Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
terça-feira, 4 de junho de 2013
saudade
não, não é fácil resistir à saudade, é dela que a alma parca, alma pouca se alimenta;
curiosa essa saudade de saudar, abrir os braços e receber o dia, a noite;
o alternar das luzes, enquanto no lusco fusco saudade...
sábado, 4 de maio de 2013
O cubo
Com muito custo saía daquele quarto; ainda que houvesse sol e a pele pedisse aquele calor. Os olhos estavam sensíveis demais ao sol, ardiam. Então se trancava naqueles óculos nos poucos momentos em que saía; voltava pro quarto frio. Imobilidade e solidão. Descobrira que só a muito custo criava laços e quando os criava a custo se desmanchavam. E no lugar daquele quarto os laços eram fitas soltas no ar, não se agarravam a ela, e ela tão pouco a eles; fitas soltas no ar. Artefatos de tecnologia faziam-lhe companhia, sons de tons variados, cenas repetidas e inauditas nas telas; livros abertos e fechados, argumentos multiplicados, vazios constantes irrefletidos; as lágrimas desciam e o quarto cada vez mais se agarrava a ela. Quadrado de pontas fixas, cubo fora do jogo. Não sabia mais se havia profundidade ali; era plano ou profundo, quadrado ou cubo? Confundia-se nesse continente ela no quarto. Era preciso manter certa ordem para não se perder no cubo quadrado, quadrado cubo. O chão mal aguentava ciscos e os barulhos de fora a incomodavam, impertinentes seres do lado de fora. Descargas sanitárias, ranger de móveis, trincos de portas, silêncio com fundo de motores automóveis na avenida fora. Vez por outra, uma fala mais alta, uma gargalhada, uma música repetida, uma serralheria. Lembrava-lhe uma orquestra férrea, serralheria e pum pum pá em autofalantes nos carros. Tudo se movia e ela só a muito custo saía do cubo. Os ossos não suportavam o frio e a imobilidade, mas o apelo do sol era inútil ali. Tudo a sobrecarregava, a carcaça pesada, os ombros em alerta. A vontade era de voltar para as vozes conhecidas, para os barulhos insuspeitos, pro sol do quintal. Mas era preciso viver o momento cubo fora do jogo, quarto frio de pontas afiadas e ouvidos sensíveis, de cheiros clorados em excesso, de manutenções comerciais. A vida morria um pouco ali no cubo, escapava a poesia do sol, do ar, do céu. Imobilidade e solidão no cubo, dado fora do jogo.
sábado, 6 de abril de 2013
Silêncio
Há momentos em que o silêncio grita. É, ele também tem sua face rebelde. De tanto dizerem-no tranquilo, de objetivos meditativos, ele se contradiz; dá espaço para o nada e o tudo. O nada o cala. O tudo o atormenta, inquieta; perfusão de pensamentos. É tanta gritaria que o silêncio se confunde por qual caminho ir; então envereda a esmo pra ver onde vai dar. Por vezes chega ao inesperado, lugar de ninguém, mas também de nós mesmos. O silêncio é face de nós mesmos, em nossa complexidade abafada pelos sons que nos guiam. O silêncio não tem sincronia, é reflexo fragmento de quem quer que seja. Ah, o silêncio; ele vai até além, e acreditam que é paralisia. Não, não; é movimento o silêncio. De tão solitário é imaginativo, óvulo. É, o silêncio espera a fecundidade do pensamento para gerar o som. E o som vem matar dia a dia o silêncio; profícuo silêncio.
quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013
Tecnologicus
Confesso! Admirei-me! Não que fosse cena incomum, mas foram decisivos os pormenores. Como de costume fui almoçar em um self-service, desses restaurantes apropriados para os dias corridos da modernidade, esses que atentaram contra os a la carte, de encomendar e esperar. Não há mais muito tempo para a espera nem de cardápios e preparos, muito menos de cartas. O fato é, postei-me sobre meu prato corrido, com misturas nem sempre harmônicas, por influência das tantas opções. Diante de mim havia três mesas lado a lado que abrigavam cinco pessoas, aparentemente companheiras de trabalho, solidariamente a dividir o horário sagrado do almoço, entre alimentar e conversar. Contudo, enquanto quatro deles se alimentavam silenciosamente em gestos mais formais, um deles habitava a única mesa da ponta. Nela, na mesa, ele fazia malabarismos com um notebook, um celular, uma agenda, um prato de comida e um copo de suco. Blusa listradinha de gola, sapato social, gel no cabelo e pulseirinha prateada no braço esquerdo; e também uma grossa aliança dourada para reiterar a imagem de moço sério. Todos os objetos da mesa eram, sem dúvida, mais sagrados e urgentes que a comida de cada dia; esta esfriava a olhos vistos, enquanto seu predador era consumido pelos artefatos tecnológicos, era abraçado por eles. Todos terminaram sua refeição, olharam de soslaio com meio riso de boca fechada, e o humanus tecnologicus ainda era consumido pelo tempo distante, enquanto sua própria necessidade essencial de se alimentar era violentada. Quando se dera conta do prato diante de si, este já esfriara; o gelo já raleara o suco; a avidez do garfo e a velocidade do mastigar vieram intensas; eram mais um sintoma de que o alimento não era mais sagrado, que sua necessidade era espúria diante do tempo exíguo?! Quem dera ele não precisasse mais se render a algo tão primitivo, alimentar-se; por isso, talvez preferisse comer frio para desgostar desses essenciais tão humanos. Esperei um pouco para ver o fim, desisti. Apelei para dispositivos mais primitivos como palitar os dentes, e até ficar meio sonolenta de olhar perdido no instante pós-prandial, quando, na verdade, fixava-me na cena. Achei monótono; fui-me. Uma mesa festiva de glutões falastrões me atrairia mais por certo; prova de que estariam nesse mundo e que o alimento vicejava quentinho e apetitoso no prato e no estômago.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2013
Esforço
Absolutamente nenhuma expectativa deveria corresponder ao outro senão a nós mesmos. Todo outro que há é só e sempre será terra dele mesmo; o que há, vez por outra, são coincidências de expectativas, o interessante acordo tácito de vontades, tão natural que é imperceptível, uno, como uma ordem enigma no caos que quase sempre se estabelece nas relações. Contudo, nada é possível fazer no que diz respeito às esperas. Se não há uma espera, a vida se coloca em desordem contínua e os laços não se estabelecem com a força, a que chamamos afeto. E para a palavra afeto corresponde um ideal de cumplicidade, ainda que nada se possa fazer pelo outro; apenas ouvir e sentir parcamente o que os seus sentidos querem manifestar; a alegria ou a dor. E o desejo? Ah, o desejo é a expectativa mais intensa que pode haver até que se esgote por completo, porque não tem limites e subitamente tende a se desfazer se não há o concurso do afeto. Esgota-se em si como magia; onírico. Alguns falarão de volúpia como desejo, mas ela, a volúpia, talvez seja uma faceta leve do desejo, uma vontade alegre de conquistar, que não gera a angústia do desejo. A volúpia é uma espécie de coqueteria, que se presta muito mais à vaidade, ao prazer de ser admirado, cobiçado. O desejo não; é curioso o desejo, enfático, ainda que se cale. É autoritário, persistente. Mas os sentimentos são cambiantes e misturam-se, confundem-se, porque reféns dos instantes que degeneram, dos instantes que se perpetuam, ainda que somente na memória. No final das contas, toda análise é insuficiente, taxativa e categórica, porque submetida a uma experiência subjetiva. Trazemos para nós as verdades de nós mesmos e esquecemo-nos das verdades do outro. Então, o caminho da objetivação é necessário para tentar compreender as possibilidades, as consequências das escolhas; e nada nos livra das consequências, das marcas que nos fazem. Essa idéia de passageiro recai num vazio sem significado, e isso não tem relação com tempo de duração, mas com intensidade. O ideal de verdade de um sentimento está exatamente na sua dúvida, na sua contradição, que não anula o afeto que pode, sim, vir confeitado de desejos e até antipatias momentâneas. Dúvidas, tantas. É, finalmente, o exercício de definir os sentimentos não passa de um engano, de uma tentativa de esconder a natureza perpetuamente indefinida, ou porque não dizer, submetida a um universo fisiológico ou sociológico, dosados na medida, ou completamente distantes. Resta por fim a escolha, o risco permanente da manifestação prática dos sentimentos e da incompreensível avaliação pessoal, que jamais encontrará apoio na justiça bem ordenada, senão na natureza imanente, perturbadora. Então, esse esforço de explicar tem lá sua desrazão de ser, embora, jamais nos furtemos dele; esse desejo de compreender.
