segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Bichos de asas

Na época dos bichinhos de asas, a lua fica mais bela, pensava Flora. Era nos finais de Agosto, quando sobreviam todos aqueles desastres naturais, as doenças; enfim, tudo o que profetizava o povo da pequenina cidade, onde nascera Flora Maria do Socorro. Nesse tempo andavam todos meio friorentos e meio encalourados, na eminência do fim do tempo frio, do renascer das borboletas e também de toda sorte de insetos, até os mais pegajosos. Mas interessante mesmo eram aqueles de asas transparentes, enlouquecidos pelas luzes da cidadela; os postes ficavam chamuscados de nuvens deles, milhares buscando o calor até as bases das membranas móveis derreterem. Ícaros invertidos e diminutos, nasciam de asas e as perdiam sob as luzes artificiais, já que não alcançavam a lua...Foi olhando para eles na volta para casa que Flora lembrou-se de mais cedo, do panfleto entregue na Rua dos Albuquerques por um garoto até engraçadinho.

Pela segunda vez o papel da Astróloga e Espirituralista chegava às suas mãos. Flora achou, então, que não podia desprezar o fato. O papelzinho tinha remédio para tudo, desde os romanescos até os mais carnais; e também negócios, justiça e saúde. A cura para todos os males ficava em uma rua no centro, bem próximo à igreja, que diga-se de passagem, Flora freqüentava de vez em quando. É bem verdade que Flora não acreditava muito nessas coisas, mas foi tomada por uma curiosidade sem controle. Marcou a consulta.

A vida de Flora até que ia bem. Ganhava seu dinheirinho todo mês. Não era muito vaidosa e nem sonhava em ser. No entanto, adoraria ser admirada por um moçoilo dos idos de sua adolescência. Mauro Cunha morava em uma rua paralela; era o primeiro filho de uma família tradicional. Os pais eram “bem casados”, saíam até para dançar depois de quase quarenta anos juntos. E Flora se mirava neles, neste caso perfeito e no seu possível namoro com Maurinho.

Colocou óculos escuros e saiu convicta de que ninguém se preocuparia com sua vida. Adotou o movimento sempre para frente e sem olhar para os lados aportou no templo da Astróloga e Espiritualista sem nome. Foi à noite, como prevenção, estrumbicando-se pelo caminho com sua parca visão, enquanto a cidade dormia. Só os bichinhos de asas a acompanharam, poste a poste, sem tréguas. Logo na entrada havia uma placa: Entre e saberá tudo sobre você e serás dono de todas as suas vontades. A frase se iniciava com o desenho de uma meia lua em torno de uma estrela e findava com o sol.

Aberto o portão seguiu-se um corredor mal iluminado e ao fundo a esperava uma dona gordinha, de sorriso largo. A senhorinha convidou Flora a entrar, solicitou o pagamento e convidou-a e sentar-se no sofá da sala, alugada especialmente para as consultas. A Espiritualista foi logo perguntando: - A que vem...uma moça tão bonita, parecendo gozar de boa saúde e tranqüilidade? - Quero dar um colorido à vida. - E como pretende fazer isso? Especulava Flora sem manipular nenhum apetrecho. Cobria-lhe o corpo um vestido comum de chita e uns cabelos lisos, médios, prateados pelo tempo.

De repente, os olhos da deusa mortal ganharam novas feições...a voz já aguda, ganhou tonalidades de maritacas em bando. Mas permaneceu com o quadril grudado ao assento. Flora que não havia respondido à última pergunta arregalou os olhos e se pôs a levantar, já arrependida da empreitada. A “macumbeira” levantou-se mal se equilibrando sobre as pernas, agarrou-lhe o braço fincando-lhe as unhas e gralhou: - e então, como pretende colorir a vida mocinha? - Bem...eu...eu....eu....gostei do Maurinho um dia....esses dias tenho me lembrado dele....- E este tal Maurinho, sabe da sua existência e bem querença? - Sim, contei a ele certa vez, mas acho que já se esqueceu...- Lembre-o ou finja que não o conhece e tente de novo contar...ou não conte...disfarce um encontro fortuito....ou quem sabe...agarre-o sem pudores no meio da rua...mande uma poesia sem nome...duas...três...quatro...até que um dia.... - Até que um dia....? continuou Flora. - Até que um dia ele pode se lembrar ou não esquecer ou te esquecer de vez...Dizia isso com os olhos injetados quase cuspindo na cara de Flora....até que amoleceu o corpo, sentou-se e retirou de dentro de uma caixinha, que estava sobre a mesa de centro, uma pedra branca para qual olhou fixamente: - Algo me diz que ele poderá te amar...Flora, que já estava de pé, agradeceu a “profecia” e saiu meio às pressas...O custo não tinha sido tão alto...mas se alguém a visse....que vergonha...e por nada...

Flora chegou em casa sem fazer barulho; não falou nada com ninguém. Antes olhou pela janela que dava exatamente para um poste. Lá estavam os insetos, aos milhares, quase se desfazendo ao sabor da luz, caindo aos montes...e a lua lá no alto, amarelada e imponente...Na casa dos Cunha tinha uma luz também, logo na entrada, e que devia estar cheia desses bichinhos de asas...pensou Flora. No dia seguinte acordou, tomou seu café, banho, saiu, atravessou a rua e chegou junto ao poste. A luz estava apagada e embaixo dela,no chão, várias transparências sob o sol se refratavam em várias cores...De noite haveriam mais daqueles bichos e no outro dia pela manhã vários resquícios de asas coloridas iriam se amontoar durante todos os meses de Agosto.

Um comentário:

Viviane disse...

Sempre gostei desse!!