Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
sábado, 13 de outubro de 2012
O cheiro
Cheiro remete a lembranças. Boas ou ruins, foram muitas reminiscências a revelarem-se sob a forma olfativa nele. Mas seguramente, desta vez, o cheiro veio mais forte, pesado, metálico, o que de fato, fizera com que qualquer relação com sua memória se fizesse irrelevante diante da densidade miasmática que sofrera naqueles dias. O que mais o indignava era a solidão daquele sentido, daquele olfato, que embora fosse constantemente anunciado, não era acolhido. Ninguém mais sentia o tal cheiro na casa. Então ele tergiversava sobre as possibilidades daquelas improváveis insensibilidades. “Talvez já se tenham acostumado tamanha a impregnação do cheiro.” Havia realmente uma oficina por perto, onde com freqüência parecia serem processados metais, soldas e arremedos metalizados. “Mas viria mesmo de lá o cheiro? Insuportável!!! Inadimissível!!! Irrespirável!!!” Era quando saía de casa já com a triste sensação de voltar e sentir o cheiro novamente. Já não seria sentir, seria respirá-lo, posto não haver sequer chance de distinção dos outros cheiros, outras recordações. Tinha uma breve sensação de loucura, pois que o cheiro era irrevogável e poucos sentiam. Curiosamente, o que era motivo de pensar e lembrar, o cheiro, embotava esses verbos memoriais e o empurrava para fora num expirar ofegante e num fugir de casa a vagar sem hora de retorno. Até que finalmente, seu irmão vindo de outra cidade percebera o cheiro metal e confirmara seu caráter detestável. “Não, não estava louco.” Mas após esse alívio parcial de loucura ‘inconfirmada’, o cheiro odor permanecera. Era onipresente, tudo via, tudo sabia, porque estava em todos os cantos a transgredir a sublime natureza daquilo que se incorpora ao ar, os aromas que se diluem com a brisa. A toxidez do cheiro invadia as narinas e escorria pelos seios da face até encontrar o caminho do gosto. Cheiro e gosto faziam par. A audição da memória e da realidade ensurdecia. Era o cheiro fazendo morada, cilada. Era a vitória do cheiro diante dos inúmeros horizontes dos sentidos, quase um ecoar de limites impostos, uma metáfora assustadora para uma realidade inflexível, o cheiro...
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Assaz encantadora
Em verdade?! Encanto-me é com a sua liberdade! É ela que tento sorver de você e que me embebe. Fico úmida no meio da secura asséptica do cotidiano, do comum esperado por todos. Não sou vadia, não sou santa; é só uma permissão que me dou, talvez de vadiar e me santificar pelo inesperado. Viver o presente é como um crime, uma degeneração; assim muitos vêem. Esse crime muito me atiça, porque não é planejado, não é sequer uma psicopatia, mas é de uma loucura fugaz e ao mesmo tempo pegajosa, como um gozo que se quer repetir.
domingo, 26 de agosto de 2012
Língua insana
Disseram-lhe repetidas vezes que nem mesmo um pouco de insanidade valia o instante, pelo perigo que houvesse, por provocar a ausência de proteção da realidade submersa. Eclode a fluidez na língua, que se torna inspirada, sem qualquer opacidade. Ela, a língua torna-se malfazeja por revelar tortuosidades da alma a dizer de si e do outro, do mundo. Ela inscreve nas palavras o gosto da imprecisão, mas goza de uma justeza na representação do sentimento, que jamais um só período de sanidade poderá revelar. É motivo de invenção para tudo que já foi sentido e silenciado; pede uma representação, uma compreensão dita, que soa conspurcada e indecente quando insana. E a insanidade não é necessariamente um tipo alucinógeno, senão um estado de ser de sensibilidade a gritar em som abafado e rico em harmonia, inquietação e agonia. E essa deveria ser a real razão de dizer, sem revestimentos gramáticos, sem repressões. Assim, seriam as palavras orgásticas nas cordas da língua, mesmo em desarmonia, significantes, destoantes da aparência, uma denúncia de ser e perceber. Que liberdade não precisar dizer em vão apenas para preencher as falhas insalubres da vergonha, do disfarce da realidade. Quase um ato de amar uma possível verdade, sincera manifestação do espírito, arrebatamento; a língua em crise, fugitiva de condições determinadas, de mentes acorrentadas.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Sem fim: um pouco sobre On The Road
