grito, aliviavam a alma. Mas ela achava que tinha um privilégio naquela cidade de água, rocha, verde e construção, que a fazia meio de Rio, meio de Mar. Lá já tinha morada com direito a acolhimento de família, a risos em volta das refeições, mas muito mais um prazer ao retorno a um mundo lúdico e incansável, como se a juventude pudesse durar o tempo da eternidade. Lá se sentia mesmo menina, e soltava gargalhadas, e perdia o juízo pelo mar e pelo sol, e era um pouco filha da Gláucia e do Gilmar, irmã da Gabi, da Vick e do Danilo. Os visitantes dessa vez se multiplicaram; meninas de Minas, menino Paulista. A mim e Vivi se somaram a energia e o riso solto da Sílvia, o comedimento sensato da Vilmara e a meninice do Zé. Eram cinco a mais na casa, sem contar os de lá, primos e amigos, as crianças do Rio, todos acampados em colchões distribuídos por toda Casa Mãe. O programado era visitar os pontos turísticos mais conhecidos, o Cristo, o Pão de Açúcar, mas tudo se desviou e o cotidiano da cidade ficou mais próximo no Centro do Rio mesmo, com a cadência do Samba da Rua do Ouvidor, cheia de casario antigo, pontes de luz e charmosos barzinhos e livrarias, e a travessia de barca Rio-Niterói com vista linda da Baía de Guanabara, do aeroporto Santos Dumont, da Ilha Fiscal e da dança das gaivotas.


A Santa Terez(s)a de lá

A de lá é parecida com a daqui
Tem morro de subir e de descer
Tem gente a procurar
Tem gente a encontrar
E tanta casinha de encantar
E ruína de admirar;
E a música bonita também mora lá
E nas infinitas portinhas de vender
O saborear dos quitutes e o bebericar, o papear;
O bonde daqui já se foi
Mas o de lá continua a passar
Com gente a amontoar, a dependurar
Até por sobre arcos a equilibrar
Com rés e trancos do caminho
E gente namoradeira a sorrir
Ranzinza a reclamar
Curiosa a olhar,
E no susto do alto
Até chegar no baixo
Nos chãos depois de voar
A lembrança de querer voltar
Pra ver o Rio
Vale encantado
Do morro de Teres(Z)a Santa
A vigiar...


‘Em Chamas’

Bem lá na comunidade do Rio dos Pedras, no Rio, tem um castelo enorme a que chamam Castelão. Só que o Rei de lá não tem coroa nem cetro, parece mais um dragão a cuspir fogo pelo salão. O Funk é o grande Rei a ditar o ritmo frenético do baile, e todo mundo vira rei a se exibir, nos movimentos de requebrar, até o castelo ficar em chamas. Não há dança nobre e nem vive de nobreza o castelo, mas de uma mistura de gente de todo jeito que se imaginar. Chegam pessoas de todos os lugares só pra dançar no baile de passo sensual e criativo, ou mesmo para ver o ritual dançante do outro, mas sem reverências obrigatórias, somente o direito de se soltar e incendiar o castelo.


‘Em ondas’

Afogamento não tem graça nenhuma, mas o do Zé, primo da Vivi, vai ficar pra história. Zé pensou que onda tinha natureza controlável, contornável, e se ‘misturou’ na onda. O Zé é um paulista que foi visitar o Rio e ficou só no meio de carioca e de mineiro, melhor dizendo; mineiras. Logo no final do feriado, o Zé deu de se empolgar e mergulhar no mar de tormenta, lá na Barra. Foi ele, nesse dia fatídico, atrás do Hugo e do Danilo, primos cariocas experientes no balanço das ondas. O mar não estava pra peixe e muito menos pra gente. Dia meio frio de ventania, de mar fundo na beira, quando de repente se avista o Zé num tumulto de braços num buraco de mar, sem conseguir dar um passo nem para frente, nem para trás. Danilo e Hugo um tanto solidários, mas também receosos, nada conseguiram fazer, até que chegaram dois salva-vidas e resgataram o Zé, que saiu meio tonto, de perna bamba, uma delas manca. As meninas mineiras ficaram só a ver a cena; desconfiadas com tudo não iam abusar logo do mar. Gabi, a cicerone, não perdeu a chance de tirar mais uma foto. Todas assistiram ao salvamento no entrelugar do riso e do meio susto, porque nunca acharam mesmo que o Zé fosse se afogar. E Vivi dizia: ‘Meu Deus, já pensaram se acontece alguma coisa com o Zé? Todos iam cair em cima de mim...’, como se o Zé ainda fosse criança. Bem, não foi preciso fazer respiração boca a boca e o Zé não teve que suportar mais essa gozação de todos. São e salvo, sem perder a pose de paulista se dando bem no Rio, o Zé terminou mesmo sendo o protagonista da mais engraçada e memorável história do dia.

quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ruído encantado

Não importava para ela a proximidade máxima naqueles instantes. Valia mais aquela audição de idéias em perfusão, aquelas palavras argumento que vinham em torno da mesa redonda, em meio à pequena sala. Ecoava aquela voz grave no ambiente, e pelos seus ouvidos ávidos entravam dizeres de consentir, dizeres de duvidar, dizeres vários. Vinha por vezes um soluço silencioso no peito, de não compreender exato, tal qual ele dizia, por não haver a comunicação perfeita, um saber a anteceder, e pela falha na interlocução, um som inaudível qualquer, perturbador, dificultava o entendimento, e ele dizia sem pudores, seguro em fortes evidências acadêmicas, sobre essa impossibilidade do diálogo perfeitamente claro, raro, apenas um ideal. Nesses momentos surgia certa angústia e a vontade dela era chegar perto e tocar a boca dele em beijo infinito, fazer laço apertado no corpo dele com o dela, mas sabia que não podia fugir dos ditos a ressoar na mente; então retornava pacientemente à audição, àqueles tons crescentes e decrescentes de voz, àqueles movimentos ascendentes e descendentes dos braços dele a conduzir a palavra em gesto, enquanto os olhos buscavam compreender também a recepção; os olhos dela de acolhimento e de incompreensão. Assim, ele sempre duvidava da compreensão dela, pensava ser tediosa sua fala, extensa, empolgada, como se o mundo dos seus próprios pensamentos girasse em torno dele, como um satélite manco, deficiente em irradiar, senão a ele mesmo, a avançar sobre si de forma inevitável. Mas a angústia de entender era também convergente, dela pra ela. As palavras chegavam solitárias, ansiosas pelo interpretar. Nesse momento eram palavras órfãs à espera de adoção, da emoção e da inquietude de receber, de reconhecer e de estranhar. E o conviver, viver, era reconhecimento e estranhamento por meio da palavra, do movimento calado, gritado. E esse ruído impertinente devia ter mesmo algo de maléfico, mas também de virtuoso, porque permitia enviesar os caminhos e encontrar outras possibilidades; subjetividades, alteridades necessárias. Ele sempre fora para ela essa confusão encantadora, esclarecedora e ruidosa, toque e palavra a se encontrar entre razão e natureza, fronteira.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Ricardo Fabião

Recebi com muita alegria de Ricardo Fabião esse lindo texto!

A FRONTEIRA


Para Ane, Jessiely, Keila, Renata;
mulheres que arriscam alma e palavras
além de suas próprias fronteiras.


