segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Povoar é amar

Talvez seja a chuva chorando meu exílio próximo. Talvez um livro sacado da estante da livraria por palavra e coincidências obscuras, inexplicáveis. “Tempo de delicadeza”, de Afonso Romano de Sant’Anna, veio assim para presentear de supetão e caiu-me na mão para falar dela mesma, a delicadeza, antes da sessão d’Os Intocáveis no cinema em companhia de minha mãe e minha prima. Hoje escuto a chuva e rememoro esse tempo de indelicadeza. É, por certo, culpa dela, o desamor. É culpa dela a colonização que dispersa o delicado povoamento, daquele que chega de manso, ‘primeiro nos espaços públicos’, como diz Afonso, para depois povoar a casa e o corpo contido nela, seus estranhamentos e nuances. Fui indelicada em não socorrê-lo diante de tamanha dor de cabeça naqueles idos do início de tudo. Dispersei-me no indelicado modo de negar o ânimo para qualquer momento de conviver. Por ser terra, floresci o que havia em mim de sôfrego e me pus a queixar. Deixei-me colonizar como terra que se descobre sem que as riquezas sejam conhecidas. A indelicada colonização. Tentei colonizá-lo também, em vão, pois você já era o colonizador por já ter colonizado outras terras. Quis também povoar você e não consegui. Irritei-me com a sanha de poder ser algo como encanto para você, enquanto você me colonizava, desatenta e indelicada terra de ninguém. Agora ainda é sua terra; mas hoje há nela ‘veias que se abrem’ a verter um líquido pegajoso e tinto, frações minerais mercuriais que pretendem lavar o ouro, mas só conseguem juntar-se a ele nessa imprecisão. Nem sei mais se há riqueza nessas terras, aluviões?! Apenas penso que fui indelicada, por isso, pouco restou de você em mim; sempre há outras terras a colonizar. Agora povoar carece paciência, quase acanhamento de entrar pelos limites entre a porta e a rua, uma cerimônia só sentida por dentro. Povoamento carece delicadeza. Despi-me inadvertidamente, crendo que colonizar não doía tanto assim, mas restou pouco daquele verde imenso, habitado e lúdico. Nem sei se ainda é deserto, mas talvez um cerrado a caminho da caatinga, com suas tortuosidades, plantas salvadoras de reservas hídricas espaçadas, a florescer com custo. ‘Um deserto vivo?!’ O custo de colonizar, indelicadamente colonizar. Almas são terras vivas de plantar e colher com a cadência de cada tempo, povoar. Povoar é amar.

Um comentário:

Edilson disse...

Você escreve bem!