Segunda-feira, 20 de Julho de 2009

Até que os olhos se fecham...

Era uma perfusão de imagens fundidas em uma só, e ainda assim múltiplas, de facetas sérias e sorridentes. Não saberia precisar a exatidão e nem a inexatidão daqueles momentos de mirar-lhe o rosto, por vezes ranhurado das pregas do sorriso, por vezes retesado como um monólito; e por traz daqueles óculos, um certo olhar comprimido, como se fizesse um movimento de acendimento qualquer, pra ver melhor aquilo que diante de seus olhos poderia ser mera ilusão, ou simplesmente a tentativa de driblar o embaçamento das lentes de grau ou a penumbra das lentes de sol. A face se colocava também num relaxamento involuntário e os lábios entreabriam, mostrando os dentes incisivos principais desalinhados com os outros, em posição de riso brando, contemplativo. E as mãos buscavam a curva do ombro ou qualquer pedaço de pano pendente de sol ou luar, sem saber se queria vestir ou despir aquele momento de todas as intempéries do olhar e da audição. Não queria ser visto, mas ver e tocar o lapso de encantamento; encontrar alguma acertiva para os pensamentos involuntários que rondavam seu corpo, e a mente precisava conter o gesto que de tanto se fazer, desfazia-se num respirar vago e incrédulo. Incredulamente passava aqueles momentos diante de imagem meio obtusa, irritante e até ordinária. Credulamente se postava e pedia um afago qualquer que fosse pra crer naquele instante de divindade e afeto, de sonho refeito no último momento, ressuscitado. Roçava-lhe vagamente a pele do pescoço, num átimo, insuficiente para o gosto e o cheiro serem guardados, senão um único fechar de olhos, quando qualquer um aninha-se no outro, como a dormir na instantânea fragilidade de olhos fechados...

Sexta-feira, 17 de Julho de 2009

Movimento fatal

Poderia escrever algo sobre aquela pipa preta vagando sobre o céu...Sim, poderia pensar na dança da ave negra e do planar solitário no azul, e descrever das mãos do menino naquele movimento firme e rítmico para manter a sensação alada; o vento a bater forte, a pressionar os quadrantes plásticos de uma transparência quase de asa. Alguém me disse algum dia que eu poderia grafar sobre qualquer coisa, até sobre a bula de remédio, já escrita e revolvida por olhos de comiseração por tantas contra-indicações e efeitos fantasmagóricos sobre os patógenos, que nossos olhos só podem ver às custas de cultivos mirabolantes, adocicados, e em grupos de magia colorida e fétida...Poderia discorrer sobre aquela desconhecida mulher grisalha apoiada no meio fio com olhar tenebroso e perdido de coragem, de só estar ali sob a mira dos olhos chocados de interrogação...Poderia dizer em palavras rotineiras da repetição do trabalho do escritório, dos ares de respostas obrigatórias, dos atendimentos telefônicos e das faces escondidas sobre a docilidade da voz, da pilha de papéis inertes e esquecidos sobre as mesas e do barulho insuportável do ar condicionado e dos carros lá fora...Poderia falar de qualquer coisa e grafar com ares poéticos...Mas sinto uma vaguidão qualquer e um sentimento de dizer e escrever o que ninguém jamais escreveu e mesmo assim, forçosamente, devo admitir que tudo já foi dito e escrito, e isso também já foi dito e redito... Pobre de mim, mas sonho e queria vestes irreconhecíveis pra que as histórias soassem novas, e as palavras estivessem ali feito leito manso de rio, a receber corpos animados e inanimados a transbordá-lo de outras vestes...Mas escrever essa primeira veste que se reveste irremediavelmente de outras eu queria...Queria não me identificar com nenhuma escrita, nenhum dito, e me apossar da palavra última, pra que ninguém mais a dissesse em qualquer combinação que fosse, pra não amargar o sofrer de imaginar que ela está lá de alguma forma. Queria a palavra esquecida e lembrada apenas por um instante, repetida sem lembrança de ser repetida...Queria e não queria, porque ao mesmo tempo que me toca o afã da originalidade, tocam-me também as reedições dos pensamentos, dos livros que nunca pensei fossem ler de mim ou de qualquer outro pobre fazedor de historinhas que fosse...porque foi dito e não foi dito está em qualquer lugar, na memória esquecida e nas virtuosidades da lembrança, do aconchego, do reconhecimento da palavra cotidiana, do afeto e do desafeto com a palavra...e o estranhamento da palavra é só um entrelugar que se desfaz e se refaz, e a ida pro lugar estranho e o retorno pra esse mesmo lugar já reconhecido é um movimento fatal de qualquer fazedor de histórias, vivedor de histórias...