E com quatro dos símbolos aprendidos ele escreveu 'viver', e assim começou a história. Escreveu, que gostou, e soube como seguir. Agora cada um daqueles símbolos abria uma estranha passagem, o que ele tomou para si como ofício, para riscar nas coisas e arriscar-se mais. E desejou juntar todos eles, os vinte e seis símbolos, para chegar a todas as palavras do mundo, e com isso escrever tudo que se ouve e também tudo que se cala. Foi a professora, com algum tipo de luz nas mãos – como faz o sol, ao rasgar diariamente os caminhos e as cores aos seres – que os desenhou no quadro, com giz e magia; e não só isso foi aberto ali, o que se escreve e a estrada depois: algo que ele não sabia onde era estendeu-se muito mais mundo adentro, que ele só alcançaria de juntar e dizer todas as letras. E foi sem cansar disso até assim. Juntava então nos dedos as letras e as escrevia no ar. Escrevia, escrevia, ininterruptamente. Onde estava o mundo, lá estava seu dedo a escrever em cima das coisas, com exclamações nas ladeiras, interrogações no horizonte. Quando o ar estava cheio dos seus escritos, ele os apagava até que se refizesse o vazio para abrigar mais palavras. Até aí era o segredo, o menino. Certa vez, no desvio do caminho, quis saber como era juntar humanos e sentimentos na mesma frase, e pôs 'Lúcia' em cima, no topo da paisagem, e 'meu amor' embaixo, com reticências para que ficasse ao tempo. E contemplou a possibilidade e a fundura daquelas palavras. E tão logo percebeu que alguém poderia ler o pedaço rabiscado do vazio, que com mão demais apagou além do que deveria, e deixou um buraco no céu onde antes estava 'amor'. E assustou-se. Sem aquele pedaço de ar faltava-lhe algum caminho até ser completamente. Mas não houve jeito: agora estava lá, em todos os lugares aonde ia, no que sentia e almejava, o tal amor apagado às pressas, doendo onde não estava, um furo no céu, um oco suspenso no olhar, que seguia junto, desconhecedor das horas. E foi nessa margem menos visitada que cresceu. Assim, o adulto e o destino. Todos os dias punha escadas e escrevia no vão do amor arrancado, tentando chegar com palavras ao tamanho necessário da falta, algo que vedasse o incômodo de enxergar além. Quis remendar com linha e agulha, com adesivo e cola, mas nada fechava naquele lugar. Ainda fingiu que era janela, mas tinha de fato medidas de lacuna, e não coube uma cortina. Depois ele soube que ali estava a fronteira. Um dia encontraram apenas a escada. No mundo de cá, aos de sensibilidade, restou o que ele havia escrito. Dizem que virou poeta.




Ricardo Fabião (Agosto - 2010)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Dona Tereza

Com seus olhos azuis pequeninos ela adentrava todos os dias a sala de fisioterapia. Irradiava risos por todos os cantos daquele lugar, feito um anjo levado, cheia de histórias macabras, eróticas e até singelas. Ninguém diria que já alcançara, aliás, já passara dos oitenta anos, tão vívida era sua presença, de jovialidade incandescente... Certa vez contou de seu tio de Muriaé, criador de porcos. Este morrera de pescoço decepado num acidente de Kombi, e os porquinhos todos rolaram pela estrada...’uma tristeza’, dizia ela. ‘Tiverem que costurar a cabeça pro velório...’ Outra vez contava das paqueras e do casamento que já ia nos seus cinqüenta e oito anos. Brincava com seu jeito zombeteiro, ‘Mulher tem garantia, homem não’...Tanto que de vez em quando alardeava um flerte na esquina com um moço bem moreno e cativante, depois concluía...’sou casada’...com aquele pesar de moça namoradeira. Dificilmente haveria em tão dura idade, quando as articulações se colam e os músculos se ressentem, alguém como Dona Tereza, a fazer gente rir todas as manhãs, tamanha a espontaneidade, o vigor. A despeito de seus tendões do ombro rompidos, doloridos, ela era a única ‘paciente’ a não reclamar do gelo tópico no inverno, talvez porque o gelo se tornasse líquido morno rapidamente em contato com a pele dela. Ela era adaptável, dobrável; a rigidez não se fixara em sua alma. Lembro-me do seu toque carinhoso em minhas mãos e no meu rosto; as jovens mãos de Tereza ávidas por carinho, cheias de vida.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Beatbrasilis 5



Queridos amigos que me lêem, que me vêem assim pela escrita; acaba de sair a 5ª edição da revista eletrônica Beatbrasilis´, textos bacanas e três pequeninos meus! Será um prazer uma visita de vocês no,

http://www.beatbrasil.blogspot.com/

Abraço grande a todos!

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

Elas em Pirambu

Quisera um dia poder voltar ‘praquele’ lugar no meio de mar, no meio de rio
Quisera poder balançar na onda e repousar na calmaria daquele entre
Em meio a barcos pesqueiros, barcos de gente peixe a enredar, terra de gente cabocla contemplativa
Quisera voltar a ver as casinhas em fileira cor de fumaça de gota suspensa, quase miragem
Da baixa areia beira mar avistar aquele romper de mancha d’água em guerra pra ir pro rio, pra ir pro mar
E o rio a se misturar com mar sem o sal se desmanchar, riomar de gosto forte,
Marjaparatuba, Japaratubamar
Ela e mãe em Riomar entrelugar a festejar
A nadar, A caminhar, A admirar...
Elamãe, Mãela em Riomar...

