quinta-feira, 18 de maio de 2017

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Nunca soubera diferenciar muito bem os animais humanos racionais dos outros ditos irracionais. Simplesmente porque achava os ditos irracionais sempre coerentes com seus anseios e deliberadamente sinceros. Por vezes via esses ditos racionais em turba a manifestar a mais pura selvageria; idolatram deuses, dinheiro, poder ou qualquer objeto que se lhes dê prazer. Os outros irracionais são o próprio prazer, são indivisos com a natureza e absolutamente personificados. Quem são os racionais?!

Escarlate

Sonhara com uma névoa escarlate, morna a flutuar em seu entorno, corpo. Uma ambiência quase sonora a beirar silêncio, medrosa de importunar o enlace suave, toque de nuvem. A névoa carregava, embalava, faiscava sem incendiar; vela cumprindo pedido. Era como uma oração sinuosa, um rito pagão santificado, exorcismos de sentir; a névoa morna; abraço escarlate.

gente

A gente é coisa que não se entende mesmo; a gente se sente, não se entende; e a gente que se sente, sente parte, um naco no aparato incerto de ser; porque gente é toda gente, é seres; e a gente é só uma gente nesse mar de gente que se sente.

Pessoas e coisas

A pensar sobre pessoas e coisas; esses dois entes distantes e tão próximos porque intercambiáveis. Pois que é tão comum coisificar pessoas e personificar objetos. Ora veja, o objeto que tem história; até mesmo um carro, símbolo mais alto da indústria do consumo pode carregar em si a lembrança de viagens ou mesmo a ternura das paisagens. E das pessoas que as contemplaram.Pode guardar ainda a repetição do cotidiano, essa realidade que nos consome, e que nos constrói de certa forma. Há ainda aqueles objetos parcos de histórias, mas que vieram de uma mão amiga, ou que guardam apenas uma história, uma lembrança eterna na memória; um livro de história ou um pequeno objeto de afeto. Agora o tudo coisificado, usado e desfixado da memória é de uma brutalidade sem medida.É condenar o ser humano e o objeto carente de história à morte de não ser. É a própria incapacidade do homem de se auto gerar e se fixar como matéria de poesia, a única fonte próxima do sentido mais encantador e desafiador da vida. É nos guardados de memória, é nos pequenos museus de cada um; mesmo com suas traças e poeiras, que está o homem ser e seus objetos personificados.

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Há que se resistir aos pavores da distância para se encantar com os prazeres da proximidade; há que se resistir e submergir em rio negro e fundo para reaparecer em nudez; há que se dizer infinidades de silêncios e fazer zumbido de ventania em ouvidos surdos de linguagem desdita para acalentar a palavra amor; há talvez que amar para fazer dança de pálpebras em olhos de brilho sol, de onda mar; amar e ir e voltar constante na repetição ressabiada, loucura de repetir em potência sem fim de descoberta; vai e vem de ave no ar e o pouso sonho esquecido e lembrado; há que se misturar esses mistérios revividos a exaustão; há que se desejar amar como sem saber e saber sem sentidos lógicos; há apenas que sentir, deixar anuviar e clarear, clarear e anuviar as íris retintas; quadros de paisagem aconchego, colo lar, amar nunca caberá; há que se mergulhar para amar.

Mundos distantes da realidade

...antes que enlouqueça, antes que pesadelos tomem conta da sua mente e do seu corpo, saia por aí sem rumo que seja, vá passear em mundos distantes do sonho e da realidade; somos expansão e o abismo do buraco negro; somos o que não sabemos, embora queiram essas identidades parcas e bem delimitadas encerradas em nós...e nós enterrados, abismados e abismais...

Fatalidade

Estivera a pensar meio 'rosianamente' sobre a fatalidade da vida. Por mais que se esgueirasse estava lá a fatalidade. É que fatalidade não é acidente mesmo, é como coisa agendada, anunciada, mesmo com atraso no tempo. É o fatal rosiano, róseo, inflamado até irem-se as pétalas...Bom era que depois de todo fatal vinha um vento presságio, como uma sabedoria de perceber esse fatal; fatal bom ou ruim; perceber nas entrelinhas do dia a dia a poesia da realidade e a mera ficção. Sim, era isso; pressentir os personagens inventados pra esconder o fatal. De qualquer forma, era assim em agonia que ficara, ainda que descrente a pedir ao alheio divino 'jesus amado' uma proteção pra prever a fatalidade.

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O controle social se alicerça basicamente sobre duas condições: a existência das leis formais e informais. Além da norma contratual ou tácita há o desejo que escapa às nomenclaturas. Mas o homem como ser de palavra, afasta-se do desejo irracional, prende - se aos nomes das coisas e vira coisa, categoria. Aí se encontra e se perde.

