quarta-feira, 28 de outubro de 2009

'O Leitor'; sobre Literatura e Liberdade

A narrativa do relacionamento entre pessoas de gerações diferentes, que se aproximam e se distanciam durante a vida pelas contingências pessoais, sociais e políticas de uma Alemanha marcada pelo nazismo, mas que permanecem de certa forma unidas pelo amor à literatura e a tudo o que ela remete. O autor alemão Bernhard Schlink, em ‘O leitor’, conta a história do envolvimento do estudante Michael, de 15 anos, com Hanna, de 36 anos, logo após a Segunda Guerra Mundial. Por alguns meses eles têm encontros amorosos, durante os quais Michael lê para ela autores clássicos da literatura como Tolstói, Dieckens e Goethe. Até que Hanna desaparece e os dois se reencontram em um julgamento, em que muitas revelações vêm à tona. Ele, estudante de direito; ela, acusada.

Também um metatexto sobre a leitura e literatura, o livro de Schlink não tem a pretensão de ser um tratado sobre as características de um leitor e nem tão pouco sobre as expectativas do escritor sobre o leitor, senão chamar atenção para as mazelas e frustrações engendradas no regime totalitário racista e as implicações psicológicas na sociedade. A história e os personagens são conduzidos sem exageros panfletários, mas de forma suave e contundente, quase como um segredo que o desenrolar dos fatos desvenda de forma irremediável. Escrito em primeira pessoa, por meio do olhar do ‘menino’ Michael, o texto apresenta frases curtas, o que encerra o dizer reprimido das vozes ainda caladas pelo regime nazista. As descrições são, por vezes, resumidas, outras, detalhadas, ao sabor das ânsias e contemplações do narrador; “o prédio antigo tinha a mesma altura e quatro andares, um piso de blocos de arenito afiados como diamantes no térreo e três andares superiores de paredes atijoladas com arcadas de arenito, varandas e janelas gradeadas.”

Os diálogos mínimos, à despeito da discussão sobre intencionalidade do autor, terminam por esconder o que vai fundo na alma, as vergonhas, que em instantes aparecem como um afago ou uma violência exagerados; “Ela tinha nas mãos o cinto fino de couro com o qual prendia o vestido na cintura, deu um passo para trás e o lançou no meu rosto. Meu lábio estalou, e senti o gosto de sangue. Não doeu. Fiquei terrivelmente chocado. Ela pegou o cinto de novo. Mas não voltou a bater.” Contudo, algumas passagens demonstram uma poesia desconcertante como; “Quando ela estava adormecida sobre mim, a serra calava no pátio, o melro cantava, e das cores das coisas na cozinha só restavam tons acinzentados mais claros ou mais escuros, e eu era completamente feliz”, e os protagonistas se revestem de uma verdade crua, da impossibilidade de estarem juntos; “Hanna como doença. Envergonhei-me. Mas falar à vontade de Hanna é que eu não podia”, e da dúvida; “O verão foi o vôo planado de nosso amor, ou muito mais do meu amor por Hanna; sobre seu amor por mim eu não sei nada.”

‘O leitor’, fala de vida, da descoberta do amor e do sexo; fala de morte, morte em vida, vida em morte, e literatura. O leitor Michael é alguém que apresenta os mundos para outro alguém, Hanna, e que a deixa livre para fazer sua própria leitura, desobrigada, distante da realidade vivenciada, mas vivida no ato da leitura; “Ela gostava dos poemas entremeados. Gostava dos disfarces, dos enganos, das confusões em que o herói se envolvia na Itália. Ao mesmo tempo implicava com ele por ser um velhaco, não se responsabilizar por nada, não conseguir nada e nem querer conseguir. Ficava arrebatada e, horas depois que eu tinha parado de ler, ainda podia vir com perguntas.” Já Hanna é a mulher sem pudores, o colo de mãe, o acalento; é também a representação da força, de uma transformação, de como a oportunidade pode ser aproveitada em toda sua plenitude; “Era visível a resistência que Hanna precisou superar para transformar as linhas de tinha em letras e compor com as letras as palavras. A mão da criança tende a se desviar aqui e ali, precisando ser mantida no percurso da escrita. A mão de Hanna não tendia a lugar algum, precisando ser obrigada a seguir adiante.” Os dois protagonistas são leitores com seus pontos de vista, suas vivências, são livres naqueles momentos.

