domingo, 1 de junho de 2008

"E agora José?"

Ele nasceu em um lugarejo chamado Tabocas, distrito de Rio Grande, pertencente ao município de Floriano, Estado do Piauí. “Morávamos em uma casa coberta de capim”, conta José Alves da Silva. Durante a conversa que tivemos, ele permaneceu de olhos baixos quase todo o tempo, como se um filme estivesse passando em sua mente. A voz firme, só algumas vezes saía embargada. Pequenino, mais ou menos 1,65 de altura, 69 anos, cabelos grisalhos, fronte ampla e uma postura de elegância invejável.

O Alves ou Zeca, como sempre foi chamado, diz não ter nenhuma saudade do lugar onde nasceu. “Minha infância foi de muita pobreza, não existia espaço para brincar, havia muita doença e nenhum atendimento médico”. Para Zeca, o que mais marcou sua fase de menino foram as constantes brigas entre seus pais. Permaneceu na roça até os 10 anos de idade, quando foi estudar na cidade de Floriano. Ficou hospedado na casa de um amigo de seu pai. Esse amigo possuía várias propriedades.

A adolescência quase não existiu. Enquanto concluía o curso primário, trabalhava em mais de 30 fazendas, viajando e fiscalizando o trabalho dos vaqueiros até completar os 14 anos de idade. Nesse tempo, voltou para o campo. Chegando lá, a família recebeu a visita de um primo chamado “Odaque”, filho do “Zuca”. O visitante observou que Zeca era um menino muito inteligente e que era um desperdício ele ficar na roça. Então, resolveu levar o menino para Anápolis, no Estado de Goiás, para terminar os estudos.

Em Anápolis, Zeca conseguiu um emprego na loja de “Tecidos Buri S. A.” e fez o Exame de Admissão para ingressar no curso ginasial. Trabalhava durante o dia e estudava à noite. “O sonho de todo estudante em Goiás era estudar em Belo Horizonte”, conta Zeca. O pai de um dos hóspedes da pensão onde Zeca morava, tinha uma casa na rua Iguaçu, no bairro Concórdia, em Belo Horizonte. Em 24 de dezembro de 1954, Zeca chega no aeroporto da Pampulha.

Ficou uns 10 dias no bairro Concórdia e depois foi morar no Edifício “Balança mas não cai”, na rua Tupis, 749, onde moravam vários estudantes do Piauí. “Eu me sentia em casa”. Matriculou-se no Colégio Anchieta para cursar o Científico. Dentro de um mês, o estudante piauiense se empregou na Mesbla S.A., “uma das firmas mais importantes do país”. Começou como vendedor na seção de artigos eletrônicos. Três meses mais tarde, com 20 anos de idade, já era chefe do setor de eletrônicos. Coordenava funcionários de 40 a 50 anos de idade, com anos de serviços prestados à empresa.

“Você, todo de terno branco, aqui nessa loja empoeirada! Você merece coisa melhor,” diziam os companheiros de trabalho da Importadora Mesbla. Ele dizia: “Eu dou todo o meu esforço”. O “Senhor Alves” foi convidado para ser chefe de departamento. Para isso teria que abandonar os estudos, já que iria fazer viagens. Ele aceitou e teve um bom aumento no salário. Nessa época, lembrou-se da família que deixara no nordeste. “Meu irmão Pedro que estava muito bem financeiramente, mandou buscar meus pais e meus outros sete irmãos para morar em Anápolis.” Seis meses depois de morar em Goiás, a família de Zeca voltou para o Piauí. Pedro alegava dificuldade de adaptação dos familiares, uma vez que ele só “freqüentava a alta sociedade.”

“Eu estava morando no Hotel Majestique, rua Espírito Santo com Caetés, quando resolvi trazer minha família para Minas. Aluguei um barracão em Santa Tereza e trouxe meus pais e meus irmãos, todos com menos de 15 anos. Continuei trabalhando na Mesbla e meu pai começou a trabalhar, primeiramente, como feirante." Depois, Zeca alugou um ponto na Rua Amianto com Pouso Alegre, em Santa Tereza, onde montou um bar para o pai. Assim os dois puderam cuidar da família.

Enquanto isso, o irmão de Zeca “quebrou” em Anápolis devido à bebida. Quando chegou a Belo Horizonte, Zeca propôs que ele retornasse e trouxesse um capital para que os dois se estabelecessem no ramo do comércio de cereais na capital Mineira. Passados dois anos, o irmão retornou e eles fundaram a Cerealista Irmãos Alves, na rua dos Guaicurus. A empresa se tornou uma das mais importantes firmas de atacado de cereais do Estado.

"Ganhamos um bom dinheiro, fechamos a cerealista e aplicamos todo o capital em ações. O mercado de ações sucumbiu durante o governo Sarney e nós perdemos todo o recurso financeiro que tínhamos. Pedro precisou voltar ao trabalho e eu hoje sou aposentado e não dependo de ninguém,” conta Zeca. E agora José? Agora José, solteiro, pai de todos seus irmãos, diz que é uma pessoa feliz e de muita coragem. Essa pergunta foi feita a ele em todos os momentos de sua vida e ele não se calou.

Um comentário:

Viviane disse...

Quem diria que BH seria um lugar de esperança pra alguém! Hje procuramos por SP...outros só precisaram da nossa bela e gde Minas Gerais.
Tio Zeca ainda tem muito pra nos contar em dona Keiloca!! bjusssss