quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Gavetas



'Girafas em Fogo' (Salvador Dali)

Essa imagem sempre me inspira...mas depois de algum tempo foi o nome a causa de tanta intriga em mim...o nome do quadro no plano de fundo da imagem...a personagem no foco desfocada do nome...sem nome...mas ali tão imponente e frágil, o primeiro plano...e esses compartimentos vazios a dilacerar a carne...

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Sem saída

Não lembrava a ela ter vivido um momento em que sua sobrevivência fora tão ameaçada, um momento em que houvesse tanta fragilidade e inconstância diante de tudo, do outro e de si mesma. Era o lugar do próprio labirinto de si, e a fera ameaçadora não tinha formas híbridas, o minotauro, 'parte homem e parte touro' , senão uma sombra que se adensava e escapava, também uma aberração. Diziam a ela que era um período de crise, dessas vertigens produtivas que provocam mudanças de atitudes, embaraços e acertos. Pessoas, certamente positivas, pelo menos no discurso. Mas ela tinha por dentro desde que nascera apenas uma pálida solidez, uma ‘solidez a se desmanchar no ar’, um esvaecer dos sentidos, como se a própria sombra a rondar fosse ela mesma, inconsistente pelos caminhos, a desviar sempre sem destino, num afastamento do lugar de encontro; ânsia de encontrar, dor de desencontrar. Estava encurralada pela expectativa daquilo que sequer precisava, compreendia. Não tinha identidade, não percorrera lugares em escalas pertinentes, a que chamavam avançar; simplesmente caminhara sem rumo e fora acumulando não lugares sem sincronia uns com os outros, meros fragmentos. Abandonara possibilidades; em realidade tinha aversão delas, posto que as compreendia muito mais como impossíveis. Amigos e familiares a rodearam de atenção e perspectivas, crentes de sua força, dessa imanência que atribuem a todo ser. Porém, nela o imanente se desfazia antes da ação, pois que se colocava em dúvida permanente, e sempre entre dois propósitos com os quais não simpatizava tanto assim, até que procurava um terceiro, e mais outro, até o significado sublimar, esse desmanche de mágica da química; sublimação, naftalina. Ela era a própria sublimação, mas não guardava em si nada de divino, sublime, de luz; era apenas um pedaço de carne emburrecido, embrutecido, melancólico e, por vezes, afetado de alegria, enlouquecido. Uma louca a fazer análises sucessivas de si, sem alcance qualquer, e tantos alcances às vezes, que a lógica explicativa se perdia. Essa incompreensão de si para si causava no outro um desatino a virar desafeto, e ninguém mais queria se aproximar dela sob pena de também se perder. Então, ela ficava só, a pensar sobre os caminhos e lugares em que nunca estaria.

domingo, 23 de janeiro de 2011

Nebulosas

Quando vira a floresta pela primeira vez rondava uma certa nebulosa à frente de seus olhos, como se fosse realidade e sonho imbricados, inevitavelmente unidos naquela noite. Era uma noite suspeita. De início não deixava ver estrelas. O chão de grama estava úmido da chuva ao toque de seus pés parcialmente nus. Ia ao encontro de alguém, onde um aglomerado de pessoas em burburinhos se formara, ao som de música, no balanço alguns corpos, enquanto o céu aos poucos se abria em estrelas. Enquanto isso, a floresta ia adiante, na calmaria.

Não se lembrava bem da lua naquele dia, mas certamente ela aparecera, ainda que discreta, pois que no caminho da floresta os contornos dos troncos e galhos das árvores eram perceptíveis, embora, por vezes, se confundissem com a cor da noite. Umas mãos a guiavam, as mesmas que a acomodaram naquele pedaço de tronco, que mais se parecia um barco em espera. Muitos, certamente já teriam se sentando ali a silenciar, a conversar, a se tocar.

