quarta-feira, 10 de agosto de 2016

Estão a dizer por aí que a vida bem vivida é desapego. Eu chamo isso de medo; pois que viver é tão só apegar. A planta que cresce é porque 'pegou', fez ninho na terra, enraizou. Gente semeia lembrança ou esquecimento. Apego é lembrar e produzir e sentir rumores, gritos e cantos. Se esquece fenece; morte em vida.
Sim; era só o começo, mas parecia um início sem fim. Sempre aquela alegria de estar e olhar e conviver. Não havia juras, enganos; era o sol e aquele calor por dentro. O corpo que se reclinava sob o dela e aguardava uma carícia, e palavra muda inundada de poesia. Era um mundo de pupilas que se tocavam e procuravam não ver; sentiam-se como em festas de luz. Era só começo, início do sem fim.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Águia

Sabia desde sempre que de perto ninguém era igual, que os traços se projetavam e ganhavam contornos de alma. Ela invadira aquela face de tal maneira a ver a fantasia exposta pela realidade. Ele tinha olhos de águia, redondos, vivos como a claridade. Seu nariz curvava-se levemente, enquanto as narinas abriam caminho para o ar do mundo. Cabia tudo naqueles pulmões, ou seriam sacos aéreos?! Um dia ela disse a ele; 'por fim, eram mesmo uma ficção'. E foi assim que nasceu a águia, de braços de longos e espessos tendões; quase asas. Os abraços faziam ninho em volta dela. A boca era um sonoro acalento de alimentar e acariciar. Os dedos eram de rapina; grudavam, mas também doavam; alimento na boca da cria. Todo o corpo era um tomar voo, e pra pousar quanta precisão e leveza. Era por certo um homem águia, um doce sonho real, a ficção dos olhos dela.

terça-feira, 26 de janeiro de 2016

'Coisinhas'

O amor é feito de coisinhas, instantes que se repetem na teia do dia a dia que provocam encanto. Em absoluto! Não se trata de um diminutivo-coisinhas-, mas de um contínuo improvável; gestos sem utilidade, quase estado de arte, de uma estética indizível. Essas coisinhas são segredos, um código próprio nascido pra encantar.

quarta-feira, 20 de janeiro de 2016

Morrer é preciso

Nunca saberemos quantas vezes teremos que morrer pra desfrutar mais uma vez um amor, uma visão encantadora, uma fresta a deixar passar a luz pela janela, uma conversa de esquecer o entorno; e também, por vezes, morreremos pra morrer de novo nos idos a se repetir até vir uma clareza simples de viver. O que soa banal é apenasmente e grandemente o sopro da sabedoria, não dos livros ou das reflexões complexas; o que soa banal é somente soar, pois em verdade verte silêncio por não se traduzir em palavras, e é toda razão de morrer dia após dia e reviver, como um parto no tempo certo, aquela cabeça a se insinuar pegajosa para o vento do ar, para a claridade temível, para o sentir de solidão só para encontrar.

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Há tanto perigo submerso nas falas e frases repetidas, nos chavões endurecidos. Há tanta liberdade nos ditos de afeto retificados, ratificados, sovados e polvilhados. Há tanta suavidade nessa massa de dizer inesgotável, avessa aos pudores, degustativa, cheirosa e inebriante. Há tantas indeterminações fabulosas, enganos verdadeiros, enquanto absolutos pairam emburrecidos, pousam pesados. Há tanta liberdade negada a propósito de nada sentir.

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Abraço escarlate

Sonhara com uma névoa escarlate, morna a flutuar em seu entorno, corpo. Uma ambiência quase sonora a beirar silêncio, medrosa de importunar o enlace suave, toque de nuvem. A névoa carregava, embalava, faiscava sem incendiar; vela cumprindo pedido. Era como uma oração sinuosa, um rito pagão santificado, exorcismos de sentir; a névoa morna; abraço escarlate.