Em que lugar vai dar aquela estrada sem fim, de curvas pouco sinuosas, declives e aclives suaves a penetrar a vegetação árida, por vezes nevada sem deixar nunca a aridez? Seria na verdade a secura da alma a verter toda sorte de encontros imprevistos, de digestivas indigestas substâncias alucinógenas? De amizades e amores parcos e loucos por anunciarem sempre o fim, ainda que houvesse sempre um trago a mais que sorver, o final do fluido ou o início quem sabe, na dúvida permanente do copo pela metade; prestes a acabar ou a ser preenchido? Um novo encontro, embora sempre velho. O livro On The Road, de Jack Kerouak pareceu-me assim, mas diferentemente do filme recentemente visto ao lado da minha mãe, traz uma compulsividade infinitamente mais frenética, uma loucura imanente e iminente, enquanto o filme resumiu-se a retratar crises, pequenos clímax do livro diante da estrada sem fim, quando, é claro, a imagem pudesse render algum tipo de assombro ou exotismo, sem exageros, devo admitir. Asseguro que minha mãe manteve-se aparentemente com o olhar fixo na tela; penso que queria perscrutar a próxima curva, onde ia dar, para depois me dizer se alguma chegada valeu. O manuscrito é como uma montanha russa; uma monotonia sórdida, natural da vida de qualquer um, e uma súbita busca indeterminada, do incompreendido apenas para alguns, os mais ousados ou porque não dizer alucinados categóricos, ilegais. Curioso é como os lugares retornam e são sempre obrigatórias passagens ou chegadas triunfais, repletas de expectativas. Os lugares têm vida, os personagens querem viver ainda que custe a morte. Esqueçamos da alucinação alienada, legal, mas sem esquecê-la totalmente. O mundo ‘paralelo’ do ‘autor e seus ‘comparsas’ nem mesmo hoje soa como natural, pelo menos para os conservadores, para não dizer a maioria que nos rondam. E aonde fica a sobriedade que resguarda a sobrevivência digna, ainda que indignamente tristonha? Como encontrar em meio à realidade de dentro e de fora essa alucinação legal, saudável e asséptica? São essas perguntas que Kerouak fez nas entrelinhas. O diretor Walter Salles deu seu recado, dada as limitações da adaptação para um obra tão repleta de movimento; ou ficava na estrada ou ficava nos lugares ou ficava nas pessoas. Precisou fazer os três e perdeu a profundidade até mesmo da superficialidade em alguns momentos. O tempo exíguo deixou o manuscrito sem grande expressão na tela, mas digestivo. Bonita fotografia, jazz, bop, blues; negros fabulosos, virtuosos na voz, no toque instrumental, na dança. Menos que no livro é claro. Não deu tempo para tanto sexo, drogas e rock n’roll. Minto, talvez um certo desequilíbrio a favor das sessões alucinógenas. Mamãe não teceu grandes comentários. Adolescente nos anos setenta, nem de longe soube o que significava beat, hippie. Foi apenas uma moça interiorana com rebeldia escondida. Acho que continua rebelde latente. Penso que ela não acharia mal ir pela estrada sem fim.
sexta-feira, 22 de junho de 2012
Turbulências
Poderia ousar, insistir sobre as tantas complexidades de sentir que a envolviam, até das insensibilidades, dos momentos em que uma vaga qualquer se interpunha e os significados sumiam. Mas todas as vezes que se postava assim nesse movimento pendular entre o sentimento vivo e a ausência encontrava um labirinto, um entremeio no estilo processual, instável e subitamente lógico de tudo que “sentifica” e nega também a existência quase sempre imaginativa, criativa, que transborda a realidade. Tudo por conta desse sentir em significação, nada mais que a percepção em emoção, transmutada na imprecisão, na vã tentativa de explicar o estranhamento e sua falta, dada a sua subjetividade imanente. Era dentro que tudo se dava, numa interioridade sufocante a carecer de um estômato, de uma tranqüilidade vegetal que fizesse uma troca sutil com o externo tão indecifrável, o qual ela arrogantemente sonhava submeter sem verdadeiramente compreender. Assim, ela se colocava na dianteira e no final da fila a cruzar os olhos estupefatos naquela composição de linearidade falsa, de complexidade escondida de todos os fatos narrados, das histórias classicamente classificadas de trágicas, comedidas, hilárias; uma aflição permanente das categorizações estáveis, de tudo que a fazia sumir, sair do lugar sem encontrar outro; turbulências.
