quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Ruído encantado

Não importava para ela a proximidade máxima naqueles instantes. Valia mais aquela audição de idéias em perfusão, aquelas palavras argumento que vinham em torno da mesa redonda, em meio à pequena sala. Ecoava aquela voz grave no ambiente, e pelos seus ouvidos ávidos entravam dizeres de consentir, dizeres de duvidar, dizeres vários. Vinha por vezes um soluço silencioso no peito, de não compreender exato, tal qual ele dizia, por não haver a comunicação perfeita, um saber a anteceder, e pela falha na interlocução, um som inaudível qualquer, perturbador, dificultava o entendimento, e ele dizia sem pudores, seguro em fortes evidências acadêmicas, sobre essa impossibilidade do diálogo perfeitamente claro, raro, apenas um ideal. Nesses momentos surgia certa angústia e a vontade dela era chegar perto e tocar a boca dele em beijo infinito, fazer laço apertado no corpo dele com o dela, mas sabia que não podia fugir dos ditos a ressoar na mente; então retornava pacientemente à audição, àqueles tons crescentes e decrescentes de voz, àqueles movimentos ascendentes e descendentes dos braços dele a conduzir a palavra em gesto, enquanto os olhos buscavam compreender também a recepção; os olhos dela de acolhimento e de incompreensão. Assim, ele sempre duvidava da compreensão dela, pensava ser tediosa sua fala, extensa, empolgada, como se o mundo dos seus próprios pensamentos girasse em torno dele, como um satélite manco, deficiente em irradiar, senão a ele mesmo, a avançar sobre si de forma inevitável. Mas a angústia de entender era também convergente, dela pra ela. As palavras chegavam solitárias, ansiosas pelo interpretar. Nesse momento eram palavras órfãs à espera de adoção, da emoção e da inquietude de receber, de reconhecer e de estranhar. E o conviver, viver, era reconhecimento e estranhamento por meio da palavra, do movimento calado, gritado. E esse ruído impertinente devia ter mesmo algo de maléfico, mas também de virtuoso, porque permitia enviesar os caminhos e encontrar outras possibilidades; subjetividades, alteridades necessárias. Ele sempre fora para ela essa confusão encantadora, esclarecedora e ruidosa, toque e palavra a se encontrar entre razão e natureza, fronteira.

4 comentários:

Sara_Evil disse...

Yb/Yang Rules!

Lindezas de frases aos olhos!

Sara_Evil disse...

eu e esse teclado não nos entendemos:
é, Yn/Yang Rules!

Nina Blue disse...

'As palavras chegavam solitárias, ansiosas pelo interpretar. Nesse momento"... Eu aqui, sem saber te dizer os meus dizeres.Lindo, Keila!
Ah, e beijos p'cê!

Adriano Ferreira, CM disse...

Alteridades necessárias. Tão necessárias. A gente deixa escapar esses encontros, porque o que está além da nossa fronteira, nos assusta. Precisamos de coragem para saltar os muros, cortar as cercas. Ir. em direção ao outro. para poder crescer.

abraço