As mãos que a guiaram disseram que o lugar era de seu agrado, porque era tranqüilo e levava a outro lugar que lhe inspirava. ‘Nunca levara ninguém até ali’, aquelas mãos lhe confessaram. Ela sentira aquela afirmação como um segredo. Não foi longa a visita, apenas o suficiente para que ela guardasse na memória. Eram as mãos que mais lhe valeram naqueles instantes de nebulosa, e também os olhos das mãos, porque o lugar seria para ela um tanto inóspito, e quem sabe jamais visitado com pouca claridade.

Ela voltara àquelas imediações da floresta depois de algum tempo à luz do dia. Não fora com o intuito de vê-la, mas ao finalizar seus propósitos naquele dia, resolveu retornar, reconhecer aquele lugar tão próximo que nunca avistara e que finalmente alguém a apresentara. Custou um pouco a reconhecer a entrada, o caminho, intimidou-se com supostos olhares, mas o encontrou sem pergunta alguma a qualquer um que fosse.

Estranhou que a floresta encantada fosse meio rala, de árvores menos numerosas. O noturno havia lhe concedido uma atmosfera mais densa, um silêncio de esconderijo. Mas ali na claridade a floresta não provocara desencanto, apenas lhe mostrara sua outra face. Naquele dia em que fora apresentada a ela, ficara pelo meio do caminho. Desta vez resolveu ir mais adiante, até o princípio de qualquer fim.

Seguiu lentamente pelo passeiozinho calçado, e não pôde avistar com clareza todos os detalhes. Redimiu-se da tentativa, desculpou-se pela nebulosa do outro dia. Avistou uma moça fardada vindo em sua direção e ficou meio receosa por ser o caminho bastante ermo, porém, não houve qualquer olhar de reprimenda ou curiosidade para ela. Continuou seguindo, até que o som invadiu seus ouvidos. Embora parcialmente misturados, foi possível perceber com nitidez a quase exata localização de onde vinham.

Os sons ressoavam de um prédio dividido em duas metades; de um lado, um instrumento de sopro a entoar uma música um tanto melancólica, de outro, a música de um piano, esta mais incisiva, forte, com ritmo mais rápido. Foi uma nítida sensação de entrelugar. Mas fora também o princípio do fim, pois que chegara ao fim daquele caminho guiada por uma lembrança, que neste dia veio-lhe muito imponente. O sentimento da especialidade daquelas mãos a guiá-la pelo caminho escuro, que finalmente daria em um lugar de sonoridade tão variada a provocar tantas sensações.

Ela percebera que a nebulosa eram aquelas mãos que a guiavam; porque elas existiam é que sua visão não se mirou no detalhe, não se potencializou na escuridão, e o momento era de criação, caótico. E essa segunda visão fora de magia diversa, de encanto em potência, posto que de descoberta autônoma e de retomada, de uma prévia visão, que dizia; ‘preste atenção a esse lugar, ele leva a outro lugar, sinta o encantamento desse lugar, desse lugar que se faz no nosso existir’...

Outras nebulosas viriam, as necessárias que fossem, mas aquele momento de nebulosa que vivera, sua explosão em estrelas, era absolutamente original ainda que aparentemente ordinário. Ela constatara que sempre surgiriam novas criações, incontáveis constelações no céu e na alma, e que os olhos nus seriam sempre frágeis, débeis para perceber tamanha grandiosidade...Era preciso estar atento às nebulosas, senti-las; era preciso estar muito atento, pois elas eram a própria alegria.

Lagartos 7

Pensava Liria: “E se pudéssemos nos metamorfosear em lagarto?”

Lagartos 6

Uma lagartixa emoldurada naquele espelho de banheiro. Sim, um quadro vivo, de contornos precisos, a cauda enrolada como um arabesco, como uma pose, ou simplesmente um descuido do parar em estética surpreendente. Liria estava ali deitada naquele aparelho em forma de cama e já ouvira muitos a comentarem daquela forma ali grudada, adesivada. O que aquele ser esperava? A penumbra da sala para especular o lugar, alimentar-se, viver?