sábado, 2 de junho de 2012
'Anunciada'
Quase adentrou o cômodo, a sala de visitas, com aquela sua maneira sorrateira, de quem, quase sempre, recolhe-se no próprio quarto; uma existência discreta, sutil. Insinuou-se na quina da porta em uma noite dessas, cruzou os olhos da sobrinha esparramada na poltrona e anunciou: ‘morreu o Pedro B.’ ‘Quem?’ ‘O da padaria onde compro pão. A moça, a filha, está chorando. Ouvi da minha janela.’ ‘Estava doente não é; hospitalizado já?!.’ ‘Sim, estava, mas foi de velhice mesmo.’ Era assim; todas as vezes que recebia a notícia de uma morte nos últimos tempos. Parecia recear o anúncio da sua despedida. Ficava contrariado com o decreto que vinha com o envelhecimento; o certo fatal, a morte que espreitava todas as pessoas de sua história, conhecidos, íntimos e familiares. A velha e sabida máxima ‘quando novo não se vai, de velho não se escapa’. Não deixava de ter sua graça esse seu jeito de dizer como a exigir do outro esse compartilhamento da decepção diante do fim, do término que de fato era um ponto desprezível diante do acúmulo das lembranças de vida. E assim morre o homem na tentativa de ser, ainda que tenha até o último instante de decadência física, grato pela saúde da consciência tão gabada por todos, mas no fundo sonhando a insanidade, por pesar imenso de ver ‘a morte anunciada’.
sexta-feira, 18 de maio de 2012
Duplo
Jamais se esqueceria daquela imagem projetada, sem contudo, por instantes, ater-se à primeira, a de origem. Era o reflexo no espelho que lhe dava a percepção da forma em posição fetal, quase um retorno ao útero materno, embora, agora, de dimensões incoerentes com aquela realidade pré-natal. De perto, a imagem parecia maior e apresentava uma expressão distante, como em sonho. O reflexo não; era próximo como um afeto, o desavisado desprendimento de quem não se vê, mas é visto à revelia. Um estado de arte, tamanha a sensação provocada naqueles olhos em espreita. E toda aquela epifania a gritar por dentro provocava um sufocamento para não desmanchar o feto, o enlace do tronco e das pernas, naquele enrosco divino, naquela respiração de quem ainda vai nascer. Um estranho afastamento em aproximação era o que ocorrera naquele momento; o exato entrelugar que por suposto fosse a verdade cambiante, a imprecisão da vida. Ou seria uma aproximação em afastamento?! Era perto e longe que tudo ficava claro, no reflexo da imagem e não na própria imagem. Não era uma pintura, mas uma sombra em cores e contornos precisos, enquanto nos olhos jazia uma revelação, uma outra metade inteira, entretanto, fetal, prestes a abrir o olhos, a chorar e desfazer-se em pernas e braços desalinhados, a ser o que era fora do reflexo. Guardou aquela projeção e sempre que se mirava na origem, no palpável dele, anterior ao espelhamento, fechava os olhos e vasculhava o instante do feto, e a epifania, a maravilha do duplo, retornava.