Quinta-feira, 16 de Julho de 2009

(In)exata cadência

Sofro. Sofro pela falta de momentos de desgarramento de mim mesmo. Preso na inconstante e forjada imaginação, me tomo de todas as delícias que a realidade não me permite, não me concede; porque também não se concedem delícias a ninguém, senão a um personagem qualquer, iludido no viver da realidade inexistente. Gostei de você, confesso! Gosto! Mil vezes confesso! Mas sem saber e crente ao mesmo tempo, certo como um devoto. Contudo, só o soube muito além da devoção e das possibilidades várias, irremediáveis e até improváveis.

Era tudo meio nebuloso mesmo, e ainda continua assim, escuro feito nuvem cinza, porém vagante, deixando o céu a descoberto por instantes. E nessa escuridão e por esse clarão, chego a sentir por momentos a solidez de um sentimento, irreconhecível, perdido e achado, perdido de novo e encontrado num lapso, num anuviamento da mente.

Agora tenho que admitir; gosto de você de um jeito estranho, não porque intuo que você não gosta e teimo em querer impossibilidades, mas porque você parece ter gostado de mim um dia, mesmo sem saber; disse que não sabia em olhos de interrogação; disse que sabia em olhos de contemplação.

O gostar de você, simplesmente, é o gosto do gosto dos pensamentos que me tomam todas a manhãs e em todas as horas que se fazem manhãs entre sono e lucidez, quando adormeço, por querer e não querer. E nos dias frios, em que o vento corta os intervalos da trama da lã da blusa, enrigela tudo por dentro, e a alma sonha sonhos de você. Algo que parece já ser o cume de uma geleira, apercebe-se quentura, por isso sente o gelo.

Até o cachorrinho castanho deitado na calçada imensa, com um tomate maduro, rubro ao extremo, diante de si, provoca-me arroubos de calafrios e febre, enquanto você me vem em passos firmes e entrevejo seus lábios vermelhos, quase fruta a derreter. E aquele senhor da vila, sentado na mesma calçada larga, encolhido, encurvado com seu cortador de unha a postos, extirpando as partes mortas, lembra-me ao longe uma fotografia de um parque distante, de alguém que não veio pra ficar, e dentro de mim se faz vila de outono, com folhas caídas, nariz enrubescido e olhos lacrimejantes.

Lembro-me de você e tenho dúvidas sobre se lembro de você ou do que imagino de você ou de mim com você, inimagináveis imagináveis, como num filme, a exata ficção; como na realidade, parca fragmentada, na (in)exata cadência do sentir.

Segunda-feira, 13 de Julho de 2009

Caminho matinal

Todas as manhãs ele a acordava com aquele suave roçar de lábios em cada meandro, em cada curvatura e reentrância de seu corpo ainda sonolento. E ela se punha quase inerte; temia que seu movimento o fizesse recuar. Era quase um despertar de cada sentido, como se ao final daquele ritual despudorado e delicado, ela finalmente acordasse com sensação de completude, com a percepção de cada parte e o todo, por vezes, até reconhecível. Era esse mimo de todas as manhãs, antes do sol se erguer por completo, que refazia as desajeitadas palavras, as indiferenças do dia a dia, que nem de longe se pareciam com aquele toque matinal, quase um nascer de nervos e capilares inertes, massacrados no quotidiano, e mesmo da noite de gestos urgentes de um prazer, de um instantâneo, de um apagar da memória e de um respirar ofegante, quase egoísta. Mas aquele caminho dos lábios pela manhã o redimia e o cobria de uma aura qualquer, de uma quase arqueologia a cada dia, dos cheiros, dos suores, da temperatura, da textura e das divagações lineares e obtusas de cada conjunto muscular, das tremuras e suspiros da pele e da alma no entressono. Tudo se reencontrava ali naquele instante, e ela despertava e se fingia de sonho, enquanto ele farejava sua superfície meio atônito, mas a controlar a exata tensão para não acordá-la...pra não cessar a noite, para não nascer o dia; para fixar-se na relativa luminosidade da aurora...e esquecer-se do ocaso...

Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Depois daquele tempo

Depois daquele tempo, em que a juventude já passara, mas ainda sobravam alguns resquícios, as pupilas brilhantes, os olhos meio rasos ao acordar...
Depois daquele tempo, quase um tempo milimétrico diante da imensidão das horas incontáveis, irreprimíveis de tantas vivências, os olhos subitamente começaram a mergulhar em poço fundo, suas órbitas ganharam bordas arroxeadas...
Depois daquele tempo, em que o sorriso se abria em músculos bem assentados, em gordurosas bochechas e covas, o riso começara a ficar solto, sem os limites aconchegantes de tempos outrora...e a graciosidade das marcas esculpidas desde o nascedouro escapavam...
Depois daquele tempo, os ossos da face já eram indiscretamente visíveis, marcando ângulos antes submersos; praticamente era possível entrever o esqueleto frágil, a verdade óssea camuflada...
Depois daquele tempo, o espelho não devolvia mais aquela imagem suave, de contornos agradáveis e harmônicos; via-se agora a irrupção de qualquer coisa, não se sabia qual, de passar e não voltar...de flexibilidade débil, como um esgarçamento qualquer...
Depois daquele tempo, o sono não servia mais de elixir e o rosto retornava até em pesadelo; sôfrego, não trazia mais o gesto do sonho encantado...

Quinta-feira, 2 de Julho de 2009

Algo mejor!

Tienen que conseguir algo mejor! Adamina de Las Casas esbravejava com a nora bem na descida do morro. Bem altas as duas, pareciam quase as extensão íngreme daquela rua que ia dar exatamente na vila onde o filho de Adamina resolvera construir seu ninho de amor e sua oficina de circo. A reforma seguia lenta e ainda se entreviam as vigas que iriam sustentar as paredes sobrepostas. As superfícies aos poucos iam ganhando tons alegres de cor, amarelo, azul e vermelho. Na porta, a kombi, mimetizada de palhaço, parecia mais um da trupe, e os olhos de Adamina cada vez mais estilhaçados de tanto terror. Pois então, não havia vindo de Buenos Aires exatamente pra ver todos bem acomodados? Artistas tão talentosos deveriam mesmo fazer muito sucesso no Brasil. Os projetos se multiplicavam; era visível naquele espaço pouco aconchegante. Ali se amontoavam pernas de pau, vestimentas, perucas, lonas e várias fotos na parede. No chão uns colchonetes e nas faces as almas repletas, mas Adamina ficara injuriada; Tienen que conseguir algo mejor!

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

Vinho

Vinha na mão aquela taça
De vermelho uva
Doce e alcólico
E você descontrolava palavras
Soltava riso e choro
Soltava imensa confusão

Vinha na mão vinho
Em taça firme e escorregadia
De líquido denso
Na língua faminta
Ardor de desilusão acre
Fulgor de ilusão açucarada

Vinha vinho naquela taça
Num tom bonina
Escuro sangue
Desaguando entredentes
Beijo liquefeito
Engolido
Acolhido ninho
Temido vinho
E a face enrubescida
Viva em desalinho

Terça-feira, 30 de Junho de 2009

?Idéia?

Mudo de idéia toda hora. Mudo de idéia, não aquela súbita, de pronto, perfeitamente utilizável para o momento. Mudo de idéia que cozinha, que ganha e perde arestas, que engurgita e vomita partes de dúvida, partes de medo. Mudo de idéia não porque sou mutante, estreante de uma cena mágica, inovadora. Mudo porque tem um vento presságio que sopra sobre mim, um anúncio sôfrego qualquer, uma outra idéia. A mutante idéia que me atinge é a soma de incongruentes idéias que tomam aquela primeira, assaltam aquele inocente pensar e agir espontâneo. Mudo e desmudo também, retomo aquela idéia já corrompida, gasta e invadida. Num lapso de momento chego a esquecer da idéia, aquela primeira. Mas jamais esqueço, no fundo jamais esqueço...Porque num dado instante era uma idéia de asas fortes e transparentes, e mesmo depois quando vira mariposa fincada na parede, ou a esvoaçar como num filme de terror, ela reivindica um agir qualquer, mesmo distorcido, assustado. Mudo de idéia, assusto a idéia, acalento a idéia e chego a ficar sem idéia; e a idéia mais óbvia me toma, a partícula mais presente, mais reluzente; a procura da
?idéia?...