terça-feira, 29 de janeiro de 2013
Nascira
Leva certo tempo para se reconhecer alguém na medida suficiente para não vê-la pelos seus extremos, para encontrar a quase exata medida do meio; mas esse meio vem depois, muito adiante das repetições das extremidades, das excentricidades da alma e do corpo. Ela tinha um nome de cálculo soma, meio nascer, meio irar. Já se aproximava da oitava década, mas subitamente assumia ares joviais de moça namoradeira, atenta que era às formas dos rapazes, aos rostos de traços bem delineados; olhava-os sem inibição, e falava cheia de ousadia e desprendimento. Era um proceder assim de retroceder à idade de parte dela que não se fora com as indeléveis marcas do passar dos anos. Se não fosse pelo contar repetido das histórias passadas ninguém diria que ali haveria sequer uma noção de tempo que passou. Mas vinham assim – as histórias - num refalar, um quê de redizer para lembrar. Parece que a idade ao avançar carrega consigo essa necessidade de rememorar, de fixar, não esquecer quem se é, num esforço de guardar existência. Tudo inspirava um conto ou uma crônica engraçada, festiva, desses contares que nos recolocam no lugar da esperança, onde a vida é alegre a despeito da decadência física e do cansaço, até que noutro dia o amontoado de décadas revela-se cruel e desolador. Salta à boca a palavra fim, o desejo de resumir o restante dos anos em apenas dois, emblemático par; “namoradeira”. Salta à boca o sentimento das solidões, do querer dizer e não ter ouvidos que ouvir: “Seu marido terá sorte; você é boa ouvinte”, profetiza. Mas sai sem mais, sem querer mais ouvidos, com jeito meio irado pelo passar do tempo. No outro dia renasce cheia de penduricalhos e brilhos, pinta-se, anela os dedos meio tortos, e segue na cantinela. Um dia, olhares maliciosos; no outro, expressão vazia.
sábado, 12 de janeiro de 2013
Folia de reis
Era a primeira vez que acompanhara um festejo de folia de reis de perto. Fora um encontro memorável, rico em imagens e sons. Tudo começou na Igreja Matriz do Divino Espírito Santo, em Varginha, mas o santo era descomedido, cheio de alegria e empolgação. Primeiro a missa cheia de mineiridade e latinidade, com ‘cio da terra’ em alto e harmônico som, depois Santo, Santo, anunciado como Deus humano que espera ansioso a hora da festa. Igreja cheia de gente em multiplicidade, de observadores a cristãos, de crianças aos mais longevos, de chapéus, sem chapéus, e idades da alma com a fantasia que toma conta de qualquer que seja. De repente todos saem orgulhosos carregando suas bandeiras de anunciação, até que veio a copiosa chuva dos santos. Todo mundo volta para a igreja no receio de molhar a alegria. E no remanso do choro do céu que viria, saíram os grupos de cantadores, tocadores e dançadores; sim, ores por eles que são pura intuição de devoção em feliz encenação. Acompanhara o cortejo a invadir a mecanicidade do trânsito, os olhares dos passantes de admiração e surpresa. Na calçada seguia um senhorzinho de chapéu de palha e um guarda-chuva cajado, a sorrir por ser companhia da procissão. E assim tantos outros. Mas os cabelos fartos e coloridos dos palhaços em faces máscaras escondidas, barulhentos na voz e nos pés, envolviam todos; eram carnavalização, permissão para extravasar, desculpa para pular em desatino, se divertir. Curiosa arrebentação de alegria na fé do nascimento de alguém salvador, mas sem o peso do pecado, da penitência. Festejo simples e complexo em mistura de fé e imaginação, ‘fantasiação’. Grupos companhias de foliões reis de gente, cada um rei, com violão, sanfona, rabeca, tambor e pandeiro. Reis de idade histórias, de tradição a inspirar pequeninos no ritmo da folia. Quantas crianças de todas as idades a festejar pra lá, pra cá. Tivera momentos de querer chorar, estranhamente chorar em meio à alegria por ver tanta alegria. A pensar como aquela celebração se perpetuara por anos nos corações a revelar arte espontânea, que rompe com a sacralidade intocável, para fazer chegar perto a presentear, para fazer poesia rara, de versos em repente, para conclamar todos a dançar e sorrir, e fazer festa.
sexta-feira, 11 de janeiro de 2013
Lua
Tem cientista dizendo que a lua está indo embora;
Tem gente que anda perdendo a lua, rua;
Tem vida se perdendo na lua, pegando carona nesse vagar sem volta;
Tem gente se encontrando com a lua, nova lua a cada dia;
Lua cadente na imaginação lunática, arbitrariamente poética;
Tem gente minguando, lado negro da lua que some do céu;
Até vir nova lua, ressurgência, insurgência;
Tem gente pulando na lua, crescente picar de bola a brincar;
Tem cientista dizendo que a lua está indo embora;
Que gravidade perde força!? Ou que gravidade não é tão grave assim?!