quinta-feira, 15 de março de 2012
Alquímico
Amo-te. Amo-te? Amo-te. Por vezes, porém, chego a pensar se não amo a mim mesmo nesse momento de amar. Se não é a mim mesmo que devoto tanto amor, pois que vejo-me em estado inusitado de descoberta que caminha por extremos diante de ti. Olho-te com olhares de lupa no detalhe; um macro captado no instante, belo e irreconhecível. Olho-te também em amplitude a se desfazer diante dos meus olhos rasos, enquanto uma química insondável se faz nos invisíveis sons, cheiros, sentidos; uma explosão alquímica, imprevista. Não valem declarações, valeriam mais os gestos, mas esses se escondem na surpresa. A cada dia é assim; uma partícula recuperada de mim, uma percepção inaudita, um mundo aberto. E todos os arredores de nós para mim são esse tubo de ensaio, essa energia cambiante, de delírio alegre e triste. Por quê? Devo a você? Devo a mim? Chego a crer em uma onda gigante, fluida, escorregadia. Chego a crer em um tubo milimétrico, constante, em sufocamento. Recolho essa mistura e teimo em fazê-la palavra, enquanto ela escapa na boca do ensaio a caçoar de mim, a ironizar meu despreparo diante de sensações corriqueiras para tantos. Pobre de mim. Rico de mim. Ora, se não há riso, o que há? Rio-me de mim; sou rio a correr por entre vales de música encantada e frestas em penumbra, roucas. Amo-te por amar-me nesses indeléveis instantes em mim.
quarta-feira, 25 de janeiro de 2012
Não me peça
Não me peça pra racionalizar essa questão. Por favor, não me peça! Não se trata de lógica, de pertinência, de padrões esperados, de conjunturas convenientes. Por isso, não me peça para evitar sucumbir a qualquer chamado que me abra o sorriso de alegria, a qualquer sensação que anseio por descobrir, a qualquer tristeza. Por isso, eu lhe peço; não me peça! É justo e digno meu pedido! Não compreendes, bem sei... E quem poderá do outro saber por dentro o que vai? A perfusão de percepções inauditas, por inexistência de vocábulos precisos? Não adianta; já lhe disse. Não tenho como explicar os redemoinhos que me levam, os assombros instantâneos que me pegam inerte, sem pensamentos cabíveis, de antemão postos para a ação esperada. Não, não se trata de automatismo vão. Trata-se do voluntarioso inconsciente que abafa as obviedades de fazer. Não, não sei fazer, por hora tento aprender fazer o que em minha alma fala. E por que me diz assim, tão duramente, sobre cegueira? Pois que vejo tanta claridade nesses descaminhos encontrados? Talvez me valha mais os descaminhos do que esses já trilhados nas imaginações de expectativas. Compreendo você. De verdade! Não são falsas minhas afirmações, minhas concordâncias. Quando falo com você busco a sua razão, o seu entendimento. Não refuto, até concordo. Mas dura o instante esse meu assentir. O segundo que vem após é um emaranhado de sensações ilimitadas, potenciais. Então me diz; é cega a emoção, como uma condenação. Que dureza nessas palavras; cegueira e cega emoção. Como se os olhos em todo momento se mirassem em um único objeto, perfeitamente limitado, sem ângulos, inexistente. Sempre essa tentativa de fazer ver o que convém, o que os seus olhos vêem. Não, não quero dizer que haja más intenções. Até as vejo benévolas. Mas de novo lhe peço, não me peça pra racionalizar essa questão...
quinta-feira, 22 de dezembro de 2011
Cena Mal Dita
Aos meus sentimentos dou impropriedades do dizer;
Subverto as expressões como se nelas não houvesse a lógica da objetividade;
Perco os significados dicionarizados, encalacrados de assujeitamento;
Confundo-me no instante de compreender;
Questiono-me, questionas-me por isso;
Pela falta da imediata compreensão de mim mesma e do outro outros por meio do verbo e do substantivo, nessa única tradução possível para o sentir;
Das palavras em arbítrio;
Incompreendes-me, e culpo-me pela pouca perspicácia;
Volto tantas vezes a refletir a linguagem misturada à natureza,que submetem o mundo;
O meu escasso mundo de fazer palavra onde poderia haver só ação a revelar o instante;
Quis dizer da cena, pra dizer do detalhe, não da superfície; e falei na angústia de fazer-te ver a intensidade que procuro no meu linguajar insuficiente;
Para dizer que só consigo ver sentido no encadeamento dos pormenores, na soma a fazer cena;
Mas eu também, como mero detalhe que sou, faço apenas a composicão do cenário; não tenho o controle exato dele;
Sou componente da peça maior que me convém e não me convém por estar, muitas vezes, fora da lógica da razão;
Pensei em todos os pequenos mínimos gigantescos de compartilhar;
No desnudamento que desvela qualquer alma entorpecida pelos pressupostos de existir;
Fiz com eles todos um cenário pra lembrar, pra montar uma peça de dizer amor.