Liria e a mãe há algum tempo freqüentavam aquela sala, onde recebiam puxões restauradores de molas e braços, onde mãos as ajudavam a reconhecer o toque, cada superfície desconhecida do próprio corpo, do anestesiado corpo de todo dia, alijado pelos pensamentos inconfessos e confessos. E porque ali estaria aquela imagem recorrente? Aquele lacertídio prestes a fugir, mas que nesse instante era estanque, como a mover só pensamento? Que convivência dura aquela com os humanos, que faziam aquele ser converter-se em mera figuração sem, contudo, ser camaleão?

Quereria ela, certamente, ser camaleão, mas quaisquer olhos que lhe vissem reconheceriam seu disfarce. Entretanto, volviam seu olhar com admiração e perguntas, quase como a vê-la como humanizada, com intenções bem conformadas. Fosse um lagarto menos doméstico, não seria tão bem vista por todos, sequer admirada. Um atrapalhado fujão, assim seria.

Era esse contraponto entre o doméstico e o selvagem que admirava e afrontava Liria. Essa contaminação do humano na lagartixa, essas fugas menos prementes, essas estratégias comoventes por puro engano, como se ela finalmente não estivesse ali, fosse tão somente um desenho no espelho, como muitos humanos, sem qualquer profundidade em relação ao outro, tamanha a aderência do corpo sobre sua própria imagem, a ver somente e só a si mesmos, sempre nesse espelhamento a farejar o de si no outro?

sábado, 22 de janeiro de 2011

Lagartos 5

A visão daquela lagartixa ali esmagada no portão, rodeada de formigas de traseiro cor de ouro foi um tormento para elas. ‘Que dó’, lamentou a mãe de Liria. Primeiro espremida sem ninguém que a avistasse, depois comida lentamente por aqueles insetos carnívoros. Que sina mais triste, morrer assim num fechar de porta, num trancar displicente. E toda morte não é mesmo um fechar de portas e não se dá de susto, por acidente, muitas vezes?

Elas também poderiam ir desse mundo nesse piscar de olhos. Agora pior que piscar e não ver mais seria olhar e não ver. Não ver mais os lagartos em suas fugas vertiginosas. E nesse não ver definitivo, serem carcomidas por quaisquer insetos ou organismos microscópicos sem qualquer salvação.

As lagartixas sempre foram bem vindas naquela casa, sobretudo, é claro, por seu adorável gosto por baratas; um inseticida natural e ágil. Além disso, esses pequenos lacertídeos lembravam a elas réplicas diminutas e delicadas de répteis pré-históricos, quase míticos a vagar por florestas distantes. Só que estranhamente vieram conviver nas casas. Em que momento teria se dado esse movimento lacertídeo para um ambiente tão hostil, em que portas e trancas podem os esmagar quase sem chance de fuga?

Elas se sentiam assim; sem chance de fuga. Esmagadas e rodeadas por formigas famintas a roer suas idéias e sonhos simples, seus olhares deslocados na multidão. Talvez outros também se sentissem assim e vagassem por pensamentos inconclusos, por terras desconhecidas, alienígenas. Por isso, os lagartos as encantavam, e as lagartixas, em habitat tão antinatural, intrigavam-nas.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Lagartos 4

Os lagartos em fuga, um desejo profundo em Liria. Eles pareciam a ela nunca contingentes, obrigatórios. Sua permanência nos lugares era fugaz, eles não se demoravam e raramente deixavam rastros. Pareciam uma névoa que passou. E Liria queria esse passar que passou; queria mais; queria que tudo passasse sem deixar marcas, um mundo dela imemorial. O sofrimento apagado, a lembrança feliz não interrogada, só o porvir sem planos, acidental.