A obra de Schlink é um despertar para a discussão sobre os conceitos pré-concebidos, para as exclusões injustas, mas é também ode ao amor, ao amor que une as pessoas com motivação óbvia, quase irrefreável da atração física, mas de um amor maior, que sobrevive por aquilo que o outro tem a dar, a ensinar, o motivo maior da troca e da solidariedade. Mas é, sobretudo, um livro de exaltação à literatura e à descoberta da leitura e ao mundo novo que ela desnuda a cada momento, no reconhecer de si próprio e dos outros, na compreensão das diferenças marcadas nas pessoas pelo tempo, pelos lugares e até nas incompreensões, daquilo que não se explica.



terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sinos sem dobres

Por sobre a rua estendiam-se as campânulas dos sinos sem dobre. A rua era pequena e as casas vinham uma a uma num ritmo lento até que os olhos se esgueiravam na busca de horizonte maior e ele não vinha. Não se sabe por que as badaladas já há cem anos não soavam mais, senão pela morte do último sineiro, que despencara lá do alto. E assim, todos choravam as mortes e comemoravam os nascimentos da vila ao som da Ave Maria ou do Pai Nosso entoado na próxima missa pelas vozes de ladainha, o que se ouvia até o fim da rua. Dos sobrados os rostos, de face lúgubre e festiva, não ousavam ultrapassar os batentes das janelas. Às vezes interpunham-se somente as pontas dos narizes mais compridos ou mesmo se insinuavam alguns fios de cabelo em dias de ventania. Não se sabe por que, cessadas as badaladas, o povo ganhou conformação intimidada diante de tudo e o movimento ficou também silencioso. Começaram todos a ver de forma descomedida e se assustar ao menor barulho por falta dos dobres dos sinos. E cada vez que alguém se pronunciava em alta voz, os ouvidos pareciam doer, como se estivessem submetidos aos mais elevados dobres, de quem está com as campânulas feito chapéu, por sobre as cabeças. Dizia-se que o coração delas batia em disparada a qualquer som que não fosse das rezas na igreja, e que antes do cessar das badaladas, eram todos mais calmos. Havia alguns que se colocavam de joelhos na escadaria dos sinos e que lacrimejavam na lembrança da magia dos dobres que anunciavam alegria e tristeza, depois alegria de novo, de modo que a cada tristeza seguia-se uma alegria e se a alegria vinha, a tristeza era recebida com resignação de quem já foi agraciado com momentos felizes. Morrer o dobre dos sinos foi como morrer a anunciação da vida e da morte, do destino e do recomeço na vila.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Pedra

Pedra não quisera ser
Pedra só pudera ser
Posto que de tantas pontas de pés
Rolou e parou
E rolou e parou

Resolveu querer ser pedra
Sem pulmões que respirar
E dedos que buscar
E nesse estado de minério
Foi obra inabalável
Sem vertigens de amor e de dor

Pedra não quisera ser
E mesmo assim paralisou
E nunca mais falou
Sob pena de não ter ouvidos que ouvi-la
Deu um último grito e petrificou

E nesse estado mineral
Foi plenitude geológica
Amou a chuva
O sol
O vento

Na dureza do seu esplendor
Foi um adorno de sentimentos
Abortou pedaços e farelos
E sobrou
E rolou
E parou
E foi pedra que passou

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Penitente

Ela não gostaria que a acusassem de crime ambiental, nem tão pouco que pensassem dela uma enormidade de descaso com as coisas belas e providenciais da natureza. Mas sentia dentro de si uma predisposição para o homicídio, não de gente, que isso ela nunca pensou, salvo, é claro, quando sabia de um tarado molestador de crianças e mulheres. Pensava em assassinar um pé de pitanga e a imagem da moto serra na mente provocava-lhe quase um êxtase. A hipótese do veneno também não era má, mas cria piamente que aquele pé não morreria com medida tão silenciosa. Além do mais, não ia se queimar tanto, com ação tão condenável e muito menos escusa. Preferia o acordo.