Subverto as expressões como se nelas não houvesse a lógica da objetividade;
Perco os significados dicionarizados, encalacrados de assujeitamento;
Confundo-me no instante de compreender;
Questiono-me, questionas-me por isso;
Pela falta da imediata compreensão de mim mesma e do outro outros por meio do verbo e do substantivo, nessa única tradução possível para o sentir;
Das palavras em arbítrio;
Incompreendes-me, e culpo-me pela pouca perspicácia;
Volto tantas vezes a refletir a linguagem misturada à natureza,que submetem o mundo;
O meu escasso mundo de fazer palavra onde poderia haver só ação a revelar o instante;
Quis dizer da cena, pra dizer do detalhe, não da superfície; e falei na angústia de fazer-te ver a intensidade que procuro no meu linguajar insuficiente;
Para dizer que só consigo ver sentido no encadeamento dos pormenores, na soma a fazer cena;
Mas eu também, como mero detalhe que sou, faço apenas a composicão do cenário; não tenho o controle exato dele;
Sou componente da peça maior que me convém e não me convém por estar, muitas vezes, fora da lógica da razão;
Pensei em todos os pequenos mínimos gigantescos de compartilhar;
No desnudamento que desvela qualquer alma entorpecida pelos pressupostos de existir;
Fiz com eles todos um cenário pra lembrar, pra montar uma peça de dizer amor.
segunda-feira, 19 de dezembro de 2011
Face em tato
Ela percebera-se sem face. Subitamente seus sentidos ,manifestos nos traços, decaiam e se rebelavam contra qualquer expressão bem vista ou mal vista. Era uma involução de qualquer comportamento expresso, como se uma maldição a rondasse; a ausência de face. Os cheiros a sumir no nariz diminuto; os gostos a se perderem na boca invertida, fechada pro mundo; a música dos instrumentos e das vozes a bater em ouvidos de orifícios colabados; a visão, dada a parcas sombras, como alcolizada. Só o tato vigorava, na sua ânsia desesperada por sentir o som da superfície, como a buscar qualquer profundidade. Suas mãos eram como sanguessugas a sorver sangue, suores, ou qualquer outra fluidez que denotasse vida. E toda aquela transformação de perda, era um ganho de sentir a escultura da vida em reentrâncias de encanto e assombro; solos úmidos e arenosos; peles em paz e desatino. Seu corpo também se avolumava de tantas impressões em registro no tato, que gritavam na alma de um rosto sem face. Depois, a face não importava tanto, senão os terminais nervosos de seus membros superiores que pareciam agora ouvir, cheirar, falar, ver. Sua face reapareceu na forma de mãos. Toda sua face era uma mão em apego, em chamado, do dito em movimento, do gesto que a face escondia.
domingo, 20 de novembro de 2011
Sacolão e 'selvageria'
Foi inaugurada a grande festa da bicharada, da selvageria. Basta ires a um sacolão da rede ABC em alguns recantos da leste Belo Horizontina e terá a seu dispor um perfeito laboratório para estudos de antropologia, sociologia e filosofia. Expresso-me deste lugar, de dentro, e não de quem espreita uma vitrine.
Na superfície, são verduras, legumes, frutas e alguns congêneres embalados para alimentar alguns humanos, a maioria. Por não terem o privilégio de freqüentar as redes multinacionais de gôndolas bem organizadas e corredores bem apropriados para a circulação de gente, tudo muito bem dimensionado no estilo pague mais e tenha conforto, civilidade; eles se esfregam, acotovelam-se e trombam na faminta ordem do salve-se quem puder, pegue quem puder, quem suportar as incivilidades por alguns alimentos a R$0,79 ou R$0,99 o quilo.
Fundaram essas alternativas de venda de hortifrutigranjeiros supostamente mais econômicas a servir os ‘populares’, a servir também a classe média trabalhadora que economiza para gozar um pouco de lazer ou entretenimento nos intervalos laborais. ‘Tá barato, é pacabá’, grita ao fim do expediente o carregador-funcionário, resfestalando-se daquela disputa ‘inumana’ para alimentar o corpo, porque a alma gentil, cooperativa, já há muito se perdeu.