Parecia a ela que lagartos estavam no entrelugar, porque nem rastejavam propriamente, nem voavam. E podiam botar ovos e ainda tê-los, os filhotes, já prontos. E não se apegavam às crias. Criavam-se sozinhos, e talvez, por isso, não faziam morada, não assentavam em lugar qualquer, somente iam. De fato, não eram animais disponíveis à domesticação, embora fosse possível criá-los em cativeiro. Agora, querer afagá-los com carinhos e conversas, quase improvável. Mas a mãe de Liria cria nessa possibilidade, pensava somente que o afeto era rejeitado por falta de tato, a gentileza ideal no momento certo, uma abordagem lenta e permanente a cada dia.

Fosse o mundo cruel o tanto que fosse, se o espírito do lagarto grudasse em gente, não haveria sofrer, perder, regressar. Era isso que encantava Liria, esse inevitável existir assim, um lagarto que chega e vai veloz pelos muros, a criar novas divisas, a indivisar-se por estar apenas ali e em nenhum outro lugar do pensamento, sem deslumbramentos, senão o tiro certeiro, a língua bumerangue na direção do alimento.

Absolutamente naturais, sem razão que se considerar, os largartos apareciam para Liria e sua mãe como a adensar o fosso de seus sentimentos, de seus tormentos diante do oposto cheio de nada, de uma vida sem considerações razoáveis, apenas o movimento de viver, nascer, se proteger, fugir, comer, reproduzir. E então, pensavam elas que isso era o verdadeiro encanto, e que apareciam assim nos caminhos, nas encruzilhadas de suas mentes para dizer exatamente da necessidade de retomar esse natural perdido, acometido da moléstia do julgo, pura artificialidade.

quinta-feira, 20 de janeiro de 2011

Lagartos 3

Liria como a mãe não vivenciara o afeto paterno desde o início, mas teria a mãe sempre próxima. As duas seguramente não viram os lagartos no começo, mas tiveram visão reveladora tempos depois.

Em certo tempo de suas vidas apareceram vários lagartos no quintal, já em cidade longíncua dos tempos do sertão, dos tempos da vila. Elas descobriram que os lagartos estavam em todos os lugares, e sempre naquele andar vertiginoso de fuga.

Nos fundos da casa resolveram fazer morada nos buracos do canteiro. Botavam ovos, e dos ovos pequeninos nasciam diminutos lagartos de olhos gigantes, como desnutridos do sertão naqueles corpinhos fininhos, frágeis, naquelas barriguinhas protuberantes a mostrar linhas de assombro, sanguíneas e digestivas.

De toda aquela vertigem rastejante, sobrou apenas um lagartinho no ninho, ao lado do ovinho quebrado. A mãe de Liria quis criar o pequenino mágico saído do ovo; tentou alimentar com comida e afeto, mas ele insistia repetidas vezes na fuga pelo corredor em direção à rua. Um dia ele conseguiu e foi dar no jardim sem que nada elas pudessem fazer. No dia seguinte estava lá ressecado, rodeado de formigas famintas.

Liria achava que essa fixação da mãe em criar um lagarto era a lembrança do ovo da infância, ainda que só lembrasse por alguém contar. Algumas histórias eram como sombras, passados eternizados, e viriam em sonho e vida com diversos disfarces, faces.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Lagartos 2

Antes da vila foram outras cidadelas e sua mãe, suas origens mais remotas do sertão, dos lagartos camaleões, rápidos no movimento dos membros e das cores, bem mais espertos que os lagartos do tempo de Liria. Sua mãe dizia que eram muitos e que a carne era tenra e saborosa. E naquelas terras onde a carne era escassa, o lagarto fazia a festa no almoço matutino e vespertino. Era comum almoçar ao levantar feijão com milho e vez por outra um pedaço de carne, de passarinho morto a estilingue, de lagarto morto a tiro e raramente alguma criação.