Não tinha nada em especial contra a fruta vermelha, saborosa e até adocicada, mas aquela vermelhidão aguada que invadia seu quintal, junto com o verde numeroso daquelas folhinhas e o entupimento da calha recorrente em todos os períodos de chuva, despertava nela aquele sentimento ilegal. E a pitangueira nem era dela; a árvore pendia do muro do vizinho e as folhas e frutos desciam copiosamente, ou então, as florezinhas miúdas a soltar o pólen, num gozo frenético pela irritação nasal e pelas infiltrações na casa. De noite o quintal ficava atulhado de baratas frutíferas e na manhã seguinte, o horror da permanência das frutas vermelhas, posto que poucas se convertiam em caroços brancos, pois até os insetos kafkanianos ficavam enjoados, tanta era a quantidade. Dentro dos cômodos da casa saltavam também os frutos e as solas dos sapatos viravam carimbos de tinta púrpura.

Tentaram de tudo; varreção, adubo, suco, enfim, alguma solução que trouxesse sustentabilidade e paz ao coração, aquela sensação de alma apaziguada. Passaram-se anos e ela nunca tomou nenhuma atitude decisiva ou homicida, senão propor e realizar parcas podas para minimizar a enxurrada de frutos e folhas. O pé de pitanga virou uma espécie de penitência; sim, ela entendeu assim. Que de alguma forma aquele caldo avermelhado no seu quintal deveria ter alguma razão nobre, nem que fosse o encontro da tolerância com os caprichos do vizinho, que não se desvencilhava das árvores frutíferas em seu exíguo corredor, mesmo sabendo que penderiam todas para o quintal ao lado e que poderiam provocar litígios e até nódoas de sangue.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Morte do tempo

Não é mais a hora da descoberta encoberta. Dizem e insistem que ela já passou e que não valem mais surpresas e encantos. Que agora restam o cotidiano e os anos que restam. Por isso, não cabem mais as poesias em momentos irrecuperáveis, perdidos. Não cabem nem prosas, nem diálogos infindáveis, porque as conclusões inconclusas não reverberam mais. É hora do resoluto viver, sem artimanhas e deslizes, sem prosas e poesias. Não há mais tempo para elas, que elas gastam o tempo do fazer, do ganhar o dia, o mês, o ano. Quem dirá então da subversão da poesia na ausência do intervalo, no instante da utilidade laboriosa do tempo? Quem ousar infringir essa regra máxima do trabalho e insistir na poesia está desconexo, absolutamente sem lugar. Aos sem lugar o pecado do lugar de estar sem lugar. Não pode mais a poesia, a prosa sobre incompreensíveis maneiras de não viver e viver, de pensar em não viver pelo narrar sem fim e até morrer de tanta poesia e tanta prosa perigosa. Não adianta. Perca o tempo com perfusão de imagens, disfarces hábeis para o vazio, mas não o perca com poesia e morra o tempo. Que a ausência de poesia é a morte do tempo.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

In(certos)

Corredores e portas
Além do vão da porta
Saídas e entradas
Repetidas sombras
De (des)atenção
No sobe e desce
Do elevador
Nos burburinhos
Dos andares
Números
E passos
Até o ponto de chegada
(In)certo
Até o ponto de saída
Ida
Além do vão
Da porta da rua
(In)certa

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Cor dos olhos

Pensei que era a cor dos olhos
Que o resumo da paixão tinha cor
De folha, de céu, de terra, de sol
E até de sangue

Depois atinei que era o movimento deles
Que em cada cor tinha um ritmo
Que minha mirada coreografava

No começo eles dançavam sozinhos
Depois faziam par com os meus
E a cor dos olhos já não era a mesma
Era um abraço de olhos
De cores sobrepostas
No início mancas
Depois saltitantes e cintilantes