A logística se resume em algumas estratégias ‘curiosas’. Primeiro as prateleiras gigantescas para caber o excesso armazenado, para caber também os deteriorados a contaminar a vizinhança, mas principalmente para gerar o famoso excedente quantidade, porém, de qualidade duvidosa. Segundo, os espaços reduzidos a subsumir o poder de escolha, a gerar as desavenças na filas. Depois, as lixeiras abarrotadas de ‘estragados’, acuados pelo volume e pelo alto preço.
O excesso de gente faz o mesmo, é multidão insana em um processo de contaminação incontrolável. Por uma ilusão de preço baixo em troca de um saco de alimento, manifesta a sua ação irrefletida, manifesta seu despreparo diante dos processos tão bem criados de alienação, sobrevive e se debate a despeito da educação, do respeito pelo outro. Então o lado bicho e primitivo aflora, mas não para a caça ou a coleta daquilo que a natureza oferece e o instinto submete, mas para a coleta artificial, forjada no capital.
Na superfície, são verduras, legumes, frutas e alguns congêneres embalados para alimentar alguns humanos, a maioria. Por não terem o privilégio de freqüentar as redes multinacionais de gôndolas bem organizadas e corredores bem apropriados para a circulação de gente, tudo muito bem dimensionado no estilo pague mais e tenha conforto, civilidade; eles se esfregam, acotovelam-se e trombam na faminta ordem do salve-se quem puder, pegue quem puder, quem suportar as incivilidades por alguns alimentos a R$0,79 ou R$0,99 o quilo.
Fundaram essas alternativas de venda de hortifrutigranjeiros supostamente mais econômicas a servir os ‘populares’, a servir também a classe média trabalhadora que economiza para gozar um pouco de lazer ou entretenimento nos intervalos laborais. ‘Tá barato, é pacabá’, grita ao fim do expediente o carregador-funcionário, resfestalando-se daquela disputa ‘inumana’ para alimentar o corpo, porque a alma gentil, cooperativa, já há muito se perdeu.
A logística se resume em algumas estratégias ‘curiosas’. Primeiro as prateleiras gigantescas para caber o excesso armazenado, para caber também os deteriorados a contaminar a vizinhança, mas principalmente para gerar o famoso excedente quantidade, porém, de qualidade duvidosa. Segundo, os espaços reduzidos a subsumir o poder de escolha, a gerar as desavenças na filas. Depois, as lixeiras abarrotadas de ‘estragados’, acuados pelo volume e pelo alto preço.
O excesso de gente faz o mesmo, é multidão insana em um processo de contaminação incontrolável. Por uma ilusão de preço baixo em troca de um saco de alimento, manifesta a sua ação irrefletida, manifesta seu despreparo diante dos processos tão bem criados de alienação, sobrevive e se debate a despeito da educação, do respeito pelo outro. Então o lado bicho e primitivo aflora, mas não para a caça ou a coleta daquilo que a natureza oferece e o instinto submete, mas para a coleta artificial, forjada no capital.
quarta-feira, 16 de novembro de 2011
'Meu menino lindo'
Achei que o menino lindo era meu, mas entre tantos haveria um e mais outro e ainda mais... Estava lá transcrito na página de relacionamentos; ‘Meu menino lindo’. Então não era só meu, era de tantos quanto houvesse amor. Assim, era eu mais um a amar na repetição das linguagens, dos dizeres que se repetem, embora lá no íntimo houvesse uma interpretação própria, um sentir ‘irrepetível’, de uma densidade de receita escondida e indecifrável. Porque o ‘Meu menino lindo’ fazia em mim o que eu deixasse, e nesse fazer dele um tanto meu, em verdade, o que eu queria, construía esse prazer estético indizível que apelava para as palavras simples e corriqueiras de qualquer um que amasse. Para o amor, criamos palavreados arbóreos, espontâneos e fluidos, saídos de instâncias coletivas. Contudo, apelamos para misturas de linguagens improváveis, por vezes, até nos perdermos nos silêncios e nos gestos de mais amar. Mas ‘meu menino lindo’ sempre estará para dizer do pronome de possuir imaginário, do pueril de amar, da beleza que se devota.
