terça-feira, 13 de outubro de 2009

Sinos sem dobres

Por sobre a rua estendiam-se as campânulas dos sinos sem dobre. A rua era pequena e as casas vinham uma a uma num ritmo lento até que os olhos se esgueiravam na busca de horizonte maior e ele não vinha. Não se sabe por que as badaladas já há cem anos não soavam mais, senão pela morte do último sineiro, que despencara lá do alto. E assim, todos choravam as mortes e comemoravam os nascimentos da vila ao som da Ave Maria ou do Pai Nosso entoado na próxima missa pelas vozes de ladainha, o que se ouvia até o fim da rua. Dos sobrados os rostos, de face lúgubre e festiva, não ousavam ultrapassar os batentes das janelas. Às vezes interpunham-se somente as pontas dos narizes mais compridos ou mesmo se insinuavam alguns fios de cabelo em dias de ventania. Não se sabe por que, cessadas as badaladas, o povo ganhou conformação intimidada diante de tudo e o movimento ficou também silencioso. Começaram todos a ver de forma descomedida e se assustar ao menor barulho por falta dos dobres dos sinos. E cada vez que alguém se pronunciava em alta voz, os ouvidos pareciam doer, como se estivessem submetidos aos mais elevados dobres, de quem está com as campânulas feito chapéu, por sobre as cabeças. Dizia-se que o coração delas batia em disparada a qualquer som que não fosse das rezas na igreja, e que antes do cessar das badaladas, eram todos mais calmos. Havia alguns que se colocavam de joelhos na escadaria dos sinos e que lacrimejavam na lembrança da magia dos dobres que anunciavam alegria e tristeza, depois alegria de novo, de modo que a cada tristeza seguia-se uma alegria e se a alegria vinha, a tristeza era recebida com resignação de quem já foi agraciado com momentos felizes. Morrer o dobre dos sinos foi como morrer a anunciação da vida e da morte, do destino e do recomeço na vila.

2 comentários:

Viviane disse...

oie passei pra te ler!

maria disse...

Como você pode ser tão quase-perfeita escrevendo sobre qualquer coisa, mulher?!!!!