Tem gente a chorar a lua pra ela voltar.
sábado, 5 de janeiro de 2013
A rodar
Que imensidão
Solidão
Que paredes me cercam
Céu na fresta da janela
E antenas, quantas
E cérebros
Tormentas
Essecialidades parcas?!
Fisiologias
Minhas pernas no vaso
Desejo fisiológico
Instantâneos
Impermanências
Choro e riso, impermanentes...
Que imensidão
Solidão de materialidades
Incensos, ‘inssencialidades’
Pareceu-me agora dos deuses
Uma máquina de escrever a escrevinhar solta e alegre
A história de ninguém e de cada um
Música de ninar, arremedo de sonho e eu a rodar, rodar...
Se não é a arte, que sentido há
Se não vida em arte, solidão...
Imensidão vazia
E a máquina a escrevinhar ninguém...
E eu a rodar, rodar...
segunda-feira, 24 de dezembro de 2012
O amor
O amor não é um gesto que se tenha, que se tome simplesmente de supetão...é devagar como um pensamento que se complexifica até ficar tão simples, diminuto, que só resta amar sem perguntas que fazer ; é mais um aceitar daquilo que é, mas já sem expectativas, senão a graça de se doar, de querer bem até o infinito.
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Flash Revelador
Aquele dia não fora como os outros. Fora com encanto como não poderia deixar de ser, mas tivera uma fúria; não saberia dizer se por uma ideia qualquer de despedida, ou uma abstinência de longo tempo. Sim, de conjunção carnal, destas que rompem a delicadeza do gesto, no esquecimento do outro, não por maldade; a ela pelo mesmo não parecia. O próprio sentimento do egoísmo não é forma que se condene, posto serem todos quase sempre egoístas ou eminentemente egoístas. Difícil sair de si e olhar para o outro, guardar um espaço no pensamento para vislumbrar o exterior que pode se revelar tão profundo, tão inesperado e assustador. O que vai por dentro é sempre ânsia de si, sendo assim, egoisticamente forjar o de si para si nesse instante que poderia ser muito mais troca já deixou de ser contingência para se tornar habitual; um cotidiano cego. Nem ela nem ele estavam a salvo, eram reféns do pensamento fixo de si para si, nessa alternância de quem se confunde no desejo de entrar e sair, com a crédula vontade de estar nos extremos para enxergar melhor, como se o meio não fosse infinitamente mais exato, o ficar na fronteira. Assim, era o sexo, esse diálogo mudo de buscar uma satisfação infinita ainda que por momentos muito mais na fuga do que no encontro com o outro. Fora assim, uma violência consentida, para ver até onde iria esse furor de si; uma luz para ver melhor, um quadro para criar uma visão mais clara do de si, para que não houvesse sempre confusão. Não se tratava de possessão ou admiração mais, era uma análise inicial após tempos de cegueira visionária, pois que cada escuridão guarda iluminação, embora não se saiba exatamente o que se ilumina, onde está o foco, o flash revelador.