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Qual era a música?

Ela deveria estar em outro lugar, mas não sabia qual. Não havia desejo preciso no pensamento dela, mas a sensação clara do lugar errado. Sempre se sentira assim em lugares errados, porque não os escolhera, não os desejara de fato, fora a eles apresentada, ficara; e uma vez assim neste estado de ficar sentia grande dificuldade das despedidas e de que os outros lugares também não fossem os lugares certos, ao menos por algum tempo. Então ficava e se admoestava por pensamentos de ir, enquanto seu corpo não movia e a sensação de lutar era antes uma falta de revelação incontida que um manifestar evidente e necessário sob os olhares de incompreensão. Ah...ela lutava por ir enquanto ficava; era sempre assim; esse ir por dentro que não ia por fora, e o tempo em vertigem sobre o abismo do mundo e da alma. Ela sabia que ele, o tempo, era o motivo exato de tanto pensar em ir, posto que se não fosse poderia não haver mais tempo. E ficava esse ressoar de fala em caverna dentro da cabeça; vá, vá, vá...Uma caverna apinhada de morcegos pendentes, cegos de visão e visionários do som. Ela sabia que havia uma música qualquer que devia ser a música dela, mas os ratinhos voadores não faziam concerto; somente alternavam a expectativa de uma seqüência de sons. Ela tentava em vão escutar o seu som, porque as notas não tocavam harmônicas e sequer faziam dissonância rara a repetir de tempos em tempos. Ela só precisava de um sinal sonante ou dissonante, qualquer sinal de ir pra outro lugar sem medo de não estar novamente, como sempre não esteve.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

A Maior Flor do Mundo | José Saramago

Como as 'pequenas coisas' podem se agrandar,
Como as ‘grandes coisas’ podem se apequenar...
Pena, por vezes, termos visão tão nublada...
Pena sermos engano de pensamentos e ações...
Pena sofrer os olhos dessa imaginação invertida, que pouco cria, e quase sempre copia...
Pena escapar o sentimento da imaginação...


quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Não se sabe

Aquela sala de fisioterapia era o exato lugar do passar do tempo, primeiro nos seus próprios tendões e músculos a fadigar, depois naquelas imagens já antigas a resmungar dores nas pernas, dedos em cãimbra, colunas em ardor, pelves em desalinho. Seu problema parecia simples; disseram-lhe ser coisa de tecido mole, um tendão aborrecido a queimar o calcanhar, a relembrar uma dor de infância, que tinha dentro do osso, assim lembrava. Antes, disseram-lhe que era dor da perda, da separação, da falta quem sabe. Agora, atribuíram às dores a sua anatomia cava dos pés. Talvez seja esse fosso nos pés que guardava tudo, pensava. Mas na perspectiva médica era um mecanismo normal de compensações a ser suficientemente remediado com antiinflamatórios e fisioterapia. Dito e feito. Lá se foi ela todas as manhãs em busca da ‘cura’, mas temerosa de que estivesse a esconder um presságio da alma, do coração. Contudo o tempo que passava com a doutora (assim diziam as mais velhas) era agradável, posto que vinha cheia de acalento em panos quentes, massagens vigorosas e delicadas e aquelas conversas de gente velha nada velha, só nos ossos e nas carnes já gastas. Percebera que a antiguidade se renovava, e algumas, até irmãs e carolas, diziam da igreja, dos padres, mas diziam também das patroas italianas a fazer um filho enquanto outro nem havia começado a andar. Diziam da lavoura, da política inacreditável. Diziam de tudo e menos da dor. Perguntavam-lhe, tão moça e já aqui? Concluíam que dor era coisa de ‘jovem’ também; consolavam-se? A sala era acolhedora, a doutora talvez na metade do tempo, no entrelugar da ‘moça’ e das ‘velhas’, contava histórias, ouvia histórias, lembrava o passado, antevia o futuro? O calcanhar ia aos poucos revelando novas sensações, não se sabe se de cura permanente, ou de dor que vem e passa, um aviso da alma.