sexta-feira, 18 de junho de 2010

Pensava nele

Nessa quase hipotética metade restante da vida, ela queria o Tempo fluido, nada mais. Queria o Tempo repleto, transbordante ainda que em copo vazio, porque sabia que todo continente carregava a sombra do vazio, mesmo aparentemente cheio. E percebia mais, percebia que o vazio era só um ponto cego, inevitável de toda ordem, porque o que se supunha cheio eram certezas de um tempo fragmento, antes do pensar e do pensar viver. E a morte? Incomodava às vezes, mas somente pelo pesar do Tempo corroído, pois preferia o Tempo ‘adorido’ e mesmo dolorido, intenso Tempo. Queria o Tempo lembrado, mesmo que depois não pudesse mais lembrar, por não estar mais; que Tempo que lembrar é Tempo vívido, Tempo em lua cheia, clarão, guardado até na escuridão. Pensava também no Tempo sonho, Tempo da imaginação que não se gasta, Tempo em potência de multiplicar, em que se poderia viver tudo sonhado sem sono, e até os desavisados momentos que nunca na mente consciente insurgiram, pura magia e surpresa. Pensava na altivez e na submissão do Tempo, no cambiante Tempo culpado por tantos, apenas uma informe substância psicológica, previsível e fatal, passional, inocente. Pensava nele, sempre pensava nele, e temia que ao se concentrar tanto nele, ele se descontrolasse mais ainda, enquanto ela se alienava dele por pensamentos. Mas pensava nele; ele era sua paixão irrequieta, imprevisível. E ele vinha sempre ávido por consumi-la, e ela o deixava vir, por vezes, ou o continha, mas nunca sabia exato como recebê-lo. Então, o tempo ficava descontente, veloz nos momentos felizes, lento nos tediosos; teimoso tempo. Se ele ia rápido, ela sofria; se ia lento, sofria também. Todo o movimento do Tempo era tempo de pensar no Tempo. Então ela pensava nele, sempre pensava nele...

3 comentários:

Nina Blue disse...

E você...vai lendo nossos pensamentos...
Beijos,
Maggy

Carlos Eduardo Leal disse...

Ah, o Tempo sempre me pareceu tão egoísta, sempre pensando só nele...
Lindo post.
bj

Maria disse...

O tempo só existe quando pensamos nele. :)