quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

Branca

Lá em casa sempre tivemos um amor desenfreado por gatos, não aqueles selvagens, mas os domésticos, que roçam em nossas pernas, de olhares “pidões” e impulsos incontroláveis. Branca entrou em nossas vidas de um jeito meio forçado. Tinha um olho castanho e outro azul, única assimetria bem evidente, que nos provocou encanto e dúvidas ao mesmo tempo. A felina era teimosa, entrava no corredor do quintal e batia o pé para não ir embora. Certa vez mamãe levou até arranhão no tornozelo. Ficaram de mal. Isso foi na época em que nossas gatas já bem velhinhas ainda circulavam por lá. Nenhuma delas simpatizava com Branca; o confronto e a derrota para as mais velhas eram certos. Por isso, mamãe procurava evitar a alva presença.

Tempos depois, a insistente Branca se tornou uma espécie de freqüentadora assídua lá de casa. Passeava pelos quartos, pela cozinha e pela sala a nossa procura e não perdia a chance de se aninhar no colo da mamãe. Só se ausentava no horário do almoço, um dos poucos momentos em que retornava ao seu local de origem, a casa ao lado. Mamãe falava que não ia assumir a tal responsabilidade de alimentá-la, mas comprava queijinhos, carninhas e outras guloseimas para ela.

No início da amizade achamos que Branca era surda muda, porque seu miado era quase inaudível. Depois descobrimos que os ouvidos funcionavam muito bem e que além de tudo ela era boa caçadora e covarde: as penas de pardal recém-nascido inundavam nossa varanda. Às vezes degustava a tenra carne da pequena ave, outras a jogava para o ar, para cima e para os lados sem nenhuma compaixão, para depois desprezá-la no final com ar de enjôo. Com as bolinhas de papel laminado e os pauzinhos de churrasco, cuidadosamente preparados por mamãe e tio Zeca, era a mesma coisa; fazia malabarismos de toda sorte e se entediava com aquele ar de não te quero mais. Curioso é que nunca a recriminamos por isso tudo. Dizíamos só assim: “ela não está mais afim” ou, “é a natureza dela.” Um dia tio Zeca a acusou de ser assassina, no seguinte fez bolinha de papel para ela.

2 comentários:

Anônimo disse...

Ei Keila! parabéns pelo Blog! E sobre a Branca... acho que é um pouco das duas coisas...uma pitada de maldade com um pouco de natureza. Ou talvez a própria natureza seja um pouco má... Ou, com disse, um pouco das duas coisas! Bjos e saudades! Bethania

Fabrício disse...

Oi Keila, tudo bem? agora suas histórias não vão ficar mais perdidas aqui ali...mas se derepente precisar de alguma que esteja perdida por ai me fale, desde que você começou a me envia-las tenho todas arquivadas.
Quanto a "Branca" poderia pedir seu Tio para passar uns dias no hotel que trabalho...temos tanto gatos lá e acho que ele poderia nos ajudar....rsss
Bjs.
Fabrício