segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Crônica Ilha III: No vai e vem do barquinho

A profecia que diz que o homem veio da terra e ao pó voltará não condiz propriamente com o passeio de barco que fiz em Ilha Grande. Se somos realmente feitos de terra, naquele dia criamos guelrras, nadadeiras, fomos mutantes, peixes do mar. Era uma embarcação pequena, de casco verde; uma tartaruga marinha que cedeu gentilmente suas costas largas para cerca de quarenta pessoas de vários tipos; de dois grupos distintos, mas que não ousaram se estranhar em alto mar. Só o motor do barco carecia de uma manutenção periódica, a que o comandante, de abdômen protuberante e bom papo, chamava ‘limpeza’. Abria aquele buraco fervente, bem no meio do barco, para acariciar aquelas peças estranhas de tempos em tempos. De início todos ficaram desconfiados sobre nossa permanência sobre a água, até que entenderam que ali estava o velho coração do barco, engenhoso e delicado. O simpático barrigudo também era responsável por temperar e grelhar os peixes, nosso combustível naquela viagem. O alimento era cuidadosamente estripado e envolto em ervas, não sei quais, mas que imagino tinham a essência da alegria.

Quem girava o leme do gentil barquinho era um marinheiro tatuado, pele tostada a sol e sal, e cabelos compridos, cuidadosamente presos e envoltos em um boné cor cinza, um dos matizes do mar ao entardecer. Ele dizia: “não sei o que aconteceu a noite passada...não consegui dormir.” Mas seguiu com o barco controlado, salvo em poucos momentos, quando todos se aglomeravam como cardume num dos lados da embarcação que ficava prestes a virar. A navegação se complicava também quando passavam por perto os barcos de motores mimados, e que jogavam as ondas em cima de nós. E aquele balançar, antes de provocar medo, era um arremedo de rede, um vai e vem que fazia a gente pensar: balança mais e mais, até que eu adormeça. E esses barcos de motores mais pragmáticos levavam poucas pessoas e elas não iam tão alegres; iam ao sabor da velocidade ou sob o sol, num distanciar sem fim até delas mesmas.

Nesse barco em que estávamos todo mundo se chegava, uns mais, outros menos, uns com o corpo, outros com o olhar. Não era uma festa dionisíaca e Baco a teria achado até ingênua. Mas havia uma mistura que inebriava: mar, música, gente, peixe com ervas e alguns etílicos não destilados ao gelo. Havia dançarinos, cantadores e tocadores; estes de vários instrumentos: corda, sopro e batuque. Um deles cantou mais, tocou mais; tinha cabelos de caracol, corpo moreno esguio de menino e um sorriso largo e alvo. Cada corda do violão que ele tocava fazia soar uma segunda nota de um outro instrumento que ninguém via, mas sentia. O espírito era sempre o da orquestra e assim todos se metiam na música do outro sem pudores; até o silêncio se intrometia. Foram quase nove horas assim; ouvindo música, mergulhando em lagoas azuis e verdes, embrenhando-se em tocas acaiá, arrastando-se como peixes lagartos e comendo peixes menores, desfiados em dedos nadadeiras apressados, e suavemente degustados, dissolvidos nas papilas da língua até irem morar dentro de nós. Nunca estive bem certa sobre a origem e o destino de nós “humanos”, mas depois do passeio de barco na ilha fui peixe por instantes e todas as pessoas que ali estavam me pareceram peixes formando cardumes coloridos. Eram os momentos finais do ano de 2007.

Um comentário:

Viviane disse...

Não me senti peixe desse cardume... ai como eu queria!!! Só percebi isso após este texto... e as fotos.
Mas, fui uma expectadora do belo aquário natural. Sentia angústia, medo e prazer... em estar naquela pequena embarcação! Sentimentos tão contraditórios. Mas, a música aliviou o medo e a beleza da natureza o sentimento de solitária expectadora.
Você é ótima amiga!!!
bjus