terça-feira, 19 de outubro de 2010

Vingar

Ela se ressentia das amizades que não vingavam; ironicamente tencionava se vingar de todos esses sentimentos desatentos, rasos, indisponíveis. Mas ela também não se redimia de tê-las também negligenciado por avaliações precipitadas ou por indigestões momentâneas e até duradouras. Essa visão sempre voltada para o centro de si mesma, ainda que disperso, por boas vezes, bloqueara essa visão plena do outro, suas possibilidades infinitas, repugnantes, mas também adoráveis. Mas ela sabia também que o outro podia ser um caminho inóspito, e então, o dispêndio de forças em desequilíbrio teria quase sempre o efeito de ofegar e lamentar menos experiências compartilhadas. Alguns diziam que existia uma tal afinidade, uma empatia a que não se podia fugir. Ela não cria piamente nessa idéia, posto que a revelação de si para outro era sempre incompleta, e esses ‘disfarces’ de proteção ou dissimulação talvez fossem o desafio mais fundo de viver o outro. E viver o outro era surpresa a cada instante, se houvesse disponibilidade, gentileza. Mas ela nem sempre se punha disponível, gentil, porque esse ideal subsumia diante do mundo de objetivar em que se embrenhou, diante de tanta individualização. E subjetivar o outro em suas diferenças, em suas sombras, reflexos famintos de compreensão, era todo o sentido, o significado de viver. E se a custo da sobrevivência, a alteridade tivesse que ser desprezada, o mundo seria pouco e a sobrevida ressecada, improdutiva. Teria que se vingar a todo tempo dessa escassez de sentimentação pelo outro, do excesso de sentimentação sobre si mesma. Teria que ser sentir ação misturados, em diálogo permanente, a afastar toda materialidade ou abstração utilitárias. Teria que se convencer do convívio em fragmento, em busca de completude. Teria que se convencer da dor e da alegria de conhecer, desse entrelugar dos sentimentos em ação pendular, em perfeito desequilíbrio.

6 comentários:

Nina Blue disse...

Conheço alguém assim...
Como pode, você tê-la desrito tão fielmente? A-d-o-r-e-i!

Paulo disse...

Há gente assim mesmo. A sua construção é perfeita.

Sara_Evil disse...

SIM!

Sara_Evil disse...
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André Zagreu disse...
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André Zagreu disse...

Keila, não sei se vc já conhece a filosofia de Sarte, ele fala justamente de uma impossibilidade inerente ao ser que nos torna impossiveis ao outro e o outro impossivel a nós. Lembro que ele dizia mais ou menos isso, que convivemos com o outro mas jámais o poderemos o conhecer, ele será sempre uma misterio, sempre suposições. Lembro tambem que ele disse isso para a Simone seu grande amor, que seria sempre impossivel eles se conhecerem plenamente.Bom texto o seu, parabens.