O ovo também era fonte de proteína e energia importantes, mas não eram muitas as aves chocadeiras, e muitas eram as pessoas carentes do alimento, as cozinheiras a fazer bolos. Assim, sua mãe se punha a vigiar o descenso do ovo, aquele parto maravilhoso que lhe dava água na boca. Por vezes, vasculhava os ninhos, e saía feliz com o ovo nas mãos, como se sua sobrevivência e alegria estivesse ali naquela esfera mágica.

Tal qual Liria não se lembrava dos lagartos no começo do seu tempo, sua mãe não se lembrava de sua própria mãe, a avó, senão por uma pequena fotografia, em que ela fechava o cenho diante do sol ardente, os braços pendentes e curtinhos apoiados em um vestido de chita a dar nos joelhos. Diziam que sofria dos nervos, teimava em não conseguir andar, e no dia do casamento recusara levar qualquer pessoa na garupa do cavalo, sob pena de amassar o traje. Terminou por levar uma sobrinha, depois de obter a garantia de que a mocinha, em hipótese alguma, seguraria-se nela. Casou-se, mas pouco durou o matrimônio, vítima que foi de um parto difícil e mal curado feito em casa.

A mãe de Liria fora a primeira nascida e já com três anos não havia mãe que lembrar e nem pai, que este abdicou da função. Foi então que toda fuga sem destino começou. Ela retornaria àquelas terras e veria os camaleões nos troncos tortuosos, veria a terra ressecada cheia de falhas, veria as cabras a beber no açude e os moinhos a moer a cana pra dar rapadura e o ‘fininho’, o puxento doce dos dias de moagem. A casa do pai ficava cheia de cortador de cana e o carro de boi fazia aquele som retinente, enquanto os pobres animais alinhados, presos pelo pescoço, por obra do homem, faziam aquele monótono e duro movimento circular. Via tudo enquanto o pai permanecia calado, os olhos inexpressivos naquela mansidão estranha, naquele fugir do afeto paternal.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Lagartos 1

Não que fossem eles os únicos fugitivos, mas Liria sempre se surpreendia com aquele movimento rápido dos lagartos pelo chão, pelos muros; surpreendia-se com a agilidade do arrastar frente a qualquer perigo, verdadeiro ou falso. Isso sempre ocorria a ela; largartos de todos os tamanhos e nuances nem tão distintas pelas ruas que caminhava, pelos muros que margeava, pelas matas que visitava e mesmo nos quintais.

Liria nascera em uma casa que não se lembrava e só vira por fotos de um álbum de infância. O quintal tinha ibiscos vermelhos, assim aparentavam, posto serem as imagens em preto e branco. O lugar tinha terra vermelha, a que o tom de cinza precariamente tentava imitar, embora muito atiçasse a imaginação. A casa também era de pisar em vermelho, daquele vermelhão de concreto tingido, sedento por cera pegajosa, lindo sangue a brilhar por baixo.

Nesse tempo, esse de que ela não se recordava, os lagartos deveriam estar, e talvez Liria corresse atrás deles, ou mesmo se aproximasse enquanto eles fugiam. Liria não se lembra deles naquela vila distante de sua infância primeira, de seu primeiro ano de vida. E foram tumultuados esses instantes, contava sua mãe. As duas migraram para aquela pequena cidade em formação, cidade em busca do encontro ou do desencontro, do povoamento. Fora talvez uma viagem de fuga aquela ida, fuga para encontrar? Ela ainda ia barriga adentro, naquele rio morno, amniótico. E foi com esse ventre repleto que sua mãe navegou também no largo rio de nome também largo, rio do norte.

Por pouco tempo Liria permanecera ali, e nunca mais retornaria. Talvez toda a angústia do seu nascimento estivesse guardada naquele lugar, fincada naquela terra encarnada, naqueles momentos de chegada e largada para o mundo, quando os lagartos ainda não apareciam para ela.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

por vir...porvir...

