quarta-feira, 24 de setembro de 2008

O calango

Nunca pensei que mamãe fosse se interessar por um calango. Sempre teve aversão por seres rasteiros; as minhocas então!Dizia que, nos tempos de infância, botara muitas lombrigas por culpa de elixires desumanos; ficara traumatizada. Mas tomou amores pelo bicho estranho, nem um pouco comunicativo. O motivo do seu afeto parece ter nascido no quintal lá de casa; nunca se soube ao certo. Mamãe se encantava com ele, com sua pele rajada e suas mãos pequeninas e ágeis. Seus olhos meio ofídicos nunca sugeriram a traição, o bote. Tornou-se resoluta em alimentá-lo e até acariciá-lo. Com o passar dos dias, a sedução parecia mais impossível. O calango tentava quase diariamente a travessia para fora de casa; até que um dia conseguiu ganhar a frente da casa. Passou dias ‘enfeitando’ o jardim, ganhava pão, carne fresca e elogios. De vez em quanto subia na árvore do passeio em busca do manjar de formigas, e voltava. Depois ganhou a rua de vez. Tem dia que aparece calango grande lá em casa. Mamãe jura que é ele; diz que ele está muito bonito, bem nutrido, encantador.

Um comentário:

Viviane disse...

Mas ele não havia morrido?