terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Entressonho

Sonhara de novo com ele. Não sabia bem se era ‘entresonho’, aquele no meio do acordar e dormir, no ‘entressono’. A presença veio assim exata, como verdade indiscutível. Entrara no carro abarrotado de coisas, ajeitara-se bem no cantinho que sobrara, enquanto na frente ele ia não se sabe pra onde, mas levando-a como um de seus pertences móveis; travesseiros e inúmeras lonas soltas. Ficara quieta por instantes, até que ele se virou brincalhão e começou a cobri-la com aqueles cacarecos todos. No meio da sufocação, ela o deteve, descobriu o rosto e olhou-o fixamente; ‘vim aqui pra te ver.’ Ele reclinou a face suavemente em busca de suas mãos e ela o acolheu; conteve aquela mandíbula e os maxilares fortes entre dedos e palmas, sentiu os pêlos brotando intrigantes, os olhos negros pequeninos e brilhantes, a fronte ampla úmida de suor. Não esperava aquele gesto de quem declinava sempre. Não conteve o impulso de beijá-lo até a eternidade, mas acordou quase que instintivamente, como uma negação à reação inesperada. O beijo que desejara roubar daquela imagem que nunca alcançara, aquela inclinação doce de quem pede um carinho ficaram no entressono.

Um comentário:

Cesar disse...

deliciado e encantador a margem entre sono/sonho..