Estou no exato meio do caminho, fincada no sentimento inquieto do que está por vir. Por enquanto, abstenho-me das minhas e das histórias dos outros que, por vezes, são minhas também, para esperançar e medir as possibilidades do porvir, para agir e ser agida. Que seja de fim ou recomeço, mas que esteja a inaugurar algo findo em recomeço, esquecido dos tempos de nuance de parca cor, de escuro inesperado.Que seja um momento espelhado não de luz intensa cega de ilusão, mas de mansidão da alma e do corpo, de calmaria não isenta dos redemoinhos que se vão, de alegria vivida em plenitude e de tristeza bem motivada.Que seja eu diante do outro e pelo outro, um olhar de admiração sincera, a angústia que não paralisa, mas que ativa contornos de sobriedade e claridade.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Casabarco

Ela sonhara que morava numa casabarco, e nesse navegar sem fim em oceano, sem porto qualquer, ela se perdia e se encontrava apenas por instantes. Eram tão insolentes, porém, esses momentos, tão absurdamente graves, que nela ficavam marcas de encontros e desencontros, tão precisos e precisados. E se o mar avançava por terra ou cruzava um rio a beirar o continente, ela de súbito pressentia uma idéia vaga qualquer de solo firme, estranhamente movediço, cheio de angústia. E a sensação de tanta prisão por ficar, aportar, fazia com que ela volvesse o leme pra no mar ficar. E a casabarco já era parte dela, exatamente por não ser casa, apenas barco intruso na imensidão, enquanto seu corpo era corpo que passou, como o barco passou. Sua casa se fingia de barco, ela se fingia de navegante, enquanto toda fluidez por si passava, toda fluidez de si escapava e caía no mar. Então ela era mar, era amar cada vaivém pra se aprumar.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Quisera

Quisera escrever um texto de fôlego. Quisera construir uma história em que os personagens caíssem feito estrelas cadentes na trama de infinitos nós. Quisera imaginar todos os possíveis fatos, até os inimagináveis, e fazer deles matéria prima de enredo, sem arremedos, sem medos. E colocar em cada fato o personagem mais embrenhado, cúmplice sem restrições, e que por pensamentos e atos se fizesse tão humano, frágil e forte, sempre no entrelugar, na oscilação, na contradição inerente ao viver. Quisera fazer um longo texto que coubesse a prosa e a poesia, todas suas fusões e incongruências, até vir o real, até beirar a irrealidade. Quisera conduzir o leitor nesse caminho sem volta, nessas vidas cheias de voltas, até vir o começo, até chegar o fim. Quisera escrever um texto de fôlego. Que fosse longo o suficiente para cobrir dias e noites de dedicação por puro envolvimento voluntário. Mas que fosse na medida oposta a qualquer monotonia, senão àquela que viesse no momento exato, que monotonia é parte natural de qualquer movimento que se espere mais extenso, prolongado. Quisera ter essa respiração profunda a inspirar todos os poros, a inundar todos os vasos, a exalar perfumes doces e ácidos. Quisera, quisera tanto, que ansiava não fechar qualquer texto, qualquer vida grudada nele, e deixar uma reticência depois de conclusões inconclusas, diálogos intermináveis a germinar na alma do leitor.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

Temia

Temia que o amor fosse apenas um discurso ou uma afirmação por absoluta teimosia de dizer o que se diz, o que se espera que se diga. O retórico amor, um discurso aparentemente cheio, mas sobretudo persuasivo, bem ao estilo dominador, mas em forma de fragmento, de maneira que palavra não poderia se converter em ação, amor sem amar, puro dizer... Temia que o amor fosse apenas um miasma a rondar os corpos até evaporar sobre poros de pele impermeável, a traduzir toda dureza da alma...Temia ser o encanto um momento qualquer de desatino da percepção, por simples desconhecer e se colocar curioso diante de visão, prestes a migrar em desilusão...E temia mais exatamente por temer tanto esse dizer, relutar no dito o mover da palavra em direção à realidade, posto ser o amor um capricho do dizer, um diálogo a envolver um e outro na tentativa da própria essência do discurso em ação, porque palavra é o confeito da alma, essa mistura que se enche em desatino, embora esteja sempre e sempre só, até vir um alento de ternura, um ouvido atento, um pensamento ainda que distante...Essa palavra amor temida e ousada seria então essa superfície de proteção em torno da dispersão pela própria sobrevivência, um retorno, um ponto de equilíbrio...Por isso temia não dizer, mas ainda que dissesse temia também a indisposição sobre essa palavra amor, esse agir amor...