Sexta-feira, 26 de Junho de 2009

Óculos

- Como você enxerga sem óculos?
- Como?
- Tenho curiosidade...como você enxerga sem óculos?
- Ah...tudo embaçado...o bonito fica feio e o feio bonito...
- Quer dizer que quando diz que sou bonita é por causa dos óculos?
- Mais ou menos...
- Explique-se melhor, por favor...
- O bonito não fica tão bonito...é isso....fica tudo meio borrado....os limites pouco definidos...mas no fundo no fundo dá pra sentir que sem óculos é bonito...
- Se apaixonou por mim de óculos ou sem óculos?
- De óculos...é claro...
- Qual meu problema sem os óculos então?
- Ora...estou sempre com eles...
- E se tivesse sem eles por algum motivo, exatamente, naquele dia em que me viu pela primeira vez?
- Não sei...talvez nem tivesse visto...vejo borrado sem óculos, mas só de perto...de longe vejo quase nada...
- Quer dizer que sem óculos eu seria quase nada?
- Não, não é isso...corrijo...meus óculos são como lupa, aumentam a beleza e a feiúra...sua beleza aumentou meu amor...
- Ah bom...mas tire os óculos por favor...quero ver os seus olhos...
- Não gosto deles sem óculos...eles, os óculos, me fazem apropriar do limite e me esquecer da imprecisão...da verdade...
- Já entendi...me vê mais bonita de óculos...tudo bem...não vive sem eles mesmo...

Quinta-feira, 25 de Junho de 2009

'Parecimento'

Acho que o problema é o ‘parecimento’. Tive olhando assim, com calma, o andar, o olhar, o desajeitar, o confuso do pensar...até o medo que dá nela. Oh gente, como parece comigo aquela menina. Tô crente que gosto dela, mas de repente mudo de pensamento; penso que é tanto parecimento...Será que dá certo isso Meu Deus? Parecimento parece aparição...a gente ali na outra pessoa. Me vejo nela assim com o passar rápido, numa correria danada nem sei pra quê...Me vejo naquela menina de olhar encantado, de desejo forte e fraco, de pisar flutuante pela visão inquietante do amor, e ao mesmo tempo de pisar pesado nos fazeres de todo dia. De verdade mesmo? Nem sei se é tanto parecimento assim, mas parece que é, sabe? Fico imaginando o jeito dela e tudo que vem neste meu olhar meio anuviado é parecer, é espelho. Nunca gostei assim de ninguém que tivesse parecimento comigo...nunquinha... Agora tô assim mais confuso ainda, porque nem vejo tanta beleza assim, muito menos elegância e acordo, mas acordo pensando nela, desajeitada abrindo os olhos, espreguiçando embolada em monte de pano, meio tonta e mal humorada, cheia de conversa séria, poética e, às vezes, tão real que dói. Penso nesse parecimento comigo, nessa dúvida até de mim mesmo e desse meu gostar diferente que nasceu...Oh gente...é tanto parecimento que nem sei...Parece que tô gostando dela...

Quarta-feira, 24 de Junho de 2009

Cansara-se

Cansara-se daquela boca entreaberta, nem palavra nem silêncio. Cansara-se daquele dito ínfimo, quase balbuciado, cheio de crispas, mal dizeres escondidos. Cansara-se daqueles dentes cerrados, apertados a impedir a saída do som límpido e libertado. Cansara-se de ter ao lado um não quisto, um quisto indelével, impertinente, quase um nada vestido de tudo, com poses dominantes, olhares foscos, irritantemente olhares, olhares sem querer; só obrigação, numa espécie de comiseração necessária, incontrolável. A face dele tinha mudado nos últimos tempos...ou será que ela não o enxergara antes? Realmente não sabia o que acontecera, mas tinha suas náuseas estomacais aumentadas e um tilintar na cabeça e uma dor no coração que se rompia em lágrimas engolidas, feito cachoeira virando poço fundo, sem saída. Ela queria entender como ele se transformara assim, ou se sempre fora o imperceptível...a mancha escondida naquele ar de todos os dias, um ar desgastado e corrompido por interesses pessoais, desumanizado...de peças carcomidas, enferrujadas pela ausência do lubrificante carinho e respeito.

Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Linha círculo

Nada mais lhe tirava tanto o sono como a incerteza. A dormida era entrecortada, poder-se-ia dizer um dormir cansado como um susto vago, sem explicações plausíveis, senão a dúvida. Afonso aparecera do nada e ela tinha medo que desaparecesse da mesma maneira, que deixasse apenas lembranças frágeis, imagens borradas. Sua cabeça pesava de uma densidade desconhecida, quase um planar e afundar de súbito; um entrelugar, não daqueles lúdicos, misturados, carregados de saberes sobrepostos, pendulares, num vai e vem inconstante e inevitável, mas um pesar sem encanto de fronteira, angustiante. Sua vida andava calma, sem novidades, e ela finalmente descobrira que sua própria existência, sua família, seus amigos e suas pequenas conquistas do dia-a-dia eram um mundo, senão feliz, até razoável. Mas Afonso entrara e virara um tilintar impreciso, às vezes encantador e amigo, às vezes estranho e perturbador. Vinha aquela sensação do que viria a ser, de alguma fração escapada, a que se habituara, e ela sinceramente receava alterar e retomar expectativas que não figuravam mais em seus horizontes. Mas depois de Afonso, seu horizonte não era mais sóbrio e tênue a perder de vista, tranqüilizante. Era uma linha em desassossego, uma corda de brincadeira de criança, balançada à exaustão e deixada de lado, uma linha círculo, duvidosa.

