quinta-feira, 10 de março de 2011

De tanto querer voar

A mesa era grande, e os bancos paralelos estendidos, de forma a permitir maior proximidade da fala e dos olhares. Esses momentos à mesa, geralmente, davam-se por ocasião do café da manhã daqueles dias chuvosos de um carnaval em que decidimos sair da rotina lá na serra; mas a chuva foi tanta que a diversão foi preterida por longas conversas. Os pousos de fato foram mais comuns que os vôos. Papos largos e nem por isso rasos davam-nos a sensação de nos conhecermos havia tempos, embora somente há pouco tivéssemos nos visto. Os rios da fala escorriam e transbordavam de bocas femininas cheias de histórias, cheias de vida, como o rio e as quedas d’água lá de fora. E foi em um desses dias que dois beija-flores estrearam seu vôo. Pequeninos e delicados em um salto suicida, eles resolveram sair em busca das flores ou qualquer outro néctar que houvesse. Resolveram testar suas asas e deram de cair exatamente na mesa dos quitutes já vazia da comilança que se findava. Após baterem no espelho logo acima da bancada, certamente confundiram-se ao ver sua própria imagem em meio há tantos apetrechos, e os limites acabaram por endurecer aquela primeira queda. Ficaram lá paradinhos sobre a madeira, como mortos, enquanto as vozes femininas se ressentiam do ocorrido. Levantei-me para ver se ainda restava qualquer sopro de beijar a flor, qualquer asa em desalinho na tentativa de alinho. Aproximei-me e toquei um deles, que saiu em polvorosa. Havia simplesmente levado um grande susto, habitara por instantes o entrelugar do início e do fim, e fizera do tombo um novo vôo. Mas o outro não se movia, tinha os olhinhos semicerrados, as asinhas inertes e aquelas cores de nuances laminadas a sair do preto, ir para o musgo, e morrer no azul céu de iniciar a noite ainda vivas; coisa linda de se ver. Aquele corpinho quente em ânsia de voar com o biquinho entreaberto ali na minha mão me deu vontade de chorar, até que alguém falou ‘coloca ele na grama’. Aplaquei um pouco da minha curiosidade de ver de perto, imóvel, o corpo daquela criatura mágica; conformei-me parcialmente com esse velar de susto, rápido como a própria magia de beijar a flor, e o coloquei sobre a grama em um espaço de relativa proteção, para que ele se sentisse arejado e aconchegado. Sua imagem não sai da minha mente desde então. Fico a pensar nos vôos de gente de asas em braços e pernas, e suas máquinas de andar e voar. Fico a pensar na vida que por vezes morre quente de tanto querer voar.

3 comentários:

valeria soares disse...

Moro na Serra. Passei o carnaval com chuva e tenho beija-flores que se confundem com o lustre de minha sala e me fazem visitas inesperadas.

Adoro seus textos!!!!

Nina Blue disse...

Concordo com a Valéria...
Eu também adoro seus textos e me encanto com a simplicidade da Keila de expor com palavras, as delicias da vida.
Sabe Keila, na minha cozinha tem uma mesa assim. Adoro receber os amigos e eles adoram passar horas e horas, conversando e dividindo "causos". Até porque, eu adoro cozinhar para eles.
Beijos!

Márcio Luiz Soares disse...

Keila, parabéns. Você escreve muito bem. Terei que voltar e ler tudo de novo e digerir cada um, devagarinho, refletir e curtir, curtir e curtir. Muito bom. Beijo