Continuei a pensar na cor dos olhos
Até me esquecer da cor e do tom exato
E lembrar da história deles
Mesmo des(conhecida)
Do movimento da cor...

terça-feira, 22 de setembro de 2009

O pregador

Ele já surgira assim, com aquela verve, com aquelas mãos postadas sobre a pasta preta, cheia dos textos sagrados, e o entorno dos olhos arroxeados como se a visão avançasse de tal maneira sobre o horizonte, que gastava o viço da epiderme e subsumia os globos oculares já pequeninos. Em verdade, seus olhos eram luzes apagadas frente ao contingente de ligações neuronais demandadas naquele momento sagrado, e não faltavam vocábulos apropriados, nem tão usuais, que davam esse teor de que há algo revelador no dito. Na fronte, os primeiros sinais de calvície, hereditária, e aquele nariz ligeiramente aquilino a fortificar o sorriso de dentes miúdos e intervalados. Era irmão por parte de pai, mas jamais ela o vira com consistência, nem na infância, nem na adolescência. Portanto, foi mesmo pregador desde o primeiro instante irreal tão real.

Apareceu quase divinizado após a terceira década de nascido, trazendo a mão calejada e histórias de uma união enganosa com a mulher e intrigas com os pais; e ele parecia realmente disposto a se redimir pela palavra, sem ganância alguma. Ela, a irmã, achava, verdadeiramente, estranho conhecê-lo assim tão personificado, sem as nuances do convívio próximo, a resguardar surpresas a cada momento e, mesmo assim, capaz de gerar aquele afeto pelas incongruências. Estranhava aquele absoluto dito, vivido, e, por isso, via-o com curiosidade, bem distante do afeto. Seu empenho maior era em pregar de casa em casa a palavra dita pelo senhor, registrada na Bíblia. Dizia; prego a Bíblia. Segundo alguns a religião dele não tinha templo nem liderança. Passava horas na marcação das idas às casas de familiares e outros que se dispusessem a ouvi-lo, e até mesmo contradizê-lo, para que a palavra sagrada compensasse tudo, como se já estivesse lá acabada, sem dúvidas para qualquer objeção. Levava uma companheira para suavizar o desgaste da pregação e dar aquele tom mais feminino, que muitas vezes amolece a alma.

A irmã admirava aquela habilidade, posto que, o discurso era de fato bem formulado, enriquecido por informações de outras ordens, até científicas e filosóficas, do tamanho infinito do universo, da pequenez e da grandiosidade, das interpretações falhas da Bíblia. Mas o paraíso usurpado, a Eva malfazeja, a cobra venenosa e os corpos do pó ainda eram o início de tudo, e ele buscava os minerais dos ossos e dos processos neuronais e fisiológicos para consubstanciar o fantástico, em meio à cientificidade do mundo moderno. E se o interpelavam sobre algum espírita reconhecido por bondade e resignação, sua companheira era a muleta certeira: ‘a maldade se esconde por traz da veste da bondade’. E assim aquele homem, em verdade ‘um lobo na pele de cordeiro’, era julgado sob a veste da intolerância. E o juízo final? ‘Esse não fora marcado, e o aquecimento global talvez seja mesmo o anúncio do fim do mundo’. E a reencarnação? ‘Ora, se houvesse mesmo, o mundo não teria melhorado? Por que tudo piora?’ E o destino existe? ‘ A gente tem o livre arbítrio, tudo uma escolha’. E a companheira do pregador, por vezes, complacente com o pecado; ‘não é o tamanho do pecado que vale, mas o tamanho do arrependimento’.

