sábado, 6 de dezembro de 2008

Comadre

Há ainda hoje quem cultive as comadres...os compadres. Há quem não os chame mais assim; mas eles continuam presentes. Há quem um dia precise de uma ‘comadre’; aquela de acrílico duro, irritantemente arredondada em forma de semi-prancha para abarcar o que durante anos se tentou esconder nos vasos, latrinas, e canos invisíveis por trás das paredes, para depois levar o conteúdo exatamente para esses mesmos lugares esconderijos. Etelvina tinha horror de toda sorte de necessidades fisiológicas e alimentava-se periodicamente de bananas ‘de vez’ pra evitar descargas sólidas em curtos espaços de tempo. Quantos aos líquidos não controlava tanto, porque eram informes e o cheiro nem tão imediato. Até que um dia sofreu um acidente paralisante; teve que suportar o convívio com a comadre, objeto inanimado, obrigado a se animar, e como...

A comadre ficava lá na beira da cama, parcialmente descoberta pelo balde vermelho, onde Margarida, a enfermeira, depositava o que Etelvina tanto rejeitava durante a noite. Encarregada de trazer e levar a comadre, dar aquele banho de desinfetante e ajustá-la no traseiro da convalescente, e ver o nascedouro de todo aquele resíduo alimentar, Margarida não se importava; já estava acostumada. Mas Etelvina se constrangia de tal forma, que não podia evitar o sentimento de decepção de a virem assim, expelindo o que a humanidade durante tantos anos se aperfeiçoou em esconder, como de forma tão adequada Milan Kundera descreveu na ‘Insustentável Leveza do Ser’. Etelvina era leitora ávida de diversas literaturas, e essa em especial a fez pensar sobre o que tanto a afligia. Aliás, a leitura a deixou parcialmente conformada, porque não era somente ela quem tentava esconder até de si mesma o caráter humano perecível, que já dá suas demonstrações durante toda a vida.

Passada a fase crítica de recuperação, Etelvina não precisou mais usar a comadre. Quase se esqueceu dela. Retomou as rotinas higiênicas modelo. Só de vez em quando mirava a comadre bem ao lado da pia, parcialmente aposentada. Contudo, continuou invocada e incomodada com as excrecências humanas, mas agora muito mais com aquelas escondidas não nos canos por trás das paredes e sob o solo, mas percorrendo nervos e mentes.

2 comentários:

Cesar Oliveira disse...

chocante e belo. dalton Trevisan. No melhor estilo.

Bom te rever, reler, revisitar

Hanna disse...

Adorei esta comadre... bonito querida, um dia me convite para te visitar em Varginha... e qdo vieres a Belo este lar é teu tb...


beijos com afeto