quinta-feira, 10 de novembro de 2011
Sacro pagão
Faria um sacramento por ti
Não tu ai distante objeto
Faria um sacramento pagão
Pegar-te-ia em dedos sem comiseração
Num toque sagrado de quem descobre
E num susto se apercebe das doces nuances do sentir
Faria um sacramento tribal
E benzeria todas suas partes
Até alcançar o todo em banho redentor
Far-te-ia o próprio sacramento
O instante eterno das sutilezas
Daquilo que sempre se renova
Embora em parecença já tenha havido
Faria um sacramento por ti
Embebido em cheiros e secreções e audições controversas
Um caos a se ordenar por força natural
Uma força de desordenar para morrer no caos
Para renascer no caos
Faria um sacramento por ti
Desatinado por não conhecer-te
Na ânsia de compreender a parte pelo todo
O todo pela parte
Seria eu o próprio sacramento
Em sacramento por ti
Por querer fazer-te delicadezas
Do gesto, do ouvir, do falar em notas suaves
Do dar e receber como um sacramento
Faria um sacramento por ti
Não tu ai distante objeto
Faria um sacramento pagão
Pegar-te-ia em dedos sem comiseração
Num toque sagrado de quem descobre
E num susto se apercebe das doces nuances do sentir
Faria um sacramento tribal
E benzeria todas suas partes
Até alcançar o todo em banho redentor
Far-te-ia o próprio sacramento
O instante eterno das sutilezas
Daquilo que sempre se renova
Embora em parecença já tenha havido
Faria um sacramento por ti
Embebido em cheiros e secreções e audições controversas
Um caos a se ordenar por força natural
Uma força de desordenar para morrer no caos
Para renascer no caos
Faria um sacramento por ti
Desatinado por não conhecer-te
Na ânsia de compreender a parte pelo todo
O todo pela parte
Seria eu o próprio sacramento
Em sacramento por ti
Por querer fazer-te delicadezas
Do gesto, do ouvir, do falar em notas suaves
Do dar e receber como um sacramento
Faria um sacramento por ti
segunda-feira, 7 de novembro de 2011
Chega...
Chega um momento que não se apercebe, mas já se está adestrado, acostumado às rotinas de horário laboral, às contas a pagar, aos supérfluos indeléveis como a maçã grudada na barata kafkaniana. Chega um momento que a saída se estreita de tal forma, que a ilusão de liberdade se desfaz na prisão de não ser e não saber aonde ir. Chega esse momento em desacalento de segurança sórdida e frágil na sensação da alma. Chega esse momento repetido, desvencilhado de qualquer espírito nobre, criativo. Chega esse momento como aperto no peito, angina malfazeja, somática por pensamentos de compressão. Chega um choro, chega um soluço pós-prandial a sufocar a modorra da tarde, o calor do alimento. Chegam esses metabólitos monstruosos de uma vida mesquinha, medíocre, na acidez da saliva, no ardor estomacal, na paralisia intestinal. Chega também o suspiro de não suportar esse limite contraditório de não ser e ser. Chega vem imperativo, pegajoso nas palavras mal ditas, reprimidas, confusas, a buscar ressonância em ouvidos cavos, rasos. Chega se perde, chega é incompreendido, chega some, chega vai feito animal de circo em picadeiro teatral, em performances bem ditas, santas por olhos cegos, deletérios.
terça-feira, 25 de outubro de 2011
Localiz(ar)
Gosto-te daqui, de lá, desse (des)lugar que sou, estou;
Sinto em mim por ti inexato, ‘desabença’;
Não diria amor, porque não há sentir que tenha dizer, que toda palavra fica vazia em peito cheio;
Sobra o pequenino grande gostar, livre, leal;
Esse canto conhecido do amanhecer;
Esse querer bem;
Deixar voar, palavra amor leve por ti em mim.
Sinto em mim por ti inexato, ‘desabença’;
Não diria amor, porque não há sentir que tenha dizer, que toda palavra fica vazia em peito cheio;
Sobra o pequenino grande gostar, livre, leal;
Esse canto conhecido do amanhecer;
Esse querer bem;
Deixar voar, palavra amor leve por ti em mim.
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