segunda-feira, 5 de novembro de 2012
Povoar é amar
Talvez seja a chuva chorando meu exílio próximo. Talvez um livro sacado da estante da livraria por palavra e coincidências obscuras, inexplicáveis. “Tempo de delicadeza”, de Afonso Romano de Sant’Anna, veio assim para presentear de supetão e caiu-me na mão para falar dela mesma, a delicadeza, antes da sessão d’Os Intocáveis no cinema em companhia de minha mãe e minha prima. Hoje escuto a chuva e rememoro esse tempo de indelicadeza. É, por certo, culpa dela, o desamor. É culpa dela a colonização que dispersa o delicado povoamento, daquele que chega de manso, ‘primeiro nos espaços públicos’, como diz Afonso, para depois povoar a casa e o corpo contido nela, seus estranhamentos e nuances. Fui indelicada em não socorrê-lo diante de tamanha dor de cabeça naqueles idos do início de tudo. Dispersei-me no indelicado modo de negar o ânimo para qualquer momento de conviver. Por ser terra, floresci o que havia em mim de sôfrego e me pus a queixar. Deixei-me colonizar como terra que se descobre sem que as riquezas sejam conhecidas. A indelicada colonização. Tentei colonizá-lo também, em vão, pois você já era o colonizador por já ter colonizado outras terras. Quis também povoar você e não consegui. Irritei-me com a sanha de poder ser algo como encanto para você, enquanto você me colonizava, desatenta e indelicada terra de ninguém. Agora ainda é sua terra; mas hoje há nela ‘veias que se abrem’ a verter um líquido pegajoso e tinto, frações minerais mercuriais que pretendem lavar o ouro, mas só conseguem juntar-se a ele nessa imprecisão. Nem sei mais se há riqueza nessas terras, aluviões?! Apenas penso que fui indelicada, por isso, pouco restou de você em mim; sempre há outras terras a colonizar. Agora povoar carece paciência, quase acanhamento de entrar pelos limites entre a porta e a rua, uma cerimônia só sentida por dentro. Povoamento carece delicadeza. Despi-me inadvertidamente, crendo que colonizar não doía tanto assim, mas restou pouco daquele verde imenso, habitado e lúdico. Nem sei se ainda é deserto, mas talvez um cerrado a caminho da caatinga, com suas tortuosidades, plantas salvadoras de reservas hídricas espaçadas, a florescer com custo. ‘Um deserto vivo?!’ O custo de colonizar, indelicadamente colonizar. Almas são terras vivas de plantar e colher com a cadência de cada tempo, povoar. Povoar é amar.
sábado, 13 de outubro de 2012
O cheiro
Cheiro remete a lembranças. Boas ou ruins, foram muitas reminiscências a revelarem-se sob a forma olfativa nele. Mas seguramente, desta vez, o cheiro veio mais forte, pesado, metálico, o que de fato, fizera com que qualquer relação com sua memória se fizesse irrelevante diante da densidade miasmática que sofrera naqueles dias. O que mais o indignava era a solidão daquele sentido, daquele olfato, que embora fosse constantemente anunciado, não era acolhido. Ninguém mais sentia o tal cheiro na casa. Então ele tergiversava sobre as possibilidades daquelas improváveis insensibilidades. “Talvez já se tenham acostumado tamanha a impregnação do cheiro.” Havia realmente uma oficina por perto, onde com freqüência parecia serem processados metais, soldas e arremedos metalizados. “Mas viria mesmo de lá o cheiro? Insuportável!!! Inadimissível!!! Irrespirável!!!” Era quando saía de casa já com a triste sensação de voltar e sentir o cheiro novamente. Já não seria sentir, seria respirá-lo, posto não haver sequer chance de distinção dos outros cheiros, outras recordações. Tinha uma breve sensação de loucura, pois que o cheiro era irrevogável e poucos sentiam. Curiosamente, o que era motivo de pensar e lembrar, o cheiro, embotava esses verbos memoriais e o empurrava para fora num expirar ofegante e num fugir de casa a vagar sem hora de retorno. Até que finalmente, seu irmão vindo de outra cidade percebera o cheiro metal e confirmara seu caráter detestável. “Não, não estava louco.” Mas após esse alívio parcial de loucura ‘inconfirmada’, o cheiro odor permanecera. Era onipresente, tudo via, tudo sabia, porque estava em todos os cantos a transgredir a sublime natureza daquilo que se incorpora ao ar, os aromas que se diluem com a brisa. A toxidez do cheiro invadia as narinas e escorria pelos seios da face até encontrar o caminho do gosto. Cheiro e gosto faziam par. A audição da memória e da realidade ensurdecia. Era o cheiro fazendo morada, cilada. Era a vitória do cheiro diante dos inúmeros horizontes dos sentidos, quase um ecoar de limites impostos, uma metáfora assustadora para uma realidade inflexível, o cheiro...
terça-feira, 4 de setembro de 2012
Assaz encantadora
Em verdade?! Encanto-me é com a sua liberdade! É ela que tento sorver de você e que me embebe. Fico úmida no meio da secura asséptica do cotidiano, do comum esperado por todos. Não sou vadia, não sou santa; é só uma permissão que me dou, talvez de vadiar e me santificar pelo inesperado. Viver o presente é como um crime, uma degeneração; assim muitos vêem. Esse crime muito me atiça, porque não é planejado, não é sequer uma psicopatia, mas é de uma loucura fugaz e ao mesmo tempo pegajosa, como um gozo que se quer repetir.