E assim o Deus misericordioso que sumia, ressurgia de tempos em tempos. Mas em nenhum momento qualquer escolha ou opinião era de fato considerada. A palavra final era vertida, num quase monólogo de duas bocas, e ele saía resoluto das pregações, com apertos de mão, empenhando-se na marcação da próxima.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Ida nua

A vida invade
A vida esvazia
Traz contos
Encantos
Ornamentos
Lamentos
A vida deságua
Aterra
Esfera
Infinita de pontos
Em rotação
Tonteia
Escamoteia
Sombreia
De sol
De lua
Esquenta
Amua
A vida desvia
Apruma
A vida é uma
Nenhuma
Alguma
A vida é rua
É ida nua

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

'Com camisinha'

A despeito das divergências sobre as conveniências de se pegar um táxi, posto ser o transporte coletivo demorado e impessoal, havemos de admitir que nos ônibus as histórias fervilham, dado o contingente humano com suas nuances esperadas e inesperadas. Mas o motorista é quase um anônimo, robotizado, ali no compromisso de pegar e largar gente e, raramente, as pessoas se lembram da face do sujeito. Agora no táxi tudo muda; ou nos deparamos com um ser hermético e ávido pela corrida sem mais delongas, ou então, o caminho se torna o próprio divã. Assim, as histórias também se multiplicam ou se condensam na mente.

Não me lembro exatamente o nome da taxista, nem mesmo qual era a empresa a que servia, senão que chegou bem na garagem do prédio em que estávamos; o ar era de segurança e conforto. Mas quando adentramos o recinto motorizado, verificamos que a condutora estava um tanto nervosa e se embaralhava com vários objetos entre rádio escuta, sacolas plásticas e volante. Como o motivo era de festa e não havia horário determinado de chegada, relaxamos.

Iam eu, Vivi e Gabi pro samba. Pra onde é?, interpelou a taxista. Pra quadra da Mangueira, respondeu Gabi. Onde é isso?, perguntou a taxista. E a fachada de segurança se desmanchando, enquanto eu e Vivi no banco de trás nos olhávamos meio duvidosas, meio prendendo riso. Gabi logo direcionou a condutora, que deveria ir pela Serra mesmo; caminho menos tortuoso, mas que reservava uma descida considerável para uma motorista que parecia até aquele momento não se preocupar tanto com o volante. E dessa maneira seguiu os primeiros dez minutos do trajeto, sobretudo, na ânsia da escuta.

Na verdade, ela não se preocupava com o caminho a seguir, mas sim com o próximo que deveria fazer enquanto as falas no rádio em altíssimo volume a deixavam ainda mais ligada na disputa pelas corridas. Curiosamente, no meio do caminho, ela terminou entrando num papo ‘opinioso’ sobre filhos, os quais nunca quis ter, e sobre o uso obrigatório da camisinha com seu marido. ‘Terrível o número de mulheres casadas que contraem aids’, e nós assentimos, sem ter como questionar. Nesse momento percebi que a taxista não era nada confusa. Era simplesmente uma futurista nata. Tudo era milimetricamente planejado, por isso, o volante, de vez em quando parecia nem importar tanto, nem sequer os caminhos, porque o que valia mesmo era chegar no próximo destino. Agora voltar ali na Mangueira ‘nunca’, ‘quando vocês saírem daqui já estarei dormindo’...

Chegamos bem; aproveitamos o samba no melhor estilo e pra variar, na volta, pegamos um táxi. Só que o condutor dessa vez não parecia nada futurista; aproveitou o momento para paquerar, enquanto tentávamos, pegando carona na manha dele, livrar-nos do adicional do pedágio...Aqui o tom era leve e brincalhão. O assunto da obrigatoriedade do uso da camisinha não surgiu, e não nos livramos do pedágio.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

Encanto

O que me encanta em ti? Não digo, pois que encantamento não é coisa de se dizer. Tão logo se matuta sobre o que de encanto há, tão logo vem certas arestas, certas amarguras ou dúvidas, posto que encanto não nasceu pra ser dito, só ouvido e sentido como palavra exata. Talvez o que me encante em ti seja exatamente a palavra silenciada que não traz ofensas, nem disfarces. Guardo de ti aquela face de alvura mansa a refletir a luz como um clarão; e os olhos cor de folha semi-desidratada, quase um verde complacente e equilibrado com meus sentimentos meio tortos, como se a esperança ali condensada naquele olhar fosse o próprio dizer de encanto, e não valha a pena fazer interpelações ou elucubrações a ou sobre sua pessoa além daquele lugar de descoberta. Porque o lugar da descoberta é o natural encanto que não se desfaz, porque fica lá in memoriam, em quase estado de latência, numa potência de sentir plena e inesgotável. E aquele toque de bocas, um tátil inquestionável de um movimento meio ternura, meio curiosidade por aquilo que não se conhece, muito aquém da mágoa, dos pensares que antecedem o gesto espontâneo e justo. É isso o encanto; um lugar infantil, de brincadeiras e experiências, um lugar de jogo sem planos.