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O que aconteceu com a psicodelia? Que elixir de loucura sã tomaram os psicodélicos? Tantos que foram nesses mares de sonhos, e hoje só cabines de navios, nada de velas...

Danação

A gente estava falando de música, e enquanto a música tocava, de xote baião, veio raul, chico e a menina da pele preta de olhos azuis. A gente pensava em fazer música, mas ela já estava ali, pés sincopados, do ritmo querendo encontrar poesia a flertar com a melodia.Ela estava em todo lugar, já feita a danada da música, uma danação de todo lugar, trilha em ação...ela já estava em todo lugar, trilha em ação, uma danação....

Especulações de Eduardo Coutinho

Pois que deus não é mesmo o homem que morreu?! Disse a menina ; e rezava o pai nosso início, meio e fim conforme todos nós; todos a rezar pelo homem que foi lá pro céu, como diz a oração; vivemos mesmo é de dizer, de desdizer também...agora o dito redito fica tão mais dito, desmedido, ladainhas de viver e conviver...

O homem das pedras

Foi-se o homem das pedras....Sim, Todorov sempre foi pra mim o homem das pedras. O conhecido linguista estruturalista ,que analisou os formalistas russos, não passara pra mim de um homem das pedras. Ele dizia sobre o desejo mineral do homem, desejo de ser pedra. Poucas vezes na vida tive tamanha sensação de clarividência; o tal desejo mineral, a solidez desmanchada a custo pelas forças da natureza, e o fatal retorno à terra, sem apodrecimentos; uma deterioração lenta amiga do tempo, suficiente pra condensar e expelir energias, suficiente para construir sabedoria. Pedra...confesso aqui meu desejo mineral, esquelético descarnado das futilidades do mundo. Confesso meu desejo mineral, densidade e silêncio, paralisia pensante a passar por tudo e permanecer, terra. Confesso meu desejo mineral...

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Há tempos ela questionava o porquê dos seus interesses tão variados, possivelmente divergentes. Tomava-a uma angústia irreprimível de passar por tantos lugares em tempos diminutos, como o da hora e o do dia. No ano então, perdia-se completamente sob o constrangimento da memória perdida, das palavras, dos nomes, das cores, dos sons e dos cheiros; tantos eram os caminhos de destinos provisórios. Sim, eram provisórios porque se metiam a entrar uns pelos outros em forma de fronteira eterna; da mesma forma que se encontravam e se identificavam, sumiam-se os destinos e se faziam pontos de largada, recomeços incessantes.

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Toda vez que teimamos em fazer combinação de palavras estamos querendo é ser reconhecidos, ser devassados por dentro e por fora, como uma coleção de escrituras mágicas, repletas de fórmulas que traduzem ou obstruem o entendimento sobre nós mesmos. Combinação de palavras só é dada para quem nos lê e ousa perceber ou incompreender. Uns nunca saberão sobre nós, escritos encantados. Outros terão a ousadia, aventurar-se-ão nesse caminho de desencontro e tentação.

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Primeiro não veio a palavra. Veio o gesto, veio o som. Palavra é coisa que se usa para compensar o seu próprio desuso; dificilmente cabe bem, ora até cabe por força das circunstâncias, da emoção. Em outras, soa falsa, malidicente, inapropriada. Primeiro não veio a palavra. Aliás, não se sabe o que veio primeiro, quando muito, sabe-se o que veio antes.

mar ilha, ilha mar

Pois então, o mundo e suas 'coisas' não são todos representantes em oposição? Não existem por oposição?! Os mundos e os desmundos; as coisas e as não coisas. A saber; não coisas podem ser sentimentos, imaterialidades quaisquer, essas coisas que nos estranham, atormentam e encantam?! Pois então; não é que outro dia ela sonhara que o mar é que era a ilha?! Sim, estava ele ali todo azul e denso de ondas medianas a conversar com terras em volta. Ele, de fato, não queria assaltar as terras de susto. Enquanto isso, ela nadava e se debatia dentro do azul, essa fluidez imensa. Restrito feito uma uma ilha, o mar cercado de terra. Era pois o aquoso quase terra, a partir de onde não se navegava. Então, possível talvez fosse navegar na terra?! Ora, é que mar e terra nem são tão distantes assim, opõem-se por pura convenção, necessidades práticas da racionalidade. O mar dela se fez terra, ao nadar não se desgrudava como se fosse árvore fincada! Queria então desesperadamente navegar na terra. Ironias! É como desmundos; por vezes é o mundo distante mais próximo, o mundo de cada um. E as não coisas! Ah, as não coisas, que belas coisas. Pode-se com elas fazer um mundo, são geratrizes. Pois então, nem há mais oposição! Meras muletas da razão!