sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Desculpe-me

Não percebe que estou assim, prestes a naufragar. Que envolta tem uma matéria liquefeita que me apavora, que não sei aonde vai dar. Não creio que crê assim, de fato, que tenho uma bússola nas mãos, que sei o caminho, que tenho alguma indicação. Tudo o que vejo é larguidão e sítios desconhecidos. Não insista na minha intuição. Preciso de instrumentos e de um guia até para afundar. Se me larga aqui na imensidão, posso contrariar as leis da física, posso boiar, suspirar e afundar, e nunca mais me encontrar. Posso sumir de mim mesma; e parar em um navio carcomido no fundo do mar, e fazer dele o meu paraíso e meu inferno aquático. Posso acompanhar um cardume, virar comida de peixe grande, ou então, esconder-me num coral multicolorido. Se me guiar, também não prometo nada, não pretendo nada, porque o meu desejo é feito a onda do mar, tem mansidão, tem destruição. Talvez devesse vendar meus olhos, cegar-me pra acender meu olfato, minha audição, meu tato. Quem sabe não encontraria o lugar ou ele viria até mim feito perfume que inebria, som encantado ou superfície delicada. Desculpe-me, são muitas curvas e reentrâncias no caminho; acho que queria mesmo um ninho de limites precisos, perfeitamente adequado para minha imprecisão. Desculpe-me, de verdade.

Um comentário:

Cesar disse...

seja o que for, fez um pedido intenso e verdadeiro