Quinta-feira, 18 de Junho de 2009

Cortejo de risos em Nossa Senhora

Os pingos de chuva desciam na coreografia do vento. Fria e copiosa, a chuva, às vezes branda, era persistente. A rua Nossa Senhora de Copacabana se estendia até o sem fim e na procura da estação do metrô Siqueira Campos a moça menina de véu branco, contas pretas no colo e vestidinho curto de motivos indianos, esgueirava-se por entre as raras sombrinhas, posto que a maior parte dos passantes preferiam as marquises e as corridas nos intervalos. Uns iam bem agasalhados, outros em clima de praia; todos confusos diante do choro do céu e da ventania.

Marcinha pequenina ia na cadência de suas canelas finas, ligeiramente arqueadas e ágeis, na liderança das outras duas. Estas iam sempre atrasadas a sorrir e se lamentar do tempo ruim, principalmente porque a caminhada sucedera um considerável prato feito de carne de panela e aipim; isto depois de um banho de mar morno regado à chuva friinha bem na pontinha da praia, beirando as rochosas do Arpoador, e da providencial banana debaixo dos cavaletes pra pranchas na calçada. Pareciam três meninas desavisadas, em busca do mar, na fuga da chuva; teimosas e insistentes com o tempo, no eterno esperar do sol, mas sinceramente desapontadas.

Até que em uma das quadras, quase no meio da romaria em Nossa Senhora, deu-se o curioso sorriso do mendigo, digno de lembrança. Marcinha de véu suscitou risos incontroláveis no figura ali meio deitado, barbas compridas e pele morena, e as companheiras pegaram ele no ponto e sorriram também da corrida da menina do véu. Não se sabe ao certo que grotesco ele percebeu, se a figura misturada, se o ritmo, se o cortejo nada religioso em meio à multidão, mas gargalhou deliciosamente e fez da chuva um riso...

Quarta-feira, 17 de Junho de 2009

Revisto

Há lugares que revisitamos e nos tomamos subitamente de desagrado, de sensação repetida, enquanto outros parecem sempre novos, ou velhos o suficiente para nos dar sensação de aconchego. Há lugares falados, repetidos ao extremo e ainda assim novos. Aquela rua desaguando na montanha, aqueles largos apinhados de carteados de chapéu e cãs, a lanchonete da esquina com seus notívagos sonolentos, o museu parque de águias de asas abertas no embalo de mais uma caçada e o sobrevôo do avião gigante; a família canina de jogos e brincadeiras à beira mar, o patinho mergulhão, as elegantes gaivotas e os urubus, de negritude rara. Uns chamam Catete, outros Aterro do Flamengo, uma linha divisória tênue no entre, de histórias Machadianas, de habitat nobre e até ditatorial, mas hoje, delicado, esquecido e lembrado. Um lugar no Rio de Janeiro para ficar, passar sem medo, revisitar.

Visita

Quero que me visite,
Mas só os pedaços;
Quero que se despeça,
Sem demora, nem pressa;
Quero que venha,
Como dama,
Só cheiro e noite,
E olhos caídos,
A me convidar pro sono;
Sonho juntado,
De pedaços fundidos,
Feito ferro aço,
E maçaricos cortantes,
Ferventes,
Pedaços grudados e esfacelados;
Quero que me visite,
Inteiro e despedaçado,
Descalço,
Inquieto e cálido;
Quero aquele dedo percorrendo faces,
Aquele peito grudado,
A saltitar leve,
A escapar veloz,
Aquele gesto sem restos,
Honesto,
Perdido e honesto...

Quarta-feira, 10 de Junho de 2009

Sonhos

Sonhos
Claridade na noite
Nos arrabaldes de nós mesmos
Sonhos
Em ângulos dispersos
Incongruentes
Na congruência dos desejos
Sonhos
De olhos cegos
E mentes iluminadas
Até raiar o dia
Até cair a noite
Sonhos
Inventos de vida
Precipícios
Planuras
Aquele fio horizonte
Aquela lâmina d’água
Aquele lusco fusco
Sonhos
Claridade na noite
Nos arrabaldes de nós mesmos....