Histórias sempre estão na fronteira; por mais que tentemos acomodá-las elas esbarram no real vivido, ouvido, lembrado; elas esbarram no imaginado, sonhado, criado...por isso evocamos os entrelugares, onde cabem o contraditório, o surpreendente e até o esperado...todos eles permissíveis à intromissão do eu e também à sua ausência, mesmo disfarçada.
quarta-feira, 29 de outubro de 2008
'Peruqueiro'
O dinheiro já tinha acabado mesmo. Não tinha nem pro lanche. Nunca tinha sequer paquerado um careca, ainda mais de peruca. Margarida me incentivou; o senhor parecia ter boa situação. Eu poderia enrolá-lo, dar uns beijinhos e passaríamos aqueles últimos dias na praia sem apertos. Como se não bastasse o carro bem interessante, o peruqueiro tinha também um barco bacana, e dentro, um armário com a coleção de perucas. Era obcecado por elas. Mostrava-as como se fossem graciosas meninas de cabelos delicados. Alisava-as com carinho. E eu ali, de mira na cena dos olhos do peruqueiro nos cabelos postiços. Que linda essa, eu dizia, fingidamente. Na verdade, eu tinha horror de perucas, achava o limite que se formava entre a pele e elas indecente, mas o peruqueiro as tinha na cabeça e no coração, quê fazer...Confesso que tive que beijá-lo. A causa era nobre e ele era realmente uma figura distinta se não parecesse realmente patético com a peruca ruiva que usava naquele momento. Não fechei os olhos por garantia. Já pensou eu me envolver no beijo e esquecer que se tratava de um homem de peruca? Fiquei ali de olhos estatelados no beijo, até se fecharem, bem no terço final. Nem sei mais se foi o terço final mesmo; dizem que coisa boa dura o tempo do instante. Foi fato. Hoje, eu mesmo escolho as perucas do Ademar e nem acho o entrelugar da pele e da peruca tão obsceno como antes.
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Um comentário:
Ai que pavor, mulher! Você escreve de um jeito que parece que é a gente que beijou!
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