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

Indelével

Depois que o conhecera, vivia em abraço. Ninguém a compreendia quando chegavam perto e ela, subitamente, rejeitava outro abraço, quando então dizia: ‘Já estou em abraço’. Tudo começou quando reconheceu os braços dele e fundiu-se de forma irrefreável como num enlace inevitável. Era incompreensível o dizer dela para os olhares em redor: ´Já estou em abraço’. Nada se via grudado nela, senão a cena, o mimetismo do abraço vez por outra. Era indelével, já parte dela o abraço. Fora permissível demais, em exagero, tanto que o abraço pregara de forma irremediável. Os familiares começaram a se preocupar seriamente com aquela moça em abraço; pensaram em coisa de espírito, em uma espécie de síndrome siamesa invisível mesmo tardia, que haveria alguma séria afecção do pulmão ou do coração que tornava o peito dolorido a rejeitar outros braços. Pensaram muitas possibilidades, visitaram especialistas, e nenhum observara nada de anormal, senão o afastamento súbito, amedrontado. Com o passar do tempo os braços dela começaram a volver outro corpo ‘inexistente’, ficavam em arco permanente e os dedos das mãos tensos; de tempos em tempos fazia uns movimentos de dança com a mãos, resguardados os limites de círculo, um abraço, talvez no entorno do corpo dele. Ninguém jamais o vira, embora ela jurasse que o abraçara e que ele jamais a soltara. No tempo em que o abraço tomara aquela conformação tão evidente e fixa de braços em abraço, ela não pôde mais saciar a sede, a fome, pôde sequer satisfazer as necessidades funcionais do corpo, os apelos fisiológicos, sem a ajuda de sua mãe. Viveu assim por algum tempo, como a carregar outro corpo consigo aonde fosse. Morreu assim. Nada foi possível fazer quanto às suas mãos. Por nenhum esforço manifesto elas se colocaram no peito em forma entrecruzada para a habitual vigília dos familiares e amigos após a morte. Entre ela e as mãos estava ele, ele no entrelugar do coração dela, dos braços e das mãos...Forçoso foi aumentar as medidas da caixa grande em que ela descansava e enterrá-los assim, em abraço...

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O que o beijo tem

A boca dela tinha um olho, e cada vez que a língua dele se intrometia , vinha visão em via de transitar rápido, como se todo caminho se desnudasse na janela ao lado; a cena corrida das paisagens que ficam pra trás, das paisagens que se renovam e atropelam as outras. O beijo deveria ser o estável esquecimento frente a todos os dilacerantes instantes de incompreensão, os momentos superpostos de ação e inanição. Mas o olho da boca se abria adensado feito rio e vertia saliva em forma de lágrima. A boca chorava em momentos de solidão, como faminta a revelar o vazio gástrico, uma fome da alma. O beijo era também o acalento da visão, uma venda irrefreável que ela buscava insolente, sem pudores, sem limites. Mas o limite não tardava a interromper o beijo de olhos abertos, visionários. Entre vendado e desnudado, na maquínica percepção de disjunção, embora todo o desejo fosse de unir, colar irremediavelmente, o olho da boca se debatia. A separação era nítida e jamais ela se faria decifrar e sequer decifraria aquela languidez ou rigidez muscular do beijar, do ver, do olho que o beijo tem.