domingo, 26 de agosto de 2012
Língua insana
Disseram-lhe repetidas vezes que nem mesmo um pouco de insanidade valia o instante, pelo perigo que houvesse, por provocar a ausência de proteção da realidade submersa. Eclode a fluidez na língua, que se torna inspirada, sem qualquer opacidade. Ela, a língua torna-se malfazeja por revelar tortuosidades da alma a dizer de si e do outro, do mundo. Ela inscreve nas palavras o gosto da imprecisão, mas goza de uma justeza na representação do sentimento, que jamais um só período de sanidade poderá revelar. É motivo de invenção para tudo que já foi sentido e silenciado; pede uma representação, uma compreensão dita, que soa conspurcada e indecente quando insana. E a insanidade não é necessariamente um tipo alucinógeno, senão um estado de ser de sensibilidade a gritar em som abafado e rico em harmonia, inquietação e agonia. E essa deveria ser a real razão de dizer, sem revestimentos gramáticos, sem repressões. Assim, seriam as palavras orgásticas nas cordas da língua, mesmo em desarmonia, significantes, destoantes da aparência, uma denúncia de ser e perceber. Que liberdade não precisar dizer em vão apenas para preencher as falhas insalubres da vergonha, do disfarce da realidade. Quase um ato de amar uma possível verdade, sincera manifestação do espírito, arrebatamento; a língua em crise, fugitiva de condições determinadas, de mentes acorrentadas.
quarta-feira, 18 de julho de 2012
Sem fim: um pouco sobre On The Road
Em que lugar vai dar aquela estrada sem fim, de curvas pouco sinuosas, declives e aclives suaves a penetrar a vegetação árida, por vezes nevada sem deixar nunca a aridez? Seria na verdade a secura da alma a verter toda sorte de encontros imprevistos, de digestivas indigestas substâncias alucinógenas? De amizades e amores parcos e loucos por anunciarem sempre o fim, ainda que houvesse sempre um trago a mais que sorver, o final do fluido ou o início quem sabe, na dúvida permanente do copo pela metade; prestes a acabar ou a ser preenchido? Um novo encontro, embora sempre velho. O livro On The Road, de Jack Kerouak pareceu-me assim, mas diferentemente do filme recentemente visto ao lado da minha mãe, traz uma compulsividade infinitamente mais frenética, uma loucura imanente e iminente, enquanto o filme resumiu-se a retratar crises, pequenos clímax do livro diante da estrada sem fim, quando, é claro, a imagem pudesse render algum tipo de assombro ou exotismo, sem exageros, devo admitir. Asseguro que minha mãe manteve-se aparentemente com o olhar fixo na tela; penso que queria perscrutar a próxima curva, onde ia dar, para depois me dizer se alguma chegada valeu. O manuscrito é como uma montanha russa; uma monotonia sórdida, natural da vida de qualquer um, e uma súbita busca indeterminada, do incompreendido apenas para alguns, os mais ousados ou porque não dizer alucinados categóricos, ilegais. Curioso é como os lugares retornam e são sempre obrigatórias passagens ou chegadas triunfais, repletas de expectativas. Os lugares têm vida, os personagens querem viver ainda que custe a morte. Esqueçamos da alucinação alienada, legal, mas sem esquecê-la totalmente. O mundo ‘paralelo’ do ‘autor e seus ‘comparsas’ nem mesmo hoje soa como natural, pelo menos para os conservadores, para não dizer a maioria que nos rondam. E aonde fica a sobriedade que resguarda a sobrevivência digna, ainda que indignamente tristonha? Como encontrar em meio à realidade de dentro e de fora essa alucinação legal, saudável e asséptica? São essas perguntas que Kerouak fez nas entrelinhas. O diretor Walter Salles deu seu recado, dada as limitações da adaptação para um obra tão repleta de movimento; ou ficava na estrada ou ficava nos lugares ou ficava nas pessoas. Precisou fazer os três e perdeu a profundidade até mesmo da superficialidade em alguns momentos. O tempo exíguo deixou o manuscrito sem grande expressão na tela, mas digestivo. Bonita fotografia, jazz, bop, blues; negros fabulosos, virtuosos na voz, no toque instrumental, na dança. Menos que no livro é claro. Não deu tempo para tanto sexo, drogas e rock n’roll. Minto, talvez um certo desequilíbrio a favor das sessões alucinógenas. Mamãe não teceu grandes comentários. Adolescente nos anos setenta, nem de longe soube o que significava beat, hippie. Foi apenas uma moça interiorana com rebeldia escondida. Acho que continua rebelde latente. Penso que ela não acharia mal ir pela estrada sem fim.
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