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Vastidão

Pensara que sofria de vastidoes; enganara-se por certo. Vastidão era o além do além, algo que emergia pra submergir em seguida; não apenasmente seus passos longos de sonho até o infinito. Na vastidão cabia finitude de cada dia, limites adoráveis cobertos de gestos insuspeitos, silêncios e gargalhadas, sustos e encantamento. Vastidão não cabia na palavra, escorria rio e aportava e navegava . Era o bico enviesado da canoa com custo endireitado e depois o sossego do prumo por instantes. Era a voz que guardava o caminho desconhecido, o pai e o filho, a atitude matriarcal de cada dia, os ninhos escondidos, as fugas do olhar, os mergulhos de olhos em ondas de mar e mansidão de lagoa. Vastidão era retidão também; delicadezas em tempo vivido sem pressa, coração em sobressalto e calmaria, medidas sutis inauditas, sentidos de faces raras e tão comuns e tão exóticas. Vastidão é desmedida que não sufoca e desespera, é medida que chega em tempo de acalento.

terça-feira, 20 de outubro de 2015

contradição platônica

De tantos que somos, há alguém que mora na caverna da contradição iluminada, no lugar escuro onde a luz da imaginação aquece os sentidos do saber; aninhar, costurar historinhas singelas, tocar palavras esquecidas e inertes, afetar adormecimentos, cintilar verdes e azuis até avermelhar e aquecer não ditos sentidos, o outro em nós mesmos.

erótica

Se aos humanos fosse dado o poder de ver e sentir todo erotismo da vida; transcendente ao tocar dos corpos e ao vislumbre estético padrão; Se tudo o que fosse visto fosse um enternecer erótico, de singeleza que afronta e provoca; Então a busca do prazer deixaria de ser compulsão; Viraria, o prazer, um contínuo, infinitude de trocar; Nem haveria alheamento e indiferença.

terça-feira, 29 de setembro de 2015

Pra começar

Pra começar é só dizer palavra bem dita; calar as vozes em desacerto com o desejo; desnudar o nu decorativo que embrulha pensamento e desfaz a verdade; Pra começar tem que ser bem dito pra ser ouvido sem ecos duvidosos; há que ser repetido sem enfado, mas por amado dizer, por certo querer dizer; Pra começar é sempre vontade de bem querer no bem dizer; Pra começar bendita seja palavra que sabe plantar o certo incerto de cada dia em acalento; Pra começar é só bem dizer.

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

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Tudo o que se quer da vida são os vazios e dúvidas compartilhados. Pode-se até fingir conclusões, assertivas momentâneas, mas o barato é dissolver conclusões e cair no vácuo, ser sugado pra infinitudes, desabenças, sentimentalidades, presenças parcas de racionalidades, encontros de natureza, sortilégios, privilégios acidentais.

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

Reto toda vida...

Esse jeito de dizer as coisas, esse bem de Minas, rende um tanto de pensamento. É uma forma de dizer pra economizar que acaba beirando infinito. "Olha, você vai reto toda vida", orientou cuidadoso o mineiro ao pedido do que não sabia como chegar. É sempre assim; "vai, vai toda vida, reto, e depois"...O entrave com a realidade é que toda vida é muito tempo. Vai que o desavisado encontra uma reta sem fim e segue? A sorte é que a curva chega; pode demorar mais chega. Mineirices de querer infinito.

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Sorridente

Sonhara com a liberdade; era como estar de olhos fechados em beijo bem dado; o destino desconhecido, o ponto de partida irreconhecível; os afetos levava-os consigo; vez por outra assaltava-lhe imagens de museu em cenário de luxo de outrora, mas do lado de fora eram múltiplos banheiros de faces expostas, e um lamaçal sorridente, tanto que se deitava sobre ele junto com os outros animais, brincava, corria, amava sem pudores, poetava; e nada fazia falta, sobrava.

sexta-feira, 11 de setembro de 2015

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Era de pouca fé, mas carregava toda fé do mundo; insistia na poesia em tudo que a circundava; a despeito das atrocidades se lamentava pela ausência de licença poética; é que alguns não se permitiam ver a poesia explícita ou latente; sim! havia por certo poesia em semente, imaginação adormecida.

quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Se soubesse

Se tudo soubesse dessa matéria do viver; Se custasse uma vida aprender; apreender essa ode; Bastaria todos os lados em definição, finitude; Ah! Nem precisaria de mais saber em dado ponto concluso; Se soubesse gastaria menos peripécias, menos tentativas, menos evasões e encontros em desacerto; E por não saber fica assim emaranhado no caos, sem medida certa que medir, com ímpetos de conseguir ou naufragar; O se soubesse pesa desfeito e termina por fazer a mais elevada reverência que é não saber pra saber mais e aprender essa matéria, ora impulso, ora inércia; ora flor, ora ardor, ora amargura, ora candura; Se soubesse dessa matéria do viver, o que saberia?