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Beija-flor

Seu José era como um beija-flor. Davam as exatas duas horas de permanência no baile e ele ia embora, feito pássaro saciado de seiva por aqueles instantes. Diziam que ia cedo porque morava longe e que se tardasse, sendo ele já um senhor na casa dos setenta, poderia correr algum perigo. Helena, também pra lá dos setenta, fazia par com ele todas as vezes que aparecia. A ‘parte’ era concedida a ela com tanta delicadeza e distinção que ela não pôde deixar de se encantar. Ela se encantou tanto, que sua ida ao forró, como todos diziam, era obrigatório, pelo menos duas vezes na semana. Helena ia de vestido de crochê tecido pelas suas próprias mãos já calejadas, mas ainda ágeis. Dizia que recebia elogios sem igual, que a chamavam de menininha, e sua voz de empolgação ao contar não desmentia a meninice dentro dela. Impressionava-se com a vestimenta de José, ‘sempre limpinho’, ‘bem arrumado’; lembrava-lhe um pouco seu marido pela altura e pela magreza. Aprendeu uma soma de dança com ele, forró, bolero e tango. ‘Tô dançando bem demais’, ela se alegrava. E desandava a falar de seu José, disfarçando a intenção de amizade, porque queria mesmo era um namoro daqueles que ela nunca experimentara, de beijos e carícias, coisa que seu falecido jamais entendera. Certa vez ousou dar-lhe um abraço e ele entendeu como um empurrão, lamentou-se da iminência da queda, com olhar de incompreensão. O beija-flor agora anda em seus sonhos e ela deixa que ele sugue todos os momentos com os passos de sua dança, até que se vá com seus braços de asa, voando, voando, até pousar de novo em volta dela no próximo baile.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

'Reencontro'

Poucos são os lugares a que retornamos, senão àqueles bem nossos, quase estados de alma, contra e a favor dos quais não sabemos dizer, só mesmo sentir. E, sem dúvida, não retornamos a nenhum lugar, mas sim a um estado de espírito curioso de novas visões mesmo que com vestes repetidas. Voltamos para o reencontro do aconchego, da nossa própria casa estampada nas outras. Voltamos para o olhar de consentimento e desaprovação cúmplice e solidária. Voltamos para rever o que nem tínhamos visto e saber do reencontro, sem nem mesmo ter encontrado antes. Foi assim essa nossa ida ao Rio. Eu e Vivi de novo na rodoviária, com alguns tropeços pelo tempo das partidas e chegadas repetido e novo, até retomarmos a conversa pelo caminho. Tudo seguiu cheio de movimento; na Lapa, na quadra da Mangueira, até na entrada do Castelão, que ficou só na concentração, e na praia. Agora um movimento foi, não diria inusitado, mais quase raro; o cuidado dos anfitriões. Gabriela sempre bem disposta, sorridente e companheira. Gláucia e Gilmar, espontâneos e acolhedores, na fala, no preparo das comidas, nas conversas vastas em torno da mesa da cozinha. Vitória que viu seu quarto multiplicado de gente e coisas espalhadas pelo chão, sem a menor expressão de irritação. Rhany, a visita constante e carinhosa. E todas as outras pessoas que passaram pela casa ou pela rua para nos ver ou nos rever, como Vânia, e a sensação permanente de ser de lá por aqueles dias, parte daquele lugar, no retorno sem nunca ter estado, como aquela história da ‘saudade daquilo que nunca se viveu’, e do ‘amor ferida que dói e não se sente’...desse sentimento que a gente tem daquilo que parece que já vivemos um dia assim que encontramos ‘em algum lugar do passado’, mas presente, supreendentemente vivo.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Onde está?

