terça-feira, 17 de março de 2009

"Niilistas Graças a Deus"

Se niilistas estamos é porque cremos sim, mas na conduta humana como a máxima culpa; não a malévola culpa, mas a conseqüência de escolhas e das responsabilidades sobre elas. Esse questionamento sobre o uso das ‘muletas’, quando Deus é invocado como agente fundamental, quase como se fôssemos marionetes, fez do niilismo um movimento quase sempre ligado à concepção divina. Talvez por isso mesmo Friedrich Nietzsche tenha apontado Deus como o responsável por sua própria morte e também da religião, embora essa idéia na época ficasse reduzida a um grupo pequeno de pessoas e que hoje ainda seja invocada com tanta força, porque a ânsia do divino é uma urgência própria do limitado ilimitado humano.

Deus é exatamente essa necessidade de origem, de um pai todo poderoso, da hierarquia consagrada com finalidade de ordenação social, da perpétua luta contra os ‘vícios morais’, das obrigações de condutas pré-estabelecidas, das ‘punições necessárias’ e muito mais, da tentativa de manter o poder institucional e de sairmos parcialmente ilesos das nossas próprias ações, sob pena de expiar eternamente. Mas no mundo ‘real’ nem sempre expiamos o que a sociedade julga como pecado. Porque a noção de pecado é variável e mesmo aquela tida como inquestionável como os crimes terríveis, está sob a mira das regras forjadas na própria sociedade; e Deus entra como ator coadjuvante, mesmo disfarçadamente. Quem decide mesmo é o humano com poderes divinos, inspirados na sabedoria ou na ignorância.

De fato, o Deus, freqüentemente aclamado, é uma das faces da luta pelo controle, pelo poder. Se invocamos o sagrado, de forma alguma devemos ser condenados. É permitido transcender, às vezes, até preciso, dada a nossa fragilidade ou inconseqüência de perceber e de mover. Mas é permitido também buscar provas mais concretas da nossa existência, formular perguntas sem respostas, acreditar na nossa capacidade de reunir argumentos, explicações possíveis, ainda que sempre nos escape um detalhe. O divino, que dizem estar em Deus, é muito mais uma forma de agir com nós mesmos e com os outros, a que devíamos chamar sabedoria. A entidade Deus, por vezes tão necessária, não é senão um jeito de buscar a melhor conduta. Por isso, é lícito invocá-lo, mas não como um mero dispositivo substitutivo para aquilo que não compreendemos. É justo humanizar o divino instituído, tal qual fez José Saramago em ‘O Evangelho Segundo Jesus Cristo’. É lícito também nos fiar em nós mesmos e em tudo aquilo que ilumine a visão.

Um comentário:

Aprendiz disse...

Keila, entrei para deixar um abraço e dizer que seus textos são primorosos.

Fabrício