O entrelugar está em migração,
Anda em direção ao outro lugar,
O contrário do lugar que era,
O outro inóspito,
Irreconhecível lugar,
De agostos passados,
De setembros passados,
De frio no lugar do sol,
Do calor inclemente,
Inesperado,
De chuva tempestade;
O entrelugar suave,
A delicada transição,
Deliciosa e sutil,
Esvaziou
Na inconstância do clima,
Nas certezas alienadas,
Nas almas em fuga...

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Azeitonar

Aquela reunião regada a vinho se repetira;
Dessa vez era um Rosé, quase um licor de morangos excessivamente maduros, barato, mas degustado com prazer; com jeito de caro nas mesmas taças repetidas, ávidas pelos lábios;
O vinho era fálico e o corpo amolecia;
As falas reverberavam na alma e os ouvidos se distraíam e voltavam, sem pudor de não ouvir, de não ter qualquer parecer sensato a dar, senão o contemplar do aconchego e da familiaridade do instante;
Na mesa o pequeno prato com azeitonas verdes e nas bocas o experimentar sendento das esperanças, verdes;
E as verdes esperanças eram engolidas sem respirar entre os dizeres e risos já amarelados, querendo esverdear de novo, azeitonar, com o sal na medida e o oliva reparador...

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Com quem será?

Sua cabeça fervilhava, mas não de uma perfusão de acontecimentos, lembranças ou versações da alma, e sim de um único assunto, o qual nada nem ninguém jamais conseguiria remover. Virgílio tinha, aparentemente, meia idade, porém nada em sua imagem revelava desgaste excessivo; o corpo era esbelto em baixa estatura, os dentes bem cuidados e as linhas pela face ainda rasas. Ela o conhecera na rua mesmo, paralela à estação do metrô, de camisa azul com logotipo, calças jeans. Os cabelos grisalhos colaboravam com a aparência distinta, mas o sorriso revelava algo de torpe, sedutor e enganador. Encontraram-se algumas vezes, muitas talvez. Contudo, a vida dele sempre pareceu, a ela, um tanto nebulosa. Diziam que era separado da esposa, era professor de instituição reconhecida, ainda que não ganhasse muito; pegava o trem urbano todos os dias e, por vezes, na sexta, tirava seu carrinho da garagem. Seus encontros foram sempre furtivos, guardados para beijos e roçar de pele e pêlos e mãos exploradoras, na praça, no bar, no cantinho escuro da rua. Nesse tempo ela andava com sorriso sonhador e queixo avermelhado. Disso tudo, sobrou quase nada na alma dele e tudo na dela, uma batida forte na cabeça; Virgílio, Virgílio, Virgílio...e uma seqüência de ladainhas, tanto que as falas se repetiam e também as inconclusões.“ Ele está com ela. Tô falando. Ela, a Mariângela, é ela, ou então é a filha dela, porque a filha dela é nova, bonita.” Outras vezes se lembrava de Mara, uma vizinha, que tinha se envolvido com Virgílio em primeira mão, ‘aquela traidora, que me trazia salgadinhos com a cara mais limpa’. Depois era a Gina, negra corpulenta da escola, bem vestida com pose no carrão. Mas agora era mesmo a Mariângela; ‘a conversa dela é esquisita. Ela comprou até cama de casal. Agora deve estar lá deitada com ele no bem bom e eu aqui sozinha.’ Ela se ressentia por não ter dado boa vida ao Virgílio. Lamentava não ter lhe dado a comida quentinha e outras quenturas descaradamente. 'Eu acho que a Mariângela deu até carro pra ele. Eu vi ele saindo do prédio dela na hora do almoço. Bem, ou tá com ela a Mariângela, ou com a filha dela, que é nova, bonita.' E interpelava e concluía: ‘ele não presta né? Nem vou mais ligar pra ele; ele não presta mesmo...mas é tão bonitinho...eu gostei tanto dele...’ E duvidava: ‘ou ta com ela, a Mariângela, ou com a filha dela, ou com a Mara...ele